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Nesta entrevista exclusiva, a ativista Dolores Arce, ex-diretora-executiva do Centro de Produções Radiofônicas da Bolívia (Cepra) e ex-chefe das Rádios dos Povos Originários (RPOs) – vinculadas ao Ministério da Comunicação – e operadas por organizações sociais e comunidades, denunciou que em seu país “a pandemia foi aproveitada para fazer negociatas com valores superfaturados”.

De acordo com a ativista, “em que pese o cerco midiático e o silêncio cúmplice da maioria dos grandes meios de comunicação, os escândalos inundaram as redes sociais e devido à pressão social não puderam ser encobertos”.

“O lucro das clínicas privadas é incontrolável: um teste de coronavírus varia entre US$ 100 e US$ 150, e a internação diária para pacientes com Covid-19 está acima de US$ 1.500, o que é uma sentença de morte para a grande maioria dos doentes”, afirmou.

Conforme Dolores Arce, “a lista de escândalos das atuais autoridades é longa, pois bastaram apenas seis meses para saquear e desfalcar os cofres do Estado e desmantelar as empresas públicas”. “Não há pior vírus do que este governo golpista, que ficará na história como o que se aproveitou da pandemia para fazer negócios obscuros e se agarrar ao poder”, sintetizou.

Por Leonardo Wexell Severo*

Diante da iminência de ser derrotada, a golpista Jeanine Áñez tenta postergar a data das eleições com a alegação de que diante do avanço da pandemia do coronavírus a Bolívia deve agora eleger entre a saúde e a política. Qual a sua opinião?

Na realidade se trata de um falso debate quando o governo transitório de Áñez, junto a atores políticos da direita, tentam confundir a opinião pública “que não é tempo de pensar em política, em eleições, mas em preservar a vida e a saúde”. Isso é algo absolutamente cínico, ainda mais vindo de um governo que precisamente tem se aproveitado da pandemia em seu próprio benefício. Portanto, que tem feito política para si com a Covid-19.

Para começar, se o pretexto fosse “por nossa saúde”, estaríamos em péssimas mãos. Não somente o governo demonstrou sua incapacidade: não existe um plano integral nem de prevenção e contenção. Há mais de 70 dias de quarentena, não existem testes massivos por falta de material, não se equiparam os hospitais nem foram entregues o material de biossegurança ao pessoal médico. Pior ainda, é uma vergonha e é de conhecimento mundial que a pandemia foi aproveitada para fazer negociatas com valores superfaturados, pagando três vezes o preço por respiradores que resultaram ser simples ventiladores, até agora não providos nem de baterias, nem de acessórios, que permanecem empacotados enquanto os mortos se multiplicam e no Departamento de Beni disparam os casos de contágios e morte por Covid-19.

Centro de Atendimento do Coronavírus em Beni: colchões sem lençóis nem travesseiros, nem respiradores

Como qualificar a prática do atual governo?

A corrupção e o roubo sempre foram parte do plano: no dia 7 de fevereiro de 2020 - ou seja 48 dias antes da declaração de quarentena, e coincidente com o descobrimento do escândalo de corrupção na Empresa Nacional de Telecomunicações (Entel) -, o Ministério de Economia e Finanças aprovou a Resolução Ministerial 043/2020, a mesma que permite não publicar informação das contratações realizadas no marco da emergência sanitária. Recordemos que, segundo o manual do Sistema de Contratações Estatais (Sicoes), existe a obrigatoriedade de que sejam publicadas as contratações e aquisições de montantes superiores a 20.000 Bs (aproximadamente 3.000 dólares). Portanto, a medida de Áñez fomenta a corrupção, dá carta branca para roubar. O mesmo fez em novembro do ano passado, três dias antes de se autoproclamar, aprovaram o Decreto Supremo (DS) 4078, com licença para matar, impunidade para militares e policiais em caso de provocar mortes em seu “trabalho” durante a repressão. Ainda que ambas disposições da época tenham sido anuladas pela pressão social, no período de sua vigência favorecem claramente a impunidade.

E como está atualmente a situação dos direitos humanos?

No plano político, durante a quarentena ocorreram inúmeros atropelos aos direitos humanos com a perseguição e detenção de pessoas simplesmente por expressarem sua opinião, com a fome e a solidariedade sendo criminalizadas. O pilar da estratégia de contenção da Covid-19 nunca foi sanitário, mas repressivo.

É inconcebível que sob a acusação de “atentado à saúde pública” estejam processados e com prisão domiciliar os integrantes de uma comissão do Trópico de Cochabamba que levou mantimentos e frutas a outros municípios de diferentes departamentos (Estados). Entre eles, um jornalista da emissora Radio Kawsachun Coca, por realizar seu trabalho de reportagem. Vários candidatos do Movimento Ao Socialismo (MAS) foram ameaçados e hostilizados (até presos, como a prefeita de Vinto, candidata a senadora), com falsas acusações do ministro de Governo, Arturo Murillo, que se crê ao mesmo tempo procurador, juiz e onipotente, incorrendo permanentemente em ingerências e imposições.

O grosseiro argumento de que devemos escolher entre a vida e as eleições é uma tentativa desesperada de aferrar-se ao poder, de postergar o quanto mais a data das eleições, para ganhar tempo de seguir roubando e beneficiando os interesses oligárquicos, empresariais e transnacionais. Claro que também com a ilusão de reconfigurar e beneficiar as candidaturas da direita.

Tentativas como as de propor o fechamento da Assembleia Legislativa Plurinacional são coordenadas no Palácio de Governo que levam claramente o selo do agente da CIA e atual assessor, Erick Foronda”

É muito preocupante que nenhum partido ou frente política, exceto o MAS, se pronuncie acerca de outras agressões como a intervenção militar na Assembleia Legislativa Plurinacional (ALP) com um ultimato para aprovar sua lista (irregular) de promoções. Ou as tentativas de propor o fechamento da ALP, ações coordenadas no Palácio de Governo que levam claramente o selo do agente da CIA e atual assessor, Erick Foronda.

Mesmo com toda a censura e controle dos meios de comunicação, vieram à luz diversos escândalos que expõem a natureza do atual governo. Como fica Áñez diante disso?

Em que pese o cerco midiático e o silêncio cúmplice da maioria dos grandes meios de comunicação, os escândalos inundaram as redes sociais e devido à pressão social não puderam ser encobertos.

A lista é longa, bastaram apenas seis meses para saquear e desfalcar os cofres do Estado e desmantelar as empresas públicas, que foram o butim das autoridades e dos parentes deste governo nefasto.

