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“ Em consequência, o papel da imprensa mudou radicalmente. Já não consiste essencialmente em debater, mas interpretar e contribuir a apontar as decisões do governo com os argumentos que este pode aportar”

Max Ruchner, Neue Zürcher Zeitung, outubro de 1933

A frase da epígrafe não foi extraída do Decreto 117/2024, com a qual Milei promoveu intervenção nos meios públicos da Argentina. A sentença pertence ao comentarista de um jornal suíço que explica com essas palavras a Lei Alemã para Editores, sancionada alguns meses depois de que Adolf Hitler conquistara, em março de 1933, a cessão do poder legislativo e a quebra da separação dos poderes através da Lei de Plenos Poderes. Coincidências históricas fortuitas ou habitual proceder autocrático?

Por Javier Tolcachier*, de Córdoba-ARG, para o Barão de Itararé

O decreto atual, publicado no Boletim Oficial da República Argentina, ordena a intervenção das sociedades do Estado Educ.Ar, Télam, Radio y Televisión Argentina (RTA) e Conteúdos Públicos pelo período de um ano, com possibilidade de ser ampliado.

As novas autoridades têm poder para modificar a estrutura orgânica e funcional, os contratos de funcionários, bem como revisar a administração de compras e contratações. A disposição determina enxugar a estrutura (“racionalizar”, no jargão neoliberal), ou seja, realizar demissões, anular programas e projetos e até mesmo fechar algumas instalações, tornando mais atraente a venda a possíveis investidores.

O grupo hegemônico Clarín, que já ostenta uma posição dominante na televisão aberta e a cabo, rádio e imprensa escrita, ademais de empreendimentos em telefonia móvel, fixa e conectividade de Internet, figura, como não poderia ser diferente, como um dos principais interessados no negócio.

Para além do óbvio viés mercantil privatista, a medida tem como objetivo disciplinar jornalistas da esfera pública, sob ameaça explícita de perderem sua fonte de trabalho. O rótulo de “nhoque” (ver nota de rodapé), “casta”, “jornalista militante” e inclusive “golpista” são alguns dos estigmas utilizados para calar qualquer voz crítica à política do governo, por meio de censura explícita ou autocensura.

O ataque à liberdade de expressão e à pluralidade informativa na Argentina não se restringe a esta ofensiva contra os meios de comunicação públicos e seus trabalhadores e trabalhadoras. O desprezo pela democracia comunicacional por parte do governo atual é total e se desenvolve em várias frentes.  

A desfinanciação

Uma das primeiras medidas da administração Milei foi proclamar a eliminação total do orçamento oficial em meios de comunicação por um ano. O corte, anunciado como parte da política de austeridade não afeta de forma igual a meios privados e a meios comunitários. Ainda que a publicidade oficial investida por governos anteriores era dirigida majoritariamente à esfera privada e aos meios digitais, a dependência desses recursos por parte de veículos de comunicação que não atuam apenas visando lucro é muito maior.

O presidente do Foro Argentino de Rádios Comunitárias (Farco), Juan Delú, comentou a respeito: “Com este argumento de que não há dinheiro no Estado, haverão grupos que seguirão sendo financiados de outra maneira. Os que vão cair são outros setores. O efeito será a monopolização da informação no discurso público”.

É um fato conhecido o modo com o qual determinados jornalistas e meios favoráveis ao poder, para além de publicidade paga por grandes empresas, recebem obscuras contribuições, sob a justificativa de suposta realização de consultorias ou assessorias, ou simplesmente em “sobres” (jargão argentino que significa quantia de dinheiro, uma espécie de 'jabá') que “ninguém” envia, controla ou recebe, ao menos formalmente.

Ao mesmo tempo, a chamada “Lei Ônibus” incorporou em seu articulado móvel - determinado por negociação de votos no Congresso - a supressão do Fundo de Fomento Concursável para Meios de Comunicação Audiovisual (FOMECA), que promove projetos de comunicação populares, comunitários, cooperativos, associativos, rurais e de povos originários, representando uma pedra angular em seu financiamento.

A intenção de cercear a pluralidade informativa ficou evidente e manifesta pelo fato de que este fundo, criado a partir da chamada “Lei de Meios” (Lei 26.522 de Serviços de Comunicação Audiovisual), sancionada em 2009 durante o mandato presidencial de Cristina Fernández de Kirchner, é sustentado por um imposto pago por todos os meios de comunicação. Ou seja, não representa nenhum tipo de oneração extra ao tesouro nacional.

O calhamaço da Lei “Bases y puntos de partida para la Libertad de los Argentinos”, apelidada “Lei Ônibus” por sua extensão e pelo amplo leque de matérias sobre as quais pretende legislar - várias delas chocando frontalmente com a Constituição Nacional da Argentina - também expressa a intenção de eliminar a Defensoria do Público de Serviços Audiovisuais, excluindo os artigos 19 e 20 da já mencionada Lei de Meios.

Em sua apresentação à Relatoria Especial para Liberdade de Expressão da Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), a Defensoria manifestou que “caso prospere esta proposta legislativa, implicará uma vulneração do princípio de não regressão em matéria de direitos humanos e, em especial, uma afetação aos direitos à liberdade de expressão das audiências”.

Enredar, desinformar e reprimir  

Os veículos de propaganda e contrapropaganda preferidos do novo governo são as plataformas digitais, as mal chamadas “redes sociais”, que em realidade são propriedade de poderosos conglomerados econômicos transnacionais.

