Twitter falha em deter robôs que espalham teorias conspiratórias da QAnon

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Os cidadãos que procuram análise e informação políticas no twitter precisam saber o quanto do que estão vendo é resultado de campanhas de propaganda automatizadas.

Quase quatro anos após eu e meus colaboradores revelarmos como contas automatizadas do twitter estavam distorcendo discussões online sobre as eleições nos EUA em 2016, a situação não parece estar melhor. Isso apesar dos esforços de agentes de políticas públicas, de companhias de tecnologia e até do público para extirpar as campanhas de desinformação nas redes sociais.

Por Emilio Ferrara, no The Conversation
Tradução: Maurício Búrigo

 

No twitter, muitas teorias da conspiração podem não ser tão populares entre pessoas reais como as reportagens da mídia tradicional indicam. Mas a automação pode aumentar significativamente a distribuição destas ideias

No nosso estudo mais recente, coletamos 240 milhões de tuítes que mencionavam candidatos presidenciais e palavras-chave relacionadas às eleições norte-americanas de 2020, postados entre 20 de junho e 9 de setembro de 2020. Buscávamos atividade de contas automatizadas (ou de robôs) e a difusão de narrativas deturpadas ou de teoria da conspiração.

 

Descobrimos que no twitter muitas teorias da conspiração, inclusive as da QAnon, podem não ser tão populares entre pessoas reais como as reportagens da mídia tradicional indicam. Mas a automação pode aumentar significativamente a distribuição destas ideias, inflando seu poder ao alcançar usuários que, sem suspeitar, podem ser seduzidos não por postagens de seus semelhantes humanos, mas de robôs programados a espalhar a notícia.

Normalmente, os robôs são criados por pessoas ou grupos que querem amplificar certas ideias ou pontos de vista. Descobrimos que os robôs são, em geral, igualmente ativos em discussões online de perspectivas tanto de direita como de esquerda, constituindo cerca de 5% das contas de twitter ativas nessas linhas.

 

Os robôs parecem se proliferar em grupos políticos que discutem teorias da conspiração, constituindo quase 13% das contas que tuítam ou retuítam postagens com hashtags e palavras-chave relacionadas a teorias da conspiração.

Os robôs parecem se proliferar em grupos políticos que discutem teorias da conspiração, constituindo quase 13% das contas que tuítam ou retuítam postagens com hashtags e palavras-chave relacionadas a teorias da conspiração

Olhamos, então, mais de perto três categorias principais de conspirações. Uma era a categoria de supostos escândalos descritos com o uso do sufixo “-gate”, tais como “Pizzagate” e “Obamagate”. A segunda era de conspirações políticas relacionadas à Covid-19, tais como alegações tendenciosas de que o vírus foi deliberadamente disseminado pela China ou de que pudesse ser disseminado via produtos importados da China. A terceira era o movimento da QAnon, que tem sido chamado de “ilusão coletiva” ou “culto virtual”.

Essas três categorias coincidem em parte: contas que tuítam sobre um tema em uma delas provavelmente tuítam também sobre um tema em pelo menos uma das outras. Descobrimos que as contas que são propensas a compartilhar narrativas conspiratórias são as que, com maior probabilidade que contas não-conspiradoras, tuítam links ou retuítam postagens das mídias de inclinação de extrema direita, tais como One America News Network, Infowars e Breitbart.

Os robôs cumprem um importante papel também: mais de 20% das contas que compartilham conteúdo daquelas plataformas hipersectárias são robôs. E a maioria dessas contas também distribuem conteúdo relativo à conspiração.

Ultimamente o twitter tem tentado limitar a difusão da QAnon e outras teorias da conspiração no seu site. Mas isso talvez não seja o suficiente para deter a maré. A fim de contribuir no esforço global contra a manipulação das mídias sociais, nós liberamos publicamente o conjunto de dados usado no nosso trabalho para contribuir com estudos futuros.

Emilio Ferrara é professor associado de Ciência da Computação na USC Viterbi School of Engineering e professor associado de Comunicação na USC Annenberg School for Communication and Journalism