Um governo que não se vê somente manchado por fatos de corrupção, mas que está totalmente submerso neles; o desmantelamento e a paralisação de obras e empresas estratégicas se deu desde novembro, quando tomaram o poder. Os novos executivos, em muitos casos, são parentes diretos do clã Áñez Chávez ou dos respectivos ministros. Em outros casos são personagens ligados a empresas privadas cujo sonho e objetivo é aniquilar as empresas públicas. O que podemos esperar de um gerente da BOA (Boliviana de Aviação), que pertence à concorrente, a companhia aérea privada Amaszonas? A BOA parou de operar em muitos trechos aéreos que, logicamente, foram assumidos por empresas de avião privadas, sobretudo a Amaszonas. Tudo isto acompanhado de outros escândalos, com seus executivos se hospedando em hotéis 5 estrelas, às custas do Estado.

É de conhecimento público o desfalque que sofreu a Entel com o pagamento de quantias milionárias de acordos à margem da lei (não correspondente este honorário no caso de se trabalhar menos de 90 dias), a primeira ação do então gerente Elio Montes Chávez (primo da senhora Áñez Chávez) foi aumentar seu salário de 30.000 Bs (cerca de US$ 4.500) para 100.000 Bs (aproximadamente US$ 15.000). Vieram à luz outros escândalos de superfaturamentos que atingiram a empresa. Numa cortina de fumaça eles o destituíram, porém, dando-lhe tempo e garantias para fugir aos Estados Unidos nos primeiros dias de fevereiro.

E como se encontra a Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos (YPFB), a principal estatal do país?

O mês de abril foi a vez da YPFB, que aproveitando a pandemia realizou compras diretas e vários contratos sem licitação pública. Foram cinco contratos para a compra de 1,5 milhão de barris de diesel a US$ 124 o barril, superfaturado em pelo menos quatro vezes. (O preço estava entre US$ 20 e 30, o que gera uma sobretaxa de pelo menos US$ 100 milhões).

Uma contratação direta - sem SICOES (Sistema de Contratações Estatais) - de Seguros Gerais para o período 2020-2021 por US$ 7 milhões (49 milhões Bs). No dia 23 de abril o contrato teve que ser paralisado por denúncias nas redes sociais e alguns meios de comunicação (Gigavision).

Um contrato de fornecimento de alimentação para seus trabalhadores de 416 Bs diários por funcionário, com a empresa Newrest, que entrou em vigência no dia 15 de abril passado, com prazo de execução até 31 de dezembro de 2020. Recordemos que o Bônus da Cesta concedido para setores vulneráveis durante toda a pandemia é de 400 Bs, numa única vez.

No dia 7 de maio destituíram o ex-presidente da YPFB, Hernand Soliz [envolvido em inúmeras denúncias de corrupção e irregularidades na contratação “emergencial” de seguros e na compra superfaturada de combustíveis no valor de US$ 160 milhões], e colocaram a Richard Botello [executivo da Shlumberger, maior empresa de serviços de petróleo do mundo], o que também é ilegal segundo nossa Constituição, porque trabalhou em uma transnacional.

Dias mais tarde explodiu o escândalo que envolve o Ministério da Saúde, com o superfaturamento na compra de respiradores, cujo custo máximo é de US$ 8.000, mas com o crédito do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) a aquisição foi de cerca de US$ 28.000, novamente com um impacto de mais de US$ 3 milhões.

Equipamentos que não atendem os requisitos das Unidades de Terapia Intensiva (UTIs), tão necessitadas devido às suas condições precárias. Isso levou à remoção e prisão do ministro da Saúde, Marcelo Navajas, e de alguns outros funcionários, como bodes expiatórios, para tentar esconder os tentáculos que levam ao Palácio de Governo e à chancelaria, e a “intocáveis” como o embaixador da Ciência e Tecnologia (e genro de Áñez) Mohamed Mostajo Rajdi.

E maio nem bem terminou e um novo caso vem à tona: no Serviço de Impostos Nacionais (SIN) é descoberta uma rede conformada por um escritório de advogados e altos funcionários, que desde fevereiro vinham negociando “descontos, prorrogações e renúncias” para grandes clientes.

Em outras palavras: Desfalque ao Estado beneficiando a grandes devedores, entre os quais se encontram empresários corruptos que apoiam este regime. Não nos esquecemos que o “cívico” e empresário Fernando Camacho tem - ou tinha? – uma dívida de US$ 20 milhões com o fisco.

Por este fato [do SIN], nas últimas horas, foram demitidos de seus cargos Jorge Ledezma Salomon (gerente distrital), María Yolanda Vargas (chefe do departamento jurídico) e Roy Mansilla (supervisor técnico jurídico), após a divulgação feita pela advogada Teresa Paredes, que apresentou a denúncia dias atrás no Gabinete de Transparência do Serviço de Impostos Nacionais.

Outros escândalos ligados ao uso indevido de bens do Estado e tráfico de influências foram o pão de cada dia durante a pandemia, onde a cidadania estava obrigada a respeitar a quarentena, porém a título de "voos humanitários" os aviões da Força Aérea Boliviana foram utilizados para o deslocamento de amigos, parentes, misses e outros achegados aos governantes de plantão.

Além de ser um governo que viola os direitos humanos, cometeu massacres como o de Senkata e de Sacaba sem que há seis meses tenhamos um só acusado ou detido por esses crimes de lesa-humanidade”

Resumindo: A estas alturas, inclusive vários dos aliados políticos (como Fernando Camacho e Carlos Mesa) tentam tomar distância. É o governo que ficará na história como o que se aproveitou da pandemia para fazer negócios obscuros e se agarrar ao poder. Além de ser um governo que viola os direitos humanos, cometeu massacres como o de Senkata e de Sacaba sem que há seis meses tenhamos um só acusado ou detido por esses crimes de lesa-humanidade.

O departamento (Estado) de Beni está à beira do colapso. Como explicar tamanho desastre sanitário?

Depois de 42 dias sem relatar casos de Covid-19, em 29 de maio Beni já possui 1.576 casos positivos, com uma população de menos de meio milhão de habitantes em todo o departamento, dos quais cerca de 30% residem na capital, Trinidad.

