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OEA OAS / Flickr

Internacional

Nesta entrevista exclusiva, o líder camponês e indígena David Choquehuanca, candidato à vice-presidência da Bolívia pelo Movimento Ao Socialismo – Instrumento Político para a Soberania dos Povos (MAS-IPSP) denuncia “o assalto ao lítio, recurso natural estratégico do qual o país tem a maior reserva do planeta, como o que está por detrás da deposição do presidente Evo Morales”. Chanceler do país andino de 2006 até 2019, o dirigente assevera que a ação militar e a fraude com a participação da Organização dos Estados Americanos (OEA) são dois lados da mesma moeda do “golpe planificado, financiado e orquestrado pelos Estados Unidos, que pôs a saúde, a economia e a política da Bolívia em estado de coma”. Diante do desastre que será herdado após as eleições, Choquehuanca defende que “o próximo governo deve ser um governo de unidade nacional”, para se combater a descolonização e voltar “a industrializar os nossos recursos naturais, de lhes dar valor agregado e redistribuir seus benefícios ao nosso povo”.

Por Leonardo Wexell Severo

Qual a sua avaliação da grave crise que atravessa a Bolívia, dirigida por um governo que tomou o poder de assalto em novembro do ano passado?

Os bolivianos e bolivianas estamos vivendo dias de tristeza, de pranto e perseguição. Desde o golpe de Estado nada está bem, tudo anda mal. Nossa saúde está em estado de coma, não somente pela crise sanitária, mas a saúde econômica, a saúde política, a saúde social.

Para enfrentar a crise sanitária nos disseram que iriam comprar 500 respiradores que nunca chegaram. Apareceram somente 170 respiradores que não servem, que não funcionam e ainda foram superfaturados. Nos informaram que cada um deles custaria US$ 8 mil (R$ 41.700) colocados na Bolívia, pelos quais pagaram US$ 28 mil (R$ 146 mil). É muita corrupção! Estamos falando de quase 70 casos de corrupção nestes poucos meses, e são inúmeros os exemplos. Máscaras que custam no mercado entre 9 e 13 bolivianos (R$ 6,50 e R$ 10,00) foram compradas por 80 bolivianos (R$ 60,00). Não há equipamentos de biossegurança nem testes suficientes, nem reativos para o coronavírus.

“A quarentena está sendo utilizada para desatar uma campanha de terror, de amedrontamento, para calar a liberdade de expressão e os líderes”

A quarentena está sendo utilizada para desatar uma campanha de terror, para desatar uma campanha de amedrontamento, para calar a liberdade de expressão, para perseguir os líderes, para meter medo. Há muita corrupção. Há muita improvisação.

E o que se pode fazer para combater esta pandemia que também ataca a democracia, como estás denunciando?

O que o povo está fazendo é se auto-organizar. Estamos nos organizando com a participação das associações comunitárias e dos movimentos sociais porque sabemos que não interessa ao governo atual a saúde, não interessa a democracia, os recursos naturais e o fortalecimento das nossas empresas estratégicas.

Diante disso, o que o povo boliviano está fazendo é se auto-organizar. Há um processo de despertar de consciência, de despertar dos bairros e das comunidades. Esta crise está permitindo o surgimento de novas lideranças, de novos atores e é bem importante que possam trabalhar junto, que tenham amor ao seu povo, que tenham amor à sua Pátria, que tenham compromisso com a justiça social, com a saúde do povo boliviano.

Acredito que este momento sombrio de incertezas e de corrupção também é uma oportunidade para refletir, gerar propostas, encarar esta crise conjuntamente, superando todos os erros que tenhamos cometidos no passado.

Em seu diálogo com os bolivianos está sempre presente a cultura da unidade contra a divisão praticada pelas elites, que servem aos interesses das transnacionais e do FMI. Como romper com a lógica da dependência?

Esta crise está sendo vivida não somente pelos bolivianos, mas por irmãos de todo o continente e de todo o mundo. Então é hora de trabalhar de forma conjunta problemas que são globais. Nenhum país tem a capacidade de enfrentar de forma isolada problemas gerados por este modelo de desenvolvimento capitalista ocidental. E hoje vivemos as consequências da sua aplicação: pobreza e crise.