Neste campo, o governo tem contratado um grande número de operadores digitais (os famosos trolls), que atacam de maneira instantânea qualquer crítica dirigida a Milei e seus ministros, simulando serem ativistas libertários sob contas anônimas. Sem dúvida, esse expediente se sustenta pela contratação de aplicações e empresas de monitoramente sobre as publicações que se realizam nas plataformas.

Ademais de dominar o relato público, esta forma de controle persegue fins ainda mais funestos. Uma publicação no X (antigo Twitter) - e que foi logo apagada - da conta verificada da atual ministra de Segurança Pública, Patrícia Bullrich, afirmava que seriam investigadas as fontes dos ataques dirigidos ao presidente através daquela rede. O "tuíte" dizia que “com as forças armadas, se necessário for, entraremos em cada casa para verificar se há posse legal de qualquer tirpo de armas que possam atentar contra a República”. Um discurso tenebroso que revela, sem nenhum tipo de pudor, a direção mental e política de quem o escreve.

Longe de qualquer especulação interpretativa, o protocolo indicado pela ministra Bullrich escalou, na segunda sessão de debate da Lei Ônibus, em repessão aos jornalistas que tentavam cobrir a mobilização massiva no entorno do Congresso. O saldo foi de 50 feridos.

A comunicação governamental, ademais das coletivas de imprensa protagonizadas pelo porta-voz Manuel Adorni, acontece principalmente através da rede X sendo fortemente direcionada aos partidários de Milei, que enchem o governo de loas sempre que acionados, fortalecendo um efeito de "bolha" característico. Com suas mensagens através da rede hoje controlada pelo magnata sul-africano Elon Musk, Milei emula a conduta do ex-presidente e novamente candidato republicano nos Estados Unidos, Donald Trump, ou o recentemente reeleito em El Salvador, Nayib Bukele, todos reconhecidos defedensores do culto à democracia unipessoal, se é que isso existe.

Elon Musk é um dos principais interessados em comprar - obviamente por um preço conveniente, baixo e vil - a Arsat, empresa do Estado argentino que gerencia serviços de transmissão de dados, telefonia e televisão, garantidora da soberania comunicacional e do acesso à conectividade orientada à igualdade social. 

Dessa forma, em meio a um panorama de confusão generalizada turbinada intencionalmente pelo atual governo “libertário”, um fator fica claro: no que diz respeito à comunicação, a liberdade não somente não avança, como a destrói.

Corolário ao fim da edição

Enquanto o cronista se esforçava em dar as últimas pinceladas nesta nota, uma sessão na Câmara de Deputados definia o retorno da Lei Ônibus à comissão, ou seja, à estaca zero, devido às divergências na aprovação das minutas do texto. Esse fato freou, por ora, a meia-sanção que o governo esperava obter para encaminhar o projeto ao Senado.

Enquanto tudo isso ocorria, o presidente argentino chorava no Muro das Lamentações, em Jerusalém. Resta saber se suas lágrimas têm relação com a oposição que suas políticas sofrem ou se provém de um real arrependimento por suas ações anteriores.

 

(*) Javier Tolcachier é investigador do Centro Mundial de Estudos Humanistas, comunicador na agência Pressenza e militante humanista.

** O nhoque (gnocchi em italiano) é uma massa que tradicionalmente se consome nos lares argentinos sempre aos dias 29 de cada mês, já que é barata e apta aos últimos dias do mês, quando os salários das famílias já se esgotaram. Com este mote, faz-se referência aos empregados acomodados que aparecem uma vez no mês para ‘mostrar serviço’, sempre próximos à data do pagamento

Repressão do governo Milei, que tenta aprovar “Lei Ônibus”, prevendo a privatização de setores estratégicos, a estrangeirização da terra, o assalto à Seguridade Social e o desmonte da cultura, fere 60 manifestantes

Por Leonardo Wexell Severo e Mariano Vázquez, de Buenos Aires/ Hora do Povo
Foto: Mariano Vázquez

No final da tarde desta quinta-feira (1) milhares de policiais, pertencentes a todas as forças de segurança, avançaram sobre o protesto pacífico contra a “Lei Ônibus” do governo de Javier Milei com gases, balas de borracha e jatos de água, deixando mais de 60 manifestantes e 30 jornalistas feridos em frente ao Congresso argentino.

Cinicamente, a ministra da Segurança, Patricia Bulrrich, perguntou: “Que violência houve?”. Ao mesmo tempo, as emissoras de televisão mostravam o sangue correndo no corpo das pessoas.

Uma das imagens mais grotescas foi observar policiais armados até os dentes agredindo sem piedade a aposentados e pensionistas que denunciavam o brutal arrocho de sua renda por um projeto que prioriza os cartéis transnacionais e os bancos.

O Sindicato dos Jornalistas de Buenos Aires rechaçou “os ataques deliberados das forças de segurança a trabalhadores de imprensa que foram feridos por fazer seu trabalho” e apontou três dezenas “de companheiros de meios públicos, privados e independentes atingidos por balas de borracha, pauladas e danos provocados por gás lacrimogêneo”.

A Central dos Trabalhadores da Argentina Autônoma se declarou “em estado de alerta e mobilização diante do atropelo à democracia realizada pela grave repressão contra o povo que saiu às ruas para defender os direitos conquistados”.