Na realidade, a aparente boa administração e, portanto, o “silêncio epidemiológico” em Beni, que é vizinho ao Brasil, nunca foram assim. O que não houve e continuam sendo escassos são provas rápidas e testes para corroborar o contágio, de modo que quando o contágio foi disparado, tornou-se tão descontrolado que até hoje 70% do pessoal médico está isolado ou em tratamento. Já existem duas vítimas fatais de médicos, entre os quase 100 mortos no departamento, quando há 300 em todo o país.

O cemitério improvisado para as vítimas e casos suspeitos de coronavírus já conta com mais de 200 cruzes, muitas delas sem nome, como sinal de que a realidade é ainda mais dura do que os números oficiais. Os testemunhos das pessoas largadas à sua própria sorte são simplesmente de partir o coração.

O cemitério improvisado em Beni já conta com mais de 200 cruzes, muitas delas sem nome,como sinal de que a realidade é ainda mais dura do que os números oficiais

O drama é total e ultrapassa a capacidade do governo local, enquanto o governo nacional se ocupa com distrações como o fornecimento de ambulâncias odontológicas (que foram adquiridas na gestão de Evo Morales e tinham que ser entregues no aniversário de Potosí, em novembro do ano passado), ou um “centro de isolamento” com barracas e colchões no chão, o que, francamente, são um insulto às necessidades dos moradores de Trinidad.

Ao abandono histórico de departamentos distantes como Beni e Pando, que pela primeira vez tiveram um investimento importante, mas ainda insuficiente, e a presença do governo central com Evo Morales, agora se acrescenta a gestão demagógica de um governo que nos vende permanentemente gato por lebre, enchendo os bolsos quando tem a oportunidade.

Até agora os bolivianos não conhecem o destino dos mais de um bilhão de dólares em doações, créditos e dinheiro do Tesouro Geral da Nação, já que não há transparência nem acesso à informação.

Enquanto isso, a solidariedade do povo boliviano, de diferentes setores da sociedade civil, voltou-se para Beni para fazer chegar doações de alimentos e medicamentos, ante à indiferença, à incapacidade e à reação tardia das autoridades.

Não seria pertinente o imediato retorno dos médicos cubanos?

Apenas a teimosia de um governo cegado pelo ódio não é capaz de reconhecer o que outros países escolheram para combater a pandemia: as brigadas médicas cubanas. Em uma situação de emergência e crise sanitária como a atual, que ultrapassou totalmente a capacidade local, Áñez está brincando com a vida dos bolivianos por um capricho ideológico.

Qual é realidade da pandemia na Bolívia?

Em linhas gerais, a pouca quantidade de testes realizados nos permite deduzir que as cifras oficiais são pouco confiáveis, de fato. A nível de América Latina, a Bolívia é o país com menor quantidade de testes por milhão de habitantes. No relatório nº 75 da Covid-19, correspondente a 29 de maio, são contabilizados 8.731 casos positivos, 1.089 suspeitos, 749 recuperados e 300 falecidos. Os casos descartados são 18.234.

Os mais de 70 dias de quarentena deveriam ter servido ao governo para garantir testes, material de biossegurança, equipamentos e outras medidas para uma real prevenção e contenção, mas nada disso ocorreu.

O sistema de saúde pública está em péssimas mãos, o caso dos respiradores (ventiladores) é apenas um balão de ensaio. Enquanto isso, o lucro das clínicas privadas é incontrolável: um teste de coronavírus varia entre US$ 100 e US$ 150, e a internação diária para pacientes com Covid-19 está acima de US$ 1.500, o que é uma sentença de morte para a grande maioria dos doentes.

Entre os departamentos mais afetados, é claro, está Santa Cruz, que com cerca de 6.000 casos positivos concentra quase 70% dos casos. Apenas no último sábado, depois de quatro adiamentos e mais de 75 dias de quarentena, e onde Montero é uma das principais fontes de contágio no departamento, foi entregue o hospital de terceiro nível – com 200 camas e 12 leitos de UTI -, concluído há muito tempo. O motivo? Como a obra da gestão de Evo Morales usava tinta azul (MAS), ele precisou ser repintado da cor verde, do partido JUNTOS...

Estamos em um processo político em que a pandemia se converteu no pretexto perfeito para incutir medo nas pessoas e brincar com os números de acordo com a conveniência. A partir desta segunda-feira, 1º de junho, grande parte do país entrará em uma quarentena flexibilizada, cuja evolução é delegada aos governos e cidadãos locais, mas com a clara advertência de que se os números dispararem poderemos retornar a uma quarentena rígida.

Com o debate retomado na data das eleições, as autoridades governamentais fazem as projeções do pico futuro do contágio e, em vez de propor medidas preventivas e seguir protocolos internacionais, pretendem adiar as eleições sem uma data definida.

Diante deste quadro, qual a projeção para as próximas eleições?

O governo não está interessado em eleições, por isso se recusa a fixar uma data para se aferrar ao poder, sabendo que o seu desgaste vai se tornando maior a cada dia que passa, devido à sua incapacidade de lidar com a crise sanitária, pela economia estar entrando em colapso e pelos casos de corrupção que vão sendo descobertos.

Como bem disse Evo Morales em seu Twitter: “O governo golpista, com os Estados Unidos, definiu três objetivos: adiar as eleições indefinidamente, fechar a Assembleia e restaurar a Constituição Política do Estado (CPE) de 1994: querem acabar com os direitos dos setores populares e povos indígenas e impedir investigações de corrupção. A pátria e a democracia em perigo”.

Em 30 de abril de 2020, a presidente do Senado Eva Copa promulgou a Lei 1297 de adiamento da data das eleições, que fixa um prazo de 90 dias a partir de 3 de maio para a realização das mesmas. Imediatamente depois, o poder executivo e alguns senadores da UD apresentaram três recursos de inconstitucionalidade ao Tribunal Constitucional Plurinacional (TCP), que nos últimos dias enviou uma nota ao Senado, onde não determina a inconstitucionalidade da lei, mas um dos três recursos foi parcialmente admitido.

Aos argumentos que o Senado deve enviar ao TCP, haverá um período de até 45 dias para emitir a decisão. Entretanto, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) deveria pronunciar-se sobre a data até 18 de junho, o mais tardar, quando faltem 45 dias para o prazo final.

Temos vários cenários possíveis. No melhor, o TCP agiliza uma resposta nos próximos dias, viabilizando o processo, e o TSE por sua vez se pronuncia oficializando a data máxima para o domingo, 2 de agosto, encerrando assim a incerteza, sendo responsável por aplicar um protocolo de biossegurança para garantir as eleições em uma situação especial de crise sanitária.

