Fenaj e ABI repudiam agressões da comitiva de Bolsonaro a jornalistas em Roma

Comunicação
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Entidades de defesa dos direitos da imprensa se manifestaram, nesta segunda-feira, 1º, contra as agressões sofridas por jornalistas brasileiros que cobriam a estada do presidente Jair Bolsonaro, em Roma, durante a reunião do G20. A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) divulgou nota de repúdio, e a Associação Brasileira de Imprensa, uma carta aberta, aos Jornalistas da TV Globo, Uol e BBC que tiveram equipamentos danificados por seguranças à paisana e policiais italianos, quando Bolsonaro caminhava por ruas de Roma e falava com apoiadores.

Arnoldo Santos e Marcela Leiros, da Revista Cenarium

Segundo a Fenaj, representante da categoria no Brasil, pelo menos três jornalistas foram agredidos fisicamente. A Federação também lembrou que nesta terça-feira, 2, será o Dia Mundial de Combate à Impunidade dos Crimes contra Jornalistas. “As agressões, ao que tudo indica, foram cometidas por agentes de segurança do presidente, mas também pode ter ocorrido uma agressão por parte de policiais italianos. O presidente também hostilizou um jornalista”, diz um trecho do documento.

De acordo com o site de notícias Uol, nenhum dos policiais explicou se fazia parte da embaixada brasileira, da Itália ou se eram privados. Os relatos afirmam que havia tanto italianos quanto brasileiros no grupo que fazia a proteção do presidente.

Na carta aberta, a ABI lembra que, na reunião do G20, Bolsonaro “foi obrigado a ficar pelos cantos, como aqueles convidados indesejados a quem ninguém dá atenção” e, como reação, agiu “como um troglodita, hostilizando e estimulando agressões a jornalistas que lhe fazem perguntas corriqueiras”.

De acordo com o Relatório da Violência contra Jornalistas e Liberdade de Imprensa no Brasil – 2020, elaborado pela Fenaj, o ano passado foi o mais violento desde o começo da década de 1990, quando a entidade sindical iniciou a série histórica. Foram 428 casos de ataques – incluindo dois assassinatos – o que representa um aumento de 105,77% em relação a 2019. Segundo o relatório, Bolsonaro foi quem mais atacou profissionais de imprensa.

Para a Fenaj, o aumento da violência está associado à ascensão de Jair Bolsonaro à Presidência da República e ao crescimento do bolsonarismo. “Houve um acréscimo não só de ataques gerais, mas de ataques por parte desse grupo que, naturalmente, agride como forma de controle da informação. Eles ocorrem para descredibilizar a imprensa para que parte da população continue se informando nas bolhas bolsonaristas, lugares de propagação de informações falsas e/ou fraudulentas”, afirmou Maria José Braga, presidenta da Fenaj, membra do Comitê Executivo da Federação Internacional dos Jornalistas (FIJ) e responsável pela análise dos dados.

A descredibilização da imprensa foi uma das violências mais frequentes: 152 casos, o que representa 35,51% do total de 428 registros ao longo de 2020. Bolsonaro, mais uma vez, foi o principal agressor. Dos 152 casos de descredibilização do trabalho dos jornalistas, o presidente da República foi responsável por 142 episódios.

Sozinho, Jair Bolsonaro respondeu por 175 registros de violência contra a categoria (40,89% do total de 428 casos): 145 ataques genéricos e generalizados a veículos de comunicação e a jornalistas, 26 casos de agressões verbais, um de ameaça direta a jornalistas, uma ameaça à Globo e dois ataques à Fenaj.

Confira nota da Fenaj na íntegra:

A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), representante da categoria no Brasil, vem a público repudiar e condenar a violência contra profissionais brasileiros, ocorrida ontem, 31 de outubro, em Roma. Pelo menos três jornalistas foram agredidos fisicamente, enquanto faziam a cobertura de uma atividade do presidente Jair Bolsonaro na capital italiana. As agressões, ao que tudo indica, foram cometidas por agentes de segurança do presidente, mas também pode ter ocorrido uma agressão por parte de policiais italianos. O presidente também hostilizou um jornalista.

