Premiada, reportagem de Claudia Rocha levanta discussão sobre mídia e direitos humanos

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Por Felipe Bianchi

Vencedora da 39ª edição do Prêmio Vladimir Herzog na categoria produção em áudio, a reportagem “Moradores do Moinho falam em rotina de repressão da PM, um mês após morte de jovem”, de Claudia Rocha, revela questões importantes sobre a discussão em torno do papel da imprensa tradicional e o das mídias alternativas.

Cláudia Rocha e Emerson Ramos durante a cerimônia de premiação, no dia 31/10. Foto: Alice VergueiroCláudia Rocha e Emerson Ramos durante a cerimônia de premiação, no dia 31/10. Foto: Alice Vergueiro

 

Produzida fora das grandes redações e publicada pelo coletivo Ponte Jornalismo, o trabalho da jovem jornalista paulistana, colaboradora do núcleo do Barão de Itararé na capital, recebeu, em outubro, a deferência de um dos principais prêmios da área de Direitos Humanos. A reportagem conta a história da morte de Leandro de Souza Santos, um jovem de 18 anos, assassinado pela Polícia Militar em frente a seus familiares durante operação na Favela do Moinho, em São Paulo, no dia 27 de junho.

Com sonorização de Emerson Ramos, a peça de cerca de 12 minutos dá voz a quem a mídia hegemônica frequentemente esconde: familiares, moradores da comunidade e testemunhas da execução. “A cobertura dos meios tradicionais invisibilizou Leandro e sua família. As manchetes falavam apenas que ocorreu uma operação e havia um morto. Foi mais para destacar a operação policial, com o gancho da Cracolândia e não da morte de Leandro. Morreu, mas sob quais circunstâncias?”, questiona Claudia Rocha.

“Morte pelas mãos do Estado na periferia é um tema que, infelizmente, estamos acostumados”, acrescenta a repórter. “Mas a forma como aconteceu lá, somada à justificativa da Rota, que alegou estar buscando traficantes da região da Cracolândia, era uma história que você sente que precisa contar”.

Segundo ela, a pauta surgiu a partir de informações em grupos de jornalistas de meios alternativos, dando conta de que havia uma operação policial em curso na Favela do Moinho. “Quando cheguei lá, a comunidade estava em ebulição”, relata. “Fiz a cobertura da manifestação e entramos na favela para saber o que estava acontecendo. Por ser uma morte com requintes de crueldade, todo mundo ali queria falar, denunciar o que havia ocorrido, então eu tinha muitas sonoras, muitas entrevistas”.

Primeiro, Rocha falou com a família do jovem. Depois, esteve no funeral de Leandro para prosseguir o trabalho de reportagem. “No enterro, consegui o depoimento de uma testemunha chave do caso. Foi a partir desse depoimento que comecei a costurar as entrevistas e construir a narrativa”, conta.

A jornalista conta que não faltam relatos de moradores contrariando a versão oficial da Polícia Militar. Em primeiro lugar, ao chegar no local do ocorrido, a cena do crime já estava limpa. “O procedimento normal”, comenta, “seria isolar o lugar para a perícia”. Além disso, os depoimentos colhidos por Claudia Rocha dão conta de que o corpo de Leandro teria sido retirado pelos fundos da favela e levado em uma kombi não identificada. “São elementos que evidenciam arbitrariedade. Mortes em operações policiais acontecem, mas e os procedimentos e investigações posteriores?”.

As testemunhas também disseram à repórter que o corpo de Leandro estava totalmente coberto quando saiu da favela, ou seja, o jovem estava provavelmente morto. “A própria perícia do hospital constatou que ele chegou lá já falecido”, prossegue a repórter.

Leandro, segundo sua família, era usuário de drogas. Não traficante. “Ele saiu correndo e entrou no primeiro barraco que encontrou com a porta aberta. Foram cinco disparos, em meio à correria. O crime aconteceu com a família assistindo”, explica Rocha. “Os policiais sequer renderam Leandro ou conversaram com a família. Isso ocorreria em um bairro rico?”.

A grande mídia, na avaliação da jornalista, não explorou esses detalhes, apenas contabilizando a morte. Dessa forma, acabou corroborando a versão divulgada pela corporação militar - Leandro seria um traficante e havia trocado tiros com a Polícia. “Se esse caso acontecesse em um bairro como Higienópolis haveria uma comoção muito grande. Leandro foi morto com sua família à porta”, sublinha Rocha.

Ainda em relação à cobertura da imprensa, a repórter recorda que os grandes veículos de comunicação enviaram equipes para cobrir a manifestação, mas quando os policiais fizeram uso de bombas, para dispersar os manifestantes, eles foram embora. “As equipes não entraram junto com os moradores. Faltou esse lado. Nesse outro lado é que ficou evidente o que ocorreu”, opina. “A maior parte das matérias que vi sobre o caso contavam que houve troca de tiro, que Leandro estava armado, segundo as informações da Polícia. Poucos disseram que houve indício de tortura, com um martelo como evidência”, por exemplo.

Sempre que há um grande caso como esse, a repressão na periferia aumenta, pontua Rocha. Os programas policialescos, comuns na televisão brasileira, reforçam o problema: “Há uma criminalização da pobreza. A mídia reforça esse estereótipo, como se naquele lugar só houvesse bandidos”. Durante o enterro de Leandro, a repórter reconstitui a fala de um morador da comunidade, escancarando o peso desse tipo de programa sobre a vida dos moradores da favela do Moinho: “O [José Luiz] Datena fica chamando a gente de bandido. Vou levar meu filho na escola, tem um policial armado, o que falo pro meu filho?”.

“A vantagem da mídia alternativa com relação a esses setores invisibilizados é a sensibilidade com suas pautas. Há mais interesse em ouvir essas pessoas, em dar voz a elas”, opina Rocha. “Há uma abordagem mais humana. A mídia comercial chega na pauta já sabendo que peso vai dar pra cada lado. Nesse caso, deu muito mais peso pra versão da Polícia. Nossa vantagem é que, por ter o intuito de tirá-las da invisibilidade, conseguimos acessar fontes que não se abrem facilmente, como no caso da comunidade do Moinho”.

Na opinião da repórter, essa falta de sensibilidade em relação aos direitos humanos nem sempre é culpa do profissional que está ali, na cobertura. “Não há preparo para ter esse cuidado, esse olhar. É um tema bastante fluido e ausente nas redações. Falta essa preocupação por parte das empresas”, critica.

Esse tipo de reportagem em áudio é uma alternativa interessante para as mídias alternativas, coletivos de comunicação, blogueiros e ativistas digitais, acrescenta a jornalista. Como não há critérios democráticos para as concessões de radiodifusão, concentradas na mão de quem detém o poder econômico no país, o formato é uma das saídas possíveis para furar o bloqueio midiático imposto pela concentração dos meios comerciais.

Um dos trabalhos premiados dentro de 634 inscritos no Prêmio Vladimir Herzog, a reportagem de Claudia Rocha mostra que, apesar da crescente onda de criminalização dos movimentos sociais e da própria mídia contra-hegemônica, há espaço para jornalismo com profundidade, relevância e compromisso com setores que não despertam o interesse do monopólio midiático.

Escute a íntegra da reportagem:

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