A Confederação Geral do Trabalho (CGT) denunciou que o “modelo de Milei é ajuste, repressão e violência para gerar medo na sociedade argentina a qual propõe degradar, desintegrar e seguir empobrecendo”.

Atropelo e desconhecimento de direitos

A projeção é que nesta sexta-feira (2) o Congresso aprove em geral o projeto governamental que prevê a privatização de setores estratégicos, a estrangeirização da terra, o assalto à Seguridade Social e o desmonte da cultura.

Ao longo do dia de hoje as organizações populares voltarão a se concentrar, afirmando aos deputados que “a Pátria não se vende, se defende”.

A COM Brasil TV, rede de televisão pública e comunitária, conseguiu os direitos de transmissão dos Jogos Parapan-Americanos 2023 que começaram no dia 17 de seguem até o próximo domingo (26) em Santiago do Chile.

A organização da atividade autorizou a COM Brasil TV a transmitir os jogos. "Agradecemos, sinceramente, o interesse em assumir esta importante responsabilidade na difusão e transmissão de um evento tão significativo como os Jogos Parapan-Americanos de Santiago 2023", diz documento enviado para a emissora.  

Dos 33 países participantes, o Brasil é o favorito e figura em primeiro lugar no quadro de medalhas. Para acompanhar a transmissão do evento pela TV comunitária, basta acessar os canais: 3 (Claro), 28 (Sky) e 239 (Vivo). Também é possível baixar o aplicativo no seu dispositivo ou assistir ao vivo pelo site. 

Confira abaixo a íntegra do documento que garante os direitos de transmissão: 

parapan2023

 

O anúncio da compra do Twitter pelo bilionário norte-americano Elon Musk trouxe um misto de tristeza e revolta para quem luta contra as fake news e uma alegria incontida para a extrema-direita em todo o mundo. Mas é preciso uma análise que vá além da dicotomia e dos 280 caracteres.

A partir das declarações do próprio Elon Musk surgem pelo menos algumas motivações para a compra e uma provável mudança na curadoria de conteúdo dessa plataforma.

Por Renata Mielli* e Gustavo Alves**

Esse pressuposto é fundamental para entender porque um bilionário que não tem nenhuma atuação nas plataformas de tecnologia resolveu investir US$ 43 bilhões numa empresa avaliada em pouco mais de US$ 38 bilhões e que no ano passado registrou um prejuízo líquido de US$ 221 milhões.

A primeira constatação é que ele comprou a empresa para acabar com o pouco de conquistas que a sociedade obteve no processo recente de pressão para que as Big Techs desenvolvessem algum contrapeso para reduzir a disseminação de desinformação e discurso de ódio.

Isso escamoteado pelo argumento da defesa fundamentalista da “liberdade de expressão”, vista como um direito absoluto e que inclusive se sobrepõe a outros direitos. Mas é preciso enfrentar essa retórica oportunista e não ficar na defensiva para afirmar que não existem direitos absolutos, que estabelecer limites para o exercício desta liberdade é tão fundamental quanto a sua própria existência. Não cabe na liberdade de expressão, por exemplo, racismo, homofobia, apologia à morte ou aniquilação de grupos sociais, discursos que atentem contra a vida. Nada disso é opinião que possa ser livremente expressada. Nem em espaços privados como círculos de amigos ou familiares, muito menos em ambientes nos quais se realiza o debate público, como no caso das Plataformas de Redes Sociais.

Por isso, quem defende - como Musk, que o Twitter e outras plataformas sejam "arenas livres", na prática estão colocando em risco as poucas conquistas que a sociedade conseguiu avançar no debate sobre a necessidade de haver mais regras sobre a atividade dessas plataformas, como o reconhecimento tímido do papel deletério da amplificação algorítmica pelas plataformas.

Sob pressão da sociedade, o Twitter patrocinou um estudo para entender qual a possibilidade de seu algoritmo valorizar ou impulsionar uma determinada ideologia política e embora o Twitter tenha divulgado as descobertas da pesquisa em outubro de 2021, só agora o estudo foi publicado na revista PNAS (Proceedings of the National Academy of Sciences, publicação oficial da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos), após ter sido revisado por outros cientistas.

O estudo analisou uma amostra de 4% de todos os usuários do Twitter que foram expostos ao algoritmo (mais de 46 milhões) e também analisou um grupo de controle de 11 milhões de usuários que nunca receberam tweets recomendados automaticamente em sua timeline.

A face visível da ação do algoritmo do Twitter é a exposição entre as postagens das contas que você segue, tweets marcados como “você pode gostar”.  Ou seja, o algoritmo está recomendando conteúdo para você.

Isso é feito usando os dados da sua atividade anterior na plataforma, como os tweets que você curtiu ou retuitou. Uma equação estatística aplicada a estes dados lastreia o “aprendizado de máquina”. Assim o computador, em tese, aprende automaticamente com as preferências do usuário e aplica isso a dados que o sistema não viu antes.

Mas existe um fantasma presente nessas equações: o viés. Que segundo esse estudo reforça preconceitos humanos e amplificou os discursos de “direita”.

O estudo analisou o efeito de “amplificação algorítmica” em tweets de 3.634 políticos eleitos de sete países com grande base de usuários no Twitter: EUA, Japão, Reino Unido, França, Espanha, Canadá e Alemanha.

