Para debatedores, triunfo do golpe escancara derrota na disputa midiática

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Por Felipe Bianchi

O processo de regressão social e restrição democrática imposta pelo governo que assumiu o país após o impeachment de Dilma Rousseff deixa uma lição clara: fazer comunicação e disputa de ideias nas administrações públicas é imprescindível para sustentar projetos políticos. Essa foi a reflexão que deu o tom em debate realizado neste sábado (26), durante seminário realizado pelo Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, em São Luís-MA.

Foto: Karlos GeromyFoto: Karlos Geromy

Dedicado a discutir os erros, acertos e desafios da comunicação nas administrações públicas, o evento contou com a presença de Franklin Martins. Para o ex-ministro da Secretaria de Comunicação Social da Presidência durante o governo Lula, o evento marca superação de uma fase de discutir baseado em slogans para discutir problemas concretos. Um avanço do movimento pela democratização da comunicação, em sua avaliação.

Sobre a sua passagem pela Secom, Martins afirma que não existe receita de bolo para comunicação em qualquer governo. Apesar disso, o jornalista pontua: “É na política que você vai perder ou ganhar. Tem gente que faz a disputa, do nosso lado, que ganha a eleição e baixa a bola. Como se a disputa política fosse compreensiva na eleição, mas depois os oponentes descessem do palanque. Uma vez que se abaixa a guarda, o outro lado, com seu aparelho midiático e de Estado, impõe a agenda dele”.

“Falei ao Lula, antes de aceitar o convite para ministro, que teríamos problema se não enfrentássemos o debate de ideias”, relata. “Todo dia, Lula perdia de 5x0 da imprensa, porque a bola era deles, o juiz era deles, o estádio era deles. Falei pra ele que, se ele combatesse, poderia perder, pelo menos, por um placar menor. Passou a falar todo dia pra imprensa”.

Quanto à partidarização e o enviesamento da mídia privada, Martins alerta: quem tem projetos de inclusão e justiça social tem que estar preparado para enfrentar o massacre midiático. “Temos uma ilusão de que a verdade prevalecerá, com ou sem luta política. Essa ideia é um desastre, pois não prevalecerá. A verdade só prevalece se for exposta em cada ambiente político, em cada disputa, em cada momento, até vencer”.

Na visão do ex-ministro, a batalha não pode terminar na eleição. “O essencial é que o partido, a coligação, o presidente, precisam entender que não haverá boa vontade por parte dos inimigos”, opina. “Na conjuntura atual, quem está ao lado do povo é inimigo a ser destruído. Precisamos disputar o povo, conscientizar o povo, e isso não pode ser só no período eleitoral. No período eleitoral, a disputa é de alta intensidade. Mas não pode morrer nos quatro anos seguintes”.

Presidente do Centro de Estudos Barão de Itararé, Altamiro Borges considera que o triunfo do golpe é uma radiografia da incompreensão da esquerda quanto à importância da disputa midiática. “O golpe ganha contornos dramáticos. É um processo de desmanche, de regressão civilizatória. Destruição completa do pouco que se conquistou, descreve. “A derrota política foi dura, mas temos que atentar para a derrota na batalha de ideias na sociedade. Eles jogaram no ataque o tempo todo, e venceram. Essa derrota na disputa por hegemonia, uma componente fundamental é a comunicação.

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No segundo mandato de Lula, houve avanços importantes, opina o blogueiro. Mas nos dois mandatos de Dilma, foram só retrocessos. Apesar disso, não aprendemos com essa derrota, avalia. “Fomos pesquisar as várias prefeituras do campo progressista na preparação deste seminário. É frustrante. Páginas desatualizadas, serviços invisíveis, e-mail que não funciona, telefone que não atende”, conta.

A impressão que dá, na opinião de Borges, é que, no geral, as secretarias de comunicação continuam com o modelo tradicional: mexer com publicidade já consolidada com os grandes grupos de comunicação e fazer assessoria de imprensa – “às vezes bem mequetrefe”.

Por outro lado, o jornalista destaca casos que podem servir de referência para as administrações públicas. “Claro que há belíssimas experiências. Uma das principais é a Secretaria de Comunicação da Bahia. No Maranhão, começa a se desenhar uma experiência interessante. Maricá é outro caso: forjando grande vitória em um cenário de total dificuldade”, enumera.