“O colonialismo não se construiu somente na Bolívia e se fez para nos humilhar, marginalizar, esmagar, pisotear, dividir, para saquear nossos recursos naturais”

Quando chegamos ao poder começamos um processo de desmontagem deste Estado colonial que nos trouxe tanto mal. O colonialismo não se construiu somente na Bolívia e se fez para nos humilhar, marginalizar, esmagar, pisotear, dividir, para saquear nossos recursos naturais. Esse colonialismo foi construído durante 500 anos e nós decidimos desmontá-lo. Decidimos construir o que é nosso, com pensamento próprio, com pensamento descolonizador. Por isso falamos de processo de mudanças, porque queremos transformar, construir uma nova Bolívia, uma nova vida, uma nova sociedade. E construir novamente a integração, a unidade, a liberdade, fortalecer nossa soberania.

E quando estamos falando em construir a integração, a unidade e a irmandade, não me refiro somente aos seres humanos. Buscamos voltar a ser este ser humano integral, parte da natureza. Pensar não somente em nós mesmos, mas em tudo o que existe. Por isso dizemos que é bem importante voltar a ser Jiwasa, que frente à crise global do capitalismo, é preciso recolher outros valores e princípios, aos que resistiram durante 500 anos. Estamos falando de Jiwasa, que é um código, um princípio que nossos avós preservaram, que são as culturas milenares. Não sou eu, somos nós. Jiwasa é a morte do egocentrismo e do antropocentrismo, pensar na cultura da vida, da unidade, da paz, da irmandade e da harmonia.

O que estás defendendo se contrapõe frontalmente à declaração de Elon Musk, o CEO da Tesla, do “golpearemos a quem queiramos”, que assumiu sua intervenção recentemente na Bolívia. Como avalias isso?

Assim pensam eles. Todos os países que possuímos recursos naturais corremos o risco de receber a intervenção destas transnacionais. O mundo foi infectado pela cobiça, não só pelo coronavírus, mas pela ambição pessoal e pelo individualismo. Estas transnacionais não pensam na vida, não pensam em nossos povos.  As declarações deste senhor mostram que o golpe foi planificado, financiado e orquestrado pelos Estados Unidos. Este golpe não foi só contra a nossa democracia, mas contra todo o nosso continente, foi dirigido contra esse processo de mudanças que denominamos Revolução Cultural e Democrática. O golpe foi dirigido contra o processo de descolonização, contra a decisão de industrializar nós mesmos nossos recursos naturais, de lhes dar valor agregado, de redistribuir seus benefícios para toda a população. O golpe foi à luta contra a pobreza. Estávamos num processo de ataque sistemático para que não houvesse pobres, com resultados conhecidos pela comunidade internacional. Mas não só o senhor Elon Musk nos mostrou que este golpe foi financiado, também Richard Black [senador republicano] admitiu que Trump promoveu o golpe.

“Estão atrás dos nossos recursos. No caso do lítio, a Bolívia possui a maior reserva deste recurso estratégico energético do planeta. Para isso precisam nos esquartejar”

Ou seja, são interesses das transacionais que estão atrás dos nossos recursos. No caso do lítio, a Bolívia possui a maior parte deste recurso estratégico energético do planeta. Não querem que nossos povos manejem seus recursos estratégicos, e para isso precisam nos dividir e esquartejar. Utilizam para isso organismos internacionais e não faltam quem se preste a esses interesses obscuros, neste caso a esses interesses brancos.

O senhor Luis Almagro [secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA)], por exemplo, tem sido o principal operador do golpe. Ocorreram quase 40 mortes, há muitos presos e estamos vendo as consequências do golpe de Estado. Há muita fragilidade nas instituições e um processo de desinstitucionalização, mas o importante é que o povo boliviano saiba que este golpe veio de fora, não houve fraude. A fraude foi feita pela OEA, que danificou nossa democracia. Seguramente estes fatos não podem ficar impunes, temos que fazer algo.


E o que fazer agora para que ocorram eleições livres e limpas e que se respeitem os resultados? Como evitar que se cometa uma nova fraude como a realizada por Almagro, que atuou como agente desestabilizador?