A pesquisa mostrou que em seis dos sete países (a Alemanha foi a exceção), o algoritmo favoreceu significativamente a amplificação de tweets de fontes politicamente inclinadas à direita.

No Canadá por exemplo, os tweets dos liberais foram amplificados em 43%, contra os dos conservadores em 167% e no Reino Unido os tweets dos trabalhistas foram amplificados em 112%, enquanto os conservadores foram amplificados em 176%.

Outro aspecto revelado pelo estudo foi amplificação algorítmica de notícias políticas. O estudo analisou a amplificação algorítmica de 6,2 milhões de notícias políticas compartilhadas nos EUA. E chegou à conclusão que a amplificação das notícias também segue o mesmo padrão.

Ou seja, há uma exposição maior dos conteúdos de direita, fake news e desinformação. 

Esse estudo só foi realizado graças a intensa cobrança da sociedade e após a tentativa de invasão do Congresso americano pela turba fascista alimentada por Trump.

Pois bem, quando se começa a vislumbrar a chance de se entender como os algoritmos alimentam a disseminação de desinformação e discurso de ódio, eis que surge Elon Musk.

Musk é mais um expoente dos fundamentalistas da liberdade de expressão. Para ele, não deve haver limites, o que significa que não deve haver qualquer tipo de moderação sobre o que se diz nas redes sociais. Outro defensor dessa tese é o presidente Bolsonaro.

Segundo Musk, ele quer transformar o Twitter numa "arena de livre discurso".

Ele afirma que irá democratizar o Twitter apostando na abertura do código fonte (a programação interna do Twitter) para que os mecanismos de operação sejam conhecidos e explorados por programadores.

Uma promessa vazia cheirando a “Ouro de Tolo” feita pela mesma pessoa que usou sua conta para atacar pessoas transgêneros e as políticas de combate à transmissão da Covid-19.

A liberdade de expressão tem sido usada - de forma tão indevida, oportunista e equivocada - por expoentes da extrema direita, bilionários e representantes do grande capital. A economia atual é dinamizada pelo modelo de negócios que usa o discurso como mobilizador da atenção.

E o que chama mais atenção é o discurso de ódio, é o preconceito, é a polarização social baseada em grupos que se comportam como torcedores raivosos e não como cidadãos que discutem temas de interesse público e social.

Somos todos sugados pela força centrípeta dos estímulos incessantes provocados pelas redes de alienação e agimos como autômatos reproduzindo, curtindo, compartilhando conteúdos que reforçam a visão do meu “time”, grupo e dos meus pré-conceitos.

Nesse processo, monetizamos toda a economia assentada nas plataformas. Vendemos nosso olhar, nosso corpo e alma e compramos produtos, serviços e ideias, sem qualquer reflexão. Ajudamos a curto circuitar a esfera pública e a desintegrar qualquer possibilidade democrática.

O princípio da inimputabilidade do intermediário, tão importante para o ecossistema da internet, não pode ser confundido com ausência de compromisso e responsabilidade das plataformas com o debate público.

Por isso, a regulação das plataformas de rede sociais, das Big Techs, a partir de amplo debate público é urgente e indispensável. Musk comprou o Twitter, e pode conduzir esta rede a ser um ambiente de afronta a direitos humanos fundamentais e de menosprezo com a democracia.

Mais do que nunca devemos retomar o debate sobre o #PL2630 e reforçar nele todos os elementos que dizem respeito diretamente as obrigações e regras para que as Big Techs atuem no Brasil.

É mais urgente do que nunca que tenhamos uma legislação que regule as atividades desta e de outras plataformas no Brasil, que as obrigue a cumprir os compromissos expressos em nossa Carta Constitucional. O dinheiro pode comprar quase tudo, mas não podemos deixar que ele compre também nossa soberania, a proteção à nossa democracia e esfera pública.

*Renata Mielli – Jornalista, Doutoranda no Programa de Ciências da Comunicação da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (PPGCOM-ECA-USP), integrante da Coalizão Direitos na Rede.

**Gustavo Alves – Jornalista, webdesigner e programador, estudante de Ciência de Dados na USP/Esalq.

 No desfile das escolas de samba de São Paulo do carnaval deste ano, a escola de samba Vai-Vai apresentou o enredo "Capítulo 4, Versículo 3 – Da rua e do povo, o Hip Hop – Um manifesto paulistano" baseado na obra Sobrevivendo no Inferno do Racionais MC's. O enredo foi uma releitura dos movimentos artístico-culturais de São Paulo, iniciando com uma crítica a Semana de Arte Moderna de 1922, retratada como uma vanguarda artística ainda dentro dos parâmetros da elite aristocrática da cidade e, em contraponto, a emersão de um outro movimento que vem das periferias que enfrenta a desigualdade social (retratada em uma das alegorias ratos que sustentam a sofisticação), o racismo e a violência policial. Um cenário de opressão, existência e resistência.

Por Dennis de Oliveira/Revista Fórum

Em determinada ala, policiais são retratados como seres diabólicos que circundam os artistas do hip-hop. O encarceramento em massa de jovens negros também foi retratado pela escola na avenida. E o desfile finaliza com a estátua de Borba Gato sendo pichada e "incendiada" sinalizando para a necessidade de ruptura radical com uma ordem opressiva.