No caso de se pronunciar a favor do recurso de inconstitucionalidade, a lei deverá voltar novamente ao Senado para fazer as alterações nas observações. O mandato pode ser estendido até outubro ou novembro deste ano (a eleição e posse de autoridades nacionais deve ocorrer, obrigatoriamente, na gestão 2020).

No terceiro cenário, pode ocorrer a situação extrema de um novo golpe de estado, onde se opte pelo fechamento da Assembleia Legislativa Plurinacional, seja continuando o país sob o comando de Áñez ou, eventualmente, nas mãos dos militares.

Não são os únicos obstáculos, estão em curso a perseguição judicial de nossos líderes e candidatos, há vozes que, desde o Norte (o sanguinário Carlos Sánchez Berzaín, exilado nos EUA e ex-ministro do governo de Goni Sánchez de Lozada), até se atrevem a ameaçar anular a Constituição Política do Estado. Outras tentativas desesperadas visam colocar no debate uma modificação da lei de assentos de representação parlamentar, fatos absolutamente inconstitucionais. O objetivo é prejudicar a representação territorial indígena, retornando a injustiça e a iniquidade histórica anterior.

Sem dúvida, a mobilização e o estado de alerta das organizações sociais e dos setores populares têm a grande tarefa de impedir que estes fatos sejam consumados, pelos quais também apelamos à solidariedade internacional dos povos irmãos e das organizações de direitos humanos.

Não há pior vírus do que este governo golpista. Somente um governo legítimo, eleito democraticamente, poderá nos reconduzir à pacificação e se encarregar das políticas públicas com o bem comum em mente. Temos nossos candidatos: Lucho Arce e David Choquehuanca, os únicos que podem devolver a esperança ao povo.

 

*Publicado originalmente com o seguinte título: Dolores Arce: “Internação com Covid-19 e Áñez na Bolívia equivale à sentença de morte

Em coletiva a mídias alternativas brasileiras, a ministra venezuelana Blanca Eekhout falou sobre a luta contra as agressões imperialistas, o complô midiático e como o país enfrenta de forma exemplar a pandemia do coronavirus

Por Felipe Bianchi

Ministra do Poder Popular para as Comunas e os Movimentos Sociais na Venezuela, Blanca Eekhout concedeu coletiva para mídias alternativas brasileiras nesta quinta-feira (28). Na atividade, organizada pelo Comitê Brasileiro pela Paz na Venezuela e mediada por Altamiro Borges, presidente do Barão de Itararé, a ministra falou sobre a forma heroica com a qual o país e o povo venezuelanos vêm resistindo aos bloqueios econômico e informativo em plena pandemia do coronavírus.

Com apenas 11 falecidos contabilizados até a realização da coletiva, batizada #RodaVivaVenezuela, a ministra explicou como o país tem combatido não apenas o Covid-19, mas também o vírus da desinformação. "No início da pandemia, o New York Times publicou editorial apostando que a Venezuela seria o epicentro do coronavírus", diz, "o que, para eles, provavelmente, justificaria uma invasão". Meses após o editorial do jornalão estadunidense, a Venezuela converteu-se em exemplo de enfrentamento à pandemia em todo o continente. A despeito das acusações de suposta subnotificação ou manipulação, Eekhout explica que há razões bastante concretas para os resultados que o país vem obtendo no combate: "O governo de Nicolás Maduro conclamou a população a um lockdown voluntário e solidário antes mesmo de termos o primeiro caso de contágio no país", conta. Dentre as medidas anunciadas pelo governo, cabe ressaltar o papel assumido pelo Estado em proteger e garantis os direitos e a renda dos trabalhadores.

Para se ter ideia, 98% dos acometidos pelo vírus recebem tratamento no sistema público de saúde. "Além disso, temos a plataforma Pátria, com mais de 19 milhões de cidadãos cadastrados. Eles podem alegar sintomas por meio de aplicativo e o Estado vai até a casa deles fazer a testagem. Caso confirme o diagnóstico de coronavírus, o Estado também cuida do traslado e proteção durante o período de tratamento", descreve. "A maioria esmagadora das unidades públicas de saúde estão nas periferias, fruto do programa Misión Barrio Adentro, idealizado por Hugo Chávez". Na opinião da ministra, por incrível que pareça, "tem sido mais fácil enfrentar o coronavírus que o complô midiático e o bloqueio informativo contra o país".

Com participação dos jornalistas José Reinaldo de Carvalho (Brasil 247), Martha Raquel (Jornalistas Livres), Michele de Mello (Brasil de Fato) e Renato Rovai (Revista Fórum), além da mediação de Altamiro Borges, Blanca Eekhout ainda abordou temas como o enfrentamento aos mercenários e seus planos de desestabilização do país. Assista na íntegra:

Nesta quarta-feira (27), uma surpresa pouco comentada pelos meios de comunicação abalou estudiosos das telecomunicações e da democratização da mídia no Brasil. Sem muitos avisos, o ministro Marcos Pontes do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicação (MCTIC), anunciou a parceria do governo federal com a empresa estadunidense CISCO para a implementação do 5G no Brasil.

Por Theófilo Rodrigues*

A tecnologia 5G é hoje o grande objeto da disputa geopolítica entre os Estados Unidos (com a Cisco) e a China (com a Hauwei). De um lado, a China avança sobre praticamente todo o mundo com sua tecnologia inovadora. Do outro, o Pentágono vê com preocupação a perda de mercado de seu país e, assim, força relações bilaterais duras com seus países "aliados". No meio dessa disputa geopolítica de grandes proporções está o Brasil, que cede abertamente a sua soberania nacional para os interesses dos EUA.

Muitas dúvidas surgem. Se um governo de estado, como o Maranhão, por exemplo, buscar uma parceria com a China e a Huawei para investir em áreas como cidades inteligentes, Internet das Coisas, 5G e Wi-Fi, será impedido? E a indústria nacional será beneficiada com transferências de tecnologia?

Uma decisão sobre a infraestrutura das telecomunicações do país que envolve uma dimensão internacional estrategica como essa não pode ser tomada dentro de um gabinete, longe dos olhos atentos da esfera pública. O apelo que devemos fazer ao ministro Marcos Pontes é o de reconsiderar a decisão da parceria e abrir essa agenda para um longo e transparente debate público com a sociedade civil, especialistas e universidades. Da Câmara de Deputados esperamos que sua Comissão de Ciência, Tecnologia e Inovação convoque imediatamente o ministro para explicações.

