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“Não é hora de fazer cálculos cínicos sobre perdas econômicas com a pandemia. Valem muito mais as vidas humanas do que qualquer prejuízo no orçamento. Isso, na Itália, sobretudo em Bergamo, já entendemos, já sentimos na pele, contando os nossos mortos. Desejo que o Brasil não caia nesse erro fatal”. A declaração é do jornalista italiano Cristiano Gatti, que publica seus artigos na edição de Bérgamo do Corriere della Sera, um dos jornais diários mais importantes do país.

Por Felipe Bianchi

Gatti publicou, recentemente, uma carta aberta aos povos do mundo. Intitulada “Carta de Bérgamo” (Lettera da Bergamo), o jornalista descreveu o drama vivido pelos cidadãos de seu país e, ao mesmo tempo, esmiuçou a tragédia política que arrastou a Itália para o epicentro da pandemia entre janeiro e março, começando pelo desprezo à quarentena e ao isolamento social.

Cristiano Gatti: 'Imprensa não pode ceder à loucura de minimizar a pandemia'Ataques a prefeitos e governadores que estariam “espalhando o caos” e campanha ostensiva defendendo que o país e a economia não poderiam parar por conta de um novo vírus na praça são alguns dos ingredientes da receita seguida pelo governo italiano, que conduziu o país a um drama sem precedentes. Até o fechamento deste artigo, a Itália acumula ao redor de 8 mil mortes por conta do Coronavírus (Covid-19).

O expediente é familiar para os brasileiros. Jair Bolsonaro tem apostado numa teoria de que a pandemia que assola o planeta não passa de uma “gripezinha” e que é uma “fantasia fabricada pela mídia”. Também adere ao discurso anti-China de Donald Trump, chamando o Covid-19 de “vírus chinês” e insinuando que haveria interesses econômicos por trás da pandemia. Por fim, também tem comprado briga com governadores e parlamentares que levam o problema a sério. Os atritos com João Dória (PSDB-SP) e Wilson Witzel (PSL-RJ) são praticamente diários.

A imprensa tem sido um dos alvos preferenciais de Bolsonaro. O presidente acumula episódios de grosserias e truculência com jornalistas desde sua posse, em janeiro de 2019, e tem intensificado os ataques em represália à atenção dada pelos veículos ao tema da saúde pública. “O papel dos meios de comunicação é, absolutamente, evitar ceder à louca atitude de minimizar, como aconteceu aqui conosco, inicialmente”, opina Gatti. “Ninguém, talvez, pode evitar os contágios, mas todos podem e devem tomar precauções”.

Confira a íntegra da Carta de Bérgamo, publicada originalmente no dia 21 de março, no blog de Cristiano Gatti. A tradução para o português é de Aislan Maciera.

Uma carta de Bérgamo

Um pouco nos tocaram os tétricos desfiles dos caminhões militares carregando os caixões. Mas, sobretudo, nos tocaram os números. O fato é que, nos últimos dias, recebi telefonemas e mensagens afetuosas de tantas pessoas queridas espalhadas pela Itália. Inclusive de simples conhecidos. Todos fazem, gentilmente, a mesma pergunta: como está Bergamo?

Como está, como está. Eu não sou [Alessandro] Manzoni, que representou de modo sublime a peste de 1630. Mas ele estava há dois séculos de distância dos fatos, de modo que pôde estudar e raciocinar, de cabeça fria, com os olhos do sábio e do historiador. Nós, aqui, estamos dentro: ao vivo, em tempo real. Com todas as emoções e grandes preocupações do caso.

Essa história, no fundo, nasceu há pouco menos de um mês. Uma noite, assistindo às reportagens da China, minha esposa disse à mesa qualquer coisa do tipo “mas, Santo Deus, aquelas pobres pessoas, pense como devem viver, pense no medo. E pense se acontecesse com a gente...”

Em 20 de fevereiro, o primeiro caso de Codogno. Para muitos, parecia distante daqui. Para mim, parecia estar chegando rapidamente à minha casa: o que são 50 quilômetros para um vírus? De fato, pouco tempo depois, Alzano e Nembro. A seguir, o resto da província.

Em torno disso, nos primeiros momentos, o quadro que agora conhecemos bem: de um lado, os preocupados (como eu), definidos mais ou menos como paranoicos, ansiosos compulsivos, pessimistas. E, por outro lado, o poderoso coro dos otimistas, guiados pelos nossos representantes mais importantes. O prefeito de Alzano, não quis fechar a cidade, como foi feito em Codogno. Dizia que era uma zona nevrálgica para a economia, não se poderia parar as atividades produtivas. Com ele, e sua superior autoridade, o governador Fontana, para quem o vírus não passava de uma gripe mais forte. O prefeito Sala, em Milão, fez barulho: não podemos reduzir Milão a um funeral, hashtag milanononsiferma [Milão não para]. Em Bergamo, nosso prefeito Gori, não ficou para trás, e lançou com os comerciantes a sua orgulhosa hashtag Bergamononsiferma [ Bergamo não para].

É inútil olhar para os lados: nossa virtude mais conhecida e reconhecida nos atingiu, a atividade empreendedora. Aquele fogo que tivemos por gerações, que nos empurra a fazer, a fazer, a fazer, finalmente para produzir, produzir, produzir, para ganhar, ganhar, ganhar. É um pouco forte dizer, mas não devemos temer a força das palavras: a nossa cultura, vulgarmente chamada gananciosa, algo que tem a ver com uma ligação congênita, mas também com a cobiça, nos impediu de parar. De puxar o freio antes de bater. E nós batemos.