Um desfile que incomodou vários setores.

O primeiro, e mais evidente, foi a polícia. Sindicato dos Delegados da Polícia Civil soltou nota de repúdio à escola de samba por "demonizar a polícia" e exigiu que agremiação fizesse uma "retratação pública" (ver matéria). Já os mais contundentes foram parlamentares da chamada "bancada da bala". O deputado federal Capitão Augusto e o deputado estadual Dani Alonso, ambos do Partido Liberal de São Paulo, oficiaram ao governador Tarcísio Freitas e ao prefeito da capital, Ricardo Nunes, que bloqueassem o repasse de recursos à escola por ter difamado a instituição da Polícia Militar com o desfile. Em sua defesa, a diretoria da Vai-Vai disse que o desfile seguiu o enredo baseado no álbum do Racionais em que a crítica à violência policial é a tônica.

Logo após essas polêmicas, o jornal Folha de S. Paulo noticiou no dia 14 de fevereiro (Quarta-Feira de Cinzas) que "suspeito de chefiar PCC emprestou R$300 mil para Vai Vai desfilar em 2022". Esta ideia de vínculo da escola com o PCC já havia sido noticiada pelo mesmo jornal em dezembro do ano passado ("Investigação aponta Vai-Vai como reduto do PCC") e repercutiu em outros portais, como o portal Metrópoles. Mario Sabino, colunista do portal e conhecido pelos seus posicionamentos direitistas principalmente quando diretor de redação da revista Veja, afirma em sua coluna que "na geleia geral brasileira, está dado que a bandidagem comanda o espetáculo de brilhos, bundas e crítica social". E como forma de retratação, Sabino defende que a Vai-Vai deveria em 2025 apresentar como enredo como o PCC mata jovens pretos e periféricos.

O que é interessante é que esta denúncia de elo da escola com o PCC foi requentada justamente neste momento de polêmica, dando sustentação a uma narrativa de que "quem crítica a polícia é bandido". Uma forma de criminalizar vozes dissidentes da ordem social.

E serviu para mobilizar a extrema direita: o deputado bolsonarista Paulo Bylinskji quer que a Câmara dos Deputados convoque o ministro Silvio Almeida para explicar por que "desfilou" na Vai-Vai num enredo que criminaliza a polícia e ainda ao lado do líder dos motoboys Paulo Galo, acusado de ter liderado a ação que incendiou a estátua de Borba Gato em 2021.

Mas por que o desfile da Vai-Vai incomodou tanto?

Primeiro por retratar um dos principais elementos do movimento hip-hop paulistano: o de ser um grito da periferia contra a violência policial nos anos 1980 por meio de um dos mais emblemáticos álbuns do Racionais, o Sobrevivendo no Inferno. Ao dar voz a este movimento, aproveitando a visibilidade midiática dos desfiles de escolas de samba, o Vai-Vai rompeu o cerco do silenciamento que possibilita que diariamente se assassine um jovem negro a cada 21 minutos nos territórios periféricos no Brasil. É o silenciamento que permite o genocídio da população negra periférica.

Contra isto, a criminalização. Não foi à toa que veículos midiáticos repercutiram esta pauta do elo da Vai-Vai com o PCC justamente na esteira desta repercussão. Querendo ou não endossaram a lógica da extrema direita de quem critica a violência policial é bandido. Da mesma forma que o deputado que quer convocar o ministro Silvio Almeida requenta a tese furada de que o ministro financiou a "dama do tráfico".

Porém, há uma outra dimensão mais oculta. O Vai-Vai saiu do terreno do "equilíbrio de antagonismos", uma concepção liberal freyreana (de Gilberto Freyre) de gerenciar a diversidade ainda hegemônica quando se trata de se pensar cultura no Brasil. O carnaval negro que durante muito tempo foi criminalizado, se impôs como ação cultural e a tolerância para que pretos e pobres assumam certo protagonismo nesta festa vai até o limite onde as contradições não são explicitadas.

O enredo da Mocidade Alegre, vencedora com todos os méritos do carnaval deste ano, é um exemplo do que é tolerado: uma diversidade retratada a partir do olhar de um intelectual que é icônico no modernismo paulista - Mário de Andrade - principalmente porque, nesta imagem icônica, é esvaziada a sua negritude e a sua condição socioeconômica mais desfavorável comparada com os demais intelectuais do movimento de 1922. Daí que esta diversidade aparece como um caleidoscópio, uma carnavalização que possibilita que os antagonismos sociais (de classe e raça) sejam dirimidos na geleia geral da cultura, como defendia Gilberto Freyre. As máscaras das fantasias aqui possibilitam a metarracialidade, desejo utópico freyreano.

São zonas de enfrentamento no campo da cultura importantes para serem refletidas. Lembro que a Vai-Vai está com um problema de estar sem quadra, já que ela foi desapropriada para a construção da estação do metrô. Além disso, as escavações para as obras do metrô descobriram vestígios da existência de um quilombo na região e há um forte movimento de defesa do patrimônio da Saracura. Trata-se de conflitos de significações do território urbano, é o direito à cidade que se debate. A Vai-Vai incomodou pelo enredo de 2024. Mas incomoda há muito tempo por reunir milhares de pretos e trabalhadores no centro da cidade.

