Eventos do Barão

Maio 2022
S D
1
2 3 4 5 6 7 8
9 10 11 12 13 14 15
16 17 18 19 20 21 22
23 24 25 26 27 28 29
30 31

+

“Candidatura de Petro é resultado dos levantes populares contra as reformas neoliberais do governo”, afirmou Francisco Maltés, presidente da Central Unitária de Trabalhadores (CUT) da Colômbia

Por Felipe Bianchi e Leonardo Wexell Severo I ComunicaSul*

“É evidente que, hoje, existem dois párias no continente: Iván Duque e Jair Bolsonaro, presidentes da Colômbia e do Brasil. São dois governos de extrema-direita, que vêm aplicando de forma arrasadora as políticas dos organismos internacionais, como o Fundo Monetário Internacional (FMI)”. As palavras são do presidente da Central Unitária de Trabalhadores (CUT), Francisco Maltés, que recebeu jornalistas brasileiros da ComunicaSul nesta sexta-feira (20), em Bogotá, faltando pouco mais de uma semana para as eleições que podem mudar a história da Colômbia.

Na avaliação de Maltés, a candidatura de Petro é resultado dos levantes populares contra as duras reformas impostas pelo governo:”Uma mudança de rumo que começou em 21 de setembro de 2019, quando milhões de pessoas saíram às ruas para expressar o seu inconformismo com Duque, que anunciou, de uma só vez, reformas trabalhista, previdenciária e tributária. Obviamente gerou indignação na maioria da população e o governo preferiu impor a repressão ao invés da negociação”.

Este comportamento autoritário, alinhado à precarização do trabalho em benefício das transnacionais e do setor financeiro, produz uma “tendência em eleger governos alternativos, progressistas, de centro-esquerda”. “Na Colômbia, estamos próximos de, pela primeira vez, cumprirmos com esta tarefa. Da mesma forma que faremos todo o esforço político que esteja ao nosso alcance para que o Brasil volte a ser governado por forças alternativas, com Lula presidente, para que este continente tenha uma importante maioria progressista”, acrescentou.

De acordo com o dirigente sindical, é fundamental que “voltemos a nos guiar pela ideia da integração latino-americana, algo que obviamente não é bem visto pelos organismos internacionais, que priorizam os Tratados de Livre Comércio (TLC)  e que desejam que nos mantenhamos dependentes, como meros exportadores de bens primários”. “Estamos muito esperançosos que a Colômbia e o Brasil sejam as peças que faltam, hoje, para este giro que colocará a cooperação regional, a integração e as políticas sociais no lugar do que predomina atualmente na política comercial: as leis ferozes do mercado, ditadas pelo estrangeiro”, frisou.

Esta lógica da subserviência custa caro, exemplificou, porque se transforma em verdadeiros banhos de sangue, infelizmente frequentes na história da Colômbia. Apenas no último estallido social (no português, levante ou explosão social), lembrou, “houve 88 mortos, cuja responsabilidade, em sua maioria, foi atribuída à Força Pública,conforme aponta o informe da Universidade dos Andes - que é a instituição em que se educam os filhos do establishment político - e da Organização Não-Governamental (ONG) Temblores. Foram cometidas 98 amputações de olhos, agressões por sexo e de viés de gênero”.

Para Maltés, a virada já começou: “Esse anseio por mudanças se expressou nas urnas em 13 de março deste ano, quando pela primeira vez na história do nosso país as forças alternativas conquistam uma terça parte das cadeiras do Congresso da República”.

“De 367 parlamentares temos 130 no conjunto das Câmaras Alta [Senado] e Baixa [Deputados]. Esta votação histórica e este estallido social reforçam a sensação que existe uma sede por transformações na Colômbia. Aspiramos que essa onda se consolide no dia 29 de maio, quando o candidato que vem se mantendo em primeiro lugar nas pesquisas, Gustavo Petro, pode chegar pela primeira vez à presidência da República”.

Amplitude contra o obscurantismo

O líder colombiano ressaltou a amplitude construída a partir das multitudinárias manifestações de rua na Colômbia, que reuniu cerca de 30 setores da sociedade organizada, em que o movimento social teve papel destacado “Os setores políticos alternativos, em contrapartida, se alimentaram também desse estallido social, ganhando força. Esse processo conectou setores como a juventude, movimentos indígenas, camponeses, vítimas da violência, trabalhadores e trabalhadoras, Todos estão, agora, aglutinados na campanha do Pacto Histórico com Gustavo Petro e Francia Márquez [candidata à vice-presidência]”.

franciscomaltes2 fotoMaltés pondera que, em caso de vitória, o futuro governo deve ter caráter de transição. Para o contexto colombiano, isso teria peso enorme, pois romperia com a herança neocolonial de séculos de subserviência. “Há pequenos empresários somando-se à campanha do Pacto Histórico, além de empresários de médio porte, que também mostram simpatia pela candidatura. Há, também, forças políticas que já fizeram parte do establishment nacional e que têm se desprendido desse espectro nos últimos anos”, explica.

“Na campanha, há setores importantes do Partido Liberal que, em suas origens, foi um partido de centro-esquerda e, a partir dos anos 1990, sucumbiu à aplicação do Consenso de Washington em nosso país. Muitos setores importantes têm se direcionado para a campanha de Petro. Outros partidos que também estavam distantes da esquerda têm se somado”, diz.

“É uma campanha com muita amplitude, com muita diversidade, o que expressa a realidade social que vivemos na Colômbia. Há, claro, empresários que bancam o uribismo [linha política referenciada em Álvaro Uribe, ex-presidente de direita que acumula atualmente 295 investigações por corrupção, envolvendo ligação com o narcotráfico] e seu candidato, Federico Gutiérrez. Esses patrões ameaçam seus funcionários de demissão caso votem na oposição. Há várias denúncias nesse sentido. Petro, por sua vez, faz um chamado para que se respeite as opiniões divergentes”.

Um ponto que muito contribuiu para o isolamento da direita, na opinião de Maltés, foi a perda da capacidade da direita em pautar a agenda de manipulação informativa. “Há uma democratização da informação com as redes sociais, mesmo com todos os seus problemas. Os meios tradicionais na Colômbia, propriedade de grandes conglomerados nacionais e internacionais, já não impõem a agenda como faziam antes. Hoje, é possível ter informação real sobre os acontecimentos sem passar necessariamente pelo filtro dessa mídia”, declarou.

