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Linha de frente na luta pela democratização da comunicação no continente, Javiera Olivares, professora e coordenadora do Programa de Liberdade de Expressão da Universidade do Chile, e Rocío Alorda Secretária-Geral do Colégio de Jornalistas do Chile, são referências para todo aquele que queira compreender o papel jogado pelos meios de comunicação na disputa de ideias.

Por Felipe Bianchi (Barão de Itararé) e Leonardo Severo (Hora do Povo)*

A partir do golpe de 1973 e da imposição da sangrenta ditadura de Augusto Pinochet, a mídia chilena, cuja tradição era de ter espaço para a diversidade de opiniões, passou a ser extremamente partidarizada, além de viver um cenário de monopolização sem precedentes. “Os meios são concentrados economicamente e editorialmente e não só estão associados à direita, mas atuam como vanguarda desse setor político”, define Javiera, que também é ex-presidenta do Colégio de Periodistas.

No Chile, as Administradoras de Fundos de Pensão (AFP) detêm uma expressiva parcela do Produto Interno (PIB), a partir do sistema de capitalização da Seguridade Social - implantado pelos economistas conhecidos como “Chicago Boys”, associados à ditadura de Pinochet - determinam o que deve ou não ser dito pelos jornais e emissoras de rádio e televisão. “Os grandes banqueiros são os principais anunciantes da mídia chilena. Como vão criticar as AFP, que os financiam? É um beco sem saída”, sustenta Javiera.

Javiera Olivares, ex-presidenta do Colegio de Periodistas do Chile. Foto: Reprodução

Esta é a razão dos meios de comunicação – “que retratam a concentração do horror” - manipularem de forma tão grosseira, mentir sobre os impactos da privatização no dia a dia dos idosos ou simplesmente invisibilizar gigantescas manifestações populares que, desde 2016, têm as bandeiras do movimento NO+AFP (Basta de AFP) como um dos carros-chefe. Anteriormente, lembra Rocío, “mesmo quando a mídia falou das marchas contra as AFP, é claro que foram quase notas de rodapé”.

Para fazer soar o alarme sobre o real significado do sistema proposto por Jair Bolsonaro e Paulo Guedes para o Brasil, o ComunicaSul se reuniu em Santiago, no dia 9 de abril, com as duas lideranças, que fizeram ecoar este importante alerta sobre os impactos do nefasto sistema de capitalização da Previdência.

***

No Brasil vivemos um momento de grave concentração dos meios de comunicação na mão de poucas famílias. Como é esse cenário no Chile?

JAVIERA – Para entender o panorama dos meios de comunicação no Chile, é preciso ter em conta que o país se encontra em um momento histórico atípico. O nível de concentração e a própria tendência à concentração dos meios é mais alta que nunca. A falta de diversidade na mídia está em uma dimensão sem precedentes. É uma concentração do horror. Apesar de histórica, piorou. E a tendência é seguir aumentando.

Diferente de alguns países do continente [que também padecem deste alto nível de concentração], não contamos com nenhum meio público. Apenas a Televisión Nacional, financiada por publicidade. Mas não temos nenhum meio universitário, somente via Internet, com baixíssimo alcance. E por fim, há capitais privados muito importantes e poderosos no Chile, mas “estrangeirizados”.

No caso dos meios privados, há um duopólio na imprensa escrita (La Tercera e El Mercurio). Na televisão, uma avalanche de canais privados com capital estrangeiro. 45% das rádios estão nas mãos de um grupo espanhol, o grupo Prisa, e o resto são todas privadas.

Nesse contexto, empresas tão poderosas, que lidam com o dinheiro da aposentadoria do povo chileno, na casa dos bilhões de dólares, obviamente são atores importantes para esses meios privados. As AFP são empresas valiosas, que anunciam e pagam muito dinheiro aos meios. Esta é uma análise básica do ponto de vista econômico.

Há praticamente uma simbiose, uma promiscuidade...

ROCÍO – Exato. Essa relação de intimidade entre a imprensa e os grandes grupos econômicos é uma das marcas do Chile pós-ditadura. Até porque os grandes grupos econômicos são nada menos que donos de muitos desses veículos. Ou seja, não é apenas um monopólio econômico, mas também ideológico. É um cenário complexo, difícil de permear outros discursos e pontos de vista. Como problematizar a falta de Seguridade Social no Chile quando os próprios donos das AFP sustentam os grandes meios de comunicação?

Rocío Alorda, Secretária-Geral do Colegio de Periodistas do Chile

Daí a ausência de debate e a abundância de tergiversação?

JAVIERA – Ewa Sapiezynska, uma pesquisadora europeia que fez seu doutorado no Chile, justamente sobre os meios de comunicação, analisa as coisas que não aparecem, que são invisíveis nos discursos hegemônicos da “grande mídia”, o que ela chama de “ausências estruturantes”. O conceito trata das coisas que acontecem e estão aí, que são importantes para a realidade chilena, mas que não aparecem nos meios de comunicação.

Um exemplo recente: duas semanas atrás, houve um show musical muito grande no Chile, com mais de 5 mil pessoas, em defesa da paz na Venezuela e contra a intervenção estadunidense. É claro que não apareceu em nenhum veículo. É o mesmo que acontece com os estudantes, com as mulheres, com os idosos que morrem de fome. Até aparecem, mas como uma experiência individual, uma aneta, com uma cota de morbidez, mas que não se contextualiza e não coloca os problemas em discussão. Por que uma pessoa que trabalhou a vida inteira está, depois de velha, morrendo de fome? A resposta é que não se contextualiza porque as ausências estruturantes têm a ver com uma das principais finalidades dos discursos hegemônicos: construir e reforçar a ideia, na cabeça dos chilenos, de que não temos direitos. Só consumimos. Não somos cidadãos, somos consumidores. Por isso, não devemos exigir nada, apenas pagar. Se pagamos, temos uma boa vida. Se não pagamos, azar.

É mais eficiente omitir do que mentir?

ROCÍO – Há um problema central, quando falamos em comunicação, em relação ao exercício dos direitos e da cidadania no Chile. Casos que têm a ver com direitos e cidadania, como o caso de Mario, o condutor de ônibus que precisou levar sua esposa, com Alzheimer, para o trabalho junto com ele, são tratados como exceção. A jovem que não pôde fazer faculdade, pois não tinha recursos, a mulher que não pode abortar porque não tem acesso às clínicas caras… são exceções? Não. São questões que são tratadas sem abordar a raiz dos problemas, sem abordar a situação estrutural que vive o país, sem abordar como as corporações cooptam um monte de direitos. Os meios de comunicação chilenos atuam sobre uma lógica bastante clássica, que é tratar de maneira espetacularizada e individualizada questões que são problemas de toda a sociedade.

Há mais de 30 anos, a mídia chilena trata como excepcionais casos que são violações sistemáticas de direitos, sejam trabalhistas, humanos ou educacionais. Esse é o mecanismo.

JAVIERA – Laboratório e experimento primogênito do neoliberalismo na América Latina, o mais terrível do sistema chileno é que, ainda que as pessoas sejam totalmente vulneráveis em seus direitos, elas não têm a mínima consciência desta condição. Está naturalizado, no Chile, que o que você tem é o que você pode ter. É dramático que as pessoas perderam a capacidade de assombro. Sempre pode piorar, mas não importa, é parte da vida, é a ordem natural das coisas. É essa a mentalidade predominante nas narrativas dos grandes meios de comunicação do país.

Quando falamos em mudar esse quadro de apatia, quando ocorreram rupturas, como o movimento NO+AFP, a luta dos estudantes pela reforma educacional em 2011, a explosão feminista nos últimos dois anos… Quando isso ocorre, os meios concentrados editorial e economicamente, ideologicamente associados à direita política, e inclusive fazendo papel de vanguarda da direita, não contam essas histórias. Essa é a ideia de ausências estruturantes. Algo está ocorrendo no Chile, mas disso não se fala. E aqui não temos ombudsman, não temos conselhos de comunicação, não temos nenhuma instância para questionar essa postura dos meios de comunicação e denunciar a falta de ética jornalística.

E a falta de regulação é vista como um cheque em branco pelos donos da mídia.

ROCÍO – Há uma completa falta de institucionalidade para a regulação, a observação e o estabelecimento de critérios para tratar dos temas relacionados à comunicação. É uma situação de violação constante de direitos, também, por parte dos meios de comunicação. Produzem realidades fictícias e situações falsas, destroem reputações. A grande luta das mulheres pelo direito ao aborto, que vem ocorrendo há anos no Chile, só rompeu o bloqueio informativo quando o tema foi levado ao Parlamento para votação. Foram dois ou três anos em que o debate foi confinado, foi colocado do lado de fora dos muros da mídia.

No caso das AFP, teve de ocorrer uma marcha com mais de um milhão de pessoas nas ruas, em 2016, para que o tema fosse ‘lembrado’ pelos meios. São décadas de domínio perverso das AFP e nunca foram pauta.

JAVIERA – Mesmo quando a mídia falou das marchas contra as AFP, é claro que foram quase notas de rodapé. E pior: ainda trataram o tema de forma a relacionar o movimento NO+AFP a determinado candidato à presidência. As pautas levadas às ruas pelo movimento, com mais de um milhão de pessoas,são interditadas

As promessas da ditadura ao instalar o sistema das AFP - pensado à época por José Piñera, irmão do atual presidente Sebastián Piñera - não foram cumpridas. Prometiam que entre os anos 1980 e 1990, os idosos chilenos estariam todos milionários, nadando em dinheiro. Uma falsa promessa que, claro, foi amplificada pelos meios de comunicação.

Jogar esse papel não era a tradição dos meios de comunicação do Chile antes do golpe. Até então, a histórica tradição da mídia chilena era a da diversidade de opiniões. Havia pontos de vista de direita, claro, o que não é nenhum problema. O problema é quando só existe este ponto de vista. Foi isso que ocorreu após a ditadura e persiste até hoje.

São ausências de questões estruturais, de debates importantes e profundos, mas também a total criminalização dos atores que propõem estes debates. Ou você é invisível, ou você é delinquente, marginal, ou como se diz aqui, “antissocial”. Alguém que não é capaz de se adaptar à sociedade.

E vale lembrar que o Chile é um país com um número expressivo de idosos.

ROCÍO – Quando falamos das AFP, o problema se agrava. O Chile é um país com uma alta parcela de idosos. Há uma crise anunciada prestes a explodir, pois os anos que vivemos são os anos em que muitos dos que contribuíram pelo modelo das AFP estão se aposentando. E estão recebendo, de aposentadoria, menos que um salário mínimo, que por si só já está abaixo da cesta básica chilena. O preço da qualidade de vida no Chile é muito alto. Há uma classe média que tem um estilo de vida pujante, mas que empobrece após a aposentadoria.

E não existe uma mídia contra-hegemônica.

ROCÍO – Carecemos de uma rede de meios alternativos. Claro que existem veículos vinculados com discursos que destoam dos meios hegemônicos, mas mal se sustentam.

Nos últimos 10 anos, tivemos um processo de bastante amadurecimento por parte dos movimentos sociais chilenos. Está em evidência a necessidade de os movimentos terem instrumentos de comunicação, de apostarem na batalha de ideias.

No Chile, não existem mecanismos de fomento de meios de comunicação alternativos. São muitas as barreiras para você colocar em marcha um novo meio de comunicação. São limitações estruturais. Mas, enfim, os setores progressistas vão tendo mais clareza de que a comunicação é um instrumento estratégico para qualquer luta, para qualquer disputa na sociedade.

É uma discussão nova no país e um desafio muito grande o de conformar uma rede de veículos alternativos. Todas as experiências têm sucumbido não só pela inanição financeira, mas também por questão de vontade política.

Há muitas semelhanças com a nossa realidade.

JAVIERA – Seguramente a realidade brasileira tem bastante similaridades com o que estamos descrevendo. No entanto, há uma diferença significativa: a sociedade brasileira me parece mais consciente de seus direitos do que a chilena. Inclusive o direito à comunicação, à informação e à liberdade de expressão. No Chile, infelizmente, não há articulação suficiente para a defesa de direitos,incluindo aí o direito à comunicação. Nosso problema é que falta organicidade para defender esta ideia, de uma rede de meios alternativos e contra-hegemônicos. Ainda não temos energia, força material para fomentar iniciativas desta natureza. Temos de nos articular para exigir a regulação dos meios de comunicação.

Há uma mudança na disputa das ideias. O que precisamos fazer, hoje, é contra-hegemonia. Não é impossível, mas claro que é algo difícil. Nossa Constituição ainda é a de Pinochet e não há nenhuma garantia de direito à comunicação.

No Chile, os grandes banqueiros são os principais anunciantes da mídia. Como vão criticar as AFP, que os financiam? É um beco sem saída.


*O Coletivo de Comunicação Colaborativa ComunicaSul está no Chile com os seguintes apoios: Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, Diálogos do Sul, Federação Única dos Petroleiros (FUP), Jornal Hora do Povo, Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos, Sindicato dos Metroviários de São Paulo, CUT Chile e Sindicato Nacional dos Carteiros do Chile (Sinacar). A reprodução é livre, desde que citados os autores e apoios.

Economista formado na Universidade Católica do Chile, Marco Kremerman é representante da Fundação Sol – referência no debate sobre as Administradoras de Fundos de Pensão (AFP) – onde é pesquisador da área de Institucionalidade e Desenvolvimento.  Kremerman recebeu a reportagem do ComunicaSul nesta sexta-feira (12), na sede da entidade, para falar das consequências da “privatização da Previdência pública chilena” e alertar os brasileiros para o descaminho, “em benefício de seis grandes companhias, na maior parte estrangeiras, que passam a multiplicar seus ganhos enquanto espalham a miséria em larga escala”.
 
Felipe Bianchi (Barão de Itararé) e Leonardo Severo (Hora do Povo), de Santiago
 
Especialista em Relações do Trabalho na Universidade de Castilla-La Mancha (Espanha) e em Desenvolvimento Econômico no Centro de Formação da Organização Internacional do Trabalho (OIT) em Turim (Itália), além de mestre pela Universidade de Bologna (Itália), Kremerman notabilizou-se pelos estudos nas áreas de educação, pobreza, desigualdade e trabalho. 
 
Também foi assessor do Ministério do Trabalho e Previsão Social do Chile (2007-2010), consultor da OIT e da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco).
 
TRABALHADOR CONTRIBUI, AFP LUCRA
 
Para nós, da Fundação Sol, o centro da questão é o trabalho e a Seguridade Social. Em um amplo processo de formação ao lado de organizações sociais e sindicais, temos estudado há muitos anos as consequências e os resultados do sistema de capitalização individual chileno.
 
É um sistema que existe em muito poucos países, cujo pilar contributivo para a aposentadoria está calcado, exclusivamente, em contas individuais, o que é um paradigma.
 
Alguns países, não muitos, privatizaram parte de seus sistemas de Previdência, mas são bem diferentes do sistema chileno, no qual 100% das contribuições feitas pelos trabalhadores e trabalhadoras vão para contas individuais. 
Este sistema do Chile está fracassado. E este fracasso está se estendendo aos poucos países que, de 1981 até hoje, privatizaram parcialmente ou totalmente seus sistemas de Previdência. Isto é demonstrado no último informe da OIT: de 30 países que privatizaram parcial ou totalmente seus sistemas nas últimas três décadas, 18 voltaram para um sistema público devido ao completo fracasso da privatização. 
 
No Chile, o fracasso é ostensivo. A maioria das pensões que se pagam são inferiores ao salário mínimo. São aposentadorias mais baixas que as de pessoas que se aposentaram quatro ou cinco anos atrás, porque o sistema simplesmente não permite que os cidadãos tenham uma realidade parecida à de quando contribuíam enquanto trabalhavam.  
 
A promessa era de que as pessoas teriam uma taxa de retorno de até 80%. Ou seja, as pessoas teriam uma aposentadoria no valor de 80% do seu último salário. Na prática, o que acontece no Chile é que as pessoas aposentadas recebem menos de 20% deste valor, pois a rentabilidade fica com as AFP. 
 
 
96% DO PIB NAS MÃOS DOS ESPECULADORES
 
O sistema de Previdência chileno fracassou para os aposentados, pois entrega pensões miseráveis, mas é um tremendo êxito para os grandes grupos econômicos nacionais e internacionais que recebem esse fluxo de dinheiro. 
 
Por quê? Pois hoje em dia, as AFP estão administrando cerca de 220 bilhões de dólares, o equivalente a cerca de 75% de toda a economia chilena, ou seja, do Produto Interno Bruto (PIB) do país. Se somarmos a isso os recursos administrados pelas companhias de seguro, que oferecem outra modalidade de aposentadoria, estamos falando de cerca de 96% do PIB chileno - um montante administrado pelas AFP e pelas companhias de seguro. Os bancos nacionais e internacionais, grandes grupos econômicos, repassam cerca de 42% desse dinheiro ao estrangeiro. É um processo de acumulação por expropriação. 
 
 O que acontece é que, além do lucro, o capital, neste caso, abocanha também parte dos salários para acumulação, para enriquecer ainda mais. Não é à toa que 1% dos chilenos, os mais ricos, concentram 33% da renda do país, um dos números mais altos a nível mundial.
 
 
DESNACIONALIZAÇÃO DA ECONOMIA 
 
Os grupos transnacionais que participam deste negócio se beneficiam de duas maneiras. Em primeiro lugar, a maioria dos donos das seis AFP que operam no Chile - a partir de 15 de abril, serão sete - são companhias de seguro multinacionais. Estamos falando de três companhias de seguros dos Estados Unidos (Habitat, que operam US$ 57,7 bilhões; Provida, US$ 53 bilhões; e Cuprum, US$ 41,4 bilhões). Além delas, há a colombiana AFP Capital, que maneja US$ 40,6 bilhões, e a italiana Plan Vital, com US$ 7,2 bilhões. Há apenas uma empresa 100% chilena, que é a Modelo, cuja fatia corresponde à US$ 10,6 bilhões. A nova AFP que se incorporará agora, em abril de 2019, também será chilena.
 
O que significa isso? Que há um grande lobby do capital internacional entranhado no negócio das aposentadorias no Chile. Ao mesmo tempo, o negócio principal dos administradores de fundos de pensão é investir o dinheiro dos contribuintes. E é importante perguntarmos: aonde se investe esse dinheiro? Bem, perto de 43% dos 220 bilhões de dólares que administram as AFP, ou seja, cerca de 90 bilhões de dólares, deixam de ser investidos no Chile para serem investidos fora. Temos, então, um círculo virtuoso do grande capital mundial e transnacional, que impede e pressiona para que o Chile mantenha as coisas como estão e siga sem um sistema de Seguridade Social. O sistema que temos é um mercado de contas de poupança de contribuição obrigatória, o que está muito longe de ser um sistema de Seguridade Social e, sequer, um sistema misto. 
 
Isto é muito doloroso, pois os cidadãos e cidadãs chilenos, quando chegam na idade de aposentar-se, precisam seguir trabalhando e estão geralmente endividados. A quantidade de aumento da inadimplência, do número de pessoas que não conseguem quitar suas dívidas, é extremamente alta na terceira idade, porque essas pessoas não têm renda suficiente para fazer frente às suas vidas, às suas necessidades. 
 
 
 
A DINHEIRAMA DO BTG PACTUAL 
 
O BTG Pactual [banco que tem vínculos históricos com o ministro da Economia de Bolsonaro, Paulo Guedes] recebe recursos diretamente dos fundos de pensão, pois o grupo tem um banco no Chile e conta com um fundo de investimento. As AFP podem investir em ações de empresas, bônus de dívidas de empresa, instrumentos financeiros vinculados a bancos e, também, em fundos de investimentos. Atualmente, as AFPs investem 1,13 bilhão de dólares em empresas do Grupo BTG Pactual e 6,158 bilhões de dólares no Itaú. 
 
