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Após cobrir as eleições bolivianas de 20 de outubro, vencidas pelo presidente Evo Morales, o Coletivo ComunicaSul de Comunicação Colaborativa retorna nesta sexta-feira ao país andino para fortalecer a luta pela democratização e a integração regional. A viagem se dá a convite de associações comunitárias de El Alto e Cochabamba, cujos moradores foram diretamente atingidos pelas covardes e brutais ações dos golpistas.

Na agenda de reuniões, em várias cidades, encontros com lideranças populares, parlamentares e autoridades que se mantêm firmes na defesa da democracia, e também de familiares dos mais de 30 mortos por policiais e militares fascistas. A lista de vítimas é acrescida de 700 feridos à bala e centenas de presos e torturados por terem expressado firme oposição à autoproclamada presidenta Jeanine Áñez e suas orientações racistas.

"A expectativa é que, a partir do diálogo mais amplo e do acesso a um levantamento minucioso, possamos dar elementos à reflexão e contribuir com os organismos nacionais e internacionais para pôr fim ao atual reino da impunidade, garantindo que se faça justiça e redemocratize a Bolívia", declarou o repórter Leonardo Wexell Severo, redator do jornal Hora do Povo e colaborador da revista Diálogos do Sul, que estará representando o ComunicaSul.

O fato, assinalou Severo, "é que no que diz respeito à mídia local, o que impera é o reino do silêncio, da manipulação e da mentira, variando entre a covardia e a festiva parceria com o desgoverno, empobrecendo demais a cobertura jornalística propriamente dita". Um dos exemplos citou, foi a recente reunião de organismos de direitos humanos da ONU com famílias dos manifestantes assassinados em Senkata, que não recebeu sequer uma nota de rodapé nos meios locais.

A denúncia aos conglomerados de comunicação faz parte da trajetória do jornalista que, entre outros livros, é autor de “Latifúndio Midiota, crimes, crises e trapaças” (Editora Papiro, 130 páginas) e de "Bolívia nas ruas e urnas contra o imperialismo" (Editora Limiar, 110 páginas), que traz uma série de reportagens realizadas em Santa Cruz, Tarija e La Paz sobre a relevância do processo de nacionalização dos hidrocarbonetos para o começo da industrialização e da redistribuição da riqueza, em oposição ao receituário concentrador e entreguista "made in USA".

Sobre o ComunicaSul

Em tempos de apologia a ditadores e torturadores, o compromisso do coletivo é não se intimidar e fazer com que a democratização da comunicação jogue um papel fundamental para oxigenar as nossas sociedades e visibilizar suas reivindicações, dando vez e voz aos silenciados.

Articulação iniciada em 2012, o ComunicaSul é formado por jornalistas da mídia alternativa brasileira com a missão de romper o bloqueio informativo sobre grandes eventos políticos do continente. No currículo, o ComunicaSul conta com a cobertura de vitórias eleitorais de Hugo Chávez, na Venezuela (2012), Rafael Correa, no Equador (2013), Evo Morales, na Bolívia (2014 e 2019) e Alberto Fernández, na Argentina (2019), além de diversas lutas políticas e sociais na Argentina, Paraguai, Guatemala e Honduras.

A iniciativa partiu da necessidade de oferecer ao público brasileiro notícias e reportagens diretamente da fonte, sem intermediação de que distorcem a realidade em função de seus interesses ou de seus patrocinadores. A fim de efetivamente constituirmos um ambiente mais plural e diverso de informações e opiniões sobre os acontecimentos nacionais e internacionais, é preciso criar instrumentos para produção própria de conteúdo. O http://WWW.comunicasul.info é uma resposta à manipulação que aliena e imbeciliza.

Ajude a fazer ecoar esta voz!

 

O Fórum de Comunicação para a Integração de Nossa América (FCINA), que abrange dezenas de entidades e organizações latino-americanas e caribenhas, dentre elas o Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, publicou nesta segunda-feira uma nota alertando para a gravidade do estado de saúde de Julian Assange. No documento, o Fórum expressa preocupação com a situação do fundador do Wikileaks, vítima de graves violações no cárcere, com uso, inclusive de diversos métodos de tortura.

Confira a íntegra da nota:

Alerta mundial pela vida de Julian Assange. Liberdade já!

