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Graças à mídia controlada pelo establishment capitalista, os assessores do presidente Joe Biden (refiro-me ao secretário de Estado Antony Blinken, ao assessor de segurança nacional Jacob Sullivan e ao especialista em China, Kurt Campbell, entre outros) não terão problemas ao convocar os estadunidenses para a guerra potencialmente mais devastadora que o mundo já conheceu em 77 anos, começando na Ucrânia e, talvez, estendendo-se à China, Irã, República Popular Democrática da Coreia, isto é, ao mundo inteiro, de uma forma ou de outra. E, como é habitual, sob falsos pretextos.

"Senhores guardas civis:
aqui aconteceu o de costume.
Morreram quatro romanos
e cinco cartagineses" (nota 1)

A maioria dos estadunidenses ignora a realidade de que a mídia ocidental é propriedade (direta ou indireta) e é operada pelas mesmas corporações que obtêm lucros significativos ao ajudar a estimular "pequenas guerras" e depois vender as armas necessárias para que se tornem realidade como muitas dezenas de milhares de milhões de dólares para a Arábia Saudita e outras monarquias medievais do Golfo, para que destruam o Iêmen.

José R. Oro I Diálogos do Sul*

Os líderes corporativos estadunidenses (e, em geral, o 1% que tem mais riquezas do que os 99% restantes), foram educados em sua suposta "excepcionalidade", e que o lucro e o consumo são a razão de ser do sistema. Tal situação não lhes permite discernir com clareza, e se enganam a si mesmos, assumindo que:

(a) os Estados Unidos não podem perder uma guerra, caso evidente de húbris (nota 2);

(b) a escalada militar pode ser calibrada e a guerra mais ampla pode ser limitada à Europa; e

(c) pode-se esperar que a China simplesmente fique à margem (enquanto por outro lado ela é provocada em Taiwan e em políticas comerciais e tecnológicas).

Tal atitude, consciente ou inconscientemente, diz à audiência desta mídia: "Não se preocupe. E, em qualquer caso, o saque e o desperdício de que desfrutamos (sobretudo o 1% da população), valem o risco de uma "guerrinha" com a Rússia ou com a China".

A mídia também sabe como "explicar" a sua audiência porque os russos são "... geneticamente levados" a fazer o mal (como disse textualmente James Clapper, ex-diretor de inteligência nacional e agora contratado como especialista pela CNN); ou também Fiona Hill (ex-oficial de inteligência), que insiste em que "Putin quer expulsar os Estados Unidos da Europa..."

Na ausência do aparecimento milagroso de mentes mais claras nos EUA, com uma atitude menos ignorante em relação aos interesses centrais da Rússia na Ucrânia, da China em Taiwan etc., os historiadores do futuro que sobrevivam à guerra que está agora às nossas portas, vão descrevê-la como o resultado da arrogância e da estupidez enlouquecidas, do húbris que mencionávamos antes. Os historiadores objetivos dirão mesmo que o professor John Mearsheimer acertou desde o princípio, quando explicou na edição de outono de 2014 do Foreign Affairs "Porque a crise da Ucrânia é culpa do Ocidente ".

A esclarecida analista da história Barbara Tuchman (nota 3) abordou o tipo de situação que o mundo enfrenta hoje na Ucrânia em seu livro "A marcha da loucura: de Tróia ao Vietnam". (Se tivesse vivido mais tempo, seguramente teria atualizado seu livro para considerar o Iraque, o Afeganistão, a Síria e a Ucrânia). Ela escreveu:

"A teimosia... desempenha um papel notavelmente importante no governo. Consiste em avaliar uma situação em termos de noções fixas preconcebidas enquanto ignoram-se ou rejeitam-se os signos contrários. É agir de acordo com o desejo, sem deixar-se dissuadir pelos fatos."

 Catorze anos (e lá vai) de lavagem de cérebro acerca da Ucrânia

Graças às sistemáticas omissões da mídia, nos Estados Unidos uma porcentagem muito pequena dos estadunidenses sabe que:

1.Há 14 anos, o então embaixador dos EUA na Rússia (atual diretor da CIA), William Burns, foi advertido pelo ministro de Relações Exteriores da Rússia, Serguei Lavrov, de que a Rússia poderia ter que intervir na Ucrânia, se esta se tornasse membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). O telegrama da Embaixada de Moscou de 1º de fevereiro de 2008 de Burns (#182) para Washington não deixa dúvidas de que o embaixador Burns entendeu bem as palavras de Lavrov; na linha do assunto lia-se: "Nyet significa nyet: linhas vermelhas de ampliação da OTAN da Rússia".

2. Portanto, a direção política de Washington recebeu suficiente advertência, em termos bem específicos e nada enigmáticos, da "linha vermelha" da Rússia em relação à Ucrânia tornar-se membro da OTAN. No entanto, em 3 de abril de 2008, uma cúpula do pacto do Atlântico Norte em Bucareste afirmou: "A OTAN dá as boas-vindas às aspirações euro atlânticas da Ucrânia e da Geórgia de serem membros da OTAN. Concordamos hoje em que estes países se tornem membros da OTAN".

3. Há oito anos, em 22 de fevereiro de 2014, os EUA organizaram um golpe de estado em Kiev, chamado com razão de "o golpe de Estado mais descarado da história", na medida em que já fora divulgado 18 dias antes e chamado por seu nome pela atual subsecretária de Estado, Victoria Nuland, na conversa publicada com o embaixador dos EUA (Geoffrey R. Pyatt) em Kiev. Os golpistas pediram de imediato que a Ucrânia se unisse à OTAN.

4. Há mais de seis anos, em junho de 2016, o presidente russo, Vladimir Putin, expressou aos repórteres ocidentais sua preocupação de que os chamados locais de mísseis antibalísticos na Romênia e na Polônia pudessem ser transformados de um dia para o outro para acomodar mísseis de ataque ofensivos vindo a representar uma ameaça para a Rússia.

5. Em 21 de dezembro de 2021, o presidente Putin disse aos líderes militares russos do mais alto nível: "É extremamente alarmante que elementos do sistema de defesa global dos Estados Unidos estejam se deslocando para perto da Rússia. Os lançadores Mk 41, que estão localizados na Romênia e se deslocarão para a Polônia, estão adaptados para lançar os mísseis de ataque Tomahawk. Se esta infraestrutura continuar avançando, e os sistemas de mísseis dos EUA e da OTAN se deslocarem para a Ucrânia, seu tempo de voo para Moscou será de apenas sete a 10 minutos, ou até de cinco minutos para os sistemas hipersônicos. Este é um grande desafio para nossa segurança".