No Chile, existe o "retiro programado": as pessoas, no momento de se aposentar, deixam todo o seu dinheiro com as AFP. As AFP seguem investindo esse dinheiro e pagando as pessoas. A outra modalidade é a renda vitalícia, na qual a pessoa, para não enfrentar os riscos do mercado financeiro, opta por uma aposentadoria mais estável. As pessoas transferem seus fundos para essas companhias de seguro e, neste mercado, também está presente a BTG Pactual.
 
 
MÍDIA RESPONDE AOS INTERESSES DAS AFP
 
Os meios de comunicação jogam um papel crucial no Chile. A maioria dos meios de comunicação de massa pertencem, justamente, aos principais grupos econômicos que existem no país. Os canais de televisão são controlados por grupos de muito poder. Os jornais diários são propriedade de dois grupos que construíram seu império, particularmente, durante as décadas de 1970 e 1980, ou seja, durante a ditadura, que são os donos do El Mercúrio e do La Tercera.  
 
O nível de concentração é tão grande que existe apenas um único discurso. Todos falam a mesma coisa. Há muito pouco espaço para meios alternativos, pois a sobrevivência desses é muito custosa, o que impede o cidadão chileno de ter uma visão integral do que está acontecendo. 
 
Outro fator é a publicidade. Por exemplo, as AFP se encontram presentes em todos os meios. Estão nos comerciais, nos programas de discussão política e até em algo tão próximo ao povo, como o futebol: o principal torneio nacional se chama Campeonato AFP PlanVital. Este é o nome do campeonato de futebol do Chile. O que é algo sintomático da força, da ingerência e do lobby das AFP. A mídia, que é o espaço onde se poderia fazer a crítica deste sistema, está totalmente cooptada. 
 
É difícil que se levante, por parte dos meios de comunicação, uma análise crítica. Por exemplo, que tragam à tona o fato de que há um problema grave com a terceira idade no Chile, que sofre de abandono, de problemas econômicos, de suicídios...Diferente disso, o que a mídia diz é que o idoso chileno possui vitalidade, que pode e deseja trabalhar mais tempo. A agenda que há por trás disso é simples: que o idoso trabalhe mais, contribua mais com as AFP e que se paguem menos pensões. A mídia vende a imagem de que o chileno de 70 anos quer trabalhar mais, mas quem perguntou se querem?
 
 
*O Coletivo de Comunicação Colaborativa ComunicaSul está no Chile com os seguintes apoios: Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, Diálogos do Sul, Federação Única dos Petroleiros (FUP), Jornal Hora do Povo, Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos, Sindicato dos Metroviários de São Paulo, CUT Chile e Sindicato Nacional dos Carteiros do Chile (Sinacar). A reprodução é livre, desde que citados os autores e apoios.

Em época de perseguição a jornalistas, principalmente por meio de haters na internet, conhecer as boas práticas em segurança digital é um diferencial importante para qualquer profissional que use a rede como meio de trabalho.

Consciente dessa necessidade, a Associação Profissão Jornalista decidiu oferecer aos colegas, às colegas jornalistas e a quem mais se interessar a Oficina de Segurança Digital para Jornalistas.

Em 6 horas de aprendizado, com alguma teoria e muita prática, os participantes desenvolverão habilidades e boas práticas em segurança digital, receberão orientações sobre as melhores ferramentas para comunicação com parceiros – considerando riscos, alternativas e opções – e terão, ao final, maior compreensão sobre segurança e capacidade de adotar práticas que reduzam os riscos, táticas de defesa e o uso de ferramentas digitais.

Você entenderá o que é vigilantismo, coleta massiva de dados e terá uma melhor compreensão das comunicações digitais em geral. Conhecerá as ferramentas seguras para fazer o seu trabalho e traçar estratégias adequadas de segurança para sua navegação.

Responsáveis

Gabriela Nardy e Carla Jancz são as responsáveis pela oficina.

Gabriela Nardy é mestranda em antropologia pela Unicamp, pesquisadora sobre feminismos e movimentos sociais e suas relações com as diversas formas de tecnologias. Ela integra o MariaLab, coletivo hacker feminista.

Carla Jancz – voluntária no MariaLab – é formada em Segurança da Informação, trabalha com segurança digital para o terceiro setor e com treinamento em tecnologias livres, cultura maker, redes autônomas, cultura hacker e criptografia.

Quando?

27 de abril (sábado), das 9h às 16h30, com intervalo para almoço.

Onde

Na sede do Centro de Estudos de Mídia Alternativa Barão de Itararé (Rua Rego Freitas, 454, metrô República, em São Paulo).

Quanto?

A inscrição custa R$ 220,00, à vista ou em 3 parcelas, pelo PagSeguro*. Para associados(as) da Associação Profissão Jornalista (APJor), o valor é de R$ 160,00 à vista. Ou em 4 parcelas sem acréscimo.

Por quê?

Segundo Gabriela Nardy e Carla Jancz, “a internet já foi vista como um espaço democrático, em que todas e todos teriam espaço para falar livremente. Hoje em dia as redes sociais são ambientes onde nos conectamos, divulgamos, trabalhamos, aprendemos, mas também onde somos perseguidos, vigiados e ameaçados. Essa falta de segurança se torna ainda mais marcante com a ascensão de governos pouco democráticos, que perseguem e ameaçam principalmente jornalistas e ativistas de pautas progressistas”.

* Pelo PagSeguro é possível parcelar em até 12 vezes, sendo que a partir da 4ª. Parcela, os encargos financeiros ficam por conta do participante. 

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Não deixe de nos contatar, caso tenha interesse. Inscreva-se e o nosso setor de Atendimento fará o contato.

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Inacreditável, impensável, surpreendente, fantástico! E vai botando adjetivo aí para descrever o que aconteceu na noite desta terça-feira (29) na Câmara dos Deputados: a aprovação, POR UNANIMIDADE, do Projeto de Lei de Proteção de Dados Pessoais. A proposta ainda não é lei, primeiro precisa passar pelo Senado e seguir os trâmites legislativos, mas a vitória nesta primeira fase já é motivo de muita comemoração.

Por Renata Mielli, em sua coluna na Mídia Ninja

Afinal, numa economia cada vez mais baseada na comercialização dos dados pessoais coletados pela internet, é um direito fundamental proteger a privacidade e garantir que cada pessoa decida se ela quer ou não ter seus dados coletados; se ela autoriza ou não o tratamento de seus dados; se sim para quê, por quem, em que condições e por quanto tempo.

Os deputados votaram e aprovaram o relatório apresentado na forma de substitutivo pelo relator, o deputado federal Orlando Silva (PCdoB-SP), ao PL 4060/2012 e que tinha apensados outros dois projetos, o 5276/2016 e o 6291/2016.

O deputado se debruçou principalmente sobre o projeto 5276, que foi um dos últimos encaminhados ao Congresso pela ex-presidenta Dilma Rousseff. Elaborado em paralelo e na mesma plataforma do Marco Civil da Internet, o projeto de Proteção de Dados Pessoais também contou na sua fase de elaboração com ampla participação social, na forma de mais de 2 mil contribuições por plataforma de consulta na internet. Quando chegou à Câmara, uma subcomissão especial foi criada para debater o tema. Dezenas de audiências públicas, seminários e reuniões foram promovidas por esta comissão nos últimos dois anos.

Seus dados são você!

O debate internacional sobre proteção de dados pessoais, em particular na era digital, tem sido objeto de preocupação de organismos de direitos humanos, estados e organizações sociais de todo o mundo.

Muitos países já possuem legislação específica sobre o tema e, os que não possuem, estão tratando de construir uma. Principalmente a partir da entrada em vigor do Regulamento Geral de Proteção de Dados (na sigla em inglês GDPR) no dia 25 de maio, cujo objetivo é “harmonizar as leis de dados por toda a Europa e empoderar a privacidade de todos os cidadãos, além de reorganizar a maneira como as companhias lidam com dados privados”.

Grifo o termo empoderar, não porque é uma palavra que anda na moda, mas porque neste caso específico tem um conteúdo fundamental: as pessoas desconhecem o funcionamento das aplicações e plataformas da internet, não sabem como elas coletam os dados, como tratam e usam. A relação entre as pessoas e essas “empresas digitais” é de hipossuficiência, porque nós, usuários, não temos na prática muita escolha ou poder sobre a prática destas empresas. Na esmagadora maioria das vezes, somos levados a aceitar os termos de uso e a política de privacidade, sob pena de não podermos usar os serviços. Por tudo isso e muito mais é que precisamos nos empoderar e esse empoderamento passa necessariamente pelo papel do Estado em regular, fiscalizar e quando for o caso, punir quem usar dados pessoais sem conhecimento e consentimento do titular, ou fazê-lo de forma abusiva e com propósitos diferentes dos permitidos.

Neste sentido, o projeto aprovado pela Câmara é muito positivo. Primeiro porque define os conceitos de forma bem específica, sem deixar margens para interpretações muito amplas do mercado para a definição de dados pessoais, sensíveis e anônimos. O projeto, também, é muito explícito sobre os direitos dos titulares sobre seus dados e sobre as formas de consentimento para a coleta e tratamento dos dados, exigindo que este seja feito de forma livre, informada e inequívoca e específica, ou seja, para determinadas finalidades.

Além disso, define as responsabilidades das empresas e inclusive as sanções nos casos de uso indevido. Estabelece regras para a transferência internacional de dados, faz distinção para tornar ainda mais rigoroso o uso de dados sensíveis (os que dizem respeito à raça, etnia, religião, posição política, dados de saúde, etc).

O relatório avança, ao incluir um capítulo para proteção de dados de crianças e adolescentes, que não estavam especificados nos projetos originais e, também, ao incluir no rol de regras de proteção dos dados pessoais, aqueles coletados e tratados pelos órgãos do Poder Público.

Para garantir a aplicabilidade da lei, o relatório apresentado detalha a criação, conforme já proposto no PL 5276/2016 do Executivo, de uma autoridade nacional de proteção de dados de caráter regulatório para acompanhar e fiscalizar a aplicação da lei.

Para chegar na redação final, houve muito diálogo e pressão da sociedade. E, aqui, cabe o registro essencial para o conjunto de organizações que integram a Coalizão Direitos na Rede. São entidades e ativistas das mais variadas áreas que se articularam para discutir temas de direitos na Internet e que priorizaram o trabalho em torno do projeto de dados pessoais. Entidades que atuam na luta pela democratização da comunicação, como o Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), o Intervozes, o Barão de Itararé, a Artigo 19, entidades do direito do consumidor como Proteste e Idec, entidades específicas de luta em defesa dos direitos humanos na internet, como Coding Rights, Actantes, Coletivo Digital, Movimento Mega Não, Instituto Beta, Internet Sem Fronteiras, coletivos de especialistas, universidades e grupos de pesquisa, como o Instituto Tecnologia e Sociedade (ITS-Rio), a Rede latina-americana de Estudos sobre Vigilância, Tecnologia e Sociedade (Lavits), Grupo de Estudos em Direito, Tecnologia e Inovação do Mackenzie, Coolab, entre muitas outras, que já me desculpo por não citar aqui mas que podem ser acessadas no site da Coalizão.

Ter conquistado essa vitória na atual situação do Brasil é um grande feito! Afinal, desde o golpe que depôs uma presidente legitimamente eleita, impôs uma política econômica neoliberal de desmonte do Estado, da soberania e dos direitos sociais, e que atacou como há muito não se via a liberdade de expressão e direitos humanos fundamentais — como a própria vida — a sociedade brasileira não tem tido muito o que comemorar em termos de conquistas. Impedimos a aprovação da Reforma da Previdência, talvez a vitória mais emblemática contra as forças conservadoras, mas essa foi uma vitória no campo da resistência para barrar retrocessos. Já, a aprovação do PL de Dados está no rol de uma conquista nova, fruto da mobilização do movimento social.

Conseguimos com a nossa persistência e unidade aprovar um projeto equilibrado, protetivo, baseado em direitos fundamentais, entre os quais a liberdade de expressão e que, agora, passará por nova fase de debate, no Senado Federal. Devemos seguir firmes e unidos, porque assim podemos derrotar o golpe e alcançar novas conquistas!

Um dos maiores eventos do cinema mundial, o festival de Cannes, na França, selecionou para a competição Bacurau (2019), novo longa do pernambucano Kleber Mendonça Filho. Isso aconteceu na quinta-feira (17). Um dia depois, a Secretaria Especial da Cultura, do governo de Jair Bolsonaro (PSL), negou o último recurso do cineasta, que se defende de supostas irregularidades na captação de recursos para O Som ao Redor (2012). Kleber se posiciona abertamente na oposição do governo.

Por Gabriel Valery, na Rede Brasil Atual

Na mesma semana, por decisão do governo Bolsonaro, a Petrobras cortou patrocínio de 13 projetosculturais. Investimentos históricos, que colocaram a cultura brasileira no cenário internacional. Correm risco eventos como o Anima Mundi, maior festival latino-americano de animação e os tradicionais festivais de cinema de São Paulo e de Brasília, entre outros. Enquanto isso, a Agência Nacional do Cinema (Ancine), enfrenta paralisação nos editais, com o Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) ameaçado e sem a estrutura do Ministério da Cultura (MinC) para assegurar a resiliência. Bolsonaro extinguiu a pasta.

Conhecedora do setor cultural e de políticas públicas aplicadas, Ivana Bentes foi secretária de Cidadania e Diversidade Cultural do extinto MinC. Em entrevista, Ivana classifica, delicadamente, o avanço do desmonte na Cultura como “desinteligente”. E “catastrófico”, ao elevar o tom.

Fora a valorização do nosso povo no campo simbólico, “um tiro no pé para um governo que precisa aquecer a economia. São milhões que circulam. Então, como você tira os recursos de um campo tão decisivo, que move grande quantidade de pessoas e é interligado com tantos outros setores?”, questiona.

De acordo com extinto MinC, a Cultura movimentava 4% do PIB até o agravamento de seu desmonte, neste ano. O Banco Mundial calcula que a área seja responsável por 7% do PIB do planeta. O audiovisual cresceu expressivamente no Brasil na década passada. De 2009 para 2014, os investimentos federais foram de R$ 149,1 milhões para R$ 356 milhões. No mesmo período, o público nos cinemas cresceu 53%. São dados do Atlas Econômico da Cultura Brasileira, divulgados em 2017.

Falando em números da Petrobras, um dos maiores investidores históricos no setor, o freio já é notável e tende a reduzir drasticamente. Em 2011, no auge dos patrocínios culturais da estatal, foram R$ 153 milhões. No ano passado, o número caiu para R$ 38 milhões. Com os cortes anunciados, a escassez será total, os investimentos tendem a reduzir drasticamente.

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'Esse grupo que ataca a cultura tem essa visão reducionista, com um viés ideológico tacanha, porque não entende a cultura como campo de riqueza'

“Parece um revanchismo, uma desinteligência, repito, atacar o campo cultural como se não tivesse importância. É um retrocesso enorme, não investir é não entender nada do mundo”, afirma Ivana, que lembra também da importância da cultura para o turismo. “A cultura vende o país para o exterior, é impossível pensar em turismo sem cultura. Tem uma quantidade gigantesca de ciclos econômicos envolvidos”.

Ivana falou mais sobre revanchismo. Há três anos, durante o festival de Cannes, a equipe do premiado filme Aquarius (2016), do mesmo Kleber Mendonça Filho, fez um protesto na cidade francesa contra o golpe que tirou a presidenta eleita Dilma Rousseff (PT) de seu cargo. Grande parte do setor cultural não apoiou Bolsonaro, e com uma óbvia explicação. A cultura representa a diversidade do povo e, Bolsonaro, com suas declarações sexistas, homofóbicas, não representa tal valor. “Deve ter um ressentimento porque boa parte do campo cultural não apoiou o governo. Mas um Estado ressentido, que luta contra o próprio povo, está doente.”

"Esse ódio à cultura tem relação com o horror à diversidade (...) Um Estado que luta contra o próprio povo está doente", Ivana Bentes

“Esse ódio à cultura tem relação com o horror à diversidade”, relata Ivana. “É uma cruzada contra a diversidade de pensamento, já que a cultura é um campo de produção de multiplicidade. Então, esse grupo que ataca a cultura tem essa visão reducionista, com um viés ideológico tacanha, porque não entende a cultura como campo de riqueza humana, sociabilidade”, completa.

Mais uma vez, um ataque “desinteligente” em diversos aspectos. “Temos no Brasil mesmo um campo conservador que não tem esse tipo de visão redutora. Temos um campo liberal na economia que apoia a cultura, pessoas educadas na convivência da música, do teatro, dos museus. Então, achar que a cultura é carimbada por um campo político só é de uma ignorância atroz. Existem produtores culturais com os mais diferentes entendimentos políticos e todos serão afetados.”

Então, jogar na mesma vala a produção cultural de um país imenso como o Brasil é, inegavelmente, algo pouco inteligente. “Qual o mal que eles enxergam? Pensamento crítico?”, questiona novamente Ivana. “É o auge do viés ideológico”, define.

Entretanto...

A cultura haverá de resistir a qualquer tipo de ataque. É a produção humana que caracteriza uma sociedade, é o que ela faz, o que ela é. Não é possível “matar” algo com tais características. Podem sufocar economicamente, mas não anular. “A cultura é um campo com certo nível de autonomia. O Estado não vai conseguir destruir, a cultura está enraizada de formas distintas no povo. Felizmente, vão sobrar instituições, mesmo privadas, que investirão na cultura”, diz Ivana.

Essas instituições já estão funcionando plenamente. “Esse setor tem uma grande mobilidade. Temos um ministério da cultura paralelo, tem o Sesc, o IMS (Instituto Moreira Salles), Itaú Cultural, empresas privadas. Inclusive, elas tomaram o modelo das políticas públicas do MinC como diretriz. O MinC pautou a própria iniciativa privada, um avanço enorme. As políticas públicas municipais e estaduais também podem responder a essa brutalidade se articulando e organizando.”

Por fim, como afirma Ivana, a “cultura sempre trabalhou na escassez”. Em momentos conturbados, como durante a ditadura civil-militar (1964-1985), a cultura trabalhou à revelia do governo. “Mesmo em décadas em que políticas públicas não existiam com a consistência que tivemos nos últimos tempos. O campo cultural é resiliente. Talvez o ataque acelere a emergência de novos modelos produtivos. Há crises que podem acelerar sistemas novos. A cultura não vai morrer com ataques, ataques burros, mas sobreviverá.”

Primeiro livro da editora Claraboia, “Ninguém solta a mão de ninguém - manifesto afetivo de resistência e pelas liberdades” chega para discutir o momento que o país vive. Na obra, o leitor encontrará vinte e dois textos inéditos e uma reprodução que perpassam entre os mais diversos gêneros literários como poesia, prosa, ensaio, canção, crônica, charge e carta, e se dão as mãos em uma narrativa cujo fio condutor é o afeto, a resistência e a bandeira colorida das liberdades individuais.

Organizado de forma independente pela editora Tainã Bispo, a obra reúne vinte e quatro nomes entre jornalistas, escritores, artistas e representantes dos movimentos negro e LGBTQ+ com a intenção de manter vivo o sentimento de coletivo da nação. “É um projeto independente e apartidário, que reflete sobre as diversas pontes que precisaremos (re)construir para enfrentar o obscurantismo, a burrice, a deselegância, a violência, os  preconceitos e esse cheiro de mofo de assola o país”, explica a editora.

Entre os nomes de destaque da obra estão os jornalistas Juca Kfouri, Leonardo Sakamoto, Antonio Prata, a psicanalista Vera Iaconelli, o ex-Ministro de Estado da Educação Renato Janine Ribeiro, os escritores Julián Fuks e Alexey Dodsworth e a Anielle Franco, irmã de Marielle Franco, vereadora do Rio de Janeiro brutalmente assassinada em Março de 2018. As 192 páginas do livro que carrega a cor amarela predominante como um grito de alerta ainda apresentam ilustrações inéditas da artista Thereza Nardelli, que cedeu os direitos da arte para a publicação, e uma charge do cartunista convidado Junião. A cantora Ceumar também marca presença no livro com a canção “Por quantas vezes?”, criada em parceria com o escritor Lauro Henriques Jr.

Inspirada pela ilustração da tatuadora que viralizou nas redes sociais no dia 28 de outubro de 2018, a editora Tainã sentiu a necessidade de criar pontes entre pessoas que pudessem dar as mãos e fazer resistência com as palavras. “Foi justamente esse ânimo que senti ao ver a ilustração. Depararme com essa imagem forte e delicada me deu o impulso necessário para transformar indignação, perplexidade e raiva em uma reposta concreta”, explica a organizadora da obra. Frase dita por Lêda Maria Brandi Nardelli para sua filha em um momento difícil de família, foi no contexto da eleições presidenciais que a tatuadora se apossou das palavras da mãe para criar a arte, instantaneamente divulgada por inúmeros artistas, famosos e influenciadores. Só no Instagram da Thereza, onde foi publicada originalmente, a ilustração conta com mais de 55 mil curtidas. A frase se tornou uma corrente de afeto e inspirou a primeira obra do selo independente Claraboia. Com lançamento agendado para 3 de abril na Livraria Tapera Taperá (São Paulo) e 12 de abril na Livraria Leonardo da Vinci (Rio de Janeiro), o livro estará disponível para venda na Amazon em versão física e em e- book e em algumas livrarias independentes, como Blooks, Zaccara, Martins Fontes e Quixote. “Por quantas vezes?”, canção de Ceumar e Lauro Henriques Jr. já está disponível nas plataformas de streaming. O clipe pode ser acessado em: https://youtu.be/hekUSJ6wEEk

Leia abaixo dois trechos do livro:
 
Anielle Franco:
Ao chegar àquela rua no dia do crime, a primeira imagem que vi foi exatamente a mão de minha irmã pendurada para fora do carro com seu sangue escorrendo e pingando. Uma imagem forte, uma imagem que jamais esquecerei. Uma imagem que pude apenas gravar e lembrar, pois, infelizmente, naquele momento fui proibida de segurar a mão dela. Tudo o que eu queria era segurar e tocar, embora simbolicamente eu soubesse que seria a última vez. E não pude. Eu gritava: “me deixa segurar a mão dela”. Eu não consegui! Mas, hoje, sigo segurando as mãos dos meus. Seguro firme as mãos de todas as mulheres vítimas de violência doméstica ou qualquer outro tipo de violência; principalmente as mulheres negras como eu, que continuam sendo a carne mais barata do mercado. Por aqui, seguiremos honrando o sangue de Marielle Franco e lutando por igualdade, respeito e representatividade.
 
Renato Janine Ribeiro:
A meta, o valor, a finalidade é que o Brasil precisa acabar com a miséria (praticamente liquidada, nos últimos anos, mas que agora ressurge) e, mais adiante, com a pobreza. Isso se faz pela inclusão social. Isso significa garantir condições dignas de alimentação, moradia, transporte e saúde. Além disso, uma educação de qualidade. Separo a educação dos outros fatores porque educação é 100% investimento. Educar é preparar pessoas para viver melhor, o que inclui ganhar mais e gastar em produtos melhores. A batalha pela qualidade é essencial, na educação. Apesar de termos ampliado enormemente o número de alunos em todos os níveis de ensino, a qualidade da formação recebida ainda deixa a desejar.

 

O coletivo "Futebol, Mídia e Democracia" lançou uma nota de repúdio à medida adotada pelo Ministério Público do Rio de Janeiro em parceria com o Gepe e o consórcio Maracanã que implantaram um setor de 2 mil lugares para as torcidas organizadas. Um setor cercado de grades que mais parece uma prisão para isolar todas as torcidas do resto dos torcedores "comuns".

Confira a nota e abaixo as torcidas, movimentos, coletivos e demais entidades que assinam o documento:

Não seremos enjaulados!

Em nota, viemos aqui dar um recado a respeito da decisão de isolar torcidas organizadas nos estádios do Rio de Janeiro.

Essa medida absurda começa com um cadastro realizado junto ao MP/RJ e o Grupamento Especial de Policiamento em Estádios (GEPE, da PM do Rio), onde ambos definem e aceitam, ou não, o que é uma torcida. Isso passa por diversas exigências para se colocar apenas uma bandeira no estádio, e culmina agora em um setor do Maracanã para as organizadas. Um setor isolado, cercado de grades, igual a um presídio.

Já está muito claro que essas medidas são na verdade higienistas: “limpam” os estádios, segregam os pobres e vão elitizando cada vez mais nossos espaços populares. Nenhuma medida dessas, acima citadas, resolve a questão da violência. Pelo contrário: por marginalizar os torcedores, é criado um ambiente hostil que, obviamente, aumenta a violência.

As brigas continuam, as pessoas continuam morrendo, a impunidade continua, os preços dos ingressos só aumentam, as tensões nos estádios nunca foram tão grandes, porque nunca foi tão difícil torcer; e até hoje, não se sabe de um só policial preso por abuso de autoridade nos estádios, e sabemos que isso ocorre aos montes. Mas preferem fechar os olhos e nos enjaular.

A violência se agravará, mais pessoas serão excluídas, e qualquer lembrança de um Maracanã popular acaba de vez. Agora o teatro está concluído: se antes nos comercializavam com vídeos de nossas festas e músicas, agora somos descartáveis. A prioridade são setores mais caros nos estádios, atraindo um público ainda mais elitizado, apático e frio. A burocratização da festa prejudica o espetáculo, é mais uma etapa da criminalização da cultura torcedora.

Ao invés de segregação, propomos que os governos, Ministério Público, Polícia Militar e outros agentes que organizam o futebol dialoguem e debatam com os torcedores, para construir em conjunto um planejamento que melhore a segurança e a organização dos jogos sem violar direitos, sem reprimir e sem atacar a cultura de festa dos torcedores brasileiros.

Torcer não é crime, nem o torcedor é um bandido!

Não aceitaremos calados sem luta! Não seremos enjaulados! Liberdade para as torcidas e para os torcedores! O futebol é do povo!