É importante o acompanhamento da comunidade internacional e que nossos povos se organizem e construam a unidade; que a esquerda possa contribuir para a construção de uma só frente, da unidade com os movimentos sociais. É importante escutar os nossos povos, dialogar.

Os mineiros necessitam escutar os professores, os professores precisam escutar os médicos, os médicos precisam escutar os policiais, os policiais precisam escutar os artistas. As lideranças necessitam escutar suas comunidades e fazer o que nossos povos querem: a última palavra deve ser a dos nossos povos, que são sábios. Dizem que a voz do povo é a voz de Deus, é construir unidade, é construir compromisso com a comunidade. É deixar de lado os interesses pessoais ou setoriais, é deixar de lado inclusive os interesses partidários e nos colocar a serviço dos nossos povos.

É hora de pensar no país e tomar decisões não somente em função do poder político, econômico ou cultural. Temos que acreditar em nossos povos. Os líderes têm que acreditar no povo, escutar os seus povos. Só assim vamos superar qualquer crise, venha de onde vier. Não somente temos que nos organizar para participar das eleições. Os sujeitos da construção, da irmandade, do fortalecimento das nossas democracias, os sujeitos que queiram construir nossa democracia, proteger nossos recursos naturais, têm que ser o povo. Neste caso, os mineiros, os aimarás, os quéchuas, os operários, o povo trabalhador.

Não devemos deixar a condução de um país somente nas mãos de burocratas. As decisões políticas têm que ser adotadas com a participação de todos e todas, de todos os movimentos sociais, do povo. Logo virão os burocratas, mas para levar adiante as decisões que tenham sido tomadas com plena participação dos nossos povos.


Há muitas denúncias de que o governo de Jeanine Áñez tem instrumentalizado os meios de comunicação e silenciado os que não se submetem à sua política. O que está ocorrendo?

É importante fortalecer o direito de acesso à informação. Muitos dos meios de comunicação foram cúmplices do golpe de Estado, outros perseguidos, manipulados ou calados. É necessário que a mídia fale a verdade. Hoje os meios não informam, fazem publicidade, e isso é decepcionante e triste. Uns poucos resistem e jogam o seu papel, como a Telesul, que foram fechados no país. Porque este é um governo que persegue a liberdade de expressão e a liberdade de imprensa. Querem prender e amedrontar. Em nosso código temos uma palavra que significa obrigação de dialogar, obrigação de comunicarmos, necessitamos ter um povo informado.


Com o Arce como ministro da economia, a Bolívia foi durante vários anos o país com maior crescimento do PIB da América Latina, baseado fundamentalmente no desenvolvimento do mercado interno. Como seu vice-presidente, o que fazer para seguir esse caminho e aprofundar o modelo de mais salário, empregos e direitos, tendo consciência de que vão herdar um país devastado e em meio a uma pandemia?

Primeiro precisamos nos organizar e ganhar as eleições. Depois governar sem revanchismo, convocando todos os bolivianos. O próximo governo deve ser um governo de unidade nacional, de reconciliação, de concertação. O país que vamos herdar estará um desastre, não somente pela situação interna, mas pela externa.

“Nosso governo deve ser um governo de unidade nacional, de reconciliação, de concertação, pois o país que vamos herdar estará um desastre, não somente pela situação interna como externa”

Dizem que a próxima pandemia se chamará “pandemia da fome” e os organismos internacionais responsáveis por esses dados falam que morrerão diariamente 300 mil pessoas devido à fome. Será um desafio não só para os bolivianos, mas para o mundo.

Juntos teremos que enfrentar qualquer situação de crise, somente assim poderemos recuperar a estabilidade econômica. Necessitamos um modelo de Estados fortes, como tem dito a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) e afirmado vários outros organismos. Agora, mais do que nunca, precisamos de Estados fortes para enfrentar qualquer crise depois da pandemia.


O MAS-IPSP investiu recursos no fortalecimento do Estado, na formação e na capacitação, medidas que foram sendo desmanteladas pelo atual governo. Por onde recomeçar?

A Bolívia está estancada. Necessitamos colocar nosso Estado em movimento, colocar o nosso país e nossa nação em movimento, e para isso precisamos de um amplo acordo entre todos os bolivianos, priorizar e identificar ações conjuntas.

A agricultura é um ponto que necessita atenção, para garantir a alimentação da população. Em segundo lugar, precisamos de investimento na educação. Claro que vamos continuar construindo rodovias, investindo na infraestrutura, completando tudo o que já estava se fazendo para integrar o país. E também precisamos investir no comércio exterior. Tudo deve ser feito em função dos interesses dos bolivianos. Precisamos estar orientados fundamentalmente pela cultura da vida, da unidade e da integração. Necessitamos construir esperanças e certezas.


Uma mensagem a esses mais de 200 mil bolivianos que vivem no Brasil, 45 mil eleitores que garantiram mais de 70% dos votos no MAS nas últimas eleições.

Um dia os bolivianos e os brasileiros precisarão apagar nossas fronteiras. Um dia vamos ter que construir integração, unidade, para poder falar de igual para com a China, com a União Europeia ou qualquer um. Porque isolados não poderemos falar de igual para igual com outros continentes. Assim como necessitamos construir unidade na Bolívia, necessitamos construir irmandade no nosso continente. E lutar para garantir todos os direitos no continente, para nossos irmãos bolivianos que estão no Brasil e em outros lugares.

Tudo é para que possamos construir nossos sonhos, em nossa terra. Para que nós bolivianos possamos sair, entrar, decidir onde queremos viver. Porém em condições dignas, onde se respeitem nossos direitos trabalhistas, nossos direitos humanos. Por isso é importante a construção da unidade, da irmandade. E nós bolivianos vamos recuperar a nossa democracia, que hoje está em risco. Nossos recursos naturais, nossa educação, nossa saúde, nossas empresas  estão em risco.

Acredito que nós bolivianos, os que estão fora e os que estão aqui dentro, vamos recuperar o nosso caminho, retomar o processo de transformações e construir novamente a estabilidade e a irmandade. Um dia nossos povos e nós mesmos vamos nos governar. E nos governarmos é devolver às nossas organizações e às nossas comunidades a capacidade de resolver os problemas, e não esperar que outros os resolvam por nós.

Este processo é para despertar a energia comunal, para acreditar em nós mesmos, governar a nós mesmos, governar com leis feitas por nós mesmos, para defender o interesse da nossa pátria, da nossa nação.

Uma guerra não se faz só com militares. Antes das tropas, circulam as ideias. É preciso conquistar corações e mentes para justificar o terror, a destruição e as mortes causadas pela guerra. E ai entra a mídia para criar o clima. A guerra midiática contra a Venezuela é antiga, de Chàvez. Às vezes se retrai um pouco, para depois voltar com mais força. Foi o caso deste fim de semana, por obra da CNN Brasil.
 
No quadro #DeOlhoNaMidia desta terça-feira, 21 de julho, o jornalista e professor Laurindo Leal Filho analisa como reportagem da emissora estadunidense, mas falada em português, move mais uma peça no xadrez da chamada guerra híbrida contra o país irmão.
 
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Nesta quarta-feira (27), uma surpresa pouco comentada pelos meios de comunicação abalou estudiosos das telecomunicações e da democratização da mídia no Brasil. Sem muitos avisos, o ministro Marcos Pontes do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicação (MCTIC), anunciou a parceria do governo federal com a empresa estadunidense CISCO para a implementação do 5G no Brasil.

Por Theófilo Rodrigues*

A tecnologia 5G é hoje o grande objeto da disputa geopolítica entre os Estados Unidos (com a Cisco) e a China (com a Hauwei). De um lado, a China avança sobre praticamente todo o mundo com sua tecnologia inovadora. Do outro, o Pentágono vê com preocupação a perda de mercado de seu país e, assim, força relações bilaterais duras com seus países "aliados". No meio dessa disputa geopolítica de grandes proporções está o Brasil, que cede abertamente a sua soberania nacional para os interesses dos EUA.

Muitas dúvidas surgem. Se um governo de estado, como o Maranhão, por exemplo, buscar uma parceria com a China e a Huawei para investir em áreas como cidades inteligentes, Internet das Coisas, 5G e Wi-Fi, será impedido? E a indústria nacional será beneficiada com transferências de tecnologia?

Uma decisão sobre a infraestrutura das telecomunicações do país que envolve uma dimensão internacional estrategica como essa não pode ser tomada dentro de um gabinete, longe dos olhos atentos da esfera pública. O apelo que devemos fazer ao ministro Marcos Pontes é o de reconsiderar a decisão da parceria e abrir essa agenda para um longo e transparente debate público com a sociedade civil, especialistas e universidades. Da Câmara de Deputados esperamos que sua Comissão de Ciência, Tecnologia e Inovação convoque imediatamente o ministro para explicações.

Com essa parceria o futuro do Brasil se torna refém de empresas dos EUA. Será que Carlinhos Lyra terá que compor uma nova "Canção do subdesenvolvido"?

*Theófilo Rodrigues é pesquisador e coordenador do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé no Rio de Janeiro

A crise no capitalismo tem sido o modo pelo qual o sistema busca ultrapassar sem limites os entraves no seu modo próprio de gerar e acumular riqueza. Logo no início do século 21, a crise das empresas “ponto com” (bolha da internet) resultou como resposta a introdução de um novo e promissor modelo de negócio que contribuiu para superar o movimento especulativo de altas das novas empresas de tecnologia da informação e comunicação (TIC) assentadas na internet desde 1994.

Após o ano de 2001, muitas empresas “ponto com” sofreram significativo processo transformação, com a quebra e o desaparecimento de algumas, bem como a venda e fusão de outras. Pela centralização e concentração do capital ocorrida no segmento econômico emergente, empresas estadunidenses como Google e Facebook passaram a enriquecer consideravelmente através do modelo de negócio assentado na remuneração dos conteúdos através de cliques na internet. Negócios e dados do mundo das empresas ponto com não caminham sem passar por ali.

Por Marcio Pochman

Com isso, o avanço extraordinário das receitas baseado em anúncios que recompensavam comercialmente a isca do clique trouxe a disseminação viral de informação e, cada vez mais, desinformação. Em consequência, tanto a difusão da cultura de ataques maliciosos e do ódio efervescente, do assédio online e das invasões praticados por empresas e Estados na vida particular dos indivíduos. Também a polarização crescentemente internalizada pela web nas ideias e qualidade do discurso do formato no aparente design benevolente colocado a serviço lucrativo de empresas que operaram o quase monopólio da estrutura de mercado.

Acontece que, sem qualquer regulação, ademais o extraordinário lucro do modelo de negócio das empresas de tecnologia de informação e comunicação, o mundo passou a se encontrar diante da vigilância de negócios gerados por um capitalista monopolista de negócios sem controle.

Na busca incessante de lucros, em meio ao processo de financeirização da riqueza e a selvageria da lógica dos acionistas, a mais importante alteração tecnológica na produção e transmissão do conhecimento encontra-se profundamente ameaçada a serviço de ricos e poderosos que destroem também atualmente a democracia na política.  

Descontruindo Gutemberg

A invenção da máquina de impressão em tipos móveis por Johannes Gutemberg, há mais de cinco séculos, em 1493, tornou-se uma das principais mudanças mundiais ocorrida em todo o segundo milênio. Ela fez parte do período definido por Renascimento Cultural transcorrido na Europa entre os séculos 14 e 16, com intenso intercâmbio de conhecimento em várias áreas artísticas e das ciências, como na astronomia, física e navegação.

Em síntese, a revolução que permitiu superar o tempo natural representado pela forma física e biológica dos organismos vivos, sem validar o uso da técnica e conceber o universo como algo composto de uma mesma matéria uniforme, suscetível à corrosão e à finitude (terrestre e celeste).

A revolução técnica de Gutemberg levou ao avanço da noção do tempo histórico pelo qual a humanidade difundiu cultura e narrativa fundamental para o desenvolvimento da consciência histórica, com registros de acontecimento, conforme havia se expressado Heródoto, o “pai da história” na antiga Grécia. A modernidade que se constituiu em torno da renascença, revolução científica e reforma religiosa do protestantismo teve enorme impacto com a nova técnica de produção e reprodução de textos e livros.