Como parar a locomotiva da Itália? Como parar tudo? Como? Já que os prefeitos não nos mostraram, nos mostrou um estúpido vírus. Por não fechar uma ou outra cidade, agora fechamos o mundo.

Eu moro logo abaixo dos muros da Cidade Alta. Agora, abro a janela, e onde via muita gente passear, com vista para a planície, agora vejo deserto e desolação. Aqui fora também, na cidade baixa, ressoam mais do que qualquer coisa, sirenes de ambulância e barulhos de caminhões, que pulverizam desinfetantes. Alguns donos passeando com seus cães, alguns indo ao supermercado ou algum corredor exaltado que simplesmente não entende.

Entretanto, no geral, muita disciplina. E tanto, tanto, tantíssimo senso de dever, que alguém na mídia define heroísmo, mas que é simplesmente fazer o que deve ser feito: os médicos, os enfermeiros, os voluntários, toda uma comunidade fabulosa que não desmorona nem mesmo sob os golpes da necessidade, fadiga, desespero.

Certamente, não se pode dizer que Bergamo seja a capital do flashmob. Aqui há somente um coral, ensurdecedor, o flashmob do silêncio. Todos participam espontaneamente. E já dura dias e dias. Apenas alguns desenhos de crianças nas varandas, “ficará tudo bem”, como é certo fazer as crianças escreverem nestes tempos de escuridão e angústia.

Por outro lado, não é tão natural ir às sacadas cantar Azzurro quando o luto entrou em casa. Ou se aproximou. Pode-se dizer que não há família que não tenha sido atingida. Apenas como exemplo: despedi-me de três entes queridos em uma semana. Não parentes próximos, mas entes queridos. Como todos, eles morreram da pior maneira, supondo-se que haja uma maneira melhor: chamadas de emergência para o hospital, a família afastada, a solidão como companhia. E a partir daí o fim, sem uma mão familiar para a última carícia, sem voz para a última palavra. Seus entes queridos irão rever apenas uma urna, quando for possível.

Eu disse adeus ao pediatra que cuidava dos meus filhos, o grande médico Zavaritt, médico e muitas outras coisas, entre as quais conselheiro republicano do meio ambiente, quando o ambiente ainda estava para ser descoberto, mas, acima de tudo uma pessoa de verdadeira inteligência. E o doutor Lussana, que aqui no bairro passou a vida inteira a serviço de outras pessoas, com humildade e discrição, sacerdote de uma só religião, a medicina. E então o Sr. Marino, um amigo da família, um banqueiro apaixonado pelo campo, que ocasionalmente nos dava seus salames, além de outros alimentos orgânicos. Nomes que não dizem nada em outro lugar, mas que são histórias preciosas, únicas e verdadeiras, de um rio Spoon que está se formando hora após hora. Sim, eles tinham oitenta anos, mas se alguém vier me dizer, com o tom desses tempos, “ah, todos os que morrem são octogenários”, eu juro que vou atirar. Para mim, a importância de uma vida não é medida em anos.

A verdade? A verdade é que, nesta terra, entrou um imigrante odioso, arrogante, sem contrato de trabalho e sem permissão de residência: o medo. Na verdade, ele é o primeiro cidadão, mais do que qualquer prefeito. Ninguém o elegeu, assumiu o comando com métodos autoritários e não admite objeções. Domina em todas as casas, se insinuou em todos os lugares, se infiltrou em todas as rachaduras. Faço um parêntese: um dos meus filhos sempre sofre de alergias na primavera; por alguns dias começa a espirrar, queremos acreditar que é o incômodo usual. Mas a ideia remota, que está lá embaixo, na sombra da dúvida, consegue pelo menos causar alguns arrepios.

Ainda assim. Ainda assim, Bergamo não cede. Está de joelhos, tem sirenes nos ouvidos, mas não cede. Mais cedo ou mais tarde, o amanhã começará. Aqui também.

Esperando esse amanhã, não podemos deixar de enviar cartas de Bergamo como esta, que servem como exemplo e aviso ao resto da Itália [e do mundo]. Gostaria que muitos, muitíssimos, todos a lessem: ajudem-me a divulgá-la, mesmo que seja longa e atinja as regras de ouro para quem escreve on-line, o reino da brevidade e da superficialidade. Mas eu não ligo. Não é hora para essas bobagens.

Além disso, digo a todos: olhem para nós. Pesem nossa dor. E considerem que vocês têm uma sorte muito pequena, mas decisiva: o caso Bergamo. Ou seja, algumas semanas de vantagem. Tínhamos Codogno, mas o ignoramos, arrojados e inconscientes. Usem essa vantagem. Para se abrigar. Não cometa nossos erros, não seja tolo, não pense "como você para tudo". Melhor parar imediatamente e chegar à segurança do que parar depois, à força, com muitas mortes por aí. Infelizmente, todos temos um chamado ancestral vagamente suicida: sempre estamos convencidos de que isso não pode acontecer conosco. Também vamos a funerais com essa certeza inconsciente: acontece com os outros, não comigo.

De Bergamo, só posso enviar esta mensagem sincera a toda a Itália: não é nova, é tão antiga quanto o mundo, mesmo que seja regularmente ignorada pelos homens: não há nada, absolutamente nada, que valha a vida. Agora é a hora de lembrar.

O jornalista Rene Huarachi, da Rádio e Televisão Bartolina Sisa, foi perseguido, preso e torturado pela polícia boliviana após documentar na última quinta-feira as crianças do Colégio 25 de Julho, de Senkata, em El Alto, recebendo nuvens de bombas de gás lacrimogêneo próximas aos protestos contra a presença da autoproclamada presidenta Jeanine Áñez. Com cerca de mil estudantes, a escola necessitou ser evacuada pelos professores, em meio ao choro e ao medo dos pequenos.

Por Leonardo Wexell Severo/ComunicaSul

Policiais despejam gases e acertam crianças em El Alto: 

“Quero tornar público neste momento que no dia 5 de março fui detido injustamente por realizar o meu trabalho como jornalista. Aqui tenho como provas os vídeos que circulam em todas as redes sociais, fruto do meu trabalho. Me detiveram das formas que fui fotografado. Quero denunciar o seguinte: houve perseguição, quero denunciar detenção ilegal sem prévia notificação e, por último, quero denunciar a tortura”, informou o jornalista.

Segundo Rene Huarachi, além da tortura, quando lhe colocaram “policiais em cima de suas costas”, espancaram “com uma viga de madeira” ou “dos inúmeros chutes e insultos recebidos”, “o que lhe dói são as ameaças aos filhos pequenos”, e por isso pede proteção e segurança à família. [Assista abaixo o depoimento e a tradução]

As duas sessões de honra das comemorações dos 35 anos da “mais jovem cidade boliviana” acabaram se transformando em “atos de repúdio à violência golpista”. Entoando “Añez assassina”, sobreviventes e familiares das vítimas recordaram o massacre realizado no ano passado em Senkata por tropas do Exército e que deixou ao menos 10 moradores mortos e 30 feridos.

MINISTRO DE DEFESA GOLPISTA É DESTITUÍDO

Após ser censurado pela Assembleia, o ministro de Defesa da Bolívia, Fernando López, foi finalmente destituído. López é acusado de ter ordenado igualmente a repressão militar nos massacres de Senkata e de Sacaba, em Cochabamba, que juntos deixaram 35 mortos e 800 feridos, segundo o Alto Comissariado de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU). Ex-militar que estudou nos Estados Unidos, López foi diretor de Luis Fernando Camacho, de Santa Cruz, considerado como cabeça do golpe de Estado contra o presidente Evo Morales.

Como principal força do parlamento, o Movimento Ao Socialismo (MAS) colocou na lista de espera para a interpelação pelo legislativo os ministros de Governo, Comunicação e Presidência golpistas, acusados de repressão e atentado à liberdade de expressão e informação.

Jornalista Rene Huarachi denuncia tortura: 

Veja a íntegra do depoimento de Rene:

“Sou Rene Huarachi, jornalista da Rádio e Televisão Bartolina Sisa, atualmente sem credenciais porque foram retiradas de mim pelos policiais, juntamente com o meu celular, mas aqui tenho o meu documento, a minha designação. E também pertenço ao Sindicato de Empresas Jornalísticas, Foto-jornalísticas e Meios de Imprensa Digital de El Alto.

Quero tornar público neste momento que no dia 5 de março, quinta-feira, fui detido injustamente por realizar o meu trabalho como jornalista. Aqui tenho como provas os vídeos que circulam em todas as redes sociais, fruto do meu trabalho.

Me detiveram das formas que fui fotografado. Quero denunciar o seguinte: houve perseguição, quero denunciar detenção ilegal sem prévia notificação e, por último, quero denunciar a tortura.

Fui torturado como vocês podem ver após ter sido detido na ex-Prefeitura de El Alto. Me levaram a um quarto e depois disso nos subiram a um carro patrulha, onde nos subiram policiais em cima de vários detidos. Ali nós todos fomos colocados com a barriga para baixo e os policiais ficaram subidos em cima de nós, parados. Posteriormente, chegamos à Felcc (Fuerza Especial de Luta contra o Crime) de El Alto, onde tinham me tirado o celular anteriormente, e vasculharam todo o meu notebook, me insultaram de tudo, me disseram de tudo e me ameaçaram de tudo. E, finalmente, após ver todo meu celular, me deram com um pau, uma viga como dizemos nós, batido fortemente umas cinco ou seis vezes, o que me geraram estas feridas que podem ver nestas fotos. Me chutaram e dito de tudo.

Isso não é o que me dói, isso não dói. Me dói é que hajam ameaçado e se metido com a minha família. Neste mesmo momento em que me batiam estavam dizendo que meus filhos, por minha culpa, não seriam nada na vida. Que minha família vai pagar por tudo isso. Que o futuro dos meus filhos, pelo que eu estava fazendo, será afetado. Tenho dois filhos, meus pais e minha família. Meus filhos inocentes de dois anos e meio, quatro anos e meio, e é isso o que mais me dói.

Por isso peço neste momento, estou em liberdade, mas peço garantias porque a polícia perguntou de tudo e investigou onde vivo, com quem vivo, a que horas saio, a que horas chego ao meu trabalho, tudo isso.

Portanto, peço garantias não somente para mim, peço garantias para todos os jornalistas, para todos os bolivianos. Porque o que passou a mim não queria que passasse a ninguém, a nenhum boliviano. Na realidade, não quero que passe a ninguém. Estamos em um Estado de direito e, portanto, peço garantias não somente para mim, mas reitero garantias para minha família, para os meus filhos que são o mais sagrado da minha vida.

Obrigado”.

A crise no capitalismo tem sido o modo pelo qual o sistema busca ultrapassar sem limites os entraves no seu modo próprio de gerar e acumular riqueza. Logo no início do século 21, a crise das empresas “ponto com” (bolha da internet) resultou como resposta a introdução de um novo e promissor modelo de negócio que contribuiu para superar o movimento especulativo de altas das novas empresas de tecnologia da informação e comunicação (TIC) assentadas na internet desde 1994.

Após o ano de 2001, muitas empresas “ponto com” sofreram significativo processo transformação, com a quebra e o desaparecimento de algumas, bem como a venda e fusão de outras. Pela centralização e concentração do capital ocorrida no segmento econômico emergente, empresas estadunidenses como Google e Facebook passaram a enriquecer consideravelmente através do modelo de negócio assentado na remuneração dos conteúdos através de cliques na internet. Negócios e dados do mundo das empresas ponto com não caminham sem passar por ali.

Por Marcio Pochman

Com isso, o avanço extraordinário das receitas baseado em anúncios que recompensavam comercialmente a isca do clique trouxe a disseminação viral de informação e, cada vez mais, desinformação. Em consequência, tanto a difusão da cultura de ataques maliciosos e do ódio efervescente, do assédio online e das invasões praticados por empresas e Estados na vida particular dos indivíduos. Também a polarização crescentemente internalizada pela web nas ideias e qualidade do discurso do formato no aparente design benevolente colocado a serviço lucrativo de empresas que operaram o quase monopólio da estrutura de mercado.

Acontece que, sem qualquer regulação, ademais o extraordinário lucro do modelo de negócio das empresas de tecnologia de informação e comunicação, o mundo passou a se encontrar diante da vigilância de negócios gerados por um capitalista monopolista de negócios sem controle.

Na busca incessante de lucros, em meio ao processo de financeirização da riqueza e a selvageria da lógica dos acionistas, a mais importante alteração tecnológica na produção e transmissão do conhecimento encontra-se profundamente ameaçada a serviço de ricos e poderosos que destroem também atualmente a democracia na política.  

Descontruindo Gutemberg

A invenção da máquina de impressão em tipos móveis por Johannes Gutemberg, há mais de cinco séculos, em 1493, tornou-se uma das principais mudanças mundiais ocorrida em todo o segundo milênio. Ela fez parte do período definido por Renascimento Cultural transcorrido na Europa entre os séculos 14 e 16, com intenso intercâmbio de conhecimento em várias áreas artísticas e das ciências, como na astronomia, física e navegação.

Em síntese, a revolução que permitiu superar o tempo natural representado pela forma física e biológica dos organismos vivos, sem validar o uso da técnica e conceber o universo como algo composto de uma mesma matéria uniforme, suscetível à corrosão e à finitude (terrestre e celeste).

A revolução técnica de Gutemberg levou ao avanço da noção do tempo histórico pelo qual a humanidade difundiu cultura e narrativa fundamental para o desenvolvimento da consciência histórica, com registros de acontecimento, conforme havia se expressado Heródoto, o “pai da história” na antiga Grécia. A modernidade que se constituiu em torno da renascença, revolução científica e reforma religiosa do protestantismo teve enorme impacto com a nova técnica de produção e reprodução de textos e livros.

Através dos caracteres móveis e a prensa de imprimir, a cópia manuscrita foi superada, assegurando a circulação massificada de textos e livros. Até então, os registros eram feitos por monges, alunos e escribas, cujo trabalho era longo no preparo e elevado custo, inacessível, em geral, à maioria da população.

Atualmente, as bases materiais que permitiram a modernidade da economia baseada no conhecimento e na disseminação em massa da aprendizagem sofrem inegável transformação gerada pela revolução das tecnologias de comunicação e informação associadas à computação e internet.

Assim como o processo de produção e difusão do conhecimento foi acelerado pela invenção da máquina de impressão, as tecnologias de informação e comunicação multiplicam ainda muito mais, tornando-as tempo real.

Mas sem regulação, a vigilância e o controle imposto pelo modelo de negócios do capitalismo monopolista pode inverter a modernidade do renascimento do passado na pós-modernidade que retrocede à submissão como se estivesse no mundo antigo e medieval. O paradoxo do tempo natural, não mais histórico.

Na última quarta-feira (20/08), a Coalizão Direitos na Rede (CDR) participou de uma reunião com Júlio Semeghini, secretário executivo do Ministério da Ciência, Tecnologias, Inovações e Comunicações (MCTIC), em Brasília (DF), onde foram debatidas propostas em relação ao cenário de transformações no marco regulatório do setor de telecomunicações.

Por Coalizão Direitos na Rede

A CDR apresentou alternativas à proposta do governo de antecipar o fim das concessões de telefonia pública por meio de alteração na Lei Geral de Telecomunicações (LGT), e indicou quais, em seu entendimento, devem ser os critérios para o investimento do saldo das obrigações das concessões de telefonia fixa. Semeghini recebeu bem as demandas e mostrou disposição e interesse comum em garantir a universalização do acesso à internet, premissa essencial à cidadania como estabelece o Marco Civil da Internet.

A organização, no entanto, reivindica o arquivamento do Projeto de Lei da Câmara (PLC) 79/2016, o chamado “PL das Teles”. “A gente entende que esse projeto de lei não responde aos interesses públicos e responde apenas aos interesses privados de algumas grandes empresas. O secretário Semeghini se mostrou disposto a manter um diálogo frutífero no sentido de acelerar a universalização do acesso à internet, inclusive para as classes D e E”, relatou Marina Pita, associada do coletivo Intervozes, uma das mais de 30 entidades que compõe a Coalizão.

O PLC 79/2016 continua tramitando no Congresso Nacional, mas enfrenta questionamentos tanto da sociedade civil como do Tribunal de Contas da União (TCU). Uma das críticas é sobre a forma de cálculo de bens reversíveis — patrimônio púbico utilizado pelas empresas de telecomunicações pertencentes à União –, que o órgão avalia girar na casa de R$ 100 bilhões.

Para a Coalizão Direitos na Rede, é necessário discutir um novo marco regulatório para o setor, contanto que se leve em consideração a universalização do acesso à Internet. Como está, o PLC 79/2016 é insuficiente e não atende ao interesse público.

A entidade ainda expôs para o secretário do MCTIC a necessidade de que se avance nas iniciativas legislativas para a utilização dos recursos do Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações (FUST), que poderia encampar a demanda da universalização da Internet.

Se estivesse vivo, o Ministério da Cultura (MinC) completaria 35 anos em 2020. Sua certidão de nascimento, o Decreto Nº 91.144, é simbólico: o ex-presidente José Sarney (PMDB) criou a pasta em 15 de março de 1985, dia inaugural de seu governo e da Nova República. O MinC foi um dos primeiros frutos – um filho legítimo e emblemático – da redemocratização do País.

Por André Cintra, no Portal Vermelho

Já seu atestado de óbito, assinado há um ano, atende pelo nome de Medida Provisória Nº 870. Em 1º de janeiro de 2019, poucas horas depois de tomar posse na Presidência, Jair Bolsonaro rebaixou o status administrativo da Cultura – de ministério para secretaria especial – e subordinou suas funções ao Ministério da Cidadania. Em novembro, um novo retrocesso: a pasta foi transferida para o Ministério do Turismo.

Para analisar os impactos da extinção do MinC e do desmonte do setor, o Vermelho ouviu dois gestores que participaram do período de maior expressão do ministério – os 13 anos sob os governos Lula e Dilma. O historiador e gestor de políticas públicas Celio Turino comandou a Secretaria da Cidadania Cultural entre 2004 a 2010, idealizando os programas Cultura Viva e Pontos de Cultura. Já o pesquisador João Brant, militante de cultura e de comunicação, foi secretário executivo do MinC (2015-2016). Confira:

 

Vermelho: Antes de Jair Bolsonaro, houve Michel Temer no caminho da Cultura. Em que medida o atual governo já encontrou um MinC diferente daquele deixado por Lula/Dilma?

Celio Turino: É preciso compreender o impacto das políticas culturais inauguradas sob o governo Lula, com os ministros Gilberto Gil e, depois, Juca Ferreira. Os Pontos de Cultura alcançaram 1.100 municípios, com 3.500 pontos – a maioria em favelas, aldeias indígenas, assentamentos rurais, periferias de grandes cidades a pequenos municípios, atuando desde o campo da cultura popular e de periferia à arte de vanguarda e ao software livre. Essa política pública se disseminou pela América Latina, com reconhecimento de diversos governos e até mesmo do papa Francisco. Hoje, há Pontos de Cultura em 17 países. Houve a consolidação de uma indústria audiovisual no País, gerando centenas de milhares de empregos. No campo da Identidade e Diversidade Cultural, o Brasil foi um dos principais artífices da política de diversidade da Unesco. Conseguimos assegurar ao menos uma biblioteca em cada município, incluindo os rincões mais afastados. Foi criado o Instituto Brasileiro de Museus (Ibram). Enfim, as muitas iniciativas resultaram em um conjunto de políticas inovadoras. Lamentavelmente, a partir de 2011, houve uma descontinuidade dessas políticas, com incompreensões e mesmo desmonte – não na intensidade atual, mas que provocaram uma contínua perda de espaço. Com o governo Temer, houve a tentativa e o recuo na extinção do Ministério da Cultura. Seguiu-se uma gestão sem grandes formulações ou ações merecedoras de destaque, mas também sem grandes destruições – “medíocre” seria a definição mais apropriada. Com o governo Bolsonaro, isso muda, havendo uma política aberta de ódio e destruição à cultura, às artes e ao pensamento.

João Brant: Desde o governo Temer, o ministério já vinha em um processo de grande enfraquecimento. A “PEC do Teto dos Gastos” (Emenda Constitucional 95, sancionada em 2016) comprimiu muito o espaço dos ministérios que dependem de orçamento discricionário, como a Cultura, que não tem despesas definidas como obrigatórias. Em relação às políticas públicas, houve a desmontagem do programa Cultura Viva, uma ação que foi assumida pelo (ex-ministro) Sérgio de Sá Leitão numa entrevista. O audiovisual foi marcado por uma política errada da direção da Ancine (Agência Nacional do Cinema), com o Christian de Castro e seu discurso populista, de agrado ao TCU (Tribunal de Contas da União). Isso prejudicou muito as condições de realização da política do audiovisual. Mas a decisão do Bolsonaro de acabar com o Ministério da Cultura e a forma como ele indicou seus gestores revelam um passo realmente adiante em relação ao que era o governo Temer.

Vermelho: Por que é importante que a Cultura tenha status ministerial?

Celio Turino: Cultura é o que define uma nação. Assim como há as fronteiras físicas de um pais – que devem defendidas pelas Forças Armadas e pelo Ministério da Defesa –, há a fronteira imaterial, a alma dos povos, suas formas de ser, pensar e agir. A defesa dessa fronteira intangível cabe ao Ministério da Cultura. Desguarnecê-la equivale a crime de lesa-pátria. Na América Latina, até o ano passado, apenas dois países não tinham ministérios da Cultura: o Panamá contava com um instituto, e a Argentina, com uma secretaria, em função das políticas neoliberais de Mauricio Macri. Quando da vitória da esquerda nesses dois países, a primeira medida dos novos presidentes foi a criação dos respectivos ministérios da Cultura. No Panamá, país com menos de 5 milhões de habitantes, houve a elevação do orçamento em mais de sete vezes – de US$ 40 milhões para US$ 300 milhões. Hoje, com o governo Bolsonaro, o Brasil é o único país da América Latina a não contar com um ministério da Cultura.

João Brant: A primeira questão é a perda de relevância da Cultura. O rebaixamento de status do MinC carrega, obviamente, um rebaixamento da importância relativa da Cultura perante as outras áreas. Se não fosse para gerar isso, não tinha porque a mudança acontecer, já que a economia de recursos é mínima. Esse rebaixamento impacta na dificuldade de acesso direto às áreas centrais do governo (Presidência da República e Ministério da Economia), bem como ao Congresso Nacional. Impacta também na perda de lugar de fala pública do responsável pela pasta. O segundo prejuízo vem na forma de perda de capacidade administrativa. Embora a economia em termos de pessoal seja mínima – se considerado o orçamento geral –, ela afeta a capacidade de o ministério processar seus convênios e termos de cooperação e de fomento. Nesse quadro, a Cultura tem de competir por espaço e prioridade internamente ao ministério. A terceira é a perda de autonomia orçamentária. Além da batalha no âmbito do Ministério da Economia e do Congresso Nacional, a Cultura tem de manter uma batalha permanente dentro do ministério – antes o da Cidadania, agora o do Turismo. Considerando que o teto de gastos públicos rebaixa consideravelmente os recursos para a Cultura, a secretaria especial teria de lutar muito para a pasta poder efetivar políticas públicas que vão além de abrir e fechar seus equipamentos.

Vermelho: Passado um ano do governo Bolsonaro, como estão as políticas culturais no País? Quais as perspectivas para 2020 e o restante do mandato de Bolsonaro?

Celio Turino: Declarações grotescas, censura à livre manifestação artística, insultos e ofensas a artistas, pensadores e grupos étnicos, ódio e destruição à Cultura. Além disso, não houve nada que mereça destaque. O que esperar? Aprofundamento do ódio e da destruição.

João Brant: O quadro já é trágico. Em junho passado, ao participar de um debate sobre a questão da Cultura, eu disse: “Tudo indica que a coisa está ruim, mas pode piorar bastante”. E o segundo semestre de 2019 mostrou que havia muito espaço para piorar. Fazíamos uma certa divisão entre políticas de investimento e fomento, de um lado, e políticas de manutenção de espaços e de atuação institucional do ministério, de outro. As políticas que dependem de fomento já estavam às traças, por falta de recursos. Mas ainda não tínhamos visto o peso do enfraquecimento do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), do Ibram, da Fundação Biblioteca Nacional, da Fundação Cultural Palmares, etc. Apesar dos equívocos na condução desses espaços, não havia uma deterioração dessas políticas que são (digamos assim) mais permanentes do ministério. Agora, vemos uma combinação entre a negligência do Bolsonaro com a Cultura e a postura de seus gestores – que não estava tão clara em meados do ano passado, mas já está afetando os espaços institucionais. A indicação desses gestores – como o Roberto Alvim (para secretário especial da Cultura) e o Sérgio Camargo (para a presidência da Fundação Palmares) – representa a destruição no discurso e na prática. Eles chegam para destruir uma perspectiva de política cultural. O caso da Ancine é mais preocupante por se tratar do único espaço que ainda tem recursos significativos para a realização de políticas, graças à arrecadação da Condecine (Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica). Essa política vai afetar mais fortemente o audiovisual neste ano. Espero estar errado, mas talvez vejamos a destruição do pouco que ainda resta de política cultural no Brasil. Vamos ver, por exemplo, o sufocamento do Ipham e da política institucional de patrimônio, da Biblioteca Nacional, dos diferentes ambientes e espaços de atuação do ministério. Todos os fatos apontam nessa direção, e as perspectivas para 2020 são muito negativas.

Vermelho: Como reagir?

Celio Turino: Com muita criatividade, arte e afeto, muita proximidade com o povo. E com muita coragem e determinação para ir às ruas e exigir a anulação das eleições de 2018, por fraudadas que foram, seja pela manipulação golpista de instituições de Estado e pela desinformação promovida pela mídia corporativa; seja pelos abusos do poder econômico, pela disseminação da cultura do ódio e fake news pelas redes sociais, agravada pela submissão a interesses de potências imperialistas; seja pela entrega do Brasil a um projeto neocolonial, pelos incontáveis crimes de improbidade cometidos pelo presidente e assessores e pela vinculação com o submundo do crime. Há muitos motivos para exigir o fim deste desgoverno de traição nacional. No Chile, nossos irmãos estão mostrando o caminho. Lá, nas manifestações pelo “Fora, Piñera”, os artistas e movimentos de cultura viva comunitária estão na vanguarda das manifestações – sempre com muita arte e ações performáticas, que agregam milhares de pessoas. É como acontece com o novo brado feminista, que alcança o mundo: “El violador eres tú” (O estuprador é você). Tenho muitos amigos por lá, artistas, palhaços (uma delas foi assassinada pela repressão policial – ou “pacos”, como eles chamam os carabineros), teatreros, músicos, animadores culturais… Diariamente, eles desafiam a repressão violenta com novas formas de protesto, que têm por base a arte e a cultura. O Chile está mostrando o caminho e cabe aos demais povos da América do Sul apoiá-los e acompanhar seu exemplo sempre que houver um governo opressor. Fora esse caminho, só vejo tristeza, humilhação e destruição. Já basta o tempo de tristeza no Brasil!

João Brant: Se apenas a área da Cultura tivesse uma política extremamente negativa e o restante do governo fosse razoável, poderíamos ver hoje um ambiente central de reação na Cultura. Mas não é isso que está acontecendo. O governo Bolsonaro combina um ultraliberalismo econômico, um ultraconservadorismo moral e comportamental, além da entrega total das riquezas nacionais a uma pequena parte da sociedade. Estamos lidando com uma minoria – mas é uma minoria organizada contra uma maioria dispersa. A Cultura simplesmente repete esse padrão. A reação depende, antes de tudo, de uma organização daqueles que foram diretamente afetados. Pode ocorrer reação efetiva diante das perdas em questões estratégicas, como o enfraquecimento do Fundo Setorial do Audiovisual e as ações mais graves no âmbito do Iphan e das fundações. Fora disso, pior: vamos ver uma destruição completa. Daria para reagir melhor, com mais força, num ambiente político em que essas questões pudessem ser sentidas de forma especialmente graves. Quando você não percebe os efeitos de imediato, é muito difícil haver uma reação que faça a panela transbordar. A não ser que isso vá se acumulando, como ocorreu no Chile recentemente.

Assista em tempo real ao Seminário Os desafios da comunicação nas administrações públicas, direto de Salvador, na Bahia. Serão dois dias (29 e 30 de novembro) de muita troca de ideias sobre as experiências e os desafios da comunicação nos governos progressistas, reunindo debatedores de peso de todo o país. Você pode acompanhar pelo Canal do Barão no YouTube (com reprodução em nosso site) ou direto na página do Barão no Facebook: facebook.com/baraomidia.

A cultura para a emancipação humana

• Célio Turino – ex-secretário de Cidadania Cultural do MinC;
• Ivana Bentes – diretora e professora da Escola de Comunicação da UFRJ;

- Coordenação da mesa: Mauro Lopes

O futebol das mulheres ganha o planeta como nunca antes em sua história

Grande dia!
Grande dia de verdade e não o externado pelo boçal que ocupa desastradamente o posto mais alto do executivo brasileiro.

Hoje é um grande dia porque tem início a oitava edição da Copa do Mundo de Futebol Feminino! A anfitriã França abre a competição diante da Coréia do Sul a partir das 16h00 – horário de Brasília – e além da ansiedade pelo ponta pé deste jogo temos muito o que comemorar em termos de visibilidade.

Por Lu Castro, especial para o Barão de Itararé

Há pouco mais de dez anos, assumi uma responsabilidade pessoal: utilizar a tecnologia em favor da visibilidade das mulheres que faziam a bola rolar pelos campos da cidade. Minha primeira busca foi no Juventus, formador por excelência, e sua técnica Magali.

O material, publicado no antigo portal OléOlé, já se perdeu, mas, de lá para cá, perda deixou de ser sinônimo de mulher dentro e fora das quatro linhas.

Avançamos. E os contatos com os principais agentes da modalidade se intensificaram. E espaços alternativos começaram a surgir com mais força na busca pelo tratamento igualitário do futebol de mulheres e homens – ao menos no que diz respeito ao que se noticia, inicialmente.

Observando a movimentação da imprensa nacional, noto um grande cuidado ao tratar do assunto, diferente de muitos outros anos. Acredito que esteja diretamente relacionado ao número de mulheres presentes em redações esportivas, algo que apontei como imprescindível para a melhora na comunicação do futebol de mulheres em mídias tradicionais.

Avançamos. E avançamos noutros tantos aspectos do futebol, inclusive na gestão, onde o trabalho realizado pela ex capitã da seleção, Aline Pellegrino, como diretora de futebol feminino da Federação Paulista de Futebol, tem ampliado os espaços para trabalhar as categorias de base.

Avançamos. A seleção brasileira tem uma estrutura que nunca teve. A seleção brasileira conta com uniforme próprio e não sobra do uniforme masculino. A seleção tem seus jogos transmitidos de modo inédito em tevê aberta de alcance nacional. A seleção só não tem uma coisa: técnico.

E isso, car@s, é algo que me preocupa tanto quanto me alegra: o fato de termos a Copa do Mundo mais noticiada de todos os tempos.

Diante de uma seleção nacional que caiu no ranking FIFA nos últimos anos, sob o comando de alguém que não tem perfil para comandar o selecionado nacional em nenhuma circunstância – e já o demonstrou em outras ocasiões - que carrega para a França nove derrotas consecutivas, minha expectativa é de termos que reforçar nosso discurso e argumentar como nunca que o que eles (os espectadores desconhecedores da realidade do futebol feminino) estão vendo não é bem isso.

Num momento, em que os olhos do mundo estão voltados para a amarelinha tão conceituada um dia, mostrar um jogo baseado apenas na garras das nossas habilidosas e talentosas atletas, tem sido o protagonista dos meus pesadelos.

Tudo o que lutamos para construir – atletas, gestores, comissões técnicas sérias, jornalistas interessados no assunto – pode sofrer um revés de opinião pública se o coletivo não estiver bem arrumado. E nós sabemos que não está.

Há poucas horas da abertura do mundial mais importante de todos os tempos, vou da euforia e ansiedade que mal me deixou dormir a testa constantemente franzida de preocupação.

Avancemos pois, nossas atletas se entregarão e é muito provável que nos jogos do Brasil o que avance é o nível da gengibrinha pra dar conta da montanha russa de emoções.

