Venezuela e a ditadura midiática do seu 'Madruga'

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Por Renata Mielli (Secretária-Geral do Barão de Itararé), na Mídia Ninja

A Venezuela está na boca do povo brasileiro. As pessoas, de norte a sul do país, tem na ponta da língua uma opinião para dar sobre a crise política que vive o país vizinho. E sem medo de errar, atiram: a Venezuela é uma ditadura, é preciso tirar aquele Maduro de lá e libertar o povo. Impressionante é imaginar como a esmagadora maioria das pessoas, que nunca estiveram na Venezuela, tem tanta propriedade para falar dela. Ou falam dela sem propriedade mesmo, com direito a confundir o sucessor de Hugo Chávez com o personagem Madruga, da série mexicana.

Ah, mas é claro, estão repetindo, ou tentando repetir, o que dizem Globo & Cia. Em tempos onde a mídia transforma a política em novela mexicana, transformar golpes em democracias e democracias em ditaduras é tudo uma questão de roteiro.

A mídia hegemônica não começou a taxar a Venezuela como uma ditadura ou um governo antidemocrático agora. Não mesmo. O país que recolocou no glossário político internacional as palavras proibidas – revolução e socialismo – sempre foi tratado como um perigo para a democracia.

O fantasma do libertador Símon Bolívar ronda a América Latina desde 1998, quando Hugo Chávez foi eleito presidente da Venezuela. Começava, naquele ano, um processo de vitórias de partidos e frentes democráticas e populares para governar países que, praticamente durante toda a sua história, foram dirigidos pelas elites econômicas e políticas locais.

Depois do rastro de destruição e miséria deixado pelo neoliberalismo, com a liquidação do pouco que havia de Estado Nacional, privatizações, desregulamentação da economia, índices assustadores de desemprego e subemprego, os povos destes países depositaram nas urnas a esperança de mudança. Chávez, Néstor Kirchner, Lula, Evo Morales, Rafael Correa, Fernando Lugo, Michele Bachelet.

O compromisso destas lideranças era mudar a rota das políticas adotadas pelos governos anteriores, a partir da aplicação de projetos de desenvolvimento fundados na valorização do mercado interno, com políticas redistributivas, aprofundamento da democracia e da participação popular, recuperação do papel do Estado na oferta de serviços públicos de qualidade, fortalecimento da soberania e da integração regional.

De todos os países que optaram por este caminho, talvez o que tenha ido mais a fundo nas mudanças estruturais tenha sido a Venezuela. Ali, teve início o que Hugo Chávez chamou de revolução bolivariana para implantar o socialismo do século XXI.

Numa década em que intelectuais cultuados pelo mercado vaticinavam que a sociedade tinha chegado ao seu ápice, como Francis Fukuyama que teorizou sobre o “fim da história”, referindo-se à vitória e consolidação do sistema capitalista, Chávez apareceu retomando temas que a elite econômica mundial acreditava estarem enterradas.

Isso já seria muito mais do que suficiente para que a Venezuela e sua revolução bolivariana se tornassem alvos prioritários das elites econômicas internacionais, do imperialismo e dos seus porta-vozes midiáticos.

Em praticamente todas as matérias sobre a Venezuela, Chávez e seu governo eram tratados de forma negativa. Era comum encontrar adjetivos qualificando a Venezuela como um estado autoritário. O foco sempre era a repressão, restrições econômicas e a luta da oposição para colocar um fim no governo populista de Chávez. Pouco importava que o presidente venezuelano tivesse sido eleito pelo voto popular, tivesse submetido suas políticas à aprovação de uma nova constituição e colocado tudo isso sob o escrutínio do referendo popular.

Notícias sobre como Chávez reduziu a pobreza na Venezuela em mais de 20%, de acordo com a Cepal (Comissão Econômica para América Latina e Caribe), fazendo o país registrar a menor desigualdade entre ricos e pobres entre nações latino-americanas, de acordo com relatório da ONU, não ganhavam espaços nos meios de comunicação brasileiros. O aumento do emprego e as políticas públicas redistributivas tiraram milhões de venezuelanos da pobreza e da indigência. Alguns dados que simplesmente são ignorados pela mídia brasileira:

⁃ Em 1999, 50% da população era pobre e 20% indigente. Em 2011, a pobreza atingia 31,6% dos venezuelanos e a indigência 8,5%.

⁃ Em 1999 os 20% mais ricos da população ganhavam 14 vezes a renda dos 20% mais pobres, em 2011 essa diferença tinha sido reduzida oito vezes.

⁃ Sob a revolução bolivariana, 95% das casas passaram a ter acesso à água potável.

⁃ Em relação aos serviços de saúde, a missão “Barrio Adentro” (Bairro Adentro) levou a instalação de 6.700 consultórios, 550 centros de diagnósticos, 578 salas de reabilitação e 33 centros de alta tecnologia nos bairros mais humildes do país.

⁃ Entre 1999 e 2011, a expectativa de vida aumentou dois anos, a mortalidade infantil dos menores de cinco anos foi reduzida de 21 para 16 mil, e a desnutrição baixou de 5,3 para 2,9%.