Com essa parceria o futuro do Brasil se torna refém de empresas dos EUA. Será que Carlinhos Lyra terá que compor uma nova "Canção do subdesenvolvido"?

*Theófilo Rodrigues é pesquisador e coordenador do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé no Rio de Janeiro

A crise no capitalismo tem sido o modo pelo qual o sistema busca ultrapassar sem limites os entraves no seu modo próprio de gerar e acumular riqueza. Logo no início do século 21, a crise das empresas “ponto com” (bolha da internet) resultou como resposta a introdução de um novo e promissor modelo de negócio que contribuiu para superar o movimento especulativo de altas das novas empresas de tecnologia da informação e comunicação (TIC) assentadas na internet desde 1994.

Após o ano de 2001, muitas empresas “ponto com” sofreram significativo processo transformação, com a quebra e o desaparecimento de algumas, bem como a venda e fusão de outras. Pela centralização e concentração do capital ocorrida no segmento econômico emergente, empresas estadunidenses como Google e Facebook passaram a enriquecer consideravelmente através do modelo de negócio assentado na remuneração dos conteúdos através de cliques na internet. Negócios e dados do mundo das empresas ponto com não caminham sem passar por ali.

Por Marcio Pochman

Com isso, o avanço extraordinário das receitas baseado em anúncios que recompensavam comercialmente a isca do clique trouxe a disseminação viral de informação e, cada vez mais, desinformação. Em consequência, tanto a difusão da cultura de ataques maliciosos e do ódio efervescente, do assédio online e das invasões praticados por empresas e Estados na vida particular dos indivíduos. Também a polarização crescentemente internalizada pela web nas ideias e qualidade do discurso do formato no aparente design benevolente colocado a serviço lucrativo de empresas que operaram o quase monopólio da estrutura de mercado.

Acontece que, sem qualquer regulação, ademais o extraordinário lucro do modelo de negócio das empresas de tecnologia de informação e comunicação, o mundo passou a se encontrar diante da vigilância de negócios gerados por um capitalista monopolista de negócios sem controle.

Na busca incessante de lucros, em meio ao processo de financeirização da riqueza e a selvageria da lógica dos acionistas, a mais importante alteração tecnológica na produção e transmissão do conhecimento encontra-se profundamente ameaçada a serviço de ricos e poderosos que destroem também atualmente a democracia na política.  

Descontruindo Gutemberg

A invenção da máquina de impressão em tipos móveis por Johannes Gutemberg, há mais de cinco séculos, em 1493, tornou-se uma das principais mudanças mundiais ocorrida em todo o segundo milênio. Ela fez parte do período definido por Renascimento Cultural transcorrido na Europa entre os séculos 14 e 16, com intenso intercâmbio de conhecimento em várias áreas artísticas e das ciências, como na astronomia, física e navegação.

Em síntese, a revolução que permitiu superar o tempo natural representado pela forma física e biológica dos organismos vivos, sem validar o uso da técnica e conceber o universo como algo composto de uma mesma matéria uniforme, suscetível à corrosão e à finitude (terrestre e celeste).

A revolução técnica de Gutemberg levou ao avanço da noção do tempo histórico pelo qual a humanidade difundiu cultura e narrativa fundamental para o desenvolvimento da consciência histórica, com registros de acontecimento, conforme havia se expressado Heródoto, o “pai da história” na antiga Grécia. A modernidade que se constituiu em torno da renascença, revolução científica e reforma religiosa do protestantismo teve enorme impacto com a nova técnica de produção e reprodução de textos e livros.

Através dos caracteres móveis e a prensa de imprimir, a cópia manuscrita foi superada, assegurando a circulação massificada de textos e livros. Até então, os registros eram feitos por monges, alunos e escribas, cujo trabalho era longo no preparo e elevado custo, inacessível, em geral, à maioria da população.

Atualmente, as bases materiais que permitiram a modernidade da economia baseada no conhecimento e na disseminação em massa da aprendizagem sofrem inegável transformação gerada pela revolução das tecnologias de comunicação e informação associadas à computação e internet.

Assim como o processo de produção e difusão do conhecimento foi acelerado pela invenção da máquina de impressão, as tecnologias de informação e comunicação multiplicam ainda muito mais, tornando-as tempo real.

Mas sem regulação, a vigilância e o controle imposto pelo modelo de negócios do capitalismo monopolista pode inverter a modernidade do renascimento do passado na pós-modernidade que retrocede à submissão como se estivesse no mundo antigo e medieval. O paradoxo do tempo natural, não mais histórico.

Se estivesse vivo, o Ministério da Cultura (MinC) completaria 35 anos em 2020. Sua certidão de nascimento, o Decreto Nº 91.144, é simbólico: o ex-presidente José Sarney (PMDB) criou a pasta em 15 de março de 1985, dia inaugural de seu governo e da Nova República. O MinC foi um dos primeiros frutos – um filho legítimo e emblemático – da redemocratização do País.

Por André Cintra, no Portal Vermelho

Já seu atestado de óbito, assinado há um ano, atende pelo nome de Medida Provisória Nº 870. Em 1º de janeiro de 2019, poucas horas depois de tomar posse na Presidência, Jair Bolsonaro rebaixou o status administrativo da Cultura – de ministério para secretaria especial – e subordinou suas funções ao Ministério da Cidadania. Em novembro, um novo retrocesso: a pasta foi transferida para o Ministério do Turismo.

Para analisar os impactos da extinção do MinC e do desmonte do setor, o Vermelho ouviu dois gestores que participaram do período de maior expressão do ministério – os 13 anos sob os governos Lula e Dilma. O historiador e gestor de políticas públicas Celio Turino comandou a Secretaria da Cidadania Cultural entre 2004 a 2010, idealizando os programas Cultura Viva e Pontos de Cultura. Já o pesquisador João Brant, militante de cultura e de comunicação, foi secretário executivo do MinC (2015-2016). Confira:

 

Vermelho: Antes de Jair Bolsonaro, houve Michel Temer no caminho da Cultura. Em que medida o atual governo já encontrou um MinC diferente daquele deixado por Lula/Dilma?