“Se disputar hegemonia é essencial na disputa política, temos que debater mais a comunicação. Se cada prefeitura, cada governo promover debate sobre o tema, já ajuda a entendê-lo muito melhor”, receita o blogueiro. “Tem que tratar politicamente esse tema, desenvolver mecanismos para envolver a sociedade, como os Conselhos de Comunicação. Precisamos repensar tudo isso e essa é a proposta deste seminário: suscitar essas reflexão”.

Por fim, o presidente do Barão de Itararé apontou caminhos para promover a multiplicidade de opiniões e ideias na mídia em uma conjuntura desfavorável. “É preciso e há como estimular pluralidade e diversidade, com leis ou sem. Publicidade é imposto, direto e indireto. Então não aceito a ideia de que esse dinheiro fortaleça monopólios. Não pode ir só pros gigantes privados. A publicidade é uma questão decisiva para fortalecer a diversidade e pluralidade midiática”.

Maranhão, Maricá, Bahia: experiências positivas na comunicação

Representantes de dois dos três casos citados por Altamiro Borges relataram as suas experiências no debate. Sandra Recalde, da Comunicação da Prefeitura de Maricá, e Robinson Almeida, Secretário de Comunicação da Bahia por quase oito anos. Eles falaram sobre as especificidades de cada caso, mas destacaram um elemento em comum: sem compreender a importância estratégica da comunicação, não há como reverter o quadro.

Recalde fez uma ampla explanação de como funciona a comunicação na administração de Maricá. Chama a atenção o grande investimento em uma equipe de comunicação integrada e dedicada, deixando claro que, para a prefeitura, comunicação não é gasto, mas investimento.

“Quando assumimos, existiam três equipes fragmentadas. Nosso primeiro desafio foi integrar os trabalhos”, recorda. “Quem faz a estratégia de comunicação não é o pessoal da publicidade. A publicidade é só um recurso para o pessoal de comunicação. São empresas que estão à disposição de nossa estratégia”.

Segundo ela, é preciso ocupar todos os espaços possíveis. “Entramos nos territórios para conquistá-los: grupos de redes sociais, por exemplo”. Quanto à publicidade oficial, Recalde conta que a gestão trabalha com todos os jornais da cidade. “Temos uma relação clara com eles: somos clientes, não interferiremos na sua linha editorial e não pediremos nada, mas anunciarei com vocês e teremos a mesma postura que teríamos com um supermercado; se comprar um iogurte vencido, vou denunciar e, se você fizer uma denúncia contra nós, terá de ouvir nossa versão. Se a ética de vocês é comercial, então cobraremos na mesma lógica”.

Engenheiro de formação Robinson Almeida conta que recebeu a missão de construir a Secretaria de Comunicação de Jacques Wagner pois o governador não queria alguém com domínio técnico, mas que tivesse um entendimento profundo da construção política do governo.

“A Bahia é do tamanho da França e precisávamos saber os hábitos de mídia da população”, diz. “Não existe uma única comunicação no estado. Fizemos um amplo diagnóstico sobre consumo de mídia. A partir disso, fizemos uma Conferência Regional de Comunicação, em 2008. Se tem Conferência para Saúde, para Educação, por que não para a Comunicação?”, questiona.

A estrutura do aparelho de Estado foi montada para servir às classes dominantes e reproduz a lógica da dominação. Uma vez lá dentro, o esforço é para inverter essa lógica, pontua Almeida. “O primeiro pressuposto que temos é a comunicação como serviço, de interesse público. O segundo é o da comunicação como direito, que empodere os setores excluídos dos meios de comunicação dominantes. O terceiro pressuposto é o do poder: a comunicação é quem sustenta o projeto político”, lista. “Se você não se comunica, é atropelado e não faz a disputa política”.

Quanto à questão da publicidade, Almeida tem a seguinte opinião: “Numa Secretaria, você tem que entender que você opera com o sistema tradicional de radiodifusão e você tem que usar as rádios e TVs, que são concessões públicas. A forma talvez mais expressa de patrimonialismo nesse país é o entendimento das concessões públicas de rádio e TV como propriedades privadas”.

Se os meios são comerciais, opina Almeida, você vira um grande cliente e ele terá que sentar na mesa com você. “Isso te dá força, empoderamento, que dá força para lutar pela causa pública. Por isso, acredito que a aplicação das verbas publicitárias precisam atender a critérios técnicos, mas também a critérios políticos e institucionais”.

“Erramos ao não alterar a lógica de concentração econômica dos meios, de não encaminhar os resultados da Conferência Nacional de Comunicação de 2009, de não abraçar os meios alternativos”, reflete. “Temos que fazer a autocrítica para continuarmos o enfrentamento à elite”.

Debatedores refletem sobre avanços e retrocessos na comunicação pública e comunitária

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 Por Felipe Bianchi

Fotos por Karlos Geromy

Os avanços, retrocessos e desafios da comunicação pública e da radiodifusão comunitária no Brasil foram discutidos neste sábado (26), em São Luís, no Maranhão. A atividade, parte de seminário sobre comunicação nas administrações públicas organizados pelo Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, refletiu sobre o estado de aniquilação da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) e a histórica criminalização dos veículos comunitários.

Boas ou nem tanto, Internet traz novidades à comunicação em administrações públicas

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Por Felipe Bianchi

Tema mandatório para debater a comunicação em governos, a força da Internet foi pauta de seminário realizado pelo Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé sobre os desafios da comunicação nas administrações públicas. O debate, que ocorreu na manhã do sábado (26), em São Luís-MA, reuniu jornalistas e especialistas para esmiuçar o assunto.

Foto: Handson ChagasFoto: Handson Chagas

A mesa contou com Renata Mielli, coordenadora do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC); Renato Rovai, editor da Revista Fórum; Juan Pessoa, especialista em redes sociais; e Leandro Fortes, diretor da agência de comunicação CobraCriada.

De acordo com a exposição dos debatedores, o tema da Internet pode ser abordado por diversas perspectivas. Enquanto Leandro Fortes ressaltou o fim da intermediação entre a informação e a população feita por atores tradicionais, Renata Mielli lembrou que o Facebook coloca em cena outro tipo de intermediação: os algoritmos.

“Quando era jovem, na Bahia, tinha de fazer uma matéria sobre Juscelino Kubitschek. Não sabia escrever o nome dele e, com medo de errar, fui à biblioteca da cidade pra apurar o nome dele. Perdi 40 minutos, pelo menos, pra conferir a grafia correta. Era um processo complexo de trabalho e apuração. Hoje, repórter ir pra rua parece loucura”, compara Fortes.

Segundo o repórter, a Internet é uma força motriz que reorganiza a forma de fazer comunicação e de viver. “Confortável ou não, temos de nos adaptar”, postula. “A questão é que, para o usuário, há uma mudança importante: o fim do intermediário entre ele e a informação. O trabalho básico do jornalista, em última instância, é dar às pessoas a capacidade de compreender o mundo através da sua visão. Agora, essa relação mudou”.

Para a administração pública, na avaliação de Fortes, o novo cenário traz novidades bastante interessantes. “Se o governador fala alguma coisa em seu Twitter, a mídia tem que pescar a informação no ambiente do governador, o que dificulta a mentira e desinformação, ainda que existam”.

Na avaliação de Renato Rovai, a transição da sociedade industrial para a sociedade informacional tem colocado novos desafios para a comunicação sobre os quais é tarefa urgente nos debruçarmos. “A diferença de convidar amigos pra uma festa de aniversário usando fichas em orelhão e divulgando nas redes sociais incide, também, nas formas de organização dos movimentos sociais, por exemplo. Pensar comunicação tem que ser de forma conectada com esses novos modos de vida”, ressalta. “O João Dória Jr, em São Paulo, parece ter entendido isso de forma muito mais incisiva do que os governos progressistas”.

As políticas de comunicação, dentro de todos os órgãos e secretárias, têm de ser estratégicas para o governo, segundo Rovai. “Comunicação do governo não pode ser divulgação de feitos e defesa do mandato”, alerta, argumentando que “fazer comunicação em tempos como o que vivemos é investir no aprofundamento do processo democrático e de intervenção popular”.

Tomando como exemplo as praças digitais instaladas em São Paulo durante a gestão de Fernando Haddad (PT), que levou WiFi gratuito para mais de 120 praças da capital do estado, e os esforços de Flávio Dino (PCdoB) para fomentar meios alternativos a partir da publicidade oficial no Maranhão, Rovai questiona: “O que fazer com o dinheiro da publicidade para que não seja apenas sustentáculos do poder econômico e midiático locais, coordenados por gente antagônica a tudo que defendemos? Não devia nos interessar, ao chegarmos ao governo, ser a mão que alimenta o inimigo. É isso que temos feito, infelizmente”.

Mapear e pesquisar as redes é um dos expedientes para que as administrações públicas entendam e se comuniquem melhor. A colocação é de Juan Pessoa, que trabalhou com nomes como Dilma Roussef e Ollanta Humala, no Peru. “Temos que trabalhar com o engajamento orgânico. Técnicas de comunicação não se sobrepõem à política, mas é fator determinante”, salienta. “Como ocupamos espaços e territórios, ativando redes? É o desafio colocado”.

Se a mídia privada trata informação como mercadoria, é dever dos governos inverter esse prisma para pensar a comunicação. As mídias tradicionais, de acordo com ele, vêm colonizando, também, muitos dos novos espaços. O debate colocado é justamente esse, conforme pontua: como disputar narrativas em meio ao turbilhão de informações.

Internet para todos (?)

Problematizando as alvissareiras novidades digitais, Renata Mielli lembrou da submissão do país aos ditames do mercado quando se trata de políticas de acesso à Internet. “A questão do acesso é um gargalo estrutural. Temos 60 milhões de domicílios no Brasil e 34 milhões estão conectados. Ou seja, 50% dos domicílios do país. No Maranhão, 40% dos domicílios têm algum tipo de acesso à Internet – 60% não tem”, diz. “A esmagadora maioria desses números têm acesso apenas a partir do aparelho celular, e não Internet fixa, o que configura um acesso precário”.

Foto: Handson ChagasFoto: Handson Chagas

 

Mielli critica os rumos que o Brasil têm escolhido para lidar com o assunto. A ideia, segundo ela, é institucionalizar e aprofundar a política de franquia de dados, empregadas pelas empresas de telecomunicações para aparelhos celular, também no serviço de Internet fixa. “Se acabar os dados na Internet fixa da sua casa, acabou. Hoje, você contrata a velocidade, navegando ilimitadamente. Este modelo está sob ameaça”.

Defender que a Internet seja reconhecida como um direito e um serviço essencial, conforme argumenta a jornalista, significa que, como define a Constituição, esse serviço precisa ser prestado em regime público, de forma a garantir modicidade tarifária e universalização. “Mas pelas leis brasileiras”, sublinha, “a Internet não é um serviço essencial, seguindo apenas as regras do mercado”.

Em meio a esse cenário, é dever do poder público agir de forma a induzir, econômica e socialmente, o desenvolvimento da Internet e das tecnologias da informação. “É o Estado que tem que fazer um contrapeso para que esse quadro não se torne prejudicial à sociedade”, opina. “Até porque as divisões sociais tendem a serem intensificadas com os rumos que as corporações da Internet têm tomado”.

Como exemplo, Mielli cita o caso do Facebook, que já contabiliza mais de 2 bilhões de usuários. “O Facebook está murando e fagocitando a Internet”, alerta, “o que vai matar justamente uma de suas principais características, que é a possibilidade de se comunicar de forma descentralizada”. Liberdade para criar start-ups e aplicativos que melhorem a qualidade de vida das pessoas e o grau de participação política não está nos planos da corporação, aponta.

Com Haddad e Flávio Dino, Seminário discute a comunicação nos governos

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Foto: Gilson TeixeiraFoto: Gilson Teixeira

Por Felipe Bianchi

A necessidade de as administrações públicas enfrentarem a batalha midiática foi a tônica da abertura do Seminário Os desafios da comunicação nas administrações públicas, na noite desta sexta-feira (25), em São Luís, no Maranhão. O debate, organizado pelo Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, reuniu líderes e ex-líderes de governos do Maranhão, Amapá, Pará e São Paulo para abrirem os trabalhos.

Jandira Feghali: Ajudar o Barão é lutar pela democratização da comunicação

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A deputada federal Jandira Feghali publicou, nesta terça-feira (22), vídeo sobre a campanha #SejaAmigoDoBarão, em apoio ao Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé. Na gravação, ela destaca a atuação da entidade na luta pela democratização da comunicação.

"Muita gente já ouviu falar que informaçao é poder. Informação tem que ser plural, pois se não temos diversidade de opiniões, não formamos a nossa. Não democratizar a comunicação é não ter democracia. Democracia depende, em última instância, da democratização da comunicação", diz.

"Mídia alternativa, midiativismo, midialivrismo está revolucionando a forma de pensar, de informar e de comunicar, possibilitando que você forme sua a opinião", complementa Jandira. "Existem alguns centros formadores que precisam da sua ajuda, pois sem a sua ajuda, eles deixam de existir. Por isso, o Barão de Itararé pede a sua ajuda para que continue a apoiar os fóruns de democratização da comunicação, ampliar a pluralidade da informação, formar opinião. Por isso, estou aqui pedindo a sua ajuda para o Barão".

Assista na íntegra e saiba como ajudar aqui: