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Nesta sexta-feira (3/7) às 18h, o Comitê Brasileiro pela Paz na Venezuela realiza mais um #RodaVivaVenezuela com um time qualificado de jornalistas e convidados para entrevistar o Ministro das Relações Exteriores, Jorge Arreza. O chanceler venezuelano conversará com o deputado federal Paulo Pimenta (PT), Glauber Braga (PSOL) e a presidenta do Conselho Mundial da Mundial, Socorro Gomes, sobre a Política Externa Brasileira e Venezuela.

II° RODA VIVA VENEZUELA | Política Externa Brasileira e Venezuela Nesta sexta-feira, às 18h, o ministro das relações...

Posted by Comitê Brasileiro pela Paz na Venezuela on Wednesday, July 1, 2020

O Roda Viva Venezuela tem o objetivo de trazer informação sobre a realidade venezuelana, fazendo um contraponto à grande mídia brasileira que, dia e noite, desinforma a população brasileira sobre a realidade venezuelana. Quem aposta na desinformação, aposta na mentira. Portanto, esta é uma iniciativa do Comitê Brasileiro pela Paz na Venezuela para combater a desinformação com a verdade, com informação de qualidade.

Siga o Comitê Brasileiro pela Paz na Venezuela e fique atualizado sobre as notícias a respeito do país irmão: www.instagram.com/baraomidia

 

Direto de Berlim, na Alemanha, Flávio Wolf de Aguiar comenta o derretimento da imagem do Brasil no exterior. Segundo o jornalista, professor e escritor, o tratamento dado ao governo de Bolsonaro pela imprensa europeia é o pior possível. "A mensagem que prevalece a é de que Bolsonaro é um perigo para o Brasil e para o mundo", diz.

Na entrevista para Altamiro Borges, ele ainda analisa as impressões sobre o vexame mundial da diplomacia brasileira sob o comando do bizarro chanceler Ernesto Araújo, a questão ambiental, dos povos indígenas e quilombolas, além do alinhamento automático ao governo norte-americano.

Flávio Wolf de Aguiar é jornalista, professor, escritor, tradutor e organizador e colaborador de dezenas de livros (crítica literária, poesia, contos). Também colabora regularmente com a Rede Brasil Atual, TVT, Carta Maior e Boitempo.

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Nesta quarta-feira (27), uma surpresa pouco comentada pelos meios de comunicação abalou estudiosos das telecomunicações e da democratização da mídia no Brasil. Sem muitos avisos, o ministro Marcos Pontes do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicação (MCTIC), anunciou a parceria do governo federal com a empresa estadunidense CISCO para a implementação do 5G no Brasil.

Por Theófilo Rodrigues*

A tecnologia 5G é hoje o grande objeto da disputa geopolítica entre os Estados Unidos (com a Cisco) e a China (com a Hauwei). De um lado, a China avança sobre praticamente todo o mundo com sua tecnologia inovadora. Do outro, o Pentágono vê com preocupação a perda de mercado de seu país e, assim, força relações bilaterais duras com seus países "aliados". No meio dessa disputa geopolítica de grandes proporções está o Brasil, que cede abertamente a sua soberania nacional para os interesses dos EUA.

Muitas dúvidas surgem. Se um governo de estado, como o Maranhão, por exemplo, buscar uma parceria com a China e a Huawei para investir em áreas como cidades inteligentes, Internet das Coisas, 5G e Wi-Fi, será impedido? E a indústria nacional será beneficiada com transferências de tecnologia?

Uma decisão sobre a infraestrutura das telecomunicações do país que envolve uma dimensão internacional estrategica como essa não pode ser tomada dentro de um gabinete, longe dos olhos atentos da esfera pública. O apelo que devemos fazer ao ministro Marcos Pontes é o de reconsiderar a decisão da parceria e abrir essa agenda para um longo e transparente debate público com a sociedade civil, especialistas e universidades. Da Câmara de Deputados esperamos que sua Comissão de Ciência, Tecnologia e Inovação convoque imediatamente o ministro para explicações.

Com essa parceria o futuro do Brasil se torna refém de empresas dos EUA. Será que Carlinhos Lyra terá que compor uma nova "Canção do subdesenvolvido"?

*Theófilo Rodrigues é pesquisador e coordenador do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé no Rio de Janeiro

A crise no capitalismo tem sido o modo pelo qual o sistema busca ultrapassar sem limites os entraves no seu modo próprio de gerar e acumular riqueza. Logo no início do século 21, a crise das empresas “ponto com” (bolha da internet) resultou como resposta a introdução de um novo e promissor modelo de negócio que contribuiu para superar o movimento especulativo de altas das novas empresas de tecnologia da informação e comunicação (TIC) assentadas na internet desde 1994.

Após o ano de 2001, muitas empresas “ponto com” sofreram significativo processo transformação, com a quebra e o desaparecimento de algumas, bem como a venda e fusão de outras. Pela centralização e concentração do capital ocorrida no segmento econômico emergente, empresas estadunidenses como Google e Facebook passaram a enriquecer consideravelmente através do modelo de negócio assentado na remuneração dos conteúdos através de cliques na internet. Negócios e dados do mundo das empresas ponto com não caminham sem passar por ali.

Por Marcio Pochman

Com isso, o avanço extraordinário das receitas baseado em anúncios que recompensavam comercialmente a isca do clique trouxe a disseminação viral de informação e, cada vez mais, desinformação. Em consequência, tanto a difusão da cultura de ataques maliciosos e do ódio efervescente, do assédio online e das invasões praticados por empresas e Estados na vida particular dos indivíduos. Também a polarização crescentemente internalizada pela web nas ideias e qualidade do discurso do formato no aparente design benevolente colocado a serviço lucrativo de empresas que operaram o quase monopólio da estrutura de mercado.

Acontece que, sem qualquer regulação, ademais o extraordinário lucro do modelo de negócio das empresas de tecnologia de informação e comunicação, o mundo passou a se encontrar diante da vigilância de negócios gerados por um capitalista monopolista de negócios sem controle.

Na busca incessante de lucros, em meio ao processo de financeirização da riqueza e a selvageria da lógica dos acionistas, a mais importante alteração tecnológica na produção e transmissão do conhecimento encontra-se profundamente ameaçada a serviço de ricos e poderosos que destroem também atualmente a democracia na política.  

Descontruindo Gutemberg

A invenção da máquina de impressão em tipos móveis por Johannes Gutemberg, há mais de cinco séculos, em 1493, tornou-se uma das principais mudanças mundiais ocorrida em todo o segundo milênio. Ela fez parte do período definido por Renascimento Cultural transcorrido na Europa entre os séculos 14 e 16, com intenso intercâmbio de conhecimento em várias áreas artísticas e das ciências, como na astronomia, física e navegação.

Em síntese, a revolução que permitiu superar o tempo natural representado pela forma física e biológica dos organismos vivos, sem validar o uso da técnica e conceber o universo como algo composto de uma mesma matéria uniforme, suscetível à corrosão e à finitude (terrestre e celeste).

A revolução técnica de Gutemberg levou ao avanço da noção do tempo histórico pelo qual a humanidade difundiu cultura e narrativa fundamental para o desenvolvimento da consciência histórica, com registros de acontecimento, conforme havia se expressado Heródoto, o “pai da história” na antiga Grécia. A modernidade que se constituiu em torno da renascença, revolução científica e reforma religiosa do protestantismo teve enorme impacto com a nova técnica de produção e reprodução de textos e livros.

Através dos caracteres móveis e a prensa de imprimir, a cópia manuscrita foi superada, assegurando a circulação massificada de textos e livros. Até então, os registros eram feitos por monges, alunos e escribas, cujo trabalho era longo no preparo e elevado custo, inacessível, em geral, à maioria da população.

Atualmente, as bases materiais que permitiram a modernidade da economia baseada no conhecimento e na disseminação em massa da aprendizagem sofrem inegável transformação gerada pela revolução das tecnologias de comunicação e informação associadas à computação e internet.

Assim como o processo de produção e difusão do conhecimento foi acelerado pela invenção da máquina de impressão, as tecnologias de informação e comunicação multiplicam ainda muito mais, tornando-as tempo real.

Mas sem regulação, a vigilância e o controle imposto pelo modelo de negócios do capitalismo monopolista pode inverter a modernidade do renascimento do passado na pós-modernidade que retrocede à submissão como se estivesse no mundo antigo e medieval. O paradoxo do tempo natural, não mais histórico.

Obra coletiva, o livro “Expandir o presente, criar o futuro” foi pensado por 16 trabalhadoras de diversas nacionalidades, com diferentes culturas e profissões, para refletir o isolamento social - tão necessário-, defender o seu espaço como mulher e respeitar a vida no planeta.

Para tanto, cada autora escolheu entre março e maio, dias que refletiam seu cotidiano em tempos de pandemia de coronavírus. Surpresa, frustração, insegurança, revolta, descoberta, carinho e busca. O encadeamento entre essas expressões ficou a cabo das professoras Fabíola Notari e Mirlene Simões, e da artista visual Priscila Bellotti.

A ideia da obra era dar voz ao que estava represado e que foi mais agravado em tempos de pandemia. No caso brasileiro, especificamente, pela ausência de políticas públicas e de direitos, baixos salários, sobrecarga e stress”, explica Mirlene Simões. Na avaliação da doutora em sociologia, “o encontro de mulheres jovens, indígenas, afrodescendentes e de outros países nos permitiu pensar coletivamente e avançar contra a opressão”.

O questionamento aos padrões estabelecidos pela grande mídia sobre a temática feminina também está presente no ebook, acredita, “porque mesmo que tenhamos tido avanços no último período em relação à divulgação e à denúncia de temas como a violência contra as mulheres, a abordagem ainda deixa cada uma por si”. “A questão é que problemas como o machismo estrutural, o feminicídio, a violência e principalmente o aumento de trabalho em casa não são individuais e se aprofundaram com Bolsonaro, necessitando ser enfrentados. Em relação às mulheres dos outros países não sentimos este nível de tensão, elas se manifestam de outras formas”, acrescentou.

Reunindo textos, desenhos, fotografias, filmagens, costuras, remendos, fissuras e bordados, o livro reflete, entre outras vozes, professoras de escolas e universidades, uma poetisa cubana, uma escritora finalista do Jabuti, uma psicanalista, artistas e doutoras.

A seu modo, cada uma de nós procurou elevar o tom e colorir de vida a crítica ao cinza de dificuldades e opressões de sociedades em que as mulheres ainda não são suficientemente valorizadas”, declarou a professora Monica Fonseca Severo. Na sua avaliação, “infelizmente no nosso país, isso ainda está escancarado nos grandes meios de comunicação, que retroalimentam uma visão extremamente machista, conservadora e alienante, que conduz a um apequenamento das mulheres”. “Acredito que a obra é um grito poético contra isso”, concluiu.

expandiropresente

Na obra, Célia Maria Foster Silvestre, pós-doutora em Estudos sobre Democracia afirma que “no Brasil, o vírus repercute a ausência de humanidade presente na boca que escancara a necropolítica e ri das mortes anunciadas”.

ACOMPANHE - O sarau virtual e bate-papo de lançamento acontecerão no próximo dia 27 de junho, sábado, a partir das 15 horas, pelo aplicativo Zoom, https://zoom.us/j/96613874717, ID da reunião: 966 1387 4717

O e-book será vendido a preço popular, a partir do dia 27/06, pela Banca Vermelha https://www.abancavermelha.com/

Acompanhe em https://www.instagram.com/expandiropresente/ e https://www.facebook.com/expandiropresentecriarofuturo

 

Os chargistas, caricaturistas, desenhistas e ilustradores de todo o Brasil que subscrevem esta carta aberta manifestam sua solidariedade aos colegas vítimas da intolerância e da perseguição política assim como protestam contra a violência daqueles que procuram censurá-los.

SJSP

O desprezo pela democracia dos nossos governantes chega ao ponto do próprio presidente da República, Jair Bolsonaro, por meio do seu ministro da Justiça, André Mendonça, solicitar à Polícia Federal e ao Ministério Público abertura de investigação sobre uma charge de autoria de Aroeira. A imagem, uma clara alusão a ausência de políticas sanitárias em plena pandemia causada pelo vírus da Covid-19, mostra uma cruz vermelha (símbolo da saúde) transformada em uma suástica pelas mãos autoritárias do presidente. O absurdo da iniciativa fica evidente quando sabemos que “O pedido de investigação leva em conta a lei que trata dos crimes contra a segurança nacional, a ordem política e social, em especial seu art. 26”. O Brasil está se tornando um país onde o humor passa a ser censurado como nos piores períodos da ditadura. O que é mais estarrecedor; uma charge ou pessoas atirando fogos sobre o STF? Esta uma ação que, sim, mereceria a atenção do Ministro da Justiça.

Como se não bastasse isso, os desenhistas Laerte, João Montanaro, Alberto Benett e Cláudio Mor estão sendo interpelados na Justiça pela publicação de cinco charges críticas à violência policial. Apresentada em dezembro de 2019 no jornal Folha de S. Paulo os trabalhos despertaram a ira da Associação de Oficiais Militares do Estado de São Paulo em Defesa da Polícia Militar, Defenda PM, que entrou na Justiça com pedido de esclarecimento criminal pois as considerou “constrangedoras”.

A função de toda boa charge é a de através do humor refletir e comentar por meio do desenho os acontecimentos de interesse do cidadão. A charge não é uma criação do nada, mas sim o termômetro do que o povo fala pelas ruas.

Portanto, é descabida a afirmação de que uma charge possa ser “constrangedora” quando o que deve constranger e chocar a opinião pública é o fato que a gerou. Sabemos que ao longo da história, diversas charges, cartuns e caricaturas resultaram em perseguição e represália aos artistas que a criaram, o que atesta a dimensão que o humor pode alcançar na sociedade.

Assim sendo, protestamos contra qualquer tentativa de cercear a liberdade artística, de imprensa, de consciência e o trabalho dos chargistas brasileiros que por meio do traço ajudam na construção de um país mais justo e solidário.

16 de Junho de 2020

Associação dos Cartunistas do Brasil

Associação dos Quadrinhistas e Caricaturistas do Estado de São Paulo

Instituto Memorial das Artes Gráficas do Brasil

Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo

O futebol das mulheres ganha o planeta como nunca antes em sua história

Grande dia!
Grande dia de verdade e não o externado pelo boçal que ocupa desastradamente o posto mais alto do executivo brasileiro.

Hoje é um grande dia porque tem início a oitava edição da Copa do Mundo de Futebol Feminino! A anfitriã França abre a competição diante da Coréia do Sul a partir das 16h00 – horário de Brasília – e além da ansiedade pelo ponta pé deste jogo temos muito o que comemorar em termos de visibilidade.

Por Lu Castro, especial para o Barão de Itararé

Há pouco mais de dez anos, assumi uma responsabilidade pessoal: utilizar a tecnologia em favor da visibilidade das mulheres que faziam a bola rolar pelos campos da cidade. Minha primeira busca foi no Juventus, formador por excelência, e sua técnica Magali.

O material, publicado no antigo portal OléOlé, já se perdeu, mas, de lá para cá, perda deixou de ser sinônimo de mulher dentro e fora das quatro linhas.

Avançamos. E os contatos com os principais agentes da modalidade se intensificaram. E espaços alternativos começaram a surgir com mais força na busca pelo tratamento igualitário do futebol de mulheres e homens – ao menos no que diz respeito ao que se noticia, inicialmente.

Observando a movimentação da imprensa nacional, noto um grande cuidado ao tratar do assunto, diferente de muitos outros anos. Acredito que esteja diretamente relacionado ao número de mulheres presentes em redações esportivas, algo que apontei como imprescindível para a melhora na comunicação do futebol de mulheres em mídias tradicionais.

Avançamos. E avançamos noutros tantos aspectos do futebol, inclusive na gestão, onde o trabalho realizado pela ex capitã da seleção, Aline Pellegrino, como diretora de futebol feminino da Federação Paulista de Futebol, tem ampliado os espaços para trabalhar as categorias de base.

Avançamos. A seleção brasileira tem uma estrutura que nunca teve. A seleção brasileira conta com uniforme próprio e não sobra do uniforme masculino. A seleção tem seus jogos transmitidos de modo inédito em tevê aberta de alcance nacional. A seleção só não tem uma coisa: técnico.

E isso, car@s, é algo que me preocupa tanto quanto me alegra: o fato de termos a Copa do Mundo mais noticiada de todos os tempos.

Diante de uma seleção nacional que caiu no ranking FIFA nos últimos anos, sob o comando de alguém que não tem perfil para comandar o selecionado nacional em nenhuma circunstância – e já o demonstrou em outras ocasiões - que carrega para a França nove derrotas consecutivas, minha expectativa é de termos que reforçar nosso discurso e argumentar como nunca que o que eles (os espectadores desconhecedores da realidade do futebol feminino) estão vendo não é bem isso.

Num momento, em que os olhos do mundo estão voltados para a amarelinha tão conceituada um dia, mostrar um jogo baseado apenas na garras das nossas habilidosas e talentosas atletas, tem sido o protagonista dos meus pesadelos.

Tudo o que lutamos para construir – atletas, gestores, comissões técnicas sérias, jornalistas interessados no assunto – pode sofrer um revés de opinião pública se o coletivo não estiver bem arrumado. E nós sabemos que não está.

Há poucas horas da abertura do mundial mais importante de todos os tempos, vou da euforia e ansiedade que mal me deixou dormir a testa constantemente franzida de preocupação.

Avancemos pois, nossas atletas se entregarão e é muito provável que nos jogos do Brasil o que avance é o nível da gengibrinha pra dar conta da montanha russa de emoções.

Uma mulher registra um boletim de ocorrência acusando um homem por estupro. Em depoimento, descreve que o parceiro teria ficado subitamente agressivo e usado da violência para praticar relação sexual sem seu consentimento. O laudo médico, anexado ao caso, apresenta sinais físicos de agressão e estresse pós-traumático. Em resposta, o homem acusado desmente a história publicamente, argumentando que o episódio não passou de “uma relação comum entre um homem e uma mulher”.

Por Mariana Pitasse, no Brasil de Fato

Esse poderia ser apenas mais um entre os cerca de 135 casos de estupro registrados por dia – que equivalem a cerca de 10% a 15% dos abusos que acontecem diariamente no Brasil, segundo levantamento do Atlas da Violência de 2018. Mas não é um episódio qualquer. O homem acusado é Neymar, um dos jogadores de futebol mais bem pagos do mundo. Por isso, o caso tomou as páginas dos jornais dentro e fora do Brasil nos últimos dias, com ampla repercussão nas redes sociais.

Após a denúncia registrada contra o jogador do Paris Saint-Germain na última sexta-feira (31), a acusadora foi exposta de diferentes formas – pela mídia comercial e pelo próprio Neymar. Para "sensibilizar" a opinião pública, o jogador postou um vídeo em suas contas do Instagram e do Facebook em que diz ser inocente. Ao tentar “comprovar” sua versão dos fatos, divulgou conversas que manteve com a mulher pelo Whatsapp, assim como fotos e vídeos íntimos da acusadora. A ação fez com que o jogador passasse a ser investigado também pelo vazamento de fotos íntimas.

