Linchamento midiático destrói a democracia e a dignidade das pessoas, afirmam debatedores

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Por Felipe Bianchi

Filha de José Genoíno, a pedagoga Miruna Genoíno esteve nesta quarta-feira (17) na sede do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, em São Paulo. Além de lançar seu livro Felicidade fechada (Ed. Cosmos), Miruna debateu o martírio de sua família ao longo do massacre sofrido por seu pai durante o julgamento na Ação Penal 470 (o 'mensalão'). Ela contou com a companhia dos jornalistas Paulo Moreira Leite e Maria Inês Nassif, que foram enfáticos: o linchamento promovido pelos grandes meios de comunicação contra adversários políticos destrói a democracia e a dignidade das pessoas.

Foto: Sérgio SilvaFoto: Sérgio Silva

Globo derruba mais um presidente. Isso não é uma boa notícia

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Por Renata Mielli*, na Mídia Ninja

“Brasília assustada com as revelações do jornal O Globo”. Essa foi uma das frases de efeito ditas por Willian Bonner durante a edição desta quarta-feira, 17/05, dia em que as Organizações Globo detonaram uma bomba que vai derrubar mais um presidente da República no Brasil – golpista, mas presidente.

A denúncia de que Michel Temer foi gravado pelo executivo da JBS, Joesley Batista, dando aval para comprar o silêncio de Eduardo Cunha colocou um ponto final no mandato do golpista Michel Temer. Partidos da base do governo, parlamentares e muitos expoentes da direita, incluindo articulistas da Rede Globo, afirmam com convicção que não há mais condições de Temer permanecer na Presidência.

Tudo começou por volta das 19:00 hs, com a reportagem do jornalista Lauro Jardim publicada no site do O Globo. Praticamente na mesma hora, entra um Plantão na programação da Globo para dar o furo e chamar a audiência para o Jornal Nacional.

O misto de perplexidade, indignação e comemoração que tomou conta das redes sociais pode ser ilustrado pela frase “A Casa Caiu”.

A gente tira o Temer e depois……

…Depois elege um novo presidente por eleição indireta. Pelo menos este é o desejo da Rede Globo, que já colocou seu exército de lobotomizadores para martelar no rádio, na internet, na TV aberta e fechada que, em caso de vacância da presidência nas condições de hoje, a diretriz constitucional prevista no artigo 81 é a eleição indireta. Falam abertamente que a eleição direta é inconstitucional.

Golpe Jurídico-Midiático

A caracterização de que o Brasil é alvo de um golpe jurídico-midiático se reforça. Temer passou a ser um obstáculo aos objetivos políticos e econômicos dos setores que financiaram o golpe. Passado um ano do impeachment, o país está mergulhado numa grave crise econômica, o desemprego é recorde e o presidente ostenta o índice de 61% de ruim e péssimo, segundo avaliação do Data Folha. Como dar continuidade à agenda das reformas neoliberais, de retirada de direitos neste cenário? Como manter o apoio ao golpe e à Lava Jato com um governo enlameado, citado diretamente nas delações, sem qualquer credibilidade?

A aliança mídia-judiciário se aprofunda e não vacila em fazer o que precisa ser feito, doa a quem doer. Nada disso é em nome da democracia, ou da ética, ou da luta contra a corrupção. É um passo no sentido de aprofundar o golpe.

Diretas Já!

A denúncia contra Temer abre mais um capítulo de imprevisibilidade na conjuntura política.

Apesar dos objetivos explícitos da Rede Globo, a sociedade brasileira não pode permitir que um parlamento desmoralizado por denúncias de corrupção eleja, em colégio eleitoral, um novo presidente da República. Este é o momento de sair às ruas para exigir que o povo tenha garantido o seu direito ao voto.

E como diz o ditado: as crises abrem janelas de oportunidade. Temos que construir um amplo arco de alianças para enfrentar o arbítrio.

Fora Globo

O papel político que a Globo, acompanhada pelo restante da mídia hegemônica, tem cumprido no país é totalmente incompatível com a democracia.

É urgente ampliar o debate sobre a democratização da comunicação no Brasil. Já passou da hora de este tema ocupar lugar prioritário na agenda do movimento social. Sem enfrentar o monopólio privado dos meios de comunicação não é possível garantir direitos sociais, trabalhistas, a soberania nacional e, principalmente, não é possível construir um país democrático.

Não podemos continuar a ser uma nação que é dominada por uma emissora de televisão. É hora de dizer um basta a este monopólio.

A palavra de ordem #ForaGlobo representa muito mais do que um grito contra a emissora dos Marinho, ela condensa a indignação de quem não suporta mais ser manipulado por um discurso único. Ela representa a luta de quem quer ter voz, ter rosto, ter visibilidade nos meios de comunicação do seu país.

Vamos todos às ruas e às redes disputar os rumos do nosso país e lutar pelas eleições diretas.

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Momento propaganda: Aproveito para convidar a todos os que puderem, para ir a Brasília nos dias 26, 27 e 28 de maio para participar do 3º Encontro Nacional pelo Direito à Comunicação (link https://www.doity.com.br/3endc). Esses temas e outros serão discutidos por um time de feras nestes três dias. No dia 26, um ato em defesa da Liberdade de Expressão e da Democracia, abrirá o encontro promovido pelo FNDC. Quem não puder ir, acompanhe pela redes, o ato e as principais conferências serão transmitidos ao vivo, numa parceria com a Mídia Ninja.

#ForaTemer #DiretasJá

*Renata Mielli é Secretária-Geral do Barão de Itararé e coordenadora do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação

3º Encontro Estadual de Blogueir@s e Ativistas Digitais de SP acontece neste final de semana

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Liberdade de expressão em tempos de exceção é o tema do 3º Encontro Estadual de Blogueir@s e Ativistas Digitais de São Paulo, que ocorre nos dias 9 e 10 de junho, na capital paulista. O evento reúne jornalistas, blogueiros, midiativistas e estudantes para debater uma série de temas ligados à mídia e à resistência democrática contra o Estado de exceção em curso no país.

O Sindicato dos Trabalhadores na Administração Pública e Autarquias do Município de São Paulo - Sindisep (Rua Barão de Itapetininga, 163, 2º andar) sediará a atividade. A taxa de inscrição é de R$ 50, sendo que estudantes têm direito à meia-entrada (R$ 25). 

O dia em que Lula nocauteou a Rede Globo

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Por Renata Mielli*, na Mídia Ninja

Durante toda esta quarta-feira, acompanhei a cobertura que a Rede Globo (e seu braço pago, a GloboNews) fez sobre o depoimento do ex-presidente Lula ao juiz Sérgio Moro. Jornalistas e comentaristas animados, esfuziantes até, gargalhavam muitas vezes, fazendo os prognósticos sobre o depoimento. Mas toda essa euforia deu lugar à depressão. Sem tempo de editar os primeiros vídeos disponibilizados pela Justiça Federal – o que ocorreu por volta das 20 horas – e certa de que eles iriam terminar por afundar Lula e consagrar a Lava Jato e Sérgio Moro, a Globo arriscou e levou as imagens ao ar sem edição. Cometeu um grande erro. Lula nocauteou a Globo no 1º round.

No Bom dia Brasil, a emissora se concentrou nos preparativos e acompanhou o “Dia de Lula”. Flashs mostravam Lula e Dilma se deslocando para Curitiba e o esquema de segurança armado ao redor da sede do Tribunal de Justiça.

A GloboNews continuou a cobertura matinal no mesmo rumo, mas com foco maior nos comentários e análises. Nessa primeira etapa do dia, os comentaristas e âncoras especulavam sobre como seria o depoimento. O jornalista Valdo Cruz, mais torcendo do que analisando, chegou a dizer que era importante “prestar atenção no ambiente da sala de interrogação” porque poderia “sair até uma prisão por desacato”.

Outra preocupação da emissora dos Marinho era com os prazos processuais. Cristiana Lobo disse que Moro costuma demorar de 20 a 30 dias para tomar as decisões após os interrogatórios – palavra que a Globo utilizou durante todo dia para salientar que Lula estava em Curitiba como réu, acusado de crimes. Condenado em primeira instância por Moro – já que em nenhum momento se aventou a hipótese de absolvição, aliás Lula está condenado por Moro e pela Globo desde o início da operação – o processo vai para julgamento em segunda instância, o que costuma demorar um ano, de acordo com as previsões de Cristiana Lobo e Valdo Cruz. Ou seja, Lula seria condenado – nunca julgado – entre maio e junho de 2018, o que o tornaria inelegível no período das convenções partidárias para as definições das candidaturas presidenciais.

O discurso martelado ao longo do dia – de que Lula e o PT estão politizando o processo – soou pura demagogia, uma vez que a cobertura fez isso desavergonhadamente, e não só hoje. Aliás, isso foi mais ou menos dito por Anselmo Góis, que assumiu os comentários no período da tarde, sob o comando da sorridente Maria Beltrão, que não conseguiu esconder a empolgação. Qualquer um que ligou a TV na GloboNews nesta quarta-feira, 10, viu um clima no estúdio completamente estranho ao necessário distanciamento de uma cobertura jornalística.

A todo momento, Maria Beltrão lembrava que a defesa de Lula teve negado o pedido para gravar o depoimento e que este pedido não fazia mesmo sentido, porque os trechos do interrogatório seriam enviados para a imprensa divulgar como tem sido feito até agora. A expectativa de todos no período da tarde se concentrou no acesso aos vídeos, como se eles fossem o grande ápice de todo o processo de condenação pública de Lula.

Aos poucos, a GloboNews começou a mostrar imagens das manifestações “pró-Lula” e “pró-Lava Jato”. A diferença numérica era impossível de disfarçar. “Apesar de poucos estão bem animados”, repetiam os jornalistas, se referindo às poucas mais de 20 pessoas que estavam no Centro Cívico de Curitiba. Sobre as milhares de pessoas reunidas em frente à Universidade Federal do Paraná em apoio ao Lula, os comentários maldosos eram “quem será que está pagando”, “de onde saiu o dinheiro para aquela mobilização”.

No final da tarde, ficou nítida a preocupação da equipe de jornalistas da GloboNews com a demora para o encerramento do depoimento. Para a emissora, que transmite conteúdo noticioso em toda a sua programação, isso não é necessariamente um problema. Então, porque a apreensão? Estavam preocupados na verdade com o carro chefe da empresa, o Jornal Nacional. Se o depoimento se alongasse o JN não teria conteúdo para noticiar.

Mas eis que as 19:54 minutos a GloboNews veicula o primeiro vídeo disponibilizado pela equipe de Moro, com trechos do depoimento onde o juiz faz perguntas a Lula sobre o triplex. E para a decepção de todos o que se viu não foi um Lula agressivo – como eles alardearam durante todo o dia – ou um Lula fazendo discurso político, ou um tom beligerante. O primeiro trecho de cerca de 8 minutos do depoimento mostrou o inverso disso. Lula respondendo perguntas pontual e calmamente diante de um Juiz que não apresentou nenhuma prova contra ele. Após a exibição deste primeiro trecho era visível a consternação dos 6 jornalistas que estavam ao vivo, e que tentaram driblar as imagens, dizendo que Lula estava objetivo graças ao preparo de Sérgio Moro.

Imediatamente voltei para o Jornal Nacional que acabara de começar. Bonner e Renata Vasconcelos estavam atônitos. Mas seguiram na linha de levar ao ar os vídeos sem edição. Os pouco mais de 15 minutos de trechos do depoimento que foram exibidos durante o JN já foram suficientes para mostrar que “o ambiente na sala de interrogação” foi totalmente inverso do que a Globo esperava: de um lado do ringue um Lula seguro, calmo e objetivo, respondendo a todas as perguntas. Do outro lado um juiz sem provas, com documentos sem assinaturas e de origem desconhecida.

 

Pior ainda, nas considerações finais de Lula – momento em que o ex-presidente fez sua defesa e que não foi exibida pelo JN – ele denuncia todo o julgamento midiático do qual tem sido vítima e coloca a mídia e a Globo para dentro da sala do interrogatório. “A imprensa é o principal julgador desse processo”.

Ele citou dados que demonstram como a cobertura da mídia foi seletiva. Desde março de 2014, segundo levantamento apresentado pelo ex-presidente, foram 25 capas da Isto É, 19 da Veja e 11 da revista Época todas contra Lula. Nos jornais impressos, foram veiculadas na Folha de São Paulo 298 matérias contra Lula e apenas 40 favoráveis, “tudo com informações vazadas da Polícia Federal e Ministério Público”, disse Lula; no jornal O Globo foram 530 contra Lula e e 8 favoráveis, e no Estadão foram 318 contrárias e 2 favoráveis. Já o Jornal Nacional veiculou 18 horas e quinze minutos contra Lula nos últimos 12 meses. Ele também denuncia os vazamentos previlegiados à Rede Globo e ao Jornal Nacional.

A Globo e o oligopólio midiático perderam feio a aposta de que Moro seria o grande vencedor da luta anunciada para o dia dez de maio. No ringue armado pela mídia semana passada, quem ganhou de nocaute no primeiro assalto foi Lula. Claro que eles vão tentar melar o resultado e terão tempo de assistir as 5 horas de depoimentos para escolher os melhores momentos para veicular sistematicamente e tentar mudar o placar. Mas a luta em do Estado Democrático de Direito e do devido processo legal saiu na frente. Vamos aguardar as próximas rodadas.

*Renata Mielli é Secretária-Geral do Barão de Itararé