“Quando contamos a história do ‘estallido social’, às vezes é difícil que acreditem. Todas as reuniões de preparação para a grande paralisação que fizemos foram virtuais. Na etapa final, nas ruas, houve um trabalho de comunicação impressionante”, relatou. Vale recordar que é dos colombianos a insígnia que ‘contagiou’ vários países do continente durante o período de isolamento social, que dizia: “quando o governo é mais perigoso que o vírus, é preciso sair às ruas”.

*A reprodução deste conteúdo é livre, desde que citada a fonte e a lista de entidades e organizações que apoiam esta cobertura, como no rodapé a seguir.

Esta cobertura será feita pela Agência ComunicaSul graças ao apoio das seguintes entidades: da Associação dos/das Docentes da Universidade Federal de Lavras-MG, Federação Nacional dos Servidores do Poder Judiciário Federal e do MPU (Fenajufe), Confederação Sindical dos Trabalhadores/as das Américas (CSA), jornal Hora do Povo, Diálogos do Sul, Barão de Itararé, Portal Vermelho, Intersindical, Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), Sindicato dos Bancários do Piauí; Associação dos Professores do Ensino Oficial do Ceará (APEOC), Central Única dos Trabalhadores (CUT), Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (ANDES-Sul), Sindicato dos Bancários do Amapá, Sindicato dos Metroviários de São Paulo, Sindicato dos Metalúrgicos de Betim-MG, Sindicato dos Correios de São Paulo, Sindicato dos Trabalhadores em Água, Resíduos e Meio Ambiente do Estado de São Paulo, Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp Sudeste Centro), Associação dos Professores Universitários da Bahia, Sindicato dos Trabalhadores no Poder Judiciário Federal do RS (Sintrajufe-RS), Sindicato dos Bancários de Santos e Região, Sindicato dos Químicos de Campinas, Osasco e Região, Sindicato dos Servidores de São Carlos, mandato popular do vereador Werner Rempel (Santa Maria-RS), Agência Sindical, Correio da Cidadania, Agência Saiba Mais e centenas de contribuições individuais.

 

Representantes católicos, protestantes, metodistas, islâmicos, budistas e menonitas divulgaram manifesto contra o terrorismo de Estado e em defesa do processo democrático na Colômbia

Por Felipe Bianchi e Leonardo Wexell Severo I ComunicaSul

Na reta final para as eleições presidenciais de 29 de maio, o povo colombiano se vê aterrado diante da política de terrorismo de Estado e da multiplicação de assasinatos de lideranças sociais, que tenta perpetuar um modelo de dominação e exclusão. O combate à injustiça e a denúncia da escalada da violência fez com que representantes católicos, protestantes, metodistas, islâmicos, budistas e menonitas se unissem nesta quinta-feira (19), em Bogotá, em um clamor pela paz e pelo respeito ao processo democrático.

Para Luis Fernando Sanmiguel, pastor da Igreja Comunidade Esperança, é preciso dar um salto de qualidade no trabalho “para ir além das paredes e dos templos, entre todos os que creem na caminhada rumo a um mundo melhor”. Mas é preciso tomar uma decisão, alertou o reverendo, “e acompanhar os movimentos sociais, que de forma pacífica defendem a vida, o que existe de mais sagrado”.

“Temos que promover a prática da reconciliação, o que exige falar sobre a verdade. O povo, para reconciliar-se, para reencontrar-se consigo mesmo, precisa saber por que assassinaram dez mil jovens como ‘falsos positivos’? Por que matam um líder social todos os dias em nosso país? Por que é preciso que 30 dos 50 milhões de colombianos necessitem viver na pobreza? Por que seis milhões de colombianos hoje não têm o que comer? Precisamos do perdão acompanhado da verdade, a verdade acompanhada da conversão e a conversão acompanhada da não-repetição”, acrescentou Sanmiguel, que também é coordenador da Comunidad de Fe - Teusaquillo Território de Paz.

Infelizmente, ressaltou o líder católico Fernando Díaz, da Igreja de Guadalupe, esta não é a compreensão de setores elitistas que estão empenhados em que nada mude e por isso mesmo “se escudam na manutenção das bases militares estadunidenses em solo colombiano, numa completa dependência do estrangeiro que só é lucrativa para as oligarquias”. “A Associação Nacional de Empresários da Colômbia (Andi) tem uma posição clara, pronunciada: 'Vamos defender este modelo de desenvolvimento', dizem. Que desenvolvimento? Este modelo é mineral extrativista. Vai contra todos os movimentos ambientais do país. Eles estão convencidos de sua fé mercantil e política. Para eles, não interessa se isso vai causar mais 50, 60, 100 anos de violência estrutural. 'Não vamos permitir que um sistema comunista invada nosso país', é o que dizem eles”, condenou Fernando Díaz.

“Essa gente faz uma interpretação da Bíblia muito conveniente para seus interesses. São muito generosos. Segundo a leitura deles, Jesus Cristo e a Bíblia garantem que é justificada a repressão e a violência contra aqueles que se atrevem a questionar a ordem e a institucionalidade deles”, relatou o líder católico. “É essa a posição da elite colombiana diante das eleições de 29 de maio. E quando falamos da elite colombiana, falamos do sistema financeiro, do sistema militar e, é preciso dizer, também de sistemas religiosos, que envolvem igrejas com grandes estruturas financeiras e enormes quantidades de terra no país”, enfatizou.

De acordo com Nathaly Andrea Ospino, da Igreja Colombiana Metodista, é preciso ter uma atenção especial à questão das mulheres, com um acompanhamento mais próximo das suas realidades, diante do crescimento das adversidades. “Desde a situação das famílias que vêm sendo empobrecidas, pois o pescador que teve o rio contaminado por mercúrio já não tem fonte de renda, até as meninas que estão sendo estupradas pelo Exército”, assinalou.

Conforme o pastor budista Dairen Jácome, a relevância da reunião é que “por diferentes caminhos todos buscamos a paz, a harmonia, a verdade e a justiça”. Mais do que nunca neste momento, frisou, “é hora de todos os líderes religiosos, comunitários, sociais, indígenas, se somarem e ensinarem por meio de nossas próprias ações como deve ser feito o combate à corrupção”.