Milton Santos já dizia que o capital é quem organiza o território. A necropolítica da violência policial serve para instituir uma reorganização dos espaços territoriais na lógica da colonização. Construir uma universalidade acima das contradições para dar conta desta diversidade seja pela criminalização do outro ou pelo apagamento dos antagonismos considerando-os que eles se equilibram na visibilidade das suas expressões tem suas diferenças de enfoque, mas ambas contribuem para apartar a maioria do povo, preto, pobre, trabalhador, da periferia, muito distante de qualquer democracia substantiva.

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião do Barão de Itararé

O Centro Popular de Cultura da UMES (CPC-UMES) promoverá, entre os dias 31/10 e 4/11 a Mostra-Exibição Denoy de Oliveira – A arte da resistência. O evento celebra os 90 anos do nascimento e os 25 anos da partida desse grande cineasta, ator, diretor, dramaturgo, roteirista, produtor e compositor. As atividades acontecerão no Cine-Teatro Denoy de Oliveira (Rua Rui Barbosa, 323 – Bela Vista). Serão exibidos dois documentários e quatro longas-metragens de ficção dirigidos por ele, além do curta de animação Cristo Procurado, dirigido pelo irmão, Rui de Oliveira. 

UMES

 O saguão do Cine-Teatro abrigará uma exposição contando a trajetória de Denoy desde os tempos de teatro amador, passando pelo Teatro Nacional de Comédia, CPC da UNE, Grupo Opinião, a consagração como cineasta e a fundação da APACI (Associação Paulista de Cineastas) e do CPC-UMES. Tótens sonoros permitirão aos presentes conhecer um pouco da faceta cantor e compositor de Denoy.

Os materiais foram cedidos pelos irmãos, o também cineasta Xavier de Oliveira e o ilustrador Rui de Oliveira, e pela família da viúva, Maraci Mello. A Mostra-Exibição Denoy de Oliveira – A arte da resistência conta com o apoio da APACI (Associação Paulista de Cineastas) e do Sindcine (Sindicato dos Trabalhadores na
Indústria Cinematográfica e do Audiovisual dos Estados de São Paulo, Rio Grande do Sul, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Tocantins e Distrito Federal).

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 Denoy Gonçalves de Oliveira (Belém, PA, 1933 – São Paulo, SP, 1998). Diretor, ator, produtor, dramaturgo, roteirista, compositor. Cresce no subúrbio do Rio de Janeiro, onde começa a trabalhar aos 14 anos em funções diversas. Cursa Arquitetura na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) a partir de 1957, sem concluir a graduação, e artes cênicas na Escola de Teatro Martins Pena. Depois de várias peças amadoras, estreia como ator profissional na peça O Círculo de Giz Caucasiano (1962), dirigida por José Renato para o Teatro Nacional de Comédia.

Em 1963 passa a integrar o Centro Popular de Cultura da UNE. Em 1964, após o fechamento do CPC pelo Golpe Militar, funda junto com Ferreira Gullar, Vianninha, João das Neves Teresa Aragão, Paulo Pontes, Armando Costa e Pichin Plá o Grupo Opinião. Começa no cinema com o irmão e cineasta Xavier de Oliveira (1937), fazendo produção, trilhas sonoras e atuando. Em 1973 escreve e dirige seu primeiro longa Amante “Muito Louca”! (1973), prêmio de melhor direção no 2º Festival de Gramado. Muda-se, em 1976 para São Paulo, onde se torna um dos principais articuladores da fundação da Associação Paulista de Cineastas (Apaci). Dirige mais três longas 7 Dias de Agonia (O Encalhe) (1982), O Baiano Fantasma (1984) e A Grande Noitada (1997), pelos quais é premiado nacional e internacionalmente, além de curtas, médias e documentários.

Atua em diversos filmes, além de compor e cantar trilhas sonoras, escrever roteiros e produzir. Em 1994 funda o Centro Popular de Cultura da UMES.
Xavier de Oliveira (Rio de Janeiro, 1937) é cineasta, roteirista, produtor. Seu curta de estreia, Escravos de Job (1965) venceu o 1º Festival JB/Mesbla de Cinema Amador. Dirigiu cinco longas-metragens (Marcelo Zona Sul, André a Cara e a Coragem, O Vampiro de Copacabana, Gargalhada Final e Adágio ao Sol), além de curtas e documentários. Fez também roteiros e, produziu e atuou.



Rui de Oliveira nasceu no Rio de Janeiro. Estudou pintura no Museu de Arte Moderna desta cidade, artes gráficas na Escola de Belas Artes da UFRJ e, durante 6 anos ilustração na Moholy-Nagy University of Art and Design, em Budapeste. Estudou também cinema de animação no estúdio húngaro Pannónia Film. Foi Diretor de Arte da TV-Globo e da TV-Educativa atual TV-Brasil. Entre suas aberturas e vinhetas destacam-se as criadas para a primeira versão da novela Sítio do Pica-Pau Amarelo e
a reformulação do vídeo-grafismo da TVE.

Já ilustrou mais de 140 livros e projetou dezenas de capas para as principais editoras de literatura infanto-juvenil brasileiras, e é autor de seis filmes de animação, tendo recebido muitos prêmios por seu trabalho com animador e ilustrador. Entre eles por 4 vezes o Prêmio Jabuti de ilustração. Recebeu em 2006 o prêmio de literatura infanto-juvenil da Academia Brasileira de Letras com o seu livro Cartas Lunares.

SERVIÇO:

Exposição Denoy de Oliveira – A arte da resistência
Abertura: 31/10 às 18 horas. Funciona até 4/11, sempre das 18 h às 23 h.
Local: Rua Rui Barbosa, 323 – Bela Vista – São Paulo. 

Mostra Denoy de Oliveira – A arte da resistência
Abertura: 31/10 até 4/11 sempre às 19 horas.
Local: Cine-Teatro Denoy de Oliveira - Rua Rui Barbosa, 323 – Bela Vista – São Paulo.

Programação:

TERÇA - 31/10 – 19 h
Cristo Procurado
CURTA-METRAGEM | 1990 | DIR. RUI DE OLIVEIRA
Amante Muito Louca
COMÉDIA | 1973 | DIR. DENOY DE OLIVEIRA (DEBATE COM Rui de Oliveira e Xavier de
Oliveira)

QUARTA- 01/11 – 19 h
7 Dias de Agonia (O encalhe)
DRAMA | 1982 | DIR. DENOY DE OLIVEIRA
QUINTA - 02/11 – 19 h
O Baiano Fantasma
DRAMA | 1984 | DIR. DENOY DE OLIVEIRA

SEXTA - 03/11 – 19 h
Pega Ladrão!
DOCUMENTÁRIO | 1994 | DIR. DENOY DE OLIVEIRA
Que Filme “tu vai” Fazer?
DOCUMENTÁRIO| 1991 |DIR. DENOY DE OLIVEIRA

SÁBADO - 04/11 – 19 h
A Grande Noitada
COMÉDIA | 1998 | DIR. DENOY DE OLIVEIRA

 

O futebol das mulheres ganha o planeta como nunca antes em sua história

Grande dia!
Grande dia de verdade e não o externado pelo boçal que ocupa desastradamente o posto mais alto do executivo brasileiro.

Hoje é um grande dia porque tem início a oitava edição da Copa do Mundo de Futebol Feminino! A anfitriã França abre a competição diante da Coréia do Sul a partir das 16h00 – horário de Brasília – e além da ansiedade pelo ponta pé deste jogo temos muito o que comemorar em termos de visibilidade.

Por Lu Castro, especial para o Barão de Itararé

Há pouco mais de dez anos, assumi uma responsabilidade pessoal: utilizar a tecnologia em favor da visibilidade das mulheres que faziam a bola rolar pelos campos da cidade. Minha primeira busca foi no Juventus, formador por excelência, e sua técnica Magali.

O material, publicado no antigo portal OléOlé, já se perdeu, mas, de lá para cá, perda deixou de ser sinônimo de mulher dentro e fora das quatro linhas.

Avançamos. E os contatos com os principais agentes da modalidade se intensificaram. E espaços alternativos começaram a surgir com mais força na busca pelo tratamento igualitário do futebol de mulheres e homens – ao menos no que diz respeito ao que se noticia, inicialmente.

Observando a movimentação da imprensa nacional, noto um grande cuidado ao tratar do assunto, diferente de muitos outros anos. Acredito que esteja diretamente relacionado ao número de mulheres presentes em redações esportivas, algo que apontei como imprescindível para a melhora na comunicação do futebol de mulheres em mídias tradicionais.

Avançamos. E avançamos noutros tantos aspectos do futebol, inclusive na gestão, onde o trabalho realizado pela ex capitã da seleção, Aline Pellegrino, como diretora de futebol feminino da Federação Paulista de Futebol, tem ampliado os espaços para trabalhar as categorias de base.

Avançamos. A seleção brasileira tem uma estrutura que nunca teve. A seleção brasileira conta com uniforme próprio e não sobra do uniforme masculino. A seleção tem seus jogos transmitidos de modo inédito em tevê aberta de alcance nacional. A seleção só não tem uma coisa: técnico.

E isso, car@s, é algo que me preocupa tanto quanto me alegra: o fato de termos a Copa do Mundo mais noticiada de todos os tempos.

Diante de uma seleção nacional que caiu no ranking FIFA nos últimos anos, sob o comando de alguém que não tem perfil para comandar o selecionado nacional em nenhuma circunstância – e já o demonstrou em outras ocasiões - que carrega para a França nove derrotas consecutivas, minha expectativa é de termos que reforçar nosso discurso e argumentar como nunca que o que eles (os espectadores desconhecedores da realidade do futebol feminino) estão vendo não é bem isso.

Num momento, em que os olhos do mundo estão voltados para a amarelinha tão conceituada um dia, mostrar um jogo baseado apenas na garras das nossas habilidosas e talentosas atletas, tem sido o protagonista dos meus pesadelos.

Tudo o que lutamos para construir – atletas, gestores, comissões técnicas sérias, jornalistas interessados no assunto – pode sofrer um revés de opinião pública se o coletivo não estiver bem arrumado. E nós sabemos que não está.

Há poucas horas da abertura do mundial mais importante de todos os tempos, vou da euforia e ansiedade que mal me deixou dormir a testa constantemente franzida de preocupação.

Avancemos pois, nossas atletas se entregarão e é muito provável que nos jogos do Brasil o que avance é o nível da gengibrinha pra dar conta da montanha russa de emoções.