Através dos caracteres móveis e a prensa de imprimir, a cópia manuscrita foi superada, assegurando a circulação massificada de textos e livros. Até então, os registros eram feitos por monges, alunos e escribas, cujo trabalho era longo no preparo e elevado custo, inacessível, em geral, à maioria da população.

Atualmente, as bases materiais que permitiram a modernidade da economia baseada no conhecimento e na disseminação em massa da aprendizagem sofrem inegável transformação gerada pela revolução das tecnologias de comunicação e informação associadas à computação e internet.

Assim como o processo de produção e difusão do conhecimento foi acelerado pela invenção da máquina de impressão, as tecnologias de informação e comunicação multiplicam ainda muito mais, tornando-as tempo real.

Mas sem regulação, a vigilância e o controle imposto pelo modelo de negócios do capitalismo monopolista pode inverter a modernidade do renascimento do passado na pós-modernidade que retrocede à submissão como se estivesse no mundo antigo e medieval. O paradoxo do tempo natural, não mais histórico.

Silvio Tendler, renomado cineasta brasileiro que está usando videochamadas para seguir produzindo filmes em tempos de pandemia, acaba de lançar um amplo movimento em defesa da cultura e da arte, propondo a união dos profissionais do setor em defesa da liberdade de expressão e de criação artística.
 
"O desmantelameno geral que Bolsonaro promove é covarde e criminoso, pois são milhões de pessoas que vivem desta cadeia econômica. Somos roteiristas, cineastas, sonoplastas, cenotécnicos, iluminadores, maquiadores, diretores de arte, curadores de exposição, cuidamos de quadros, esculturas, pesquisas. É uma infinidade de profissões e atividades sendo destruídas pela caneta de Bolsonaro", denuncia. "Reagir com humor e coragem é uma lição que o jornalista Apparício Torelly, o Barão de Itararé, nos ensinou"
 
Em entrevista ao jornalista Altamiro Borges, Tendler fala sobre a sua trajetória de resistência deste o tempo do regime militar até a mobilização atual contra o fascismo bolsonarista, fazendo um chamamento à defesa de várias instituições da cultura no país. "Como se desmonta um país? Começando pela Cultura, Educação e Ciência. Bolsonaro segue à risca a cartilha do desmonte", diz. "Desmontou o Ministério da Cultura como todo governo fascista faz e nós, infelizmente ficamos inertes. Estamos catatônicos há dois anos. Não podemos ficar nos sentindo culpados por perder a eleição para Bolsonaro. Perdemos a eleição, mas não perdemos nosso compromisso com a nação, não perdemos nossa identidade e nem nossas bandeiras de luta".
 
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Em entrevista ao Canal do Barão, o premiado ator e produtor Osmar Prado dispara: "Bolsonaro é tudo que eles gostariam que Lula fosse. Mas, na verdade, Lula é a antítese de Bolsonaro. Lula deu certo". Segundo ele, destruir os campos da Cultura e da Educação é uma das grandes missões do bolsonarismo. "Os artistas são fundamentais para ajudar o Brasil a virar esta triste página da nossa história", afirma.

Assista à íntegra do bate-papo com Altamiro Borges, coordenador do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé. Curtiu? Deixe seu "joinha"! Inscreva-se no #CanalDoBarao e ajude-nos a continuar a produzir conteúdos como este!

O futebol das mulheres ganha o planeta como nunca antes em sua história

Grande dia!
Grande dia de verdade e não o externado pelo boçal que ocupa desastradamente o posto mais alto do executivo brasileiro.

Hoje é um grande dia porque tem início a oitava edição da Copa do Mundo de Futebol Feminino! A anfitriã França abre a competição diante da Coréia do Sul a partir das 16h00 – horário de Brasília – e além da ansiedade pelo ponta pé deste jogo temos muito o que comemorar em termos de visibilidade.

Por Lu Castro, especial para o Barão de Itararé

Há pouco mais de dez anos, assumi uma responsabilidade pessoal: utilizar a tecnologia em favor da visibilidade das mulheres que faziam a bola rolar pelos campos da cidade. Minha primeira busca foi no Juventus, formador por excelência, e sua técnica Magali.