"A palavra Islã, em árabe, deriva do conceito de paz. Nós, muçulmanos, somos buscadores da paz. Na Colômbia, em tempos de eleições, é isso o que nossa comunidade busca. Que entre toda a sociedade colombiana, entre todas as religiões e todas as raças, nos unamos e busquemos uma mudança. Que o candidato que for eleito presidente trabalhe por uma sociedade melhor”, declarou Sheij Mohammad Husein Valencia Montaño, do Centro Cultural Islamico Ahlul-bait. “Nós, da comunidade islâmica”, recordou, “trabalhamos com temas culturais e sociais, em parceria com comunidades cristãs. Temos escolas e nos unimos com a diversidade, pois não tentamos converter pessoas, mas sim cultivar a fé. Por isso, esperamos que toda a comunidade colombiana atenda ao chamado de irmos às urnas em paz".

Por sua vez, Carlos Eduardo Guevara Rodriguez, representante da Igreja Episcopal Anglicana, relembrou que o dia 19 de maio é o Dia Nacional contra a Impunidade na Colômbia. “Mas quantas vezes crianças, jovens, líderes camponeses e Indígenas, mulheres e homens que trabalham e lutam pela terra, foram assassinados e, mediante o silêncio do Executivo,  foram vítimas também da impunidade?", questionou.

"O Poder Executivo silencia. O Poder Legislativo, o acompanha. E o Poder Judicial emite sentenças a favor dos poderosos em nosso país”, opinou. "Se Jesus Cristo estivesse aqui, no meio de nós, o que ele faria com esta Colômbia? O que ele nos diria? 'Fiquem aí caladinhos que tudo está bem'? Ou nos chamaria à comoção para denunciarmos toda esta situação de miséria, indignidade, corrupção, impunidade e mentiras? É nosso dever trabalhar pelos mais empobrecidos, pelos mais indignados, pelos que estão destruídos e sem voz", salientou Guevara. "Precisamos acolher essas pessoas e cuidar de nossa casa comum. Todas as vidas são importantes. Temos de valorizar e defender a vida, mas a vida com dignidade", concluiu.

O encontro foi acompanhado por Francisco Maltés, presidente da Central Unitária de Trabalhadores (CUT) da Colômbia, que enalteceu a iniciativa dos religiosos por somarem esforços na construção de uma cultura de paz e respeito mútuo.

Leia a íntegra do manifesto traduzido para o português:

O Senhor mediará entre as nações e resolverá os conflitos internacionais. Eles forjarão suas espadas em enxadas e suas lanças em foices. Não brigarão mais povo contra povo, nem seguirão treinando para a guerra. Isaías 2:4

Considerando que as Comunidades de Fé e das Espiritualidades têm sua razão de ser na missão de levar a Paz Integral de Deus a toda a humanidade e a toda sua criação. Que as Comunidades de Fé das Espiritualidades têm como propósito zelar e defender a vida. Que as Comunidades de Fé e das Espiritualidades buscam concretizar o cuidado da criação como vida em abundância para todos os seres viventes. Que na Colômbia, no que já transcorreu do ano de 2022 e principalmente neste mês de maio, a violência aumentou em níveis preocupantes. Que no país todo está sendo gerado, de forma perversa, um ambiente para polarizar ainda mais a nossa sofrida sociedade. Que há manifestações políticas e dos poderes ameaçando o processo democrático e a institucionalidade colombiana.

Como Comunidades de Fé e das Espiritualidades fazemos um chamado a:

  • Que se respeite o processo eleitoral, sem que se promova nenhum tipo de violência ou corrupção, como um exercício de construção democrática que fortaleça as instituições do Estado colombiano;
  • Que se respeite o resultado eleitoral das eleições presidenciais de 29 de maio e de um eventual segundo turno, independente de qual candidato saia vencedor.

Fazemos um chamado à população colombiana, independente de sua crença religiosa e de sua preferência política, a respeitar todas as pessoas que são candidatas à presidência da República da Colômbia e a participar massivamente nos comícios eleitorais como protesto contra a violência e como uma manifestação pacífica a favor da construção da paz.

Fazemos um chamado a todas as Comunidades de Fé e das Espiritualidades a articular forças em missão do Sagrado com o propósito de viabilizar a proposta do Reino de Deus entre todos e todas nós, reconhecendo e como as espiritualidades saudáveis devem ser, a Paz Integral e a reconciliação de toda a criação, na Colômbia e no Planeta, como nossa razão de ser.

Como Comunidades de Fé e das Espiritualidades, apoiamos a todos os governos de turno a tornarem possível a construção de um governo justo, que promova a paz e faça a opção por todos os cidadãos vulneráveis, marginalizados, pobres e empobrecidos. Que façam opção por todos os necessitados em suas diferentes formas e o cuidado da criação.

Como Comunidades de Fé e das Espiritualidades fazemos o seguinte chamado: clamamos por paz e o respeito ao processo democrático!

*A reprodução deste conteúdo é livre, desde que citada a fonte e a lista de entidades e organizações que apoiam esta cobertura, como no rodapé a seguir.

Esta cobertura será feita pela Agência ComunicaSul graças ao apoio das seguintes entidades: da Associação dos/das Docentes da Universidade Federal de Lavras-MG, Federação Nacional dos Servidores do Poder Judiciário Federal e do MPU (Fenajufe), Confederação Sindical dos Trabalhadores/as das Américas (CSA), jornal Hora do Povo, Diálogos do Sul, Barão de Itararé, Portal Vermelho, Intersindical, Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), Sindicato dos Bancários do Piauí; Associação dos Professores do Ensino Oficial do Ceará (APEOC), Central Única dos Trabalhadores (CUT), Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (ANDES-Sul), Sindicato dos Bancários do Amapá, Sindicato dos Metroviários de São Paulo, Sindicato dos Metalúrgicos de Betim-MG, Sindicato dos Correios de São Paulo, Sindicato dos Trabalhadores em Água, Resíduos e Meio Ambiente do Estado de São Paulo, Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp Sudeste Centro), Associação dos Professores Universitários da Bahia, Sindicato dos Trabalhadores no Poder Judiciário Federal do RS (Sintrajufe-RS), Sindicato dos Bancários de Santos e Região, Sindicato dos Químicos de Campinas, Osasco e Região, Sindicato dos Servidores de São Carlos, mandato popular do vereador Werner Rempel (Santa Maria-RS), Agência Sindical, Correio da Cidadania, Agência Saiba Mais e centenas de contribuições individuais.

O anúncio da compra do Twitter pelo bilionário norte-americano Elon Musk trouxe um misto de tristeza e revolta para quem luta contra as fake news e uma alegria incontida para a extrema-direita em todo o mundo. Mas é preciso uma análise que vá além da dicotomia e dos 280 caracteres.

A partir das declarações do próprio Elon Musk surgem pelo menos algumas motivações para a compra e uma provável mudança na curadoria de conteúdo dessa plataforma.

Por Renata Mielli* e Gustavo Alves**

Esse pressuposto é fundamental para entender porque um bilionário que não tem nenhuma atuação nas plataformas de tecnologia resolveu investir US$ 43 bilhões numa empresa avaliada em pouco mais de US$ 38 bilhões e que no ano passado registrou um prejuízo líquido de US$ 221 milhões.

A primeira constatação é que ele comprou a empresa para acabar com o pouco de conquistas que a sociedade obteve no processo recente de pressão para que as Big Techs desenvolvessem algum contrapeso para reduzir a disseminação de desinformação e discurso de ódio.

Isso escamoteado pelo argumento da defesa fundamentalista da “liberdade de expressão”, vista como um direito absoluto e que inclusive se sobrepõe a outros direitos. Mas é preciso enfrentar essa retórica oportunista e não ficar na defensiva para afirmar que não existem direitos absolutos, que estabelecer limites para o exercício desta liberdade é tão fundamental quanto a sua própria existência. Não cabe na liberdade de expressão, por exemplo, racismo, homofobia, apologia à morte ou aniquilação de grupos sociais, discursos que atentem contra a vida. Nada disso é opinião que possa ser livremente expressada. Nem em espaços privados como círculos de amigos ou familiares, muito menos em ambientes nos quais se realiza o debate público, como no caso das Plataformas de Redes Sociais.

Por isso, quem defende - como Musk, que o Twitter e outras plataformas sejam "arenas livres", na prática estão colocando em risco as poucas conquistas que a sociedade conseguiu avançar no debate sobre a necessidade de haver mais regras sobre a atividade dessas plataformas, como o reconhecimento tímido do papel deletério da amplificação algorítmica pelas plataformas.

Sob pressão da sociedade, o Twitter patrocinou um estudo para entender qual a possibilidade de seu algoritmo valorizar ou impulsionar uma determinada ideologia política e embora o Twitter tenha divulgado as descobertas da pesquisa em outubro de 2021, só agora o estudo foi publicado na revista PNAS (Proceedings of the National Academy of Sciences, publicação oficial da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos), após ter sido revisado por outros cientistas.

O estudo analisou uma amostra de 4% de todos os usuários do Twitter que foram expostos ao algoritmo (mais de 46 milhões) e também analisou um grupo de controle de 11 milhões de usuários que nunca receberam tweets recomendados automaticamente em sua timeline.

A face visível da ação do algoritmo do Twitter é a exposição entre as postagens das contas que você segue, tweets marcados como “você pode gostar”.  Ou seja, o algoritmo está recomendando conteúdo para você.

Isso é feito usando os dados da sua atividade anterior na plataforma, como os tweets que você curtiu ou retuitou. Uma equação estatística aplicada a estes dados lastreia o “aprendizado de máquina”. Assim o computador, em tese, aprende automaticamente com as preferências do usuário e aplica isso a dados que o sistema não viu antes.

Mas existe um fantasma presente nessas equações: o viés. Que segundo esse estudo reforça preconceitos humanos e amplificou os discursos de “direita”.

O estudo analisou o efeito de “amplificação algorítmica” em tweets de 3.634 políticos eleitos de sete países com grande base de usuários no Twitter: EUA, Japão, Reino Unido, França, Espanha, Canadá e Alemanha.

A pesquisa mostrou que em seis dos sete países (a Alemanha foi a exceção), o algoritmo favoreceu significativamente a amplificação de tweets de fontes politicamente inclinadas à direita.

No Canadá por exemplo, os tweets dos liberais foram amplificados em 43%, contra os dos conservadores em 167% e no Reino Unido os tweets dos trabalhistas foram amplificados em 112%, enquanto os conservadores foram amplificados em 176%.

Outro aspecto revelado pelo estudo foi amplificação algorítmica de notícias políticas. O estudo analisou a amplificação algorítmica de 6,2 milhões de notícias políticas compartilhadas nos EUA. E chegou à conclusão que a amplificação das notícias também segue o mesmo padrão.

Ou seja, há uma exposição maior dos conteúdos de direita, fake news e desinformação. 

Esse estudo só foi realizado graças a intensa cobrança da sociedade e após a tentativa de invasão do Congresso americano pela turba fascista alimentada por Trump.

Pois bem, quando se começa a vislumbrar a chance de se entender como os algoritmos alimentam a disseminação de desinformação e discurso de ódio, eis que surge Elon Musk.

Musk é mais um expoente dos fundamentalistas da liberdade de expressão. Para ele, não deve haver limites, o que significa que não deve haver qualquer tipo de moderação sobre o que se diz nas redes sociais. Outro defensor dessa tese é o presidente Bolsonaro.

Segundo Musk, ele quer transformar o Twitter numa "arena de livre discurso".

Ele afirma que irá democratizar o Twitter apostando na abertura do código fonte (a programação interna do Twitter) para que os mecanismos de operação sejam conhecidos e explorados por programadores.

Uma promessa vazia cheirando a “Ouro de Tolo” feita pela mesma pessoa que usou sua conta para atacar pessoas transgêneros e as políticas de combate à transmissão da Covid-19.

A liberdade de expressão tem sido usada - de forma tão indevida, oportunista e equivocada - por expoentes da extrema direita, bilionários e representantes do grande capital. A economia atual é dinamizada pelo modelo de negócios que usa o discurso como mobilizador da atenção.

E o que chama mais atenção é o discurso de ódio, é o preconceito, é a polarização social baseada em grupos que se comportam como torcedores raivosos e não como cidadãos que discutem temas de interesse público e social.

Somos todos sugados pela força centrípeta dos estímulos incessantes provocados pelas redes de alienação e agimos como autômatos reproduzindo, curtindo, compartilhando conteúdos que reforçam a visão do meu “time”, grupo e dos meus pré-conceitos.

Nesse processo, monetizamos toda a economia assentada nas plataformas. Vendemos nosso olhar, nosso corpo e alma e compramos produtos, serviços e ideias, sem qualquer reflexão. Ajudamos a curto circuitar a esfera pública e a desintegrar qualquer possibilidade democrática.

O princípio da inimputabilidade do intermediário, tão importante para o ecossistema da internet, não pode ser confundido com ausência de compromisso e responsabilidade das plataformas com o debate público.

Por isso, a regulação das plataformas de rede sociais, das Big Techs, a partir de amplo debate público é urgente e indispensável. Musk comprou o Twitter, e pode conduzir esta rede a ser um ambiente de afronta a direitos humanos fundamentais e de menosprezo com a democracia.

Mais do que nunca devemos retomar o debate sobre o #PL2630 e reforçar nele todos os elementos que dizem respeito diretamente as obrigações e regras para que as Big Techs atuem no Brasil.

É mais urgente do que nunca que tenhamos uma legislação que regule as atividades desta e de outras plataformas no Brasil, que as obrigue a cumprir os compromissos expressos em nossa Carta Constitucional. O dinheiro pode comprar quase tudo, mas não podemos deixar que ele compre também nossa soberania, a proteção à nossa democracia e esfera pública.

*Renata Mielli – Jornalista, Doutoranda no Programa de Ciências da Comunicação da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (PPGCOM-ECA-USP), integrante da Coalizão Direitos na Rede.

**Gustavo Alves – Jornalista, webdesigner e programador, estudante de Ciência de Dados na USP/Esalq.

Em fase final de debate na Câmara dos Deputados, o PL 2630/2020, que acabou apelidado de PL das Fake News, sofre onda de ataques com conteúdos de desinformação. Facebook, Google e cia temem a aprovação de medidas que vão impor transparência às suas atividades e outras regras para a sua atuação no país.

Desde que o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, reiterou que o tema é prioridade na agenda de deliberações da Casa, as empresas resolveram subir o tom e partir para o vale tudo, na tentativa de alterar ou até impedir a aprovação da proposta. As empresas usam o seu poder de mercado, e espaços privilegiados de suas plataformas para fazer a campanha contra um projeto de lei no país, o que é gravíssimo! 

Mas o que elas temem? O que as desagrada tanto?

Por Renata Mielli*

Medo da regulação

Nos anos 90, início dos anos 2000, prevalecia uma visão ufanista de que a internet representaria um mundo de liberdade, de que ela seria um território livre: livre de regulação do estado, livre de fronteiras, livre de regras, onde todos podem construir seus negócios, suas formas de comunicação e expressão. 

Essa ideia de ausência de regras foi muito conveniente para o poder econômico que se ergueu no Vale do Silício. As grandes empresas de tecnologia (Big Techs) se apropriaram desse discurso para impulsionar seus modelos de negócios e erigir um novo mercado monopolista dominado pelas empresas Gafam, acrônimo para Google, Amazon, Facebook e Apple e Microsoft.

A partir do escândalo Cambridge Analityca, das denúncias da sociedade civil e do alerta de pesquisadores muitos países passaram a discutir legislações para regular essas empresas. Há debates sobre obrigações de transparência, regras para moderação de conteúdos, combate ao discurso de ódio, enfrentamento à desinformação, debates sobre direito autoral e medidas econômicas e tributárias.

Em todos os países que enfrentaram essa agenda, as Big Techs usaram seu poder para tentar impedir que leis fossem aprovadas e aplicadas. Fizeram de tudo: campanhas baseadas em distorção de informações e dados, e até ameaças de deixar de ofertar seus serviços. Isso aconteceu na Austrália, na Espanha, na França e estão acontecendo agora no Brasil.

Em 03 de março, o Facebook veiculou propaganda em jornais de grande circulação nacional com o título: O PL das Fake News deveria combater Fake News. E não a lanchonete do seu bairro. No dia 11, foi a vez do Google soltar uma nota dizendo que se aprovado, o PL vai modificar a internet como você conhece. No dia 14, o Google colocou na sua página inicial, um link para a nota, de forma que todos os usuários que fizeram uma busca neste dia entraram em contato com a visão alarmista da empresa sobre o projeto. Além disso, passou a circular conteúdo publicitário do Google em outras plataformas com o mesmo conteúdo, que utiliza a retórica do medo, mecanismo largamente usado para estruturar conteúdos de desinformação e manipular a opinião pública.

Sobre o que trata o PL 2630

Afinal, será que o PL 2630 vai prejudicar a lanchonete do seu bairro? Será que ele vai mudar a internet que a gente conhece? Para responder essas perguntas, sem adjetivos, temos que conhecer o que de fato diz o projeto, que está sendo discutido desde maio de 2020.

Ele ganhou o apelido de PL de Fake News no início de sua tramitação. Na sua primeira versão, havia um artigo que tentava conceituar desinformação, que sofreu muitas críticas por trazer riscos à liberdade de expressão: definir numa lei que conteúdo seria classificado como fake News ou não é muito perigoso. Por isso, este ponto acabou caindo, e o texto que aguarda votação no plenário da Câmara não traz, em nenhum dos seus 42 artigos, o termo fake news.

Então, qual o escopo do projeto e porque ele continuou sendo chamado de PL de Fake News? O PL 2630 dispõe sobre a criação de uma Lei Brasileira de Liberdade, Responsabilidade e Transparência na Internet. Com base neste tripé, estrutura um elenco de obrigações, regras e mecanismos de governança para enfrentar o abuso do poder econômico nas redes, permitindo aos cidadãos e aos órgãos públicos identificar conteúdos de publicidade e impulsionados, saber o montante e a origem de recursos usados, por exemplo, para impulsionar conteúdos pregando o inexistente tratamento precoce contra a Covid-19 que tantos prejuízos trouxeram e ainda trazem à saúde.

O fenômeno da desinformação e seu impacto atual está relacionado às dinâmicas de circulação da informação no interior das plataformas. Ganham alcance e velocidade graças aos fatores de relevância considerados pelos algoritmos. Essas empresas, praticamente não fornecem dados sobre, por exemplo, quantos conteúdos são excluídos, com quais critérios, e porque contas são suspensas. Quantos dos que estão lendo este artigo já tiveram postagens excluídas ou rotuladas sem maiores explicações? E pior, os canais de contestação disponíveis para que possamos recorrer são praticamente inexistentes. Enquanto isso, muitas autoridades e pessoas com mandatos eletivos usam seus perfis e contas para espalhar a desinformação impunemente.

Ou seja, o que o projeto tenta é obrigar as Big Techs que prestam serviços para centenas de milhões de brasileiros prestem informações para que a sociedade compreenda como as fake news circulam e são patrocinadas, o que é fundamental para adotar medidas para combatê-las.

Outro ponto fundamental é uma seção inteiramente destinada a estabelecer responsabilidade diferenciada a agentes e contas de interesse público no uso das redes sociais. Afinal, quanto maior o poder que uma pessoa tem, maior a responsabilidade que ela carrega.

Também traz artigos para conter a viralização das fake news nos serviços de mensagem instantânea – aplicações do tipo WhatsApp e Telegram. Estabelece vedações à utilização de disparo automatizado de mensagens em massa, como as que foram largamente utilizadas na campanha de Jair Bolsonaro em 2018 e denunciadas pela jornalista Patrícia Campos Mello.

Ou seja, o projeto não proíbe publicidade nem impulsionamento, apenas cria regras para que a transparência seja possível. Nesse sentido, não há nada no PL que prejudique a lanchonete. Também não haverá uma mudança na internet que você conhece. Inclusive porque o PL não abrange toda a internet, ele se aplica apenas aos provedores de aplicação com mais de 10 milhões de usuários. Mas ele vai obrigar, sim, uma mudança da postura dessas empresas com relação aos usuários brasileiros. Mudanças que trarão mais segurança e empoderamento do usuário e da sociedade. E é isso que elas querem evitar.

As Big Techs se colocam veementemente contra transparência porque a opacidade é um fator intrínseco ao seu modelo de negócios das Big Techs. Dar transparência às suas operações é empoderar a sociedade para reduzir assimetrias provocadas pelo poder dessas empresas. Elas querem continuar ganhando bilhões de reais no país, atuando sem qualquer regra, sem ter que prestar contas e informações de suas atividades e, em alguns casos, nem responder às autoridades nacionais.

Amplo debate

O projeto 2630 está em debate na Câmara desde agosto de 2020. Ao longo desses quase dois anos de debate, foram organizados por iniciativa do atual relator, Dep. Orlando Silva, dois seminários, com a participação de centenas de especialistas. Organizações da sociedade civil, entidades acadêmicas, empresariais realizaram inúmeros eventos sobre o PL. O tema foi tratado ao longo deste período na mídia especializada, mas também em veículos jornalísticos. Ou seja, houve um amplo debate que resultou num aprofundamento de muitos dispositivos e amadurecimento do que é a espinha dorsal do projeto. A ofensiva atual das Big Techs nesta reta final é justamente uma reação a isso.

Há aspectos a serem melhorados e aperfeiçoados no projeto. Claro que sim. Um deles diz respeito ao artigo 38, que cria uma obrigação de remuneração de conteúdo jornalístico por parte das plataformas. Esse é um tema que não alcançou uma convergência maior. Vários setores, inclusive que têm posições diferentes sobre o PL, manifestam reservas com relação a esse dispositivo. Mas os motivos que geram resistência são distintos. As Big Techs têm se colocado contra qualquer iniciativa que surja na perspectiva de remunerar links. Inclusive ameaçaram acabar com sua operação em outros países (Austrália, Espanha por exemplo). Já, entidades do campo jornalístico, da mídia alternativa e dos direitos digitais que questionam esse tópico não o fazem por serem contra o debate em si, mas porque consideram que esta é uma discussão que precisa ser feita em outro contexto. Ela diz respeito a questões delicadas como definir o que é ou não conteúdo jornalístico, quem ao final tomaria essa decisão, como se daria essa remuneração, quem teria direito a ela, etc. Então, esse de fato é um tema sensível, para o qual ainda se busca alternativa melhor.

Mas essas melhorias e outras que ainda possam ser feitas no projeto precisam ser construídas a partir de um debate leal.

O que é importante que a sociedade compreenda é que após dois anos de debate, o projeto amealhou muitos consensos progressivos. Consenso visto não como unanimidade, mas construção de posição comum, principalmente em torno dos dispositivos envolvendo transparência, publicidade, desenho de um procedimento mais transparente sobre medidas de moderação com direito à contestação, para garantir um ambiente mais seguro e menos tóxico nas redes. E, claro, por se tratar de um tema de fronteira, dinâmico, há algumas questões que ainda ensejam dúvidas. O que precisa ser visto com naturalidade.

É fundamental desfazer as confusões que a campanha de desinformação das empresas estão trazendo. É preciso seguirmos atentos às discussões nas próximas semanas. E ter a tranquilidade de que essa lei é um dos passos que a sociedade brasileira dá na perspectiva de regular a atividade das plataformas e coibir a disseminação da desinformação. Outras leis certamente virão. E há também muitas iniciativas que precisam ser tomadas fora do âmbito legislativo. O que não podemos é ficarmos paralisados. Essas empresas não podem fazer terrorismo midiático e espalhar desinformação para continuar atuando numa terra sem lei.

*Renata Mielli é jornalista, doutoranda em Ciências da Comunicação pela ECA/USP, coordenadora do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé e integra a Coalizão Direitos na Rede.

Confira nota do MST sobre a atitude excludente da direção do MASP contra a realização do Núcleo “Retomadas”,  como parte da mostra Histórias Brasileiras:

Viemos, através desta declaração, manifestar nossa indignação com a atitude da  direção do MASP que levou a impossibilidade de realização do Núcleo “Retomadas”,  como parte da mostra Histórias Brasileiras. 

Como informa e-mail recebido das curadoras no dia 03/05/2022, sob alegações de  cunho burocrático e legalista que não se sustentam na efetiva realização do projeto, o  MASP inviabilizou a inserção de imagens do Acervo do MST, do Acervo João Zinclar e  de outros acervos que documentam a trajetória do MST e da luta pela Reforma Agrária  no Brasil. 

Somos testemunhas da forma ética e profissional com que as curadoras e os  acervos parceiros se empenharam na produção do projeto, em todas etapas e em acordo  com as demandas da instituição. 

Afirmamos nosso respeito e apoio às curadoras Sandra Benites e Clarissa Diniz,  responsáveis pelo Núcleo “Retomadas”, que diante da atitude do MASP decidiram não  participar da mostra, pois, como declaram: “Aceitar a exclusão das imagens das  retomadas em nome da permanência do núcleo nos levaria a ser desleais com os sujeitos  e movimentos envolvidos na nossa curadoria – contradição que não estamos dispostas a  negociar por não concordar com tamanha irresponsabilidade.” 

Como afirmam as curadoras: “O Retomadas é sobre a urgência de revermos as  éticas e políticas coloniais de nossos territórios, línguas, corpos, representações e museus.  Do nosso ponto de vista, mantê-lo à revelia da representação das próprias retomadas que  lhe dão título, argumento e sentido social nos levaria a ser anti-éticas em nome da ética,  excludentes em nome da inclusão, não-representativas em nome da representatividade,  expropriadoras em nome da não-apropriação, silenciadoras em nome da voz. Nos levaria,  por fim, a praticar a colonialidade contra a qual o núcleo se insurge”. 

O material selecionado pelas curadoras – imagens fotográficas, cartazes, cartilhas  e jornais impressos – são testemunhos da capacidade da classe trabalhadora de se  apresentar firme e altiva como sujeito de sua história, em todos os sentidos. 

Destacamos que ao inviabilizar a inserção da totalidade desses documentos o que  de fato se efetiva é a exclusão de um dos maiores movimentos sociais da história  contemporânea brasileira e latino-americana. Decisão que aponta para uma construção de  conhecimento histórico distorcido e comprometido com uma cultura deturpadora da real  complexidade da história política brasileira. Atitude que, no mínimo, está em desacordo  com a função social de uma instituição museológica que se apresenta em seu site com a  seguinte missão: “O MASP, Museu diverso, inclusivo e plural, tem a missão de  estabelecer, de maneira crítica e criativa, diálogos entre passado e presente, culturas e  territórios, a partir das artes visuais. Para tanto, deve ampliar, preservar, pesquisar e  difundir seu acervo, bem como promover o encontro entre públicos e arte por meio de  experiências transformadoras e acolhedoras. ” 

Portanto, questionamos a atitude excludente da direção do MASP, apontamos a  gravidade deste tipo de construção de conhecimento que invisibiliza a luta da classe  trabalhadora e chamamos toda a comunidade cultural e entidades que representam as lutas  do povo brasileiro para este debate, que se reveste da urgência de não ceder à censura e  ao apagamento de nosso maior patrimônio: nossa capacidade de luta organizada para  construir um outro modelo de sociedade.  

Pátria Livre, Venceremos! 

Acervo João Zinclar 
Coletivo de Arquivo e Memória do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST)
Direção Nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST)

O ex-ministro da Cultura e atual secretário de Cultura e Economia Criativa de São Paulo, Sérgio Sá Leitão, apontou para o fim, em sua conta do Twitter, nesta quinta-feira (6), dum dos principais mitos do governo do presidente Jair Bolsonaro (PL) da área da Cultura: o de acabar com a Lei Rouanet e, no caminho, reduzir a sua concentração de recursos.

De acordo com Sá Leitão, “os autoritários que comandam a cultura federal são trapalhões e produziram involuntariamente o inverso. A lei continua, a captação foi recorde e a concentração cresceu”.

Por Julinho Bittencourt, na Fórum

O secretário, que foi chefe de gabinete do ex-ministro Gilberto Gil, alerta que “o aumento do valor captado por projetos culturais é uma ótima notícia. Significa que a economia cresceu, as empresas ignoraram as diatribes bolsonaristas e os projetos estão acontecendo. Mas a concentração, não. Ela ocorreu porque Frias & Cia. pararam de aprovar novos projetos”.

Recursos em projetos já aprovados

De acordo com ele, “as empresas patrocinadoras tiveram que colocar os recursos em projetos que já estavam aprovados, com prazo de captação em vigor”. O resultado, alerta, foram “mais recursos para menos projetos. Além de autoritários e trapalhões, são incompetentes. Um pesadelo que tem prazo de validade: 31/12/22!”

Ataques a Ivete Sangalo e Zé de Abreu

Horas após receber alta hospitalar nesta quarta-feira (5), Bolsonaro deu uma entrevista coletiva ao lado do seu médico Antônio Luiz Macedo, em que afirmou que trabalhou durante as férias.

Sem nenhuma ação concreta aprovada no período, Bolsonaro citou a mudança na Lei Rouanet e criticou a cantora Ivete Sangalo e o ator Zé de Abreu. A Secretaria de Cultura anunciou que avalia reduzir em 50% o teto do benefício, o que revoltou diversos artistas.

“Queremos a Lei Rouanet para atender aquele artista que está começando a carreira e não para figurões ou figuronas como a querida Ivete Sangalo. Está chateada? Está. Zé de Abreu está chateado? Está. Porque acabou aquela teta deles gorda de pegar R$ 10 milhões por ano da Lei Rouanet e defender o presidente de plantão. Não quero que me defendam, mas que falem a verdade ao meu respeito”, afirmou.

O futebol das mulheres ganha o planeta como nunca antes em sua história

Grande dia!
Grande dia de verdade e não o externado pelo boçal que ocupa desastradamente o posto mais alto do executivo brasileiro.

Hoje é um grande dia porque tem início a oitava edição da Copa do Mundo de Futebol Feminino! A anfitriã França abre a competição diante da Coréia do Sul a partir das 16h00 – horário de Brasília – e além da ansiedade pelo ponta pé deste jogo temos muito o que comemorar em termos de visibilidade.

Por Lu Castro, especial para o Barão de Itararé

Há pouco mais de dez anos, assumi uma responsabilidade pessoal: utilizar a tecnologia em favor da visibilidade das mulheres que faziam a bola rolar pelos campos da cidade. Minha primeira busca foi no Juventus, formador por excelência, e sua técnica Magali.

O material, publicado no antigo portal OléOlé, já se perdeu, mas, de lá para cá, perda deixou de ser sinônimo de mulher dentro e fora das quatro linhas.

Avançamos. E os contatos com os principais agentes da modalidade se intensificaram. E espaços alternativos começaram a surgir com mais força na busca pelo tratamento igualitário do futebol de mulheres e homens – ao menos no que diz respeito ao que se noticia, inicialmente.

Observando a movimentação da imprensa nacional, noto um grande cuidado ao tratar do assunto, diferente de muitos outros anos. Acredito que esteja diretamente relacionado ao número de mulheres presentes em redações esportivas, algo que apontei como imprescindível para a melhora na comunicação do futebol de mulheres em mídias tradicionais.

Avançamos. E avançamos noutros tantos aspectos do futebol, inclusive na gestão, onde o trabalho realizado pela ex capitã da seleção, Aline Pellegrino, como diretora de futebol feminino da Federação Paulista de Futebol, tem ampliado os espaços para trabalhar as categorias de base.

Avançamos. A seleção brasileira tem uma estrutura que nunca teve. A seleção brasileira conta com uniforme próprio e não sobra do uniforme masculino. A seleção tem seus jogos transmitidos de modo inédito em tevê aberta de alcance nacional. A seleção só não tem uma coisa: técnico.

E isso, car@s, é algo que me preocupa tanto quanto me alegra: o fato de termos a Copa do Mundo mais noticiada de todos os tempos.

Diante de uma seleção nacional que caiu no ranking FIFA nos últimos anos, sob o comando de alguém que não tem perfil para comandar o selecionado nacional em nenhuma circunstância – e já o demonstrou em outras ocasiões - que carrega para a França nove derrotas consecutivas, minha expectativa é de termos que reforçar nosso discurso e argumentar como nunca que o que eles (os espectadores desconhecedores da realidade do futebol feminino) estão vendo não é bem isso.

Num momento, em que os olhos do mundo estão voltados para a amarelinha tão conceituada um dia, mostrar um jogo baseado apenas na garras das nossas habilidosas e talentosas atletas, tem sido o protagonista dos meus pesadelos.

Tudo o que lutamos para construir – atletas, gestores, comissões técnicas sérias, jornalistas interessados no assunto – pode sofrer um revés de opinião pública se o coletivo não estiver bem arrumado. E nós sabemos que não está.

Há poucas horas da abertura do mundial mais importante de todos os tempos, vou da euforia e ansiedade que mal me deixou dormir a testa constantemente franzida de preocupação.

Avancemos pois, nossas atletas se entregarão e é muito provável que nos jogos do Brasil o que avance é o nível da gengibrinha pra dar conta da montanha russa de emoções.

Uma mulher registra um boletim de ocorrência acusando um homem por estupro. Em depoimento, descreve que o parceiro teria ficado subitamente agressivo e usado da violência para praticar relação sexual sem seu consentimento. O laudo médico, anexado ao caso, apresenta sinais físicos de agressão e estresse pós-traumático. Em resposta, o homem acusado desmente a história publicamente, argumentando que o episódio não passou de “uma relação comum entre um homem e uma mulher”.

Por Mariana Pitasse, no Brasil de Fato

Esse poderia ser apenas mais um entre os cerca de 135 casos de estupro registrados por dia – que equivalem a cerca de 10% a 15% dos abusos que acontecem diariamente no Brasil, segundo levantamento do Atlas da Violência de 2018. Mas não é um episódio qualquer. O homem acusado é Neymar, um dos jogadores de futebol mais bem pagos do mundo. Por isso, o caso tomou as páginas dos jornais dentro e fora do Brasil nos últimos dias, com ampla repercussão nas redes sociais.

Após a denúncia registrada contra o jogador do Paris Saint-Germain na última sexta-feira (31), a acusadora foi exposta de diferentes formas – pela mídia comercial e pelo próprio Neymar. Para "sensibilizar" a opinião pública, o jogador postou um vídeo em suas contas do Instagram e do Facebook em que diz ser inocente. Ao tentar “comprovar” sua versão dos fatos, divulgou conversas que manteve com a mulher pelo Whatsapp, assim como fotos e vídeos íntimos da acusadora. A ação fez com que o jogador passasse a ser investigado também pelo vazamento de fotos íntimas.

A divulgação do conteúdo não foi um equívoco e, sim, uma escolha. Neymar preferiu cometer um crime virtual para tentar dialogar com pessoas que concordam com a ideia de que uma mulher que envia fotos íntimas pela internet é necessariamente "aproveitadora" e "interesseira".

O que está sendo ignorado nessa leitura rasa proposta pela defesa de Neymar é que a intimidade exposta para milhões de pessoas não diz nada sobre a acusação de estupro. Como lembra a antropóloga Débora Diniz, o que circula é a versão de um homem poderoso que se ancora em elementos do fascínio pelo sexo e na desqualificação fácil das mulheres vítimas de violência sexual. E essa é também a narrativa em que tem se amparado a cobertura da mídia comercial sobre o caso. Mesmo sem afirmar que estão assumindo uma posição, jornalistas passaram o recibo de que a acusadora está tentando se aproveitar do “menino” Neymar.

Entre as reportagens que tomaram conta do noticiário brasileiro nos últimos dias, a matéria Jornal Nacional – no dia seguinte à divulgação das conversas – foi a que mais repercutiu. Ela traz um panorama sobre o caso e ressalta o depoimento de um ex-advogado da mulher afirmando que o estupro não aconteceu. A reportagem também divulga o nome da nova advogada de defesa da mulher, ainda que ela não tenha dado autorização para isso, desrespeitando um princípio básico do jornalismo: a garantia de sigilo das fontes. Na mesma reportagem, sem mostrar as fotografias e vídeos do corpo da mulher, divulgados por Neymar, são expostas frases soltas da conversa em que o jogador aparece enredado em um jogo de sedução.

Em outra reportagem, desta vez publicada no Jornal de Brasília, a mulher tem a vida financeira e judicial revirada. O texto aponta que ela tem uma ação de despejo em seu nome, após três meses de aluguel atrasado, e que acumula dívidas. A reportagem também disponibiliza o nome completo da mulher e detalha suas contas a pagar.

A invasão de privacidade promovida por jornalistas com a justificativa de mostrar a “real versão dos fatos” não terminou por aí. Em reportagem publicada pelo jornal O Globo, a família da mulher é procurada e sua mãe é informada sobre o caso a partir da abordagem da repórter. Dias depois, uma matéria veiculada pelo portal UOL evidencia que o filho da mulher, de cinco anos, está sofrendo com chacotas na internet e na escola por conta da repercussão do caso.

Mais do que a intimidade revirada e exposta em fotos e vídeos íntimos e informações detalhadas sobre sua situação financeira, a mulher teve sua versão dos acontecimentos contestada a todo tempo, de forma pública, inclusive por seu ex-advogado. Mas isso não é levado em consideração, porque tudo parece legítimo quando a motivação é “dar o furo” de reportagem. Na lógica do jornalismo, é necessário apresentar respostas antes mesmo das investigações. Tudo isso com base na “isenção e na imparcialidade”, ainda que à serviço da versão do jogador milionário…

Neymar, por outro lado, segue a rotina de treinos, jogos e compromissos publicitários, blindado por seu estafe. A presença dele está confirmada no jogo amistoso do Brasil contra o Qatar nesta quarta-feira (5).

Paris Saint-Germain e Seleção Brasileira se esquivam de comentar o caso. Familiares e amigos se pronunciam publicamente garantindo que ele é inocente e vítima de uma armadilha. A preocupação maior parece vir dos patrocinadores: ao menos quatro das 10 marcas manifestaram incômodo com o caso, segundo levantamento da Folha.

Comprovada ou não a acusação, a sentença já está dada: a mulher é sempre a ponta vulnerável. Não à toa, segundo o Atlas da Violência, são cerca de 1300 estupros por dia no país – dos quais apenas 135 são notificados.

*Jornalista, editora do Brasil de Fato no Rio de Janeiro e doutoranda em Antropologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF).

Edição: Daniel Giovanaz