6. Em 30 de dezembro de 2021, Biden e Putin falaram-se por telefone, a pedido urgente de Putin. O comunicado russo sobre esta conversa dizia:

"Joseph Biden enfatizou que a Rússia e os EUA compartilham uma responsabilidade especial para garantir a estabilidade na Europa e em todo o mundo e que Washington não tinha intenção de deslocar armas de ataque ofensivo para a Ucrânia".

7. Em 12 de fevereiro de 2022, a Rússia informou à mídia sobre uma nova conversa telefônica entre Putin e Biden naquele mesmo dia.

"A chamada foi uma espécie de continuação da... conversa telefônica de 30 de dezembro... O presidente russo deixou claro que as propostas do presidente Biden realmente não abordam os elementos centrais e chave das iniciativas da Rússia com relação à não expansão da OTAN, ou ao não deslocamento de sistemas de armas de ataque para território ucraniano...Para estas inquietações, não recebemos uma resposta satisfatória".

8. Nada do que foi dito aqui tornou-se público nos meios de comunicação mais acessíveis nos EUA e em outros países, nada. Em 24 de fevereiro de 2022, a Rússia lançou sua operação militar em uma Ucrânia controlada por grupos pro-nazis e pro-Otan, e então começou o barulho, o alvoroço pela Ucrânia, de muitos que não sabiam na véspera onde ficava esse país.

Mas: Sem provocação?

Os Estados Unidos insistem em que a invasão da Rússia "não foi provocada", que surgiu do nada. A mídia capitalista repete ad nauseam, obedientemente, esse refrão, enquanto mantém os estadunidenses no escuro sobre o que aconteceu na realidade (não dão nunca fatos, apenas opiniões). A maioria dos estadunidenses está tão enganada pela mídia como há 20 anos, quando lhes disseram que havia armas de extermínio em massa no Iraque. Simplesmente aceitaram isso como um ato de fé. A mídia culpada tampouco expressou remorsos, nem um mínimo de vergonha quando ficou evidente que não era verdade. Nenhuma surpresa para os cubanos, que vimos que a farsa desonesta do "Pátrio Poder" em 1962, nunca reconhecida como uma fraude, ou mais recentemente os "ataques sônicos" em Havana, que simplesmente se esfumaram sem a menor explicação, embora tivessem um grave efeito nas relações entre EUA e Cuba e de fato tenham sido o pretexto para deixar sem efeito e derrogar o que tinha avançado durante a administração de Barack Obama, e a nova desculpa para incluir Cuba na lista de países patrocinadores do terrorismo e a expulsão de dezenas de diplomatas cubanos.

Este é o tema mais importante, no qual mais quero insistir: as pessoas acreditam nessas mentiras, depois não se fala mais nelas e são substituídas por novas mentiras, em que também se acredita, e assim sucessivamente. Isso acontece porque a mídia canalha age com quase total impunidade; por isso é tão importante denunciá-la e fazer com que cada vez se acredite menos nela.

Fred Hiatt, que foi o editor de artigos de opinião no Washington Post, é um bom exemplo. Em uma entrevista à Columbia Journalism Review (CJR) afirmou (nota 4): "Se você lê os editoriais que escrevemos antes [da agressão contra o Iraque], declaramos como um fato sabido que ele [Saddam Hussein] tinha armas de destruição em massa". "Se isso não era verdade, teria sido melhor não dizê-lo".

Claro, precisamente esse é um princípio fundamental do jornalismo e da ética em geral; se algo não é real, supõe-se que não se deve declarar com segurança que é.

Mas há coisas que são reais, muito reais, mas não são originadas na ou pela Rússia. Por exemplo, na segunda-feira, 17 de outubro de 2022, a OTAN começou um exercício de duas semanas na Europa para capacitar as tripulações aéreas no uso de bombas nucleares táticas estadunidenses. O exercício, conhecido como Steadfast Noon (Meio dia Firme), concentra-se em Kleine Brogel na Bélgica, uma das seis bases aéreas na Europa que armazena bombas nucleares estadunidenses. O exercício realiza-se em meio a importantes modernizações nas bases nucleares de toda a Europa.

Os exercícios de Steadfast Noon realizam-se uma vez por ano, mas nesta ocasião foram únicos, porque aconteceram durante a maior guerra convencional na Europa desde a Segunda Guerra Mundial, em um clima de tensão e incerteza consideráveis. Para os funcionários da OTAN, fora da guerra na Ucrânia, tudo isso é rotina. Para o público, é apenas outra notícia, sem entender sua importância no aumento das tensões e dos temores sem precedentes sobre uma guerra nuclear.

Steadfast Noon envolveria 14 países (menos da metade dos 30 aliados da OTAN) e até 60 aviões F-16 e F-15E de quarta geração, assim como os de combate F-35A e F-22 de quinta geração. Ainda que no exercício praticam-se as forças nucleares táticas da OTAN, também participariam bombardeios estratégicos B-52 estadunidenses. Os voos se realizarão sobre a Bélgica, o Reino Unido, o Mar do Norte, a Alemanha e os Países Baixos.

"Praticando" o intercâmbio de bombas nucleares com os aliados dos EUA

Steadfast Noon exercita um acordo conhecido como "intercâmbio nuclear", segundo o qual os Estados Unidos instalam equipamentos nucleares em aviões de combate de países não nucleares selecionados da OTAN e treina seus pilotos para levar a cabo um ataque com bombas nucleares estadunidenses.

O acordo é muito controvertido e de fato ilegal porque os Estados Unidos, como parte do Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP), prometeu não entregar armas nucleares a outros países. Em tempos de paz, as armas nucleares estão sob o controle dos EUA, mas o acordo implica que seriam entregues ao país não nuclear em tempos de guerra. O acordo estava em vigor antes de que o TNP fosse assinado, razão pela qual alguns não consideram como uma violação de jure da letra do tratado. Mas pode-se dizer com total segurança que sim, viola claramente o espírito do TNP e foi muito irritante e provocador para a Rússia durante anos.

Não se trata apenas de uma modernização das infraestruturas para o armazenamento e uso das armas nucleares táticas. As bombas nucleares B61 existentes logo serão substituídas pela bomba nuclear guiada B61-12 muito mais precisa e letal. Espera-se que a produção em grande escala de cerca de 480 B61-12 comece logo. O treinamento das unidades na Europa está programado para começar no começo de 2023 e as armas poderiam chegar no final de 2023 ou em 2024, ou antes, se o conflito da Ucrânia precipitar um confronto em grande escala entre a Rússia e a OTAN.

Em comparação com as mentiras de que Saddam Hussein tinha armas de "extermínio em massa", a situação é muito pior agora. A Rússia não é o Iraque, a Rússia sim, tem "armas de extermínio em massa", milhares e milhares delas, e se for encurralada, seguramente vai usá-las. O mesmo acontece com a República Popular da China, e em menor escala, com a República Popular Democrática da Coreia (RPDC).

Putin foi tão demonizado nos EUA nos últimos seis anos que as pessoas se inclinam a acreditar que há algum "mal hereditário" que faz com que os russos sejam monstros diabólicos. Este "Rússia-gate" foi e é uma grande estafa, como foi a explosão do "Maine", o "Pátrio Poder" ou os "ataques sônicos", mas os estadunidenses também não sabem disso. As consequências da demonização prolongada são extremamente perigosas, e o serão ainda mais nas próximas semanas (quando o inverno traga incontáveis penúrias para os ucranianos e vejamos milhões de deslocados mais) (nota 5), já que os líderes políticos dos dois partidos no poder nos EUA, com poucas e honrosas exceções, competem para ser os mais "ardorosos" em opor-se e acabar com o ataque "não provocado" da Rússia contra a Ucrânia.

Notas:

(1) "Reyerta". Romancero Gitano, Federico García Lorca (1928)
(2) Húbris ou hibris, é um conceito da Grécia Clássica, que pode traduzir-se como "orgulho e arrogância desmedidos". Refere-se à transgressão dos limites impostos pelos deuses aos mortais, quando estes começam a achar que também são "deuses". Diz um provérbio antigo, "A quem os deuses querem destruir, primeiro enlouquecem". Este conceito de que os "EUA não podem perder uma guerra", esquece o Vietnam, o Afeganistão etc. Mas se virmos um filme de Rambo e não tivermos outra informação, sairemos convencidos de que os EUA ganharam a guerra no Vietnam.
(3) Barbara W. Tuchmann, extraordinária historiadora, natural de Cos Cob (Connecticut), que desmistificou o conceito de que "a escalada militar pode ser controlada e uma guerra mais ampla pode ser limitada..." em sua fenomenal obra "Os canhões de agosto" (publicada no princípio de 1962) que Kennedy estava lendo nos dias da Crise de Outubro, e que as pessoas próximas dele afirmaram que desempenhou um grande papel em não atacar Cuba como exigiam aos berros os generais e almirantes do Conselho de Segurança Nacional dos EUA. Em troca, negociou com Nikita S. Kruchev e o mundo ainda existe.
(4) CJR, março/abril de 2004.
(5) Também os europeus e todos no mundo vamos sofrer de uma forma ou de outra: já me anunciaram pelo correio que minha conta de eletricidade e gás deve subir entre 110 e 120 dólares mensais em relação ao inverno de 2021.

José R. Oro | Nasceu em Cuba em 1952. Geólogo de profissão, autor de quatro livros e mais de 100 artigos especializados em mineração, geologia, engenharia e meio ambiente e muitos outros sobre temas sociais, política e economia. Vive nos EUA. Colaborador do Prensa Latina (tomado de Firmas Selectas).
Tradução: Ana Corbisier.

 

O forte significado da vitória de Lula para além do Brasil ficou evidente na cobertura internacional ao resultado das eleições. Veículos de diversos países noticiaram a trajetória ímpar do líder operário nordestino de esquerda que, aliado a um ampla frente política e social, pela terceira vez ocupará a presidência da República após ter sido injustamente preso, pondo fim ao mandato da extrema-direita e resgatando a democracia. 

Vermelho

O norte-americano The New York Times destacou em manchete: “Brasil elege Lula, ex-líder de esquerda, em desaprovação a Bolsonaro”, acrescentando que a vitória “completa um renascimento político impressionante” de Lula e “encerra o período turbulento” imposto pelo atual presidente. 

O jornal francês Le Monde salientou que  Lula “faz um retorno espetacular da prisão à presidência” e que receberá “um país dividido”. A publicação pontua as dificuldades que se colocam no horizonte e diz que a “fênix do Brasil terá que usar todo o seu talento para erguer o país das cinzas”.

A agência chinesa Xinhua noticiou: “Lula eleito presidente do Brasil no segundo turno da mais polarizada eleição da história do país”. E completou: “Seu retorno ao poder agora confirmou seu papel como principal liderança política do Brasil no que vai deste século XXI e um dos estadistas mais respeitados do mundo”.

Já a manchete do britânico The Guardian dizia: “Lula encena retorno surpreendente para derrotar Bolsonaro de extrema-direita nas eleições brasileiras”. A reportagem apontava ainda que o petista “selou um retorno político surpreendente, derrotando o titular de extrema-direita Jair Bolsonaro em uma das eleições mais significativas e contundentes da história do país”. 

Ao tratar do resultado eleitoral, o portal da BBC também noticiou o feito, destacando as diferenças entre o atual e o próximo presidente: “Lula é ex-líder sindical de esquerda e Bolsonaro é populista de direita e ex-capitão do Exército”. O site também lembrou a péssima condução da pandemia por Bolsonaro e a destruição da Amazônia, assunto que tem alarmado a comunidade internacional pelo significado que a floresta tem para a vida no planeta. 

O espanhol El País destacou, em seu editorial, que “será o início de uma nova era” , acompanhada “pelo desafio de reconstruir um país gravemente fraturado”. O jornal escreveu, ainda, que “o governo de extrema-direita de Bolsonaro, em sua constante e perigosa polarização, deteriorou a qualidade democrática da maior economia da América Latina”. 

Leia também: Joe Biden diz que Lula é presidente após eleições livres, justas e críveis

Outro periódico norte-americano a destacar a vitória foi o Washington Post, que estampou: “Lula derrota Bolsonaro e conquista terceiro mandato como presidente do Brasil”. E o Wall Street Journal noticiou que a chegada de Lula ao poder “solidifica a guinada da América Latina para a esquerda”.

Na Alemanha, o jornal Der Spiegel também noticiou a vitória e disse que muitos dos apoiadores de Lula o associam “ à era de ouro do Brasil”.Na vizinha Argentina, o Clarín destacou em seu noticiário que a vitória veio “no final de uma campanha agressiva, em um clima histórico de polarização e após uma contagem voto a voto”.