O material, publicado no antigo portal OléOlé, já se perdeu, mas, de lá para cá, perda deixou de ser sinônimo de mulher dentro e fora das quatro linhas.

Avançamos. E os contatos com os principais agentes da modalidade se intensificaram. E espaços alternativos começaram a surgir com mais força na busca pelo tratamento igualitário do futebol de mulheres e homens – ao menos no que diz respeito ao que se noticia, inicialmente.

Observando a movimentação da imprensa nacional, noto um grande cuidado ao tratar do assunto, diferente de muitos outros anos. Acredito que esteja diretamente relacionado ao número de mulheres presentes em redações esportivas, algo que apontei como imprescindível para a melhora na comunicação do futebol de mulheres em mídias tradicionais.

Avançamos. E avançamos noutros tantos aspectos do futebol, inclusive na gestão, onde o trabalho realizado pela ex capitã da seleção, Aline Pellegrino, como diretora de futebol feminino da Federação Paulista de Futebol, tem ampliado os espaços para trabalhar as categorias de base.

Avançamos. A seleção brasileira tem uma estrutura que nunca teve. A seleção brasileira conta com uniforme próprio e não sobra do uniforme masculino. A seleção tem seus jogos transmitidos de modo inédito em tevê aberta de alcance nacional. A seleção só não tem uma coisa: técnico.

E isso, car@s, é algo que me preocupa tanto quanto me alegra: o fato de termos a Copa do Mundo mais noticiada de todos os tempos.

Diante de uma seleção nacional que caiu no ranking FIFA nos últimos anos, sob o comando de alguém que não tem perfil para comandar o selecionado nacional em nenhuma circunstância – e já o demonstrou em outras ocasiões - que carrega para a França nove derrotas consecutivas, minha expectativa é de termos que reforçar nosso discurso e argumentar como nunca que o que eles (os espectadores desconhecedores da realidade do futebol feminino) estão vendo não é bem isso.

Num momento, em que os olhos do mundo estão voltados para a amarelinha tão conceituada um dia, mostrar um jogo baseado apenas na garras das nossas habilidosas e talentosas atletas, tem sido o protagonista dos meus pesadelos.

Tudo o que lutamos para construir – atletas, gestores, comissões técnicas sérias, jornalistas interessados no assunto – pode sofrer um revés de opinião pública se o coletivo não estiver bem arrumado. E nós sabemos que não está.

Há poucas horas da abertura do mundial mais importante de todos os tempos, vou da euforia e ansiedade que mal me deixou dormir a testa constantemente franzida de preocupação.

Avancemos pois, nossas atletas se entregarão e é muito provável que nos jogos do Brasil o que avance é o nível da gengibrinha pra dar conta da montanha russa de emoções.

Uma mulher registra um boletim de ocorrência acusando um homem por estupro. Em depoimento, descreve que o parceiro teria ficado subitamente agressivo e usado da violência para praticar relação sexual sem seu consentimento. O laudo médico, anexado ao caso, apresenta sinais físicos de agressão e estresse pós-traumático. Em resposta, o homem acusado desmente a história publicamente, argumentando que o episódio não passou de “uma relação comum entre um homem e uma mulher”.

Por Mariana Pitasse, no Brasil de Fato

Esse poderia ser apenas mais um entre os cerca de 135 casos de estupro registrados por dia – que equivalem a cerca de 10% a 15% dos abusos que acontecem diariamente no Brasil, segundo levantamento do Atlas da Violência de 2018. Mas não é um episódio qualquer. O homem acusado é Neymar, um dos jogadores de futebol mais bem pagos do mundo. Por isso, o caso tomou as páginas dos jornais dentro e fora do Brasil nos últimos dias, com ampla repercussão nas redes sociais.

Após a denúncia registrada contra o jogador do Paris Saint-Germain na última sexta-feira (31), a acusadora foi exposta de diferentes formas – pela mídia comercial e pelo próprio Neymar. Para "sensibilizar" a opinião pública, o jogador postou um vídeo em suas contas do Instagram e do Facebook em que diz ser inocente. Ao tentar “comprovar” sua versão dos fatos, divulgou conversas que manteve com a mulher pelo Whatsapp, assim como fotos e vídeos íntimos da acusadora. A ação fez com que o jogador passasse a ser investigado também pelo vazamento de fotos íntimas.