Celio Turino: É preciso compreender o impacto das políticas culturais inauguradas sob o governo Lula, com os ministros Gilberto Gil e, depois, Juca Ferreira. Os Pontos de Cultura alcançaram 1.100 municípios, com 3.500 pontos – a maioria em favelas, aldeias indígenas, assentamentos rurais, periferias de grandes cidades a pequenos municípios, atuando desde o campo da cultura popular e de periferia à arte de vanguarda e ao software livre. Essa política pública se disseminou pela América Latina, com reconhecimento de diversos governos e até mesmo do papa Francisco. Hoje, há Pontos de Cultura em 17 países. Houve a consolidação de uma indústria audiovisual no País, gerando centenas de milhares de empregos. No campo da Identidade e Diversidade Cultural, o Brasil foi um dos principais artífices da política de diversidade da Unesco. Conseguimos assegurar ao menos uma biblioteca em cada município, incluindo os rincões mais afastados. Foi criado o Instituto Brasileiro de Museus (Ibram). Enfim, as muitas iniciativas resultaram em um conjunto de políticas inovadoras. Lamentavelmente, a partir de 2011, houve uma descontinuidade dessas políticas, com incompreensões e mesmo desmonte – não na intensidade atual, mas que provocaram uma contínua perda de espaço. Com o governo Temer, houve a tentativa e o recuo na extinção do Ministério da Cultura. Seguiu-se uma gestão sem grandes formulações ou ações merecedoras de destaque, mas também sem grandes destruições – “medíocre” seria a definição mais apropriada. Com o governo Bolsonaro, isso muda, havendo uma política aberta de ódio e destruição à cultura, às artes e ao pensamento.

João Brant: Desde o governo Temer, o ministério já vinha em um processo de grande enfraquecimento. A “PEC do Teto dos Gastos” (Emenda Constitucional 95, sancionada em 2016) comprimiu muito o espaço dos ministérios que dependem de orçamento discricionário, como a Cultura, que não tem despesas definidas como obrigatórias. Em relação às políticas públicas, houve a desmontagem do programa Cultura Viva, uma ação que foi assumida pelo (ex-ministro) Sérgio de Sá Leitão numa entrevista. O audiovisual foi marcado por uma política errada da direção da Ancine (Agência Nacional do Cinema), com o Christian de Castro e seu discurso populista, de agrado ao TCU (Tribunal de Contas da União). Isso prejudicou muito as condições de realização da política do audiovisual. Mas a decisão do Bolsonaro de acabar com o Ministério da Cultura e a forma como ele indicou seus gestores revelam um passo realmente adiante em relação ao que era o governo Temer.

Vermelho: Por que é importante que a Cultura tenha status ministerial?

Celio Turino: Cultura é o que define uma nação. Assim como há as fronteiras físicas de um pais – que devem defendidas pelas Forças Armadas e pelo Ministério da Defesa –, há a fronteira imaterial, a alma dos povos, suas formas de ser, pensar e agir. A defesa dessa fronteira intangível cabe ao Ministério da Cultura. Desguarnecê-la equivale a crime de lesa-pátria. Na América Latina, até o ano passado, apenas dois países não tinham ministérios da Cultura: o Panamá contava com um instituto, e a Argentina, com uma secretaria, em função das políticas neoliberais de Mauricio Macri. Quando da vitória da esquerda nesses dois países, a primeira medida dos novos presidentes foi a criação dos respectivos ministérios da Cultura. No Panamá, país com menos de 5 milhões de habitantes, houve a elevação do orçamento em mais de sete vezes – de US$ 40 milhões para US$ 300 milhões. Hoje, com o governo Bolsonaro, o Brasil é o único país da América Latina a não contar com um ministério da Cultura.

João Brant: A primeira questão é a perda de relevância da Cultura. O rebaixamento de status do MinC carrega, obviamente, um rebaixamento da importância relativa da Cultura perante as outras áreas. Se não fosse para gerar isso, não tinha porque a mudança acontecer, já que a economia de recursos é mínima. Esse rebaixamento impacta na dificuldade de acesso direto às áreas centrais do governo (Presidência da República e Ministério da Economia), bem como ao Congresso Nacional. Impacta também na perda de lugar de fala pública do responsável pela pasta. O segundo prejuízo vem na forma de perda de capacidade administrativa. Embora a economia em termos de pessoal seja mínima – se considerado o orçamento geral –, ela afeta a capacidade de o ministério processar seus convênios e termos de cooperação e de fomento. Nesse quadro, a Cultura tem de competir por espaço e prioridade internamente ao ministério. A terceira é a perda de autonomia orçamentária. Além da batalha no âmbito do Ministério da Economia e do Congresso Nacional, a Cultura tem de manter uma batalha permanente dentro do ministério – antes o da Cidadania, agora o do Turismo. Considerando que o teto de gastos públicos rebaixa consideravelmente os recursos para a Cultura, a secretaria especial teria de lutar muito para a pasta poder efetivar políticas públicas que vão além de abrir e fechar seus equipamentos.

Vermelho: Passado um ano do governo Bolsonaro, como estão as políticas culturais no País? Quais as perspectivas para 2020 e o restante do mandato de Bolsonaro?

Celio Turino: Declarações grotescas, censura à livre manifestação artística, insultos e ofensas a artistas, pensadores e grupos étnicos, ódio e destruição à Cultura. Além disso, não houve nada que mereça destaque. O que esperar? Aprofundamento do ódio e da destruição.

João Brant: O quadro já é trágico. Em junho passado, ao participar de um debate sobre a questão da Cultura, eu disse: “Tudo indica que a coisa está ruim, mas pode piorar bastante”. E o segundo semestre de 2019 mostrou que havia muito espaço para piorar. Fazíamos uma certa divisão entre políticas de investimento e fomento, de um lado, e políticas de manutenção de espaços e de atuação institucional do ministério, de outro. As políticas que dependem de fomento já estavam às traças, por falta de recursos. Mas ainda não tínhamos visto o peso do enfraquecimento do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), do Ibram, da Fundação Biblioteca Nacional, da Fundação Cultural Palmares, etc. Apesar dos equívocos na condução desses espaços, não havia uma deterioração dessas políticas que são (digamos assim) mais permanentes do ministério. Agora, vemos uma combinação entre a negligência do Bolsonaro com a Cultura e a postura de seus gestores – que não estava tão clara em meados do ano passado, mas já está afetando os espaços institucionais. A indicação desses gestores – como o Roberto Alvim (para secretário especial da Cultura) e o Sérgio Camargo (para a presidência da Fundação Palmares) – representa a destruição no discurso e na prática. Eles chegam para destruir uma perspectiva de política cultural. O caso da Ancine é mais preocupante por se tratar do único espaço que ainda tem recursos significativos para a realização de políticas, graças à arrecadação da Condecine (Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica). Essa política vai afetar mais fortemente o audiovisual neste ano. Espero estar errado, mas talvez vejamos a destruição do pouco que ainda resta de política cultural no Brasil. Vamos ver, por exemplo, o sufocamento do Ipham e da política institucional de patrimônio, da Biblioteca Nacional, dos diferentes ambientes e espaços de atuação do ministério. Todos os fatos apontam nessa direção, e as perspectivas para 2020 são muito negativas.