O anúncio da compra do Twitter pelo bilionário norte-americano Elon Musk trouxe um misto de tristeza e revolta para quem luta contra as fake news e uma alegria incontida para a extrema-direita em todo o mundo. Mas é preciso uma análise que vá além da dicotomia e dos 280 caracteres.

A partir das declarações do próprio Elon Musk surgem pelo menos algumas motivações para a compra e uma provável mudança na curadoria de conteúdo dessa plataforma.

Por Renata Mielli* e Gustavo Alves**

Esse pressuposto é fundamental para entender porque um bilionário que não tem nenhuma atuação nas plataformas de tecnologia resolveu investir US$ 43 bilhões numa empresa avaliada em pouco mais de US$ 38 bilhões e que no ano passado registrou um prejuízo líquido de US$ 221 milhões.

A primeira constatação é que ele comprou a empresa para acabar com o pouco de conquistas que a sociedade obteve no processo recente de pressão para que as Big Techs desenvolvessem algum contrapeso para reduzir a disseminação de desinformação e discurso de ódio.

Isso escamoteado pelo argumento da defesa fundamentalista da “liberdade de expressão”, vista como um direito absoluto e que inclusive se sobrepõe a outros direitos. Mas é preciso enfrentar essa retórica oportunista e não ficar na defensiva para afirmar que não existem direitos absolutos, que estabelecer limites para o exercício desta liberdade é tão fundamental quanto a sua própria existência. Não cabe na liberdade de expressão, por exemplo, racismo, homofobia, apologia à morte ou aniquilação de grupos sociais, discursos que atentem contra a vida. Nada disso é opinião que possa ser livremente expressada. Nem em espaços privados como círculos de amigos ou familiares, muito menos em ambientes nos quais se realiza o debate público, como no caso das Plataformas de Redes Sociais.

Por isso, quem defende - como Musk, que o Twitter e outras plataformas sejam "arenas livres", na prática estão colocando em risco as poucas conquistas que a sociedade conseguiu avançar no debate sobre a necessidade de haver mais regras sobre a atividade dessas plataformas, como o reconhecimento tímido do papel deletério da amplificação algorítmica pelas plataformas.

Sob pressão da sociedade, o Twitter patrocinou um estudo para entender qual a possibilidade de seu algoritmo valorizar ou impulsionar uma determinada ideologia política e embora o Twitter tenha divulgado as descobertas da pesquisa em outubro de 2021, só agora o estudo foi publicado na revista PNAS (Proceedings of the National Academy of Sciences, publicação oficial da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos), após ter sido revisado por outros cientistas.

O estudo analisou uma amostra de 4% de todos os usuários do Twitter que foram expostos ao algoritmo (mais de 46 milhões) e também analisou um grupo de controle de 11 milhões de usuários que nunca receberam tweets recomendados automaticamente em sua timeline.

A face visível da ação do algoritmo do Twitter é a exposição entre as postagens das contas que você segue, tweets marcados como “você pode gostar”.  Ou seja, o algoritmo está recomendando conteúdo para você.

Isso é feito usando os dados da sua atividade anterior na plataforma, como os tweets que você curtiu ou retuitou. Uma equação estatística aplicada a estes dados lastreia o “aprendizado de máquina”. Assim o computador, em tese, aprende automaticamente com as preferências do usuário e aplica isso a dados que o sistema não viu antes.

Mas existe um fantasma presente nessas equações: o viés. Que segundo esse estudo reforça preconceitos humanos e amplificou os discursos de “direita”.

O estudo analisou o efeito de “amplificação algorítmica” em tweets de 3.634 políticos eleitos de sete países com grande base de usuários no Twitter: EUA, Japão, Reino Unido, França, Espanha, Canadá e Alemanha.

A pesquisa mostrou que em seis dos sete países (a Alemanha foi a exceção), o algoritmo favoreceu significativamente a amplificação de tweets de fontes politicamente inclinadas à direita.

No Canadá por exemplo, os tweets dos liberais foram amplificados em 43%, contra os dos conservadores em 167% e no Reino Unido os tweets dos trabalhistas foram amplificados em 112%, enquanto os conservadores foram amplificados em 176%.

Outro aspecto revelado pelo estudo foi amplificação algorítmica de notícias políticas. O estudo analisou a amplificação algorítmica de 6,2 milhões de notícias políticas compartilhadas nos EUA. E chegou à conclusão que a amplificação das notícias também segue o mesmo padrão.

Ou seja, há uma exposição maior dos conteúdos de direita, fake news e desinformação. 

Esse estudo só foi realizado graças a intensa cobrança da sociedade e após a tentativa de invasão do Congresso americano pela turba fascista alimentada por Trump.

Pois bem, quando se começa a vislumbrar a chance de se entender como os algoritmos alimentam a disseminação de desinformação e discurso de ódio, eis que surge Elon Musk.

Musk é mais um expoente dos fundamentalistas da liberdade de expressão. Para ele, não deve haver limites, o que significa que não deve haver qualquer tipo de moderação sobre o que se diz nas redes sociais. Outro defensor dessa tese é o presidente Bolsonaro.

Segundo Musk, ele quer transformar o Twitter numa "arena de livre discurso".

Ele afirma que irá democratizar o Twitter apostando na abertura do código fonte (a programação interna do Twitter) para que os mecanismos de operação sejam conhecidos e explorados por programadores.

Uma promessa vazia cheirando a “Ouro de Tolo” feita pela mesma pessoa que usou sua conta para atacar pessoas transgêneros e as políticas de combate à transmissão da Covid-19.

A liberdade de expressão tem sido usada - de forma tão indevida, oportunista e equivocada - por expoentes da extrema direita, bilionários e representantes do grande capital. A economia atual é dinamizada pelo modelo de negócios que usa o discurso como mobilizador da atenção.

E o que chama mais atenção é o discurso de ódio, é o preconceito, é a polarização social baseada em grupos que se comportam como torcedores raivosos e não como cidadãos que discutem temas de interesse público e social.

Somos todos sugados pela força centrípeta dos estímulos incessantes provocados pelas redes de alienação e agimos como autômatos reproduzindo, curtindo, compartilhando conteúdos que reforçam a visão do meu “time”, grupo e dos meus pré-conceitos.

Nesse processo, monetizamos toda a economia assentada nas plataformas. Vendemos nosso olhar, nosso corpo e alma e compramos produtos, serviços e ideias, sem qualquer reflexão. Ajudamos a curto circuitar a esfera pública e a desintegrar qualquer possibilidade democrática.

O princípio da inimputabilidade do intermediário, tão importante para o ecossistema da internet, não pode ser confundido com ausência de compromisso e responsabilidade das plataformas com o debate público.

Por isso, a regulação das plataformas de rede sociais, das Big Techs, a partir de amplo debate público é urgente e indispensável. Musk comprou o Twitter, e pode conduzir esta rede a ser um ambiente de afronta a direitos humanos fundamentais e de menosprezo com a democracia.

Mais do que nunca devemos retomar o debate sobre o #PL2630 e reforçar nele todos os elementos que dizem respeito diretamente as obrigações e regras para que as Big Techs atuem no Brasil.

É mais urgente do que nunca que tenhamos uma legislação que regule as atividades desta e de outras plataformas no Brasil, que as obrigue a cumprir os compromissos expressos em nossa Carta Constitucional. O dinheiro pode comprar quase tudo, mas não podemos deixar que ele compre também nossa soberania, a proteção à nossa democracia e esfera pública.

*Renata Mielli – Jornalista, Doutoranda no Programa de Ciências da Comunicação da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (PPGCOM-ECA-USP), integrante da Coalizão Direitos na Rede.

**Gustavo Alves – Jornalista, webdesigner e programador, estudante de Ciência de Dados na USP/Esalq.

Em fase final de debate na Câmara dos Deputados, o PL 2630/2020, que acabou apelidado de PL das Fake News, sofre onda de ataques com conteúdos de desinformação. Facebook, Google e cia temem a aprovação de medidas que vão impor transparência às suas atividades e outras regras para a sua atuação no país.

Desde que o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, reiterou que o tema é prioridade na agenda de deliberações da Casa, as empresas resolveram subir o tom e partir para o vale tudo, na tentativa de alterar ou até impedir a aprovação da proposta. As empresas usam o seu poder de mercado, e espaços privilegiados de suas plataformas para fazer a campanha contra um projeto de lei no país, o que é gravíssimo! 

Mas o que elas temem? O que as desagrada tanto?

Por Renata Mielli*

Medo da regulação

Nos anos 90, início dos anos 2000, prevalecia uma visão ufanista de que a internet representaria um mundo de liberdade, de que ela seria um território livre: livre de regulação do estado, livre de fronteiras, livre de regras, onde todos podem construir seus negócios, suas formas de comunicação e expressão. 

Essa ideia de ausência de regras foi muito conveniente para o poder econômico que se ergueu no Vale do Silício. As grandes empresas de tecnologia (Big Techs) se apropriaram desse discurso para impulsionar seus modelos de negócios e erigir um novo mercado monopolista dominado pelas empresas Gafam, acrônimo para Google, Amazon, Facebook e Apple e Microsoft.

A partir do escândalo Cambridge Analityca, das denúncias da sociedade civil e do alerta de pesquisadores muitos países passaram a discutir legislações para regular essas empresas. Há debates sobre obrigações de transparência, regras para moderação de conteúdos, combate ao discurso de ódio, enfrentamento à desinformação, debates sobre direito autoral e medidas econômicas e tributárias.

Em todos os países que enfrentaram essa agenda, as Big Techs usaram seu poder para tentar impedir que leis fossem aprovadas e aplicadas. Fizeram de tudo: campanhas baseadas em distorção de informações e dados, e até ameaças de deixar de ofertar seus serviços. Isso aconteceu na Austrália, na Espanha, na França e estão acontecendo agora no Brasil.

Em 03 de março, o Facebook veiculou propaganda em jornais de grande circulação nacional com o título: O PL das Fake News deveria combater Fake News. E não a lanchonete do seu bairro. No dia 11, foi a vez do Google soltar uma nota dizendo que se aprovado, o PL vai modificar a internet como você conhece. No dia 14, o Google colocou na sua página inicial, um link para a nota, de forma que todos os usuários que fizeram uma busca neste dia entraram em contato com a visão alarmista da empresa sobre o projeto. Além disso, passou a circular conteúdo publicitário do Google em outras plataformas com o mesmo conteúdo, que utiliza a retórica do medo, mecanismo largamente usado para estruturar conteúdos de desinformação e manipular a opinião pública.

Sobre o que trata o PL 2630

Afinal, será que o PL 2630 vai prejudicar a lanchonete do seu bairro? Será que ele vai mudar a internet que a gente conhece? Para responder essas perguntas, sem adjetivos, temos que conhecer o que de fato diz o projeto, que está sendo discutido desde maio de 2020.

Ele ganhou o apelido de PL de Fake News no início de sua tramitação. Na sua primeira versão, havia um artigo que tentava conceituar desinformação, que sofreu muitas críticas por trazer riscos à liberdade de expressão: definir numa lei que conteúdo seria classificado como fake News ou não é muito perigoso. Por isso, este ponto acabou caindo, e o texto que aguarda votação no plenário da Câmara não traz, em nenhum dos seus 42 artigos, o termo fake news.

Então, qual o escopo do projeto e porque ele continuou sendo chamado de PL de Fake News? O PL 2630 dispõe sobre a criação de uma Lei Brasileira de Liberdade, Responsabilidade e Transparência na Internet. Com base neste tripé, estrutura um elenco de obrigações, regras e mecanismos de governança para enfrentar o abuso do poder econômico nas redes, permitindo aos cidadãos e aos órgãos públicos identificar conteúdos de publicidade e impulsionados, saber o montante e a origem de recursos usados, por exemplo, para impulsionar conteúdos pregando o inexistente tratamento precoce contra a Covid-19 que tantos prejuízos trouxeram e ainda trazem à saúde.

O fenômeno da desinformação e seu impacto atual está relacionado às dinâmicas de circulação da informação no interior das plataformas. Ganham alcance e velocidade graças aos fatores de relevância considerados pelos algoritmos. Essas empresas, praticamente não fornecem dados sobre, por exemplo, quantos conteúdos são excluídos, com quais critérios, e porque contas são suspensas. Quantos dos que estão lendo este artigo já tiveram postagens excluídas ou rotuladas sem maiores explicações? E pior, os canais de contestação disponíveis para que possamos recorrer são praticamente inexistentes. Enquanto isso, muitas autoridades e pessoas com mandatos eletivos usam seus perfis e contas para espalhar a desinformação impunemente.

Ou seja, o que o projeto tenta é obrigar as Big Techs que prestam serviços para centenas de milhões de brasileiros prestem informações para que a sociedade compreenda como as fake news circulam e são patrocinadas, o que é fundamental para adotar medidas para combatê-las.

Outro ponto fundamental é uma seção inteiramente destinada a estabelecer responsabilidade diferenciada a agentes e contas de interesse público no uso das redes sociais. Afinal, quanto maior o poder que uma pessoa tem, maior a responsabilidade que ela carrega.

Também traz artigos para conter a viralização das fake news nos serviços de mensagem instantânea – aplicações do tipo WhatsApp e Telegram. Estabelece vedações à utilização de disparo automatizado de mensagens em massa, como as que foram largamente utilizadas na campanha de Jair Bolsonaro em 2018 e denunciadas pela jornalista Patrícia Campos Mello.

Ou seja, o projeto não proíbe publicidade nem impulsionamento, apenas cria regras para que a transparência seja possível. Nesse sentido, não há nada no PL que prejudique a lanchonete. Também não haverá uma mudança na internet que você conhece. Inclusive porque o PL não abrange toda a internet, ele se aplica apenas aos provedores de aplicação com mais de 10 milhões de usuários. Mas ele vai obrigar, sim, uma mudança da postura dessas empresas com relação aos usuários brasileiros. Mudanças que trarão mais segurança e empoderamento do usuário e da sociedade. E é isso que elas querem evitar.

As Big Techs se colocam veementemente contra transparência porque a opacidade é um fator intrínseco ao seu modelo de negócios das Big Techs. Dar transparência às suas operações é empoderar a sociedade para reduzir assimetrias provocadas pelo poder dessas empresas. Elas querem continuar ganhando bilhões de reais no país, atuando sem qualquer regra, sem ter que prestar contas e informações de suas atividades e, em alguns casos, nem responder às autoridades nacionais.

Amplo debate

O projeto 2630 está em debate na Câmara desde agosto de 2020. Ao longo desses quase dois anos de debate, foram organizados por iniciativa do atual relator, Dep. Orlando Silva, dois seminários, com a participação de centenas de especialistas. Organizações da sociedade civil, entidades acadêmicas, empresariais realizaram inúmeros eventos sobre o PL. O tema foi tratado ao longo deste período na mídia especializada, mas também em veículos jornalísticos. Ou seja, houve um amplo debate que resultou num aprofundamento de muitos dispositivos e amadurecimento do que é a espinha dorsal do projeto. A ofensiva atual das Big Techs nesta reta final é justamente uma reação a isso.

Há aspectos a serem melhorados e aperfeiçoados no projeto. Claro que sim. Um deles diz respeito ao artigo 38, que cria uma obrigação de remuneração de conteúdo jornalístico por parte das plataformas. Esse é um tema que não alcançou uma convergência maior. Vários setores, inclusive que têm posições diferentes sobre o PL, manifestam reservas com relação a esse dispositivo. Mas os motivos que geram resistência são distintos. As Big Techs têm se colocado contra qualquer iniciativa que surja na perspectiva de remunerar links. Inclusive ameaçaram acabar com sua operação em outros países (Austrália, Espanha por exemplo). Já, entidades do campo jornalístico, da mídia alternativa e dos direitos digitais que questionam esse tópico não o fazem por serem contra o debate em si, mas porque consideram que esta é uma discussão que precisa ser feita em outro contexto. Ela diz respeito a questões delicadas como definir o que é ou não conteúdo jornalístico, quem ao final tomaria essa decisão, como se daria essa remuneração, quem teria direito a ela, etc. Então, esse de fato é um tema sensível, para o qual ainda se busca alternativa melhor.

Mas essas melhorias e outras que ainda possam ser feitas no projeto precisam ser construídas a partir de um debate leal.

O que é importante que a sociedade compreenda é que após dois anos de debate, o projeto amealhou muitos consensos progressivos. Consenso visto não como unanimidade, mas construção de posição comum, principalmente em torno dos dispositivos envolvendo transparência, publicidade, desenho de um procedimento mais transparente sobre medidas de moderação com direito à contestação, para garantir um ambiente mais seguro e menos tóxico nas redes. E, claro, por se tratar de um tema de fronteira, dinâmico, há algumas questões que ainda ensejam dúvidas. O que precisa ser visto com naturalidade.

É fundamental desfazer as confusões que a campanha de desinformação das empresas estão trazendo. É preciso seguirmos atentos às discussões nas próximas semanas. E ter a tranquilidade de que essa lei é um dos passos que a sociedade brasileira dá na perspectiva de regular a atividade das plataformas e coibir a disseminação da desinformação. Outras leis certamente virão. E há também muitas iniciativas que precisam ser tomadas fora do âmbito legislativo. O que não podemos é ficarmos paralisados. Essas empresas não podem fazer terrorismo midiático e espalhar desinformação para continuar atuando numa terra sem lei.

*Renata Mielli é jornalista, doutoranda em Ciências da Comunicação pela ECA/USP, coordenadora do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé e integra a Coalizão Direitos na Rede.

A Fantástica Fábrica de Golpes será exibida on-line durante três dias em diversas mídias alternativas brasileiras. Produção anglo-brasileira, o documentário teve sua estreia em festivais internacionais a partir de dezembro passado. Nos cinemas, oito capitais já exibiram a película até o momento. O filme de Victor Fraga e Valney Nunes mergulha no histórico de golpes de Estado na América Latina e, a partir desse caldo, evidencia os mecanismos que culminaram na destituição da ex-presidenta Dilma Rousseff (PT), em 2016.

O Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé está entre as página que darão acesso gratuito ao filme neste final de semana. Outros parceiros da iniciativa são a Rede Brasil Atual, Mídia Ninja, Jornalistas Livres, Viomundo, Cafezinho, 247, DCM, Fórum, TVT, Saiba Mais, Mídia Livre, Prerrogativas, Construir Resistência, entre outros, também estarão. No canal aberto da TVT (44.4 para Grande São Paulo), as exibições serão no sábado (24), à 0h15, e domingo (25), às 20h.

A obra traça paralelos com episódios de ataques à democracia em vários países latinoamericanos e aborda com detalhes o processo da prisão política de Lula - circunstâncias que levaram à ascensão da extrema direita no país, resultando na eleição de Jair Bolsonaro. Entre os temas abordados estão o papel da mídia, a partidarização do Judiciário como costuma ocorrer nos chamados processos de lawfare, além da disseminação de desinformação e fake news.
 
“Deixamos no ar questões sobre a regulamentação da mídia, se isso seria censura, o que podemos fazer para romper esse ciclo de golpes de Estado que existe em toda a América Latina. Quase todos os países do continente são sujeitos a esse tipo de golpe, com exceção do México, provavelmente porque eles nunca tinha tido um governo de esquerda”, afirma Vitor Fraga, brasileiro radicado no Reino Unido, ao portal Papo de Cinema.
 
Assista gratuitamente entre os dias 23 e 25 de setembro pelo link abaixo:
 

Confira nota do MST sobre a atitude excludente da direção do MASP contra a realização do Núcleo “Retomadas”,  como parte da mostra Histórias Brasileiras:

Viemos, através desta declaração, manifestar nossa indignação com a atitude da  direção do MASP que levou a impossibilidade de realização do Núcleo “Retomadas”,  como parte da mostra Histórias Brasileiras. 

Como informa e-mail recebido das curadoras no dia 03/05/2022, sob alegações de  cunho burocrático e legalista que não se sustentam na efetiva realização do projeto, o  MASP inviabilizou a inserção de imagens do Acervo do MST, do Acervo João Zinclar e  de outros acervos que documentam a trajetória do MST e da luta pela Reforma Agrária  no Brasil. 

Somos testemunhas da forma ética e profissional com que as curadoras e os  acervos parceiros se empenharam na produção do projeto, em todas etapas e em acordo  com as demandas da instituição. 

Afirmamos nosso respeito e apoio às curadoras Sandra Benites e Clarissa Diniz,  responsáveis pelo Núcleo “Retomadas”, que diante da atitude do MASP decidiram não  participar da mostra, pois, como declaram: “Aceitar a exclusão das imagens das  retomadas em nome da permanência do núcleo nos levaria a ser desleais com os sujeitos  e movimentos envolvidos na nossa curadoria – contradição que não estamos dispostas a  negociar por não concordar com tamanha irresponsabilidade.” 

Como afirmam as curadoras: “O Retomadas é sobre a urgência de revermos as  éticas e políticas coloniais de nossos territórios, línguas, corpos, representações e museus.  Do nosso ponto de vista, mantê-lo à revelia da representação das próprias retomadas que  lhe dão título, argumento e sentido social nos levaria a ser anti-éticas em nome da ética,  excludentes em nome da inclusão, não-representativas em nome da representatividade,  expropriadoras em nome da não-apropriação, silenciadoras em nome da voz. Nos levaria,  por fim, a praticar a colonialidade contra a qual o núcleo se insurge”. 

O material selecionado pelas curadoras – imagens fotográficas, cartazes, cartilhas  e jornais impressos – são testemunhos da capacidade da classe trabalhadora de se  apresentar firme e altiva como sujeito de sua história, em todos os sentidos. 

Destacamos que ao inviabilizar a inserção da totalidade desses documentos o que  de fato se efetiva é a exclusão de um dos maiores movimentos sociais da história  contemporânea brasileira e latino-americana. Decisão que aponta para uma construção de  conhecimento histórico distorcido e comprometido com uma cultura deturpadora da real  complexidade da história política brasileira. Atitude que, no mínimo, está em desacordo  com a função social de uma instituição museológica que se apresenta em seu site com a  seguinte missão: “O MASP, Museu diverso, inclusivo e plural, tem a missão de  estabelecer, de maneira crítica e criativa, diálogos entre passado e presente, culturas e  territórios, a partir das artes visuais. Para tanto, deve ampliar, preservar, pesquisar e  difundir seu acervo, bem como promover o encontro entre públicos e arte por meio de  experiências transformadoras e acolhedoras. ” 

Portanto, questionamos a atitude excludente da direção do MASP, apontamos a  gravidade deste tipo de construção de conhecimento que invisibiliza a luta da classe  trabalhadora e chamamos toda a comunidade cultural e entidades que representam as lutas  do povo brasileiro para este debate, que se reveste da urgência de não ceder à censura e  ao apagamento de nosso maior patrimônio: nossa capacidade de luta organizada para  construir um outro modelo de sociedade.  

Pátria Livre, Venceremos! 

Acervo João Zinclar 
Coletivo de Arquivo e Memória do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST)
Direção Nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST)

O futebol das mulheres ganha o planeta como nunca antes em sua história

Grande dia!
Grande dia de verdade e não o externado pelo boçal que ocupa desastradamente o posto mais alto do executivo brasileiro.

Hoje é um grande dia porque tem início a oitava edição da Copa do Mundo de Futebol Feminino! A anfitriã França abre a competição diante da Coréia do Sul a partir das 16h00 – horário de Brasília – e além da ansiedade pelo ponta pé deste jogo temos muito o que comemorar em termos de visibilidade.

Por Lu Castro, especial para o Barão de Itararé

Há pouco mais de dez anos, assumi uma responsabilidade pessoal: utilizar a tecnologia em favor da visibilidade das mulheres que faziam a bola rolar pelos campos da cidade. Minha primeira busca foi no Juventus, formador por excelência, e sua técnica Magali.

O material, publicado no antigo portal OléOlé, já se perdeu, mas, de lá para cá, perda deixou de ser sinônimo de mulher dentro e fora das quatro linhas.

Avançamos. E os contatos com os principais agentes da modalidade se intensificaram. E espaços alternativos começaram a surgir com mais força na busca pelo tratamento igualitário do futebol de mulheres e homens – ao menos no que diz respeito ao que se noticia, inicialmente.

Observando a movimentação da imprensa nacional, noto um grande cuidado ao tratar do assunto, diferente de muitos outros anos. Acredito que esteja diretamente relacionado ao número de mulheres presentes em redações esportivas, algo que apontei como imprescindível para a melhora na comunicação do futebol de mulheres em mídias tradicionais.

Avançamos. E avançamos noutros tantos aspectos do futebol, inclusive na gestão, onde o trabalho realizado pela ex capitã da seleção, Aline Pellegrino, como diretora de futebol feminino da Federação Paulista de Futebol, tem ampliado os espaços para trabalhar as categorias de base.

Avançamos. A seleção brasileira tem uma estrutura que nunca teve. A seleção brasileira conta com uniforme próprio e não sobra do uniforme masculino. A seleção tem seus jogos transmitidos de modo inédito em tevê aberta de alcance nacional. A seleção só não tem uma coisa: técnico.

E isso, car@s, é algo que me preocupa tanto quanto me alegra: o fato de termos a Copa do Mundo mais noticiada de todos os tempos.

Diante de uma seleção nacional que caiu no ranking FIFA nos últimos anos, sob o comando de alguém que não tem perfil para comandar o selecionado nacional em nenhuma circunstância – e já o demonstrou em outras ocasiões - que carrega para a França nove derrotas consecutivas, minha expectativa é de termos que reforçar nosso discurso e argumentar como nunca que o que eles (os espectadores desconhecedores da realidade do futebol feminino) estão vendo não é bem isso.

Num momento, em que os olhos do mundo estão voltados para a amarelinha tão conceituada um dia, mostrar um jogo baseado apenas na garras das nossas habilidosas e talentosas atletas, tem sido o protagonista dos meus pesadelos.

Tudo o que lutamos para construir – atletas, gestores, comissões técnicas sérias, jornalistas interessados no assunto – pode sofrer um revés de opinião pública se o coletivo não estiver bem arrumado. E nós sabemos que não está.

Há poucas horas da abertura do mundial mais importante de todos os tempos, vou da euforia e ansiedade que mal me deixou dormir a testa constantemente franzida de preocupação.

Avancemos pois, nossas atletas se entregarão e é muito provável que nos jogos do Brasil o que avance é o nível da gengibrinha pra dar conta da montanha russa de emoções.

Uma mulher registra um boletim de ocorrência acusando um homem por estupro. Em depoimento, descreve que o parceiro teria ficado subitamente agressivo e usado da violência para praticar relação sexual sem seu consentimento. O laudo médico, anexado ao caso, apresenta sinais físicos de agressão e estresse pós-traumático. Em resposta, o homem acusado desmente a história publicamente, argumentando que o episódio não passou de “uma relação comum entre um homem e uma mulher”.

Por Mariana Pitasse, no Brasil de Fato

Esse poderia ser apenas mais um entre os cerca de 135 casos de estupro registrados por dia – que equivalem a cerca de 10% a 15% dos abusos que acontecem diariamente no Brasil, segundo levantamento do Atlas da Violência de 2018. Mas não é um episódio qualquer. O homem acusado é Neymar, um dos jogadores de futebol mais bem pagos do mundo. Por isso, o caso tomou as páginas dos jornais dentro e fora do Brasil nos últimos dias, com ampla repercussão nas redes sociais.

Após a denúncia registrada contra o jogador do Paris Saint-Germain na última sexta-feira (31), a acusadora foi exposta de diferentes formas – pela mídia comercial e pelo próprio Neymar. Para "sensibilizar" a opinião pública, o jogador postou um vídeo em suas contas do Instagram e do Facebook em que diz ser inocente. Ao tentar “comprovar” sua versão dos fatos, divulgou conversas que manteve com a mulher pelo Whatsapp, assim como fotos e vídeos íntimos da acusadora. A ação fez com que o jogador passasse a ser investigado também pelo vazamento de fotos íntimas.

A divulgação do conteúdo não foi um equívoco e, sim, uma escolha. Neymar preferiu cometer um crime virtual para tentar dialogar com pessoas que concordam com a ideia de que uma mulher que envia fotos íntimas pela internet é necessariamente "aproveitadora" e "interesseira".

O que está sendo ignorado nessa leitura rasa proposta pela defesa de Neymar é que a intimidade exposta para milhões de pessoas não diz nada sobre a acusação de estupro. Como lembra a antropóloga Débora Diniz, o que circula é a versão de um homem poderoso que se ancora em elementos do fascínio pelo sexo e na desqualificação fácil das mulheres vítimas de violência sexual. E essa é também a narrativa em que tem se amparado a cobertura da mídia comercial sobre o caso. Mesmo sem afirmar que estão assumindo uma posição, jornalistas passaram o recibo de que a acusadora está tentando se aproveitar do “menino” Neymar.

Entre as reportagens que tomaram conta do noticiário brasileiro nos últimos dias, a matéria Jornal Nacional – no dia seguinte à divulgação das conversas – foi a que mais repercutiu. Ela traz um panorama sobre o caso e ressalta o depoimento de um ex-advogado da mulher afirmando que o estupro não aconteceu. A reportagem também divulga o nome da nova advogada de defesa da mulher, ainda que ela não tenha dado autorização para isso, desrespeitando um princípio básico do jornalismo: a garantia de sigilo das fontes. Na mesma reportagem, sem mostrar as fotografias e vídeos do corpo da mulher, divulgados por Neymar, são expostas frases soltas da conversa em que o jogador aparece enredado em um jogo de sedução.

Em outra reportagem, desta vez publicada no Jornal de Brasília, a mulher tem a vida financeira e judicial revirada. O texto aponta que ela tem uma ação de despejo em seu nome, após três meses de aluguel atrasado, e que acumula dívidas. A reportagem também disponibiliza o nome completo da mulher e detalha suas contas a pagar.

A invasão de privacidade promovida por jornalistas com a justificativa de mostrar a “real versão dos fatos” não terminou por aí. Em reportagem publicada pelo jornal O Globo, a família da mulher é procurada e sua mãe é informada sobre o caso a partir da abordagem da repórter. Dias depois, uma matéria veiculada pelo portal UOL evidencia que o filho da mulher, de cinco anos, está sofrendo com chacotas na internet e na escola por conta da repercussão do caso.

Mais do que a intimidade revirada e exposta em fotos e vídeos íntimos e informações detalhadas sobre sua situação financeira, a mulher teve sua versão dos acontecimentos contestada a todo tempo, de forma pública, inclusive por seu ex-advogado. Mas isso não é levado em consideração, porque tudo parece legítimo quando a motivação é “dar o furo” de reportagem. Na lógica do jornalismo, é necessário apresentar respostas antes mesmo das investigações. Tudo isso com base na “isenção e na imparcialidade”, ainda que à serviço da versão do jogador milionário…

Neymar, por outro lado, segue a rotina de treinos, jogos e compromissos publicitários, blindado por seu estafe. A presença dele está confirmada no jogo amistoso do Brasil contra o Qatar nesta quarta-feira (5).

Paris Saint-Germain e Seleção Brasileira se esquivam de comentar o caso. Familiares e amigos se pronunciam publicamente garantindo que ele é inocente e vítima de uma armadilha. A preocupação maior parece vir dos patrocinadores: ao menos quatro das 10 marcas manifestaram incômodo com o caso, segundo levantamento da Folha.

Comprovada ou não a acusação, a sentença já está dada: a mulher é sempre a ponta vulnerável. Não à toa, segundo o Atlas da Violência, são cerca de 1300 estupros por dia no país – dos quais apenas 135 são notificados.

*Jornalista, editora do Brasil de Fato no Rio de Janeiro e doutoranda em Antropologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF).

Edição: Daniel Giovanaz