Julian Assange corre sério risco de morrer na prisão. Assim expressaram, em uma carta aberta, 60 médicos de diferentes partes do mundo, manifestando sérias preocupações com a atual condição mental e física do jornalista investigativo. 

À estas vozes se soma um comunicado, emitido no dia 1º de novembro, pelo Relator Especial sobre Tortura da Organização das Nações Unidas (ONU), Nils Melzer, que se referiu à contínua deterioração da saúde de Assange desde sua prisão no começo do ano e assegurou que a vida do fundador do Wikileaks corre perigo.

O relator emite, no texto referido, uma dura crítica ao indicar que “enquanto o governo dos Estados Unidos da América persegue o senhor Assange por publicar informação sobre sérias violações dos direitos humanos, incluindo torturas e assassinatos, os oficiais responsáveis por tais crimes seguem gozando de impunidade”.

O Fórum de Comunicação para a Integração de Nossa América, rede em que confluem centenas de comunicadores e ativistas da América Latina e do Caribe, faz eco da exigência médica para que Assange seja transportado, imediatamente, a um hospital devidamente equipado e com profissionais capazes de preservarem a sua vida.

Além disso, nos unimos ao clamor mundial e exigimos a negação da extradição aos Estados Unidos e o fim da perseguição contra Julian Assange.

Assange aportou informação fidedigna e abriu os olhos do mundo para os delitos de lesa-humanidade cometidos pelos Estados Unidos. As consequências que enfrenta são uma vingança perversa e representam grave ameaça à liberdade de expressão e à investigação jornalística.

Exortamos os meios de comunicação, as organizações de direitos humanos e os organismos internacionais a acompanharem decididamente a exigência pela liberdade absoluta de Assange.

Somente assim, será Justiça!

FÓRUM DE COMUNICAÇÃO PARA A INTEGRAÇÃO DE NOSSA AMÉRICA

25/11/2019

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Visite: https://www.integracion-lac.info/

Na última quarta-feira (20/08), a Coalizão Direitos na Rede (CDR) participou de uma reunião com Júlio Semeghini, secretário executivo do Ministério da Ciência, Tecnologias, Inovações e Comunicações (MCTIC), em Brasília (DF), onde foram debatidas propostas em relação ao cenário de transformações no marco regulatório do setor de telecomunicações.

Por Coalizão Direitos na Rede

A CDR apresentou alternativas à proposta do governo de antecipar o fim das concessões de telefonia pública por meio de alteração na Lei Geral de Telecomunicações (LGT), e indicou quais, em seu entendimento, devem ser os critérios para o investimento do saldo das obrigações das concessões de telefonia fixa. Semeghini recebeu bem as demandas e mostrou disposição e interesse comum em garantir a universalização do acesso à internet, premissa essencial à cidadania como estabelece o Marco Civil da Internet.

A organização, no entanto, reivindica o arquivamento do Projeto de Lei da Câmara (PLC) 79/2016, o chamado “PL das Teles”. “A gente entende que esse projeto de lei não responde aos interesses públicos e responde apenas aos interesses privados de algumas grandes empresas. O secretário Semeghini se mostrou disposto a manter um diálogo frutífero no sentido de acelerar a universalização do acesso à internet, inclusive para as classes D e E”, relatou Marina Pita, associada do coletivo Intervozes, uma das mais de 30 entidades que compõe a Coalizão.

O PLC 79/2016 continua tramitando no Congresso Nacional, mas enfrenta questionamentos tanto da sociedade civil como do Tribunal de Contas da União (TCU). Uma das críticas é sobre a forma de cálculo de bens reversíveis — patrimônio púbico utilizado pelas empresas de telecomunicações pertencentes à União –, que o órgão avalia girar na casa de R$ 100 bilhões.

Para a Coalizão Direitos na Rede, é necessário discutir um novo marco regulatório para o setor, contanto que se leve em consideração a universalização do acesso à Internet. Como está, o PLC 79/2016 é insuficiente e não atende ao interesse público.

A entidade ainda expôs para o secretário do MCTIC a necessidade de que se avance nas iniciativas legislativas para a utilização dos recursos do Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações (FUST), que poderia encampar a demanda da universalização da Internet.