Uma mulher registra um boletim de ocorrência acusando um homem por estupro. Em depoimento, descreve que o parceiro teria ficado subitamente agressivo e usado da violência para praticar relação sexual sem seu consentimento. O laudo médico, anexado ao caso, apresenta sinais físicos de agressão e estresse pós-traumático. Em resposta, o homem acusado desmente a história publicamente, argumentando que o episódio não passou de “uma relação comum entre um homem e uma mulher”.

Por Mariana Pitasse, no Brasil de Fato

Esse poderia ser apenas mais um entre os cerca de 135 casos de estupro registrados por dia – que equivalem a cerca de 10% a 15% dos abusos que acontecem diariamente no Brasil, segundo levantamento do Atlas da Violência de 2018. Mas não é um episódio qualquer. O homem acusado é Neymar, um dos jogadores de futebol mais bem pagos do mundo. Por isso, o caso tomou as páginas dos jornais dentro e fora do Brasil nos últimos dias, com ampla repercussão nas redes sociais.

Após a denúncia registrada contra o jogador do Paris Saint-Germain na última sexta-feira (31), a acusadora foi exposta de diferentes formas – pela mídia comercial e pelo próprio Neymar. Para "sensibilizar" a opinião pública, o jogador postou um vídeo em suas contas do Instagram e do Facebook em que diz ser inocente. Ao tentar “comprovar” sua versão dos fatos, divulgou conversas que manteve com a mulher pelo Whatsapp, assim como fotos e vídeos íntimos da acusadora. A ação fez com que o jogador passasse a ser investigado também pelo vazamento de fotos íntimas.

A divulgação do conteúdo não foi um equívoco e, sim, uma escolha. Neymar preferiu cometer um crime virtual para tentar dialogar com pessoas que concordam com a ideia de que uma mulher que envia fotos íntimas pela internet é necessariamente "aproveitadora" e "interesseira".

O que está sendo ignorado nessa leitura rasa proposta pela defesa de Neymar é que a intimidade exposta para milhões de pessoas não diz nada sobre a acusação de estupro. Como lembra a antropóloga Débora Diniz, o que circula é a versão de um homem poderoso que se ancora em elementos do fascínio pelo sexo e na desqualificação fácil das mulheres vítimas de violência sexual. E essa é também a narrativa em que tem se amparado a cobertura da mídia comercial sobre o caso. Mesmo sem afirmar que estão assumindo uma posição, jornalistas passaram o recibo de que a acusadora está tentando se aproveitar do “menino” Neymar.

Entre as reportagens que tomaram conta do noticiário brasileiro nos últimos dias, a matéria Jornal Nacional – no dia seguinte à divulgação das conversas – foi a que mais repercutiu. Ela traz um panorama sobre o caso e ressalta o depoimento de um ex-advogado da mulher afirmando que o estupro não aconteceu. A reportagem também divulga o nome da nova advogada de defesa da mulher, ainda que ela não tenha dado autorização para isso, desrespeitando um princípio básico do jornalismo: a garantia de sigilo das fontes. Na mesma reportagem, sem mostrar as fotografias e vídeos do corpo da mulher, divulgados por Neymar, são expostas frases soltas da conversa em que o jogador aparece enredado em um jogo de sedução.

Em outra reportagem, desta vez publicada no Jornal de Brasília, a mulher tem a vida financeira e judicial revirada. O texto aponta que ela tem uma ação de despejo em seu nome, após três meses de aluguel atrasado, e que acumula dívidas. A reportagem também disponibiliza o nome completo da mulher e detalha suas contas a pagar.

A invasão de privacidade promovida por jornalistas com a justificativa de mostrar a “real versão dos fatos” não terminou por aí. Em reportagem publicada pelo jornal O Globo, a família da mulher é procurada e sua mãe é informada sobre o caso a partir da abordagem da repórter. Dias depois, uma matéria veiculada pelo portal UOL evidencia que o filho da mulher, de cinco anos, está sofrendo com chacotas na internet e na escola por conta da repercussão do caso.

Mais do que a intimidade revirada e exposta em fotos e vídeos íntimos e informações detalhadas sobre sua situação financeira, a mulher teve sua versão dos acontecimentos contestada a todo tempo, de forma pública, inclusive por seu ex-advogado. Mas isso não é levado em consideração, porque tudo parece legítimo quando a motivação é “dar o furo” de reportagem. Na lógica do jornalismo, é necessário apresentar respostas antes mesmo das investigações. Tudo isso com base na “isenção e na imparcialidade”, ainda que à serviço da versão do jogador milionário…

Neymar, por outro lado, segue a rotina de treinos, jogos e compromissos publicitários, blindado por seu estafe. A presença dele está confirmada no jogo amistoso do Brasil contra o Qatar nesta quarta-feira (5).

Paris Saint-Germain e Seleção Brasileira se esquivam de comentar o caso. Familiares e amigos se pronunciam publicamente garantindo que ele é inocente e vítima de uma armadilha. A preocupação maior parece vir dos patrocinadores: ao menos quatro das 10 marcas manifestaram incômodo com o caso, segundo levantamento da Folha.

Comprovada ou não a acusação, a sentença já está dada: a mulher é sempre a ponta vulnerável. Não à toa, segundo o Atlas da Violência, são cerca de 1300 estupros por dia no país – dos quais apenas 135 são notificados.

*Jornalista, editora do Brasil de Fato no Rio de Janeiro e doutoranda em Antropologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF).

Edição: Daniel Giovanaz