Vermelho: Como reagir?

Celio Turino: Com muita criatividade, arte e afeto, muita proximidade com o povo. E com muita coragem e determinação para ir às ruas e exigir a anulação das eleições de 2018, por fraudadas que foram, seja pela manipulação golpista de instituições de Estado e pela desinformação promovida pela mídia corporativa; seja pelos abusos do poder econômico, pela disseminação da cultura do ódio e fake news pelas redes sociais, agravada pela submissão a interesses de potências imperialistas; seja pela entrega do Brasil a um projeto neocolonial, pelos incontáveis crimes de improbidade cometidos pelo presidente e assessores e pela vinculação com o submundo do crime. Há muitos motivos para exigir o fim deste desgoverno de traição nacional. No Chile, nossos irmãos estão mostrando o caminho. Lá, nas manifestações pelo “Fora, Piñera”, os artistas e movimentos de cultura viva comunitária estão na vanguarda das manifestações – sempre com muita arte e ações performáticas, que agregam milhares de pessoas. É como acontece com o novo brado feminista, que alcança o mundo: “El violador eres tú” (O estuprador é você). Tenho muitos amigos por lá, artistas, palhaços (uma delas foi assassinada pela repressão policial – ou “pacos”, como eles chamam os carabineros), teatreros, músicos, animadores culturais… Diariamente, eles desafiam a repressão violenta com novas formas de protesto, que têm por base a arte e a cultura. O Chile está mostrando o caminho e cabe aos demais povos da América do Sul apoiá-los e acompanhar seu exemplo sempre que houver um governo opressor. Fora esse caminho, só vejo tristeza, humilhação e destruição. Já basta o tempo de tristeza no Brasil!

João Brant: Se apenas a área da Cultura tivesse uma política extremamente negativa e o restante do governo fosse razoável, poderíamos ver hoje um ambiente central de reação na Cultura. Mas não é isso que está acontecendo. O governo Bolsonaro combina um ultraliberalismo econômico, um ultraconservadorismo moral e comportamental, além da entrega total das riquezas nacionais a uma pequena parte da sociedade. Estamos lidando com uma minoria – mas é uma minoria organizada contra uma maioria dispersa. A Cultura simplesmente repete esse padrão. A reação depende, antes de tudo, de uma organização daqueles que foram diretamente afetados. Pode ocorrer reação efetiva diante das perdas em questões estratégicas, como o enfraquecimento do Fundo Setorial do Audiovisual e as ações mais graves no âmbito do Iphan e das fundações. Fora disso, pior: vamos ver uma destruição completa. Daria para reagir melhor, com mais força, num ambiente político em que essas questões pudessem ser sentidas de forma especialmente graves. Quando você não percebe os efeitos de imediato, é muito difícil haver uma reação que faça a panela transbordar. A não ser que isso vá se acumulando, como ocorreu no Chile recentemente.

Assista em tempo real ao Seminário Os desafios da comunicação nas administrações públicas, direto de Salvador, na Bahia. Serão dois dias (29 e 30 de novembro) de muita troca de ideias sobre as experiências e os desafios da comunicação nos governos progressistas, reunindo debatedores de peso de todo o país. Você pode acompanhar pelo Canal do Barão no YouTube (com reprodução em nosso site) ou direto na página do Barão no Facebook: facebook.com/baraomidia.

A cultura para a emancipação humana

• Célio Turino – ex-secretário de Cidadania Cultural do MinC;
• Ivana Bentes – diretora e professora da Escola de Comunicação da UFRJ;

- Coordenação da mesa: Mauro Lopes

O futebol das mulheres ganha o planeta como nunca antes em sua história

Grande dia!
Grande dia de verdade e não o externado pelo boçal que ocupa desastradamente o posto mais alto do executivo brasileiro.

Hoje é um grande dia porque tem início a oitava edição da Copa do Mundo de Futebol Feminino! A anfitriã França abre a competição diante da Coréia do Sul a partir das 16h00 – horário de Brasília – e além da ansiedade pelo ponta pé deste jogo temos muito o que comemorar em termos de visibilidade.

Por Lu Castro, especial para o Barão de Itararé

Há pouco mais de dez anos, assumi uma responsabilidade pessoal: utilizar a tecnologia em favor da visibilidade das mulheres que faziam a bola rolar pelos campos da cidade. Minha primeira busca foi no Juventus, formador por excelência, e sua técnica Magali.

O material, publicado no antigo portal OléOlé, já se perdeu, mas, de lá para cá, perda deixou de ser sinônimo de mulher dentro e fora das quatro linhas.

Avançamos. E os contatos com os principais agentes da modalidade se intensificaram. E espaços alternativos começaram a surgir com mais força na busca pelo tratamento igualitário do futebol de mulheres e homens – ao menos no que diz respeito ao que se noticia, inicialmente.

Observando a movimentação da imprensa nacional, noto um grande cuidado ao tratar do assunto, diferente de muitos outros anos. Acredito que esteja diretamente relacionado ao número de mulheres presentes em redações esportivas, algo que apontei como imprescindível para a melhora na comunicação do futebol de mulheres em mídias tradicionais.

Avançamos. E avançamos noutros tantos aspectos do futebol, inclusive na gestão, onde o trabalho realizado pela ex capitã da seleção, Aline Pellegrino, como diretora de futebol feminino da Federação Paulista de Futebol, tem ampliado os espaços para trabalhar as categorias de base.

Avançamos. A seleção brasileira tem uma estrutura que nunca teve. A seleção brasileira conta com uniforme próprio e não sobra do uniforme masculino. A seleção tem seus jogos transmitidos de modo inédito em tevê aberta de alcance nacional. A seleção só não tem uma coisa: técnico.

E isso, car@s, é algo que me preocupa tanto quanto me alegra: o fato de termos a Copa do Mundo mais noticiada de todos os tempos.

Diante de uma seleção nacional que caiu no ranking FIFA nos últimos anos, sob o comando de alguém que não tem perfil para comandar o selecionado nacional em nenhuma circunstância – e já o demonstrou em outras ocasiões - que carrega para a França nove derrotas consecutivas, minha expectativa é de termos que reforçar nosso discurso e argumentar como nunca que o que eles (os espectadores desconhecedores da realidade do futebol feminino) estão vendo não é bem isso.