Os jornalistas acompanhavam a participação do presidente brasileiro na cúpula do G20. Ao final dos trabalhos, Jair Bolsonaro resolveu fazer um passeio na região da embaixada brasileira. Ao ser abordado pelo repórter Leonardo Monteiro, do G1, o presidente deu início aos ataques, dizendo: “É a Globo? Você não tem vergonha na cara?”, pergunta que foi repetida, diante da tentativa do repórter de seguir com a entrevista. Os seguranças começaram a empurrar os repórteres e Leonardo Monteiro chegou a dizer ao presidente, que ignorou a reclamação.

O repórter Jamil Chade, do UOL, registrou parte dos ataques, até ele mesmo ser agredido. Ao perceber que ele estava filmando a violência contra os profissionais da imprensa, um segurança o empurrou, o agarrou pelo braço e tomou o celular de sua mão. Depois, o segurança jogou o celular num canto da rua.

Mais cedo, a repórter Ana Estela de Souza Pinto, da Folha de S. Paulo, havia sido empurrada e intimidada. Um agente que não quis se identificar (podendo ser um segurança ou um policial italiano) a empurrou e mandou que ela se afastasse do local.

Dia contra a impunidade

A Fenaj também lembrou que o dia 2 de novembro, esta terça-feira, será o Dia Mundial de Combate à Impunidade dos Crimes contra Jornalistas. “A Fenaj espera que à luz da importante efeméride, todos os responsáveis por essas agressões sejam identificados e punidos. A impunidade é combustível para a violência”, finalizou a nota.

Veja a carta aberta da ABI na íntegra:

Mais uma vez o senhor envergonha o Brasil, presidente.

Repudiado por governantes do mundo inteiro, em cada evento de chefes de Estado o senhor mostra que o País foi relegado a uma situação de um pária na comunidade internacional.

Na reunião do G-20 neste fim de semana, mais uma vez, o senhor foi obrigado a ficar pelos cantos, como aqueles convidados indesejados a quem ninguém dá atenção.

Como reação, age como um troglodita, hostilizando e estimulando agressões a jornalistas que lhe fazem perguntas corriqueiras.

É de dar vergonha.

Na cerimônia de abertura do evento do G-20, no sábado, o primeiro-ministro italiano, Mario Draghi, cumprimentou os chefes de Estado e de governo com um aperto de mão, mas o evitou claramente, fato devidamente registrado pela imprensa italiana. Não quis ser fotografado ao seu lado.

Mas as coisas não ficaram por aí.

Percebendo que era quase um penetra na festa, o senhor preferiu não aparecer para a foto oficial com os estadistas do mundo inteiro. Sentiu a rejeição generalizada.

Tampouco sentiu-se à vontade para participar do passeio organizado pelo governo italiano para os líderes do G20, que tiraram fotos jogando moedas na Fontana di Trevi, tradicional ponto turístico de Roma.

Mas o vexame e a vergonha foram maiores. Não pararam por aí.

Seus seguranças agrediram jornalistas brasileiros e roubaram seus equipamentos em represália a perguntas simples sobre as razões pelas quais o senhor não cumpriria a agenda comum aos demais chefes de Estado.

Repórteres da TV Globo e do jornal “Folha de S. Paulo” e um colunista do Uol foram à delegacia de polícia formalizar queixa das agressões praticadas por seus seguranças. Foi, talvez, um acontecimento inédito.

Mesmo assim, o senhor e os demais membros de sua comitiva, aí incluídos representantes do Itamaraty, foram incapazes de uma palavra de desculpa aos profissionais que estavam apenas trabalhando. Ao contrário, continuaram hostilizando os jornalistas brasileiros.

A ABI mais uma vez faz o registro: com o seu comportamento avesso à democracia e com ataques constantes à imprensa e ao trabalho dos jornalistas, o senhor estimula essas agressões. Assim, torna-se também responsável por elas.

E, como numa bola de neve, elas só aumentam seu isolamento e o repúdio que o senhor recebe da comunidade internacional.

Pior, o isolamento não é só seu. Atinge e envergonha o país que o senhor representa.
O senhor está tornando o Brasil um pária na comunidade internacional, presidente.

Tenha compostura.

Paulo Jeronimo

Presidente da Associação Brasileira de Imprensa