A morte de Chávez foi um exemplo de como a mídia hegemônica tratou o líder venezuelano. No Brasil, Veja e Época destacaram em suas capas. A herança sombria foi a manchete de Veja. Já a Época, das organizações Globo, destacou “Depois de Chávez” e elencou algumas ideias do que deveria acontecer após a morte do presidente venezuelano. Entre elas: “Porque a América Latina deve se livrar do seu legado”.

Nicolás Maduro não teve tratamento diferente, muito pelo contrário. A mídia internacional e os setores econômicos submetidos aos interesses do imperialismo alvejam Maduro e o governo venezuelano cotidianamente.

Não se trata de ignorar a crise econômica e política que há na Venezuela, mas de discutir como a mídia constrói visões de mundo que interessam aos donos do mundo.

Foi assim durante a “Guerra Fria”. O comunismo e os países da então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas eram tratados como o inimigo a ser combatido, o maior perigo para a humanidade livre e democrática. Da mesma maneira, em outro sentido, os Estados Unidos da América é a “land of freedom”. Ninguém ousa questionar, por exemplo, em que bases se assentam a liberdade e a democracia de um país que possuí apenas dois partidos se revezando no poder há décadas, que não oferece serviços de saúde pública para a sua população, para citar apenas dois pequenos exemplos.

Discutir os problemas reais de uma Venezuela real é fundamental para entender o contexto da crise e as saídas que o governo de Nicolás Maduro está propondo. Vamos pensar um pouco: estamos dizendo que Maduro transformou a Venezuela numa ditadura porque convocou eleições para eleger uma assembleia constituinte que contou com a presença de cerca de 8 milhões e 100 mil venezuelanos? Como um governo que aposta na ampliação da participação popular para discutir os rumos para sair da crise pode ser taxado de ditador, de antidemocrático?

Tudo bem, questionar a oportunidade da Constituinte, sua legalidade etc, mas daí a dizer que isso transforma a Venezuela numa ditadura é muita cara de pau. Principalmente porque, enquanto isso, no Brasil, um governo que teve ZERO votos está deformando a Constituição a pleno vapor, com o apoio de um parlamento venal, capturado pelos interesses privados e que vota projetos fundamentais para o país na base do “dou meu voto para quem pagar mais”. Ai, no Brasil vivemos uma democracia vigorosa.

Estive duas vezes na Venezuela como jornalista. Passei vinte dias em 2012, na última eleição de Hugo Chávez e depois em 2014, na eleição de Nicolás Maduro. Claro que isso não me faz uma especialista em Venezuela, mas ao menos posso dizer que andei livremente nas ruas de Caracas, vi uma cidade cheia de contrastes, onde os parâmetros da luta política são totalmente diferentes dos que vemos no Brasil.

Lá, há um povo politizado, que conhece profundamente o papel do Estado, seus direitos, que tem no bolso a Constituição – e se não tiver pode comprar um exemplar em qualquer esquina na banca de jornal.

Aliás, equivoca-se totalmente quem acha que não há uma liberdade de imprensa na Venezuela. Você acha possível imaginar que numa ditadura, as bancas de jornais pendurem exemplares de jornais e revistas com manchetes escandalosamente oposicionistas. Pois na Venezuela é assim. Há emissoras de televisão e telejornalismo de oposição. Uma das principais lideranças políticas da oposição, Henrique Capriles, aparece a qualquer momento e tem suas coletivas de imprensa transmidas ao vivo, na íntegra, pela TV aberta.

Claro, há também os jornais governistas e as emissoras que fazem um jornalismo alinhado à revolução bolivariana.

Ué, mas e o jornalismo independente? Existe também, mas o povo venezuelano já superou a visão inocente e convenientemente alimentada pela mídia hegemônica privada no Brasil de que o jornalismo é neutro e imparcial. Lá, o povo sabe bem que, quem paga, manda e determinada o que é ou não notícia.

Não há governo ideal, não há governo que não cometa erros. Há projetos e escolhas políticas. A oposição na Venezuela não pretende derrubar Maduro para ampliar a democracia, a participação popular e dar prosseguimento às políticas públicas que deram dignidade ao povo pobre. Usando uma analogia irônica, podemos dizer que a oposição da Venezuela usa um bordão parecido com a oposição ao governo Dilma antes do impeachment: primeiro a gente tira o Maduro, depois…… Depois se assenhoram do governo para aplicar os ajustes fiscais, reduzir investimentos nas políticas sociais, retirar direitos, privatizar a principal empresa venezuelana que é a petrolífera PDVSA. Assim, do mesmo jeitinho que estão fazendo com a Petrobras.

É preciso buscar fontes diversificadas de informação sobre o que acontece no país vizinho. A mídia alternativa brasileira está empenhada em produzir notícias, inclusive com jornalistas em Caracas, para tentar estabelecer um debate mais próximo do que de fato está acontecendo na Venezuela.

Algumas dicas de sites para ler notícias e opiniões sobre a Venezuela:

Comitê Brasileiro pela Paz na Venezuela | Opera Mundi |  Brasil de Fato | Jornalistas Livres

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