A divulgação do conteúdo não foi um equívoco e, sim, uma escolha. Neymar preferiu cometer um crime virtual para tentar dialogar com pessoas que concordam com a ideia de que uma mulher que envia fotos íntimas pela internet é necessariamente "aproveitadora" e "interesseira".

O que está sendo ignorado nessa leitura rasa proposta pela defesa de Neymar é que a intimidade exposta para milhões de pessoas não diz nada sobre a acusação de estupro. Como lembra a antropóloga Débora Diniz, o que circula é a versão de um homem poderoso que se ancora em elementos do fascínio pelo sexo e na desqualificação fácil das mulheres vítimas de violência sexual. E essa é também a narrativa em que tem se amparado a cobertura da mídia comercial sobre o caso. Mesmo sem afirmar que estão assumindo uma posição, jornalistas passaram o recibo de que a acusadora está tentando se aproveitar do “menino” Neymar.

Entre as reportagens que tomaram conta do noticiário brasileiro nos últimos dias, a matéria Jornal Nacional – no dia seguinte à divulgação das conversas – foi a que mais repercutiu. Ela traz um panorama sobre o caso e ressalta o depoimento de um ex-advogado da mulher afirmando que o estupro não aconteceu. A reportagem também divulga o nome da nova advogada de defesa da mulher, ainda que ela não tenha dado autorização para isso, desrespeitando um princípio básico do jornalismo: a garantia de sigilo das fontes. Na mesma reportagem, sem mostrar as fotografias e vídeos do corpo da mulher, divulgados por Neymar, são expostas frases soltas da conversa em que o jogador aparece enredado em um jogo de sedução.

Em outra reportagem, desta vez publicada no Jornal de Brasília, a mulher tem a vida financeira e judicial revirada. O texto aponta que ela tem uma ação de despejo em seu nome, após três meses de aluguel atrasado, e que acumula dívidas. A reportagem também disponibiliza o nome completo da mulher e detalha suas contas a pagar.

A invasão de privacidade promovida por jornalistas com a justificativa de mostrar a “real versão dos fatos” não terminou por aí. Em reportagem publicada pelo jornal O Globo, a família da mulher é procurada e sua mãe é informada sobre o caso a partir da abordagem da repórter. Dias depois, uma matéria veiculada pelo portal UOL evidencia que o filho da mulher, de cinco anos, está sofrendo com chacotas na internet e na escola por conta da repercussão do caso.

Mais do que a intimidade revirada e exposta em fotos e vídeos íntimos e informações detalhadas sobre sua situação financeira, a mulher teve sua versão dos acontecimentos contestada a todo tempo, de forma pública, inclusive por seu ex-advogado. Mas isso não é levado em consideração, porque tudo parece legítimo quando a motivação é “dar o furo” de reportagem. Na lógica do jornalismo, é necessário apresentar respostas antes mesmo das investigações. Tudo isso com base na “isenção e na imparcialidade”, ainda que à serviço da versão do jogador milionário…

Neymar, por outro lado, segue a rotina de treinos, jogos e compromissos publicitários, blindado por seu estafe. A presença dele está confirmada no jogo amistoso do Brasil contra o Qatar nesta quarta-feira (5).

Paris Saint-Germain e Seleção Brasileira se esquivam de comentar o caso. Familiares e amigos se pronunciam publicamente garantindo que ele é inocente e vítima de uma armadilha. A preocupação maior parece vir dos patrocinadores: ao menos quatro das 10 marcas manifestaram incômodo com o caso, segundo levantamento da Folha.

Comprovada ou não a acusação, a sentença já está dada: a mulher é sempre a ponta vulnerável. Não à toa, segundo o Atlas da Violência, são cerca de 1300 estupros por dia no país – dos quais apenas 135 são notificados.

*Jornalista, editora do Brasil de Fato no Rio de Janeiro e doutoranda em Antropologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF).

Edição: Daniel Giovanaz