Uma mulher registra um boletim de ocorrência acusando um homem por estupro. Em depoimento, descreve que o parceiro teria ficado subitamente agressivo e usado da violência para praticar relação sexual sem seu consentimento. O laudo médico, anexado ao caso, apresenta sinais físicos de agressão e estresse pós-traumático. Em resposta, o homem acusado desmente a história publicamente, argumentando que o episódio não passou de “uma relação comum entre um homem e uma mulher”.

Por Mariana Pitasse, no Brasil de Fato

Esse poderia ser apenas mais um entre os cerca de 135 casos de estupro registrados por dia – que equivalem a cerca de 10% a 15% dos abusos que acontecem diariamente no Brasil, segundo levantamento do Atlas da Violência de 2018. Mas não é um episódio qualquer. O homem acusado é Neymar, um dos jogadores de futebol mais bem pagos do mundo. Por isso, o caso tomou as páginas dos jornais dentro e fora do Brasil nos últimos dias, com ampla repercussão nas redes sociais.

Após a denúncia registrada contra o jogador do Paris Saint-Germain na última sexta-feira (31), a acusadora foi exposta de diferentes formas – pela mídia comercial e pelo próprio Neymar. Para "sensibilizar" a opinião pública, o jogador postou um vídeo em suas contas do Instagram e do Facebook em que diz ser inocente. Ao tentar “comprovar” sua versão dos fatos, divulgou conversas que manteve com a mulher pelo Whatsapp, assim como fotos e vídeos íntimos da acusadora. A ação fez com que o jogador passasse a ser investigado também pelo vazamento de fotos íntimas.

A divulgação do conteúdo não foi um equívoco e, sim, uma escolha. Neymar preferiu cometer um crime virtual para tentar dialogar com pessoas que concordam com a ideia de que uma mulher que envia fotos íntimas pela internet é necessariamente "aproveitadora" e "interesseira".

O que está sendo ignorado nessa leitura rasa proposta pela defesa de Neymar é que a intimidade exposta para milhões de pessoas não diz nada sobre a acusação de estupro. Como lembra a antropóloga Débora Diniz, o que circula é a versão de um homem poderoso que se ancora em elementos do fascínio pelo sexo e na desqualificação fácil das mulheres vítimas de violência sexual. E essa é também a narrativa em que tem se amparado a cobertura da mídia comercial sobre o caso. Mesmo sem afirmar que estão assumindo uma posição, jornalistas passaram o recibo de que a acusadora está tentando se aproveitar do “menino” Neymar.

Entre as reportagens que tomaram conta do noticiário brasileiro nos últimos dias, a matéria Jornal Nacional – no dia seguinte à divulgação das conversas – foi a que mais repercutiu. Ela traz um panorama sobre o caso e ressalta o depoimento de um ex-advogado da mulher afirmando que o estupro não aconteceu. A reportagem também divulga o nome da nova advogada de defesa da mulher, ainda que ela não tenha dado autorização para isso, desrespeitando um princípio básico do jornalismo: a garantia de sigilo das fontes. Na mesma reportagem, sem mostrar as fotografias e vídeos do corpo da mulher, divulgados por Neymar, são expostas frases soltas da conversa em que o jogador aparece enredado em um jogo de sedução.

Em outra reportagem, desta vez publicada no Jornal de Brasília, a mulher tem a vida financeira e judicial revirada. O texto aponta que ela tem uma ação de despejo em seu nome, após três meses de aluguel atrasado, e que acumula dívidas. A reportagem também disponibiliza o nome completo da mulher e detalha suas contas a pagar.

A invasão de privacidade promovida por jornalistas com a justificativa de mostrar a “real versão dos fatos” não terminou por aí. Em reportagem publicada pelo jornal O Globo, a família da mulher é procurada e sua mãe é informada sobre o caso a partir da abordagem da repórter. Dias depois, uma matéria veiculada pelo portal UOL evidencia que o filho da mulher, de cinco anos, está sofrendo com chacotas na internet e na escola por conta da repercussão do caso.

Mais do que a intimidade revirada e exposta em fotos e vídeos íntimos e informações detalhadas sobre sua situação financeira, a mulher teve sua versão dos acontecimentos contestada a todo tempo, de forma pública, inclusive por seu ex-advogado. Mas isso não é levado em consideração, porque tudo parece legítimo quando a motivação é “dar o furo” de reportagem. Na lógica do jornalismo, é necessário apresentar respostas antes mesmo das investigações. Tudo isso com base na “isenção e na imparcialidade”, ainda que à serviço da versão do jogador milionário…

Neymar, por outro lado, segue a rotina de treinos, jogos e compromissos publicitários, blindado por seu estafe. A presença dele está confirmada no jogo amistoso do Brasil contra o Qatar nesta quarta-feira (5).

Paris Saint-Germain e Seleção Brasileira se esquivam de comentar o caso. Familiares e amigos se pronunciam publicamente garantindo que ele é inocente e vítima de uma armadilha. A preocupação maior parece vir dos patrocinadores: ao menos quatro das 10 marcas manifestaram incômodo com o caso, segundo levantamento da Folha.

Comprovada ou não a acusação, a sentença já está dada: a mulher é sempre a ponta vulnerável. Não à toa, segundo o Atlas da Violência, são cerca de 1300 estupros por dia no país – dos quais apenas 135 são notificados.

*Jornalista, editora do Brasil de Fato no Rio de Janeiro e doutoranda em Antropologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF).

Edição: Daniel Giovanaz