Num momento, em que os olhos do mundo estão voltados para a amarelinha tão conceituada um dia, mostrar um jogo baseado apenas na garras das nossas habilidosas e talentosas atletas, tem sido o protagonista dos meus pesadelos.

Tudo o que lutamos para construir – atletas, gestores, comissões técnicas sérias, jornalistas interessados no assunto – pode sofrer um revés de opinião pública se o coletivo não estiver bem arrumado. E nós sabemos que não está.

Há poucas horas da abertura do mundial mais importante de todos os tempos, vou da euforia e ansiedade que mal me deixou dormir a testa constantemente franzida de preocupação.

Avancemos pois, nossas atletas se entregarão e é muito provável que nos jogos do Brasil o que avance é o nível da gengibrinha pra dar conta da montanha russa de emoções.

Uma mulher registra um boletim de ocorrência acusando um homem por estupro. Em depoimento, descreve que o parceiro teria ficado subitamente agressivo e usado da violência para praticar relação sexual sem seu consentimento. O laudo médico, anexado ao caso, apresenta sinais físicos de agressão e estresse pós-traumático. Em resposta, o homem acusado desmente a história publicamente, argumentando que o episódio não passou de “uma relação comum entre um homem e uma mulher”.

Por Mariana Pitasse, no Brasil de Fato

Esse poderia ser apenas mais um entre os cerca de 135 casos de estupro registrados por dia – que equivalem a cerca de 10% a 15% dos abusos que acontecem diariamente no Brasil, segundo levantamento do Atlas da Violência de 2018. Mas não é um episódio qualquer. O homem acusado é Neymar, um dos jogadores de futebol mais bem pagos do mundo. Por isso, o caso tomou as páginas dos jornais dentro e fora do Brasil nos últimos dias, com ampla repercussão nas redes sociais.

Após a denúncia registrada contra o jogador do Paris Saint-Germain na última sexta-feira (31), a acusadora foi exposta de diferentes formas – pela mídia comercial e pelo próprio Neymar. Para "sensibilizar" a opinião pública, o jogador postou um vídeo em suas contas do Instagram e do Facebook em que diz ser inocente. Ao tentar “comprovar” sua versão dos fatos, divulgou conversas que manteve com a mulher pelo Whatsapp, assim como fotos e vídeos íntimos da acusadora. A ação fez com que o jogador passasse a ser investigado também pelo vazamento de fotos íntimas.

A divulgação do conteúdo não foi um equívoco e, sim, uma escolha. Neymar preferiu cometer um crime virtual para tentar dialogar com pessoas que concordam com a ideia de que uma mulher que envia fotos íntimas pela internet é necessariamente "aproveitadora" e "interesseira".

O que está sendo ignorado nessa leitura rasa proposta pela defesa de Neymar é que a intimidade exposta para milhões de pessoas não diz nada sobre a acusação de estupro. Como lembra a antropóloga Débora Diniz, o que circula é a versão de um homem poderoso que se ancora em elementos do fascínio pelo sexo e na desqualificação fácil das mulheres vítimas de violência sexual. E essa é também a narrativa em que tem se amparado a cobertura da mídia comercial sobre o caso. Mesmo sem afirmar que estão assumindo uma posição, jornalistas passaram o recibo de que a acusadora está tentando se aproveitar do “menino” Neymar.

Entre as reportagens que tomaram conta do noticiário brasileiro nos últimos dias, a matéria Jornal Nacional – no dia seguinte à divulgação das conversas – foi a que mais repercutiu. Ela traz um panorama sobre o caso e ressalta o depoimento de um ex-advogado da mulher afirmando que o estupro não aconteceu. A reportagem também divulga o nome da nova advogada de defesa da mulher, ainda que ela não tenha dado autorização para isso, desrespeitando um princípio básico do jornalismo: a garantia de sigilo das fontes. Na mesma reportagem, sem mostrar as fotografias e vídeos do corpo da mulher, divulgados por Neymar, são expostas frases soltas da conversa em que o jogador aparece enredado em um jogo de sedução.

Em outra reportagem, desta vez publicada no Jornal de Brasília, a mulher tem a vida financeira e judicial revirada. O texto aponta que ela tem uma ação de despejo em seu nome, após três meses de aluguel atrasado, e que acumula dívidas. A reportagem também disponibiliza o nome completo da mulher e detalha suas contas a pagar.

A invasão de privacidade promovida por jornalistas com a justificativa de mostrar a “real versão dos fatos” não terminou por aí. Em reportagem publicada pelo jornal O Globo, a família da mulher é procurada e sua mãe é informada sobre o caso a partir da abordagem da repórter. Dias depois, uma matéria veiculada pelo portal UOL evidencia que o filho da mulher, de cinco anos, está sofrendo com chacotas na internet e na escola por conta da repercussão do caso.

Mais do que a intimidade revirada e exposta em fotos e vídeos íntimos e informações detalhadas sobre sua situação financeira, a mulher teve sua versão dos acontecimentos contestada a todo tempo, de forma pública, inclusive por seu ex-advogado. Mas isso não é levado em consideração, porque tudo parece legítimo quando a motivação é “dar o furo” de reportagem. Na lógica do jornalismo, é necessário apresentar respostas antes mesmo das investigações. Tudo isso com base na “isenção e na imparcialidade”, ainda que à serviço da versão do jogador milionário…

Neymar, por outro lado, segue a rotina de treinos, jogos e compromissos publicitários, blindado por seu estafe. A presença dele está confirmada no jogo amistoso do Brasil contra o Qatar nesta quarta-feira (5).

Paris Saint-Germain e Seleção Brasileira se esquivam de comentar o caso. Familiares e amigos se pronunciam publicamente garantindo que ele é inocente e vítima de uma armadilha. A preocupação maior parece vir dos patrocinadores: ao menos quatro das 10 marcas manifestaram incômodo com o caso, segundo levantamento da Folha.

Comprovada ou não a acusação, a sentença já está dada: a mulher é sempre a ponta vulnerável. Não à toa, segundo o Atlas da Violência, são cerca de 1300 estupros por dia no país – dos quais apenas 135 são notificados.

*Jornalista, editora do Brasil de Fato no Rio de Janeiro e doutoranda em Antropologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF).

Edição: Daniel Giovanaz