#LiberdadePraTorcer

Assinam esta nota:

TORCIDAS E ENTIDADES

Anatorg (Associação Nacional de Torcidas Organizadas)
Associação Avante Fantasma (Operário Ferroviário/PR)
Associação Esportiva Araguaia
Avante Santa Cruz - Portão 10 (Santa Cruz/PE)
B16 - Bangu Antifascista
Brava Ilha - Saída 3 (Sport/PE)
Brigada Marighella (Esporte Clube Vitória/BA)
Brigada Popular Alvirrubra (Náutico/PE)
Castores da Guilherme (Bangu/RJ)
Centro Acadêmico Caio Júnior - Futebol - Faculdade Carlos Drummond de Andrade (SP)
Coletivo Democracia Corinthiana
Coletivo Democracia SantaCruzense (Santa Cruz/PE)
Coletivo Dino Colli (Operário Ferroviário/PR)
Coletivo Futebol, Mídia e Democracia
Coletivo INTERfeminista (Internacional/RS)
Comando Rasta do Cruzeiro
Coral Antifa (Santa Cruz/PE)
Esquerda Botafoguense (Botafogo/RJ)
Feminino Portão 7 (Internacional/RS)
FFC - Força Feminina Colorada (Internacional/RS)
Flamengo Antifascista
Frente Esquadrão Popular (Esporte Clube Bahia/BA)
Frente Vitória Popular (Esporte Clube Vitória/BA)
Grêmio Antifascista
Grêmio Recreativo Torcida Organizada Máfia Azul (Cruzeiro/MG)
Inter Antifascista (Internacional/RS)
Leões de Sampa (Sport/PE)
Máfia Azul - Comando Guerreiro do Eldorado
Meca Antifa (América/PE)
Movimento Coralinas (Santa Cruz/PE)
Movimento Popular Coral (Santa Cruz/PE)
Mulheres de Arquibancada
Ocupa Palestra (Palmeiras/SP)
O Povo do Clube (Internacional/RS)
Palmeiras Antifascista
Punk Santista (Santos/SP)
Resistência Azul Popular (Cruzeiro/MG)
Setor 2 (Juventus/SP)
Teóricos do Futebol
Torcida Alcoolizada Cachazeiros (Cruzeiro/MG)
Torcidas Antifas Unidas
Torcida Antifascista Sport
Torcida Bolche FLA (Flamengo/RJ)
Torcida Independente Garra Tricolor (Esporte Clube Bahia/BA)
Torcida Jovem Fanáutico (Náutico/PE)
Torcida Organizada Bamor (Esporte Clube Bahia/BA)
Torcida Uniformizada Garra Alvinegra (Americano/RJ)
Torcida Organizada Raça Coral (Santa Cruz/PE)
Torcida Pavilhão Independente (Cruzeiro/MG)
Torcida Santos Chopp (Santos/SP)
Torcida Trem Fantasma (Operário Ferroviário/PR)
Torcida Uniformizada do Palmeiras - TUP
Torcida Tulipas Vascaínas (Vasco/RJ)
Tribuna 77 - GFBPA (Grêmio/RS)
Turma do Chico Leone - 515 (Palmeiras/SP)

INDIVIDUAIS:

Anizio Silva (@tuitdosantinha)
Lu Castro - Jornalista
Marcelo Moisés - Presidente da TUP (Torcida Uniformizada do Palmeiras)
Maria da Penha - Ex-presidente da Torcida Organizada Tulipas Vascaínas

En respuesta a la ofensiva del gobierno de Mauricio Macri, en Argentina, que pretende tranformar los clubes de fútbol en sociedades anónimas deportivas (SAD), hinchas argentinos están dejando de lado la rivalidad para resistir al inminente ataque contra el fútbol local. En solidaridad a la lucha de los hinchas del país hermano, aglutinados en la Coordinadora de Hinchas, el Coletivo Futebol Mídia e Democracía y diversas organizaciones publican nota este lunes 9 fortaleciendo el movimiento de protesta de los vecinos y recordando que la ofensiva contra el fútbol democrático y popular no es exclusividad de un solo lado de la frontera.

Lea la nota integra abajo o haga click para la versión en portugués:

NOTA DE APOYO DE LOS HINCHAS BRASILEROS A LOS HINCHAS ARGENTINOS

“NO A LAS SAD!”

Parte de un efervecente movimiento de hinchas, activistas, comunicadores sociales y militantes en lucha por un fútbol más democrático y popular en Brasil, nos solidarizamos con la lucha correspondiente de nuestros hermanos argentinos aglutinados en torno a la Coordinadora de Hinchas.

Concientes de la grave amenaza del entendimiento del futbol como patrimonio cultural de nuestros pueblos, manifestamos nuestro absoluto repudio a la propuesta de transformar los clubes de futbol en sociedades anónimas deportivas (SAD). Para nosotros la envestida mercantilista en curso en Argentina usa armas diferentes, pero tiene el mismo objetivo que combatimos en Brasil: la extinción de la cultura del tablón, la exclusión de los pobres de las canchas, la manutención y ampliación del poder de los dueños del deporte mas popular de nuestros países, además de la reducción de uno de los elementos culturales mas importantes de nuestro continente en un producto meramente mercantilista, mediático y estéril.

Para nosotros, el proyecto en curso en Argentina no puede ser comprendido como un hecho aislado. Se trata de una ficha mas en el tablero que atenta contra nuestro fútbol. En este escenario, creemos que es indisociable del proyecto en curso en Argentina, el proceso de elitización de las tribunas vigente en Brasil a través de entradas caras y cada vez mas inaccesibles para los ciudadanos de más bajo sueldo; el poder sin limites de dirigentes de las instituciones que mandan en el fútbol a nivel nacional y continental; y la actuación de los monopolios mediáticos, que atropellan a los hinchas, a la sociedad civil organizada y a la democracia con sus intereses económicos y de clase.

Pero además de nuestro esfuerzo actual, emprendido en la campaña “Ingresso Caro Não! [No a las entradas caras]”, una pauta urgente para los hinchas de todos los clubes brasileros, también alertamos que hay en curso un proyecto real de transformación de nuestros clubes en empresas, retomando los objetivos de la fracasada “ley Pelé” (1998). La amenaza de transformación de los clubes brasileros en empresas también es real.

Saludamos el esfuerzo de los hinchas del país vecino en sobreponer la importancia de esas luchas por encima de la rivalidad entre clubes, tarea difícil, que exige maduración y que también estamos enfrentando en Brasil. Así como nuestra resistencia abraza todas las banderas, ella también debe transcender fronteras.

Firman abajo las organizaciones de hinchadas brasileras que luchan por la democracia en nuestros clubes y nuestras tribunas.

Fútbol, Fiesta Popular!

Firman:

Coletivo Futebol, Mídia e Democracia

Coletivo Democracia Corinthiana - SC Corinthians P

Coletivo Democracia Santacruzense - Santa Cruz FC

Frente Vitória Popular - EC Vitória

Flamengo da Gente - CR Flamengo

Movimento Clube do Povo - ABC Futebol Clube

Massa e Raça 88 - EC Bahia

Movimento Ocupa Palestra - SE Palmeiras

Resistência Azul Popular - Cruzeiro EC

O Povo do Clube - SC Internacional

Associação Nacional das Torcidas Organizadas (Anatorg)


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