Em época de perseguição a jornalistas, principalmente por meio de haters na internet, conhecer as boas práticas em segurança digital é um diferencial importante para qualquer profissional que use a rede como meio de trabalho.

Consciente dessa necessidade, a Associação Profissão Jornalista decidiu oferecer aos colegas, às colegas jornalistas e a quem mais se interessar a Oficina de Segurança Digital para Jornalistas.

Em 6 horas de aprendizado, com alguma teoria e muita prática, os participantes desenvolverão habilidades e boas práticas em segurança digital, receberão orientações sobre as melhores ferramentas para comunicação com parceiros – considerando riscos, alternativas e opções – e terão, ao final, maior compreensão sobre segurança e capacidade de adotar práticas que reduzam os riscos, táticas de defesa e o uso de ferramentas digitais.

Você entenderá o que é vigilantismo, coleta massiva de dados e terá uma melhor compreensão das comunicações digitais em geral. Conhecerá as ferramentas seguras para fazer o seu trabalho e traçar estratégias adequadas de segurança para sua navegação.

Responsáveis

Gabriela Nardy e Carla Jancz são as responsáveis pela oficina.

Gabriela Nardy é mestranda em antropologia pela Unicamp, pesquisadora sobre feminismos e movimentos sociais e suas relações com as diversas formas de tecnologias. Ela integra o MariaLab, coletivo hacker feminista.

Carla Jancz – voluntária no MariaLab – é formada em Segurança da Informação, trabalha com segurança digital para o terceiro setor e com treinamento em tecnologias livres, cultura maker, redes autônomas, cultura hacker e criptografia.

Quando?

27 de abril (sábado), das 9h às 16h30, com intervalo para almoço.

Onde

Na sede do Centro de Estudos de Mídia Alternativa Barão de Itararé (Rua Rego Freitas, 454, metrô República, em São Paulo).

Quanto?

A inscrição custa R$ 220,00, à vista ou em 3 parcelas, pelo PagSeguro*. Para associados(as) da Associação Profissão Jornalista (APJor), o valor é de R$ 160,00 à vista. Ou em 4 parcelas sem acréscimo.

Por quê?

Segundo Gabriela Nardy e Carla Jancz, “a internet já foi vista como um espaço democrático, em que todas e todos teriam espaço para falar livremente. Hoje em dia as redes sociais são ambientes onde nos conectamos, divulgamos, trabalhamos, aprendemos, mas também onde somos perseguidos, vigiados e ameaçados. Essa falta de segurança se torna ainda mais marcante com a ascensão de governos pouco democráticos, que perseguem e ameaçam principalmente jornalistas e ativistas de pautas progressistas”.

* Pelo PagSeguro é possível parcelar em até 12 vezes, sendo que a partir da 4ª. Parcela, os encargos financeiros ficam por conta do participante. 

________________

Não deixe de nos contatar, caso tenha interesse. Inscreva-se e o nosso setor de Atendimento fará o contato.

Outras informações em Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. ou (11) 99-916-1297 (Vivo e WhatsApp).

Programação completa https://bit.ly/2Oio4gl

Assista em tempo real ao Seminário Os desafios da comunicação nas administrações públicas, direto de Salvador, na Bahia. Serão dois dias (29 e 30 de novembro) de muita troca de ideias sobre as experiências e os desafios da comunicação nos governos progressistas, reunindo debatedores de peso de todo o país. Você pode acompanhar pelo Canal do Barão no YouTube (com reprodução em nosso site) ou direto na página do Barão no Facebook: facebook.com/baraomidia.

A cultura para a emancipação humana

• Célio Turino – ex-secretário de Cidadania Cultural do MinC;
• Ivana Bentes – diretora e professora da Escola de Comunicação da UFRJ;

- Coordenação da mesa: Mauro Lopes

Assista em tempo real ao Seminário Os desafios da comunicação nas administrações públicas, direto de Salvador, na Bahia. Serão dois dias (29 e 30 de novembro) de muita troca de ideias sobre as experiências e os desafios da comunicação nos governos progressistas, reunindo debatedores de peso de todo o país. Você pode acompanhar pelo Canal do Barão no YouTube (com reprodução em nosso site) ou direto na página do Barão no Facebook: facebook.com/baraomidia.