A divulgação do conteúdo não foi um equívoco e, sim, uma escolha. Neymar preferiu cometer um crime virtual para tentar dialogar com pessoas que concordam com a ideia de que uma mulher que envia fotos íntimas pela internet é necessariamente "aproveitadora" e "interesseira".

O que está sendo ignorado nessa leitura rasa proposta pela defesa de Neymar é que a intimidade exposta para milhões de pessoas não diz nada sobre a acusação de estupro. Como lembra a antropóloga Débora Diniz, o que circula é a versão de um homem poderoso que se ancora em elementos do fascínio pelo sexo e na desqualificação fácil das mulheres vítimas de violência sexual. E essa é também a narrativa em que tem se amparado a cobertura da mídia comercial sobre o caso. Mesmo sem afirmar que estão assumindo uma posição, jornalistas passaram o recibo de que a acusadora está tentando se aproveitar do “menino” Neymar.

Entre as reportagens que tomaram conta do noticiário brasileiro nos últimos dias, a matéria Jornal Nacional – no dia seguinte à divulgação das conversas – foi a que mais repercutiu. Ela traz um panorama sobre o caso e ressalta o depoimento de um ex-advogado da mulher afirmando que o estupro não aconteceu. A reportagem também divulga o nome da nova advogada de defesa da mulher, ainda que ela não tenha dado autorização para isso, desrespeitando um princípio básico do jornalismo: a garantia de sigilo das fontes. Na mesma reportagem, sem mostrar as fotografias e vídeos do corpo da mulher, divulgados por Neymar, são expostas frases soltas da conversa em que o jogador aparece enredado em um jogo de sedução.

Em outra reportagem, desta vez publicada no Jornal de Brasília, a mulher tem a vida financeira e judicial revirada. O texto aponta que ela tem uma ação de despejo em seu nome, após três meses de aluguel atrasado, e que acumula dívidas. A reportagem também disponibiliza o nome completo da mulher e detalha suas contas a pagar.

A invasão de privacidade promovida por jornalistas com a justificativa de mostrar a “real versão dos fatos” não terminou por aí. Em reportagem publicada pelo jornal O Globo, a família da mulher é procurada e sua mãe é informada sobre o caso a partir da abordagem da repórter. Dias depois, uma matéria veiculada pelo portal UOL evidencia que o filho da mulher, de cinco anos, está sofrendo com chacotas na internet e na escola por conta da repercussão do caso.

Mais do que a intimidade revirada e exposta em fotos e vídeos íntimos e informações detalhadas sobre sua situação financeira, a mulher teve sua versão dos acontecimentos contestada a todo tempo, de forma pública, inclusive por seu ex-advogado. Mas isso não é levado em consideração, porque tudo parece legítimo quando a motivação é “dar o furo” de reportagem. Na lógica do jornalismo, é necessário apresentar respostas antes mesmo das investigações. Tudo isso com base na “isenção e na imparcialidade”, ainda que à serviço da versão do jogador milionário…

Neymar, por outro lado, segue a rotina de treinos, jogos e compromissos publicitários, blindado por seu estafe. A presença dele está confirmada no jogo amistoso do Brasil contra o Qatar nesta quarta-feira (5).

Paris Saint-Germain e Seleção Brasileira se esquivam de comentar o caso. Familiares e amigos se pronunciam publicamente garantindo que ele é inocente e vítima de uma armadilha. A preocupação maior parece vir dos patrocinadores: ao menos quatro das 10 marcas manifestaram incômodo com o caso, segundo levantamento da Folha.

Comprovada ou não a acusação, a sentença já está dada: a mulher é sempre a ponta vulnerável. Não à toa, segundo o Atlas da Violência, são cerca de 1300 estupros por dia no país – dos quais apenas 135 são notificados.

*Jornalista, editora do Brasil de Fato no Rio de Janeiro e doutoranda em Antropologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF).

Edição: Daniel Giovanaz