Arquidiocese de SP quebra o silêncio sobre perseguição ao Padre Júlio Lancellotti

Política
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A assessoria de imprensa da Arquidiocese de São Paulo difundiu uma nota, na noite desta quarta-feira (3), em que se posiciona sobre a perseguição ao padre Júlio Lancellotti que vem sendo promovida pela extrema direita da capital paulista. 

O vereador Rubinho Nunes (União), um dos fundadores do Movimento Brasil Livre (MBL), articulou junto à cúpula da Câmara Municipal de São Paulo a instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar Organizações Não Governamentais (ONGs) que trabalham com pessoas em situação de rua.

Ivan Longo | Revista Fórum

A já chamada CPI das ONGs deve ser instalada assim que a Câmara Municipal de São Paulo retomar os trabalhos, em fevereiro. O alvo principal da comissão é a atuação do padre Júlio Lancellotti na região central da capital, mais especificamente na cracolândia, e a relação dele com as entidades. O religioso é referência nacional e internacional no trabalho de acolhimento dos mais vulneráveis. 

A Arquidiocese de São Paulo informou, no comunicado oficial, que acompanha "com perplexidade" a perseguição ao Padre Júlio através da abertura da CPI. 

"Na qualidade de Vigário Episcopal para a Pastoral do Povo da Rua, Padre Júlio exerce o importante trabalho de coordenação, articulação e animação dos vários serviços pastorais voltados ao atendimento, acolhida e cuidado das pessoas em situação de rua na cidade", diz a circunscrição da Igreja Católica. 

"Reiteramos a importância de que, em nome da Igreja, continuem a ser realizadas as obras de misericórdia junto aos mais pobres e sofredores da sociedade", prossegue a entidade religiosa. 

Padre Júlio se antecipa à CPI

O padre Júlio Lancellotti resgatou, nesta quarta-feira (3), um vídeo antigo de Dom Hélder Câmara para se antecipar sobre a explicação que terá que prestar sobre sua atuação junto ao povo pobre que vive na região central da capital paulista.

Lancellotti vem sendo perseguido pelo fundador do MBL, Rubinho Nunes, que tenta levar o trabalho feito pelo padre para o centro dos debates das eleições municipais.

Para responder ao questionamento do vereador, que já conseguiu apoiar para instalar a CPI em fevereiro, Lancellotti relembrou as palavras de Dom Hélder, um dos fundadores da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e símbolo de resistência ao regime militar.

Dom Hélder foi classificado como "demagogo" e "comunistas" dias após o golpe, quando divulgou um manifesto apoiando a ação católica operária no Recife. O bispo também foi proibido de dar entrevistas e a mídia liberal, alinhada aos militares, não podiam sequer falar no nome do religioso.

Em entrevista em 1987, após a redemocratização, Dom Helder, explicou os motivos do ódio que a Ditadura nutria contra ele.

"Houve um tempo em que aqui, no Brasil, era assim: se um leigo, uma religiosa, um padre, um bispo trabalhava diretamente com o povo, 'meu Deus é um santo', 'é uma santa religiosa'", disse.

"Mas, quando a pessoa mesmo continuando a ajudar o pobre tinha a audácia de falar em justiça. Já viu palavra mais perigosa: justiça. Falar em promoção humana. Imediatamente era chamado de comunista", emenda o bispo.