A cultura para a emancipação humana

• Célio Turino – ex-secretário de Cidadania Cultural do MinC;
• Ivana Bentes – diretora e professora da Escola de Comunicação da UFRJ;

- Coordenação da mesa: Mauro Lopes

O futebol das mulheres ganha o planeta como nunca antes em sua história

Grande dia!
Grande dia de verdade e não o externado pelo boçal que ocupa desastradamente o posto mais alto do executivo brasileiro.

Hoje é um grande dia porque tem início a oitava edição da Copa do Mundo de Futebol Feminino! A anfitriã França abre a competição diante da Coréia do Sul a partir das 16h00 – horário de Brasília – e além da ansiedade pelo ponta pé deste jogo temos muito o que comemorar em termos de visibilidade.

Por Lu Castro, especial para o Barão de Itararé

Há pouco mais de dez anos, assumi uma responsabilidade pessoal: utilizar a tecnologia em favor da visibilidade das mulheres que faziam a bola rolar pelos campos da cidade. Minha primeira busca foi no Juventus, formador por excelência, e sua técnica Magali.

O material, publicado no antigo portal OléOlé, já se perdeu, mas, de lá para cá, perda deixou de ser sinônimo de mulher dentro e fora das quatro linhas.

Avançamos. E os contatos com os principais agentes da modalidade se intensificaram. E espaços alternativos começaram a surgir com mais força na busca pelo tratamento igualitário do futebol de mulheres e homens – ao menos no que diz respeito ao que se noticia, inicialmente.

Observando a movimentação da imprensa nacional, noto um grande cuidado ao tratar do assunto, diferente de muitos outros anos. Acredito que esteja diretamente relacionado ao número de mulheres presentes em redações esportivas, algo que apontei como imprescindível para a melhora na comunicação do futebol de mulheres em mídias tradicionais.

Avançamos. E avançamos noutros tantos aspectos do futebol, inclusive na gestão, onde o trabalho realizado pela ex capitã da seleção, Aline Pellegrino, como diretora de futebol feminino da Federação Paulista de Futebol, tem ampliado os espaços para trabalhar as categorias de base.

Avançamos. A seleção brasileira tem uma estrutura que nunca teve. A seleção brasileira conta com uniforme próprio e não sobra do uniforme masculino. A seleção tem seus jogos transmitidos de modo inédito em tevê aberta de alcance nacional. A seleção só não tem uma coisa: técnico.

E isso, car@s, é algo que me preocupa tanto quanto me alegra: o fato de termos a Copa do Mundo mais noticiada de todos os tempos.

Diante de uma seleção nacional que caiu no ranking FIFA nos últimos anos, sob o comando de alguém que não tem perfil para comandar o selecionado nacional em nenhuma circunstância – e já o demonstrou em outras ocasiões - que carrega para a França nove derrotas consecutivas, minha expectativa é de termos que reforçar nosso discurso e argumentar como nunca que o que eles (os espectadores desconhecedores da realidade do futebol feminino) estão vendo não é bem isso.

Num momento, em que os olhos do mundo estão voltados para a amarelinha tão conceituada um dia, mostrar um jogo baseado apenas na garras das nossas habilidosas e talentosas atletas, tem sido o protagonista dos meus pesadelos.

Tudo o que lutamos para construir – atletas, gestores, comissões técnicas sérias, jornalistas interessados no assunto – pode sofrer um revés de opinião pública se o coletivo não estiver bem arrumado. E nós sabemos que não está.

Há poucas horas da abertura do mundial mais importante de todos os tempos, vou da euforia e ansiedade que mal me deixou dormir a testa constantemente franzida de preocupação.

Avancemos pois, nossas atletas se entregarão e é muito provável que nos jogos do Brasil o que avance é o nível da gengibrinha pra dar conta da montanha russa de emoções.

Uma mulher registra um boletim de ocorrência acusando um homem por estupro. Em depoimento, descreve que o parceiro teria ficado subitamente agressivo e usado da violência para praticar relação sexual sem seu consentimento. O laudo médico, anexado ao caso, apresenta sinais físicos de agressão e estresse pós-traumático. Em resposta, o homem acusado desmente a história publicamente, argumentando que o