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Ativismo digital alavanca resistência ao golpe

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Por Marina Schneider, do Núcleo Piratininga de Comunicação

O ativismo digital na resistência ao golpe que retirou Dilma Rousseff da presidência do país foi tema de um dos debates ocorridos na tarde do dia 17 de novembro, no 22º Curso Anual de Comunicação do NPC. Participaram da mesa as jornalistas Renata Mielli e Camila Marins. O papel do poder econômico na utilização das redes sociais e a forma como essas ferramentas são apropriadas pela esquerda foram alguns dos temas discutidos pelas palestrantes.

Para a coordenadora do Fórum Nacional Pela Democratização da Comunicação (FNDC) e secretária geral do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, Renata Mielli, o poder econômico aliado à polarização política e ao discurso do ódio disseminado pelos grandes meios de comunicação formaram uma panela de pressão explosiva no contexto do golpe. Segundo ela, os grandes meios de comunicação já vinham cumprindo o papel de oposição ao governo Dilma e de sustentação da narrativa do golpe, o que se reproduziu na internet já que a mídia hegemônica é também hegemônica na rede. “A direita decodificou tudo isso e levou para as redes sociais. Nas redes fizeram o trabalho rasteiro, sem conteúdo, de disseminação do discurso do ódio”, observou.

Renata alertou, também, para o papel fundamental do poder econômico na utilização do Facebook – que hoje tem 99 milhões de usuários ativos no Brasil – e, desde 2013, aceita pagamento como forma de promover postagens (postagens patrocinadas). Isso dá uma enorme vantagem àqueles que possuem recursos financeiros para aumentar o alcance de suas publicações. Para a jornalista, a internet é um elemento muito importante, mas não isolado na disputa política. “As tecnologias são ambivalentes e não têm valor em si, mas são espaços de poder político. Quem tem condição de fazer melhor a disputa nas redes é quem tem mais poder econômico. Isso não pode ser desprezado”, sugeriu.

Facebook como ameaça à liberdade de expressão

Os algoritmos que estão por trás da ferramenta e que impõem, sem controle do usuário, um filtro sobre as publicações a que cada um tem acesso, somados à possibilidade de postagens patrocinadas, fazem com que o Facebook seja a rede que mais ameaça a liberdade de expressão no mundo, na opinião de Renata. “Hoje o Facebook se constitui efetivamente no maior monopólio privado de comunicação do mundo”, afirmou, lembrando que a rede social possui, no total, 1,65 bilhões de usuários.

Pensando no contexto mais geral, Renata Mielli vê hoje uma escalada de violações à liberdade de expressão no Brasil. “A direita está calando a dissonância, além de usar o poder econômico para disseminar as suas ideias”, resumiu. Ela exibiu o vídeo da campanha Calar Jamais, do FNDC em parceria com diversas entidades, e que está recebendo denúncias de violações à liberdade de expressão que ocorram em todo o país para dar maior visibilidade ao problema.

Nas redes e nas ruas

Concordando com o peso do poder econômico no uso da internet e com as limitações do uso do Facebook, a jornalista da Federação Interestadual de Sindicato de Engenheiros (Fisenge), Camila Marins, pautou sua apresentação na necessidade de se fazer uma análise crítica sobre a forma como a esquerda se apropria das redes sociais. “Fazer a crítica não significa negar, mas saber como atuar em um ambiente que é hostil à gente. Temos que burlar a lógica, as bolhas, descobrir como funcionam os algoritmos… Não existe um mundo virtual, existe um mundo real na internet. Temos que estar nas redes e nas ruas”, opinou.

A jornalista, que é também apoiadora do PreparaNem, um curso pré-vestibular que se transformou em rede de apoio a pessoas trans, travestis e/ ou em situação de vulnerabilidade social e preconceito de gênero, chamou a atenção para o fato de o golpe ter sido machista e misógino e sinalizou que o discurso de ódio muitas vezes é espalhado nas redes sociais dentro da própria esquerda. “Estamos nos fraturando nas redes sociais pela falta de capacidade de diálogo, de olho no olho. Os escrachos são legítimos como forma de denúncia, mas não acho que seja legítimo quando a gente impõe o escracho como justiçamento”, avaliou. Segundo Camila, quando isso acontece se estabelece uma hierarquia e, de forma autoritária, achamos que nossa opinião é a legítima e a do outro não. “Com isso acabamos entrando em uma posição de justiceiros ao invés de restabelecer nossos laços de solidariedade e generosidade. Acho importante trazermos isso tanto para a nossa prática política quanto para as redes”, avaliou.

Para a ativista, a rede social funciona como uma espécie de agenciamento coletivo e serve para dar uma sensação de pertencimento, mas não é uma forma eficiente de organização. “Não basta convocar pelas redes sociais se nós não estamos fazendo isso na nossa prática política do dia a dia. Se não estamos nos organizando nas ruas, nas escolas, no nosso condomínio, na universidade, no local de trabalho… Proponho uma reflexão: o que estamos fazendo além das redes?”, provocou.

Influenciada pela palestra do dia anterior, realizada pelo do professor português e membro do Bloco de Esquerda, Francisco Louçã, em que tratou do que chamou de banalidade perturbadora, Camila refletiu sobre o que tem perturbado as pessoas coletivamente e individualmente. “O que nos perturbou desde as manifestações de 2013? O medo dos infiltrados? Dos black blocks? Ou o medo do fracasso dos nossos tradicionais métodos de organização?”, questionou. A partir desta reflexão, Camila apontou que já está mais do que na hora de a esquerda romper com o medo que surgiu em 2013. “Somos bons em política, bons em comunicação. Nossa maior tarefa histórica é romper com o medo através da generosidade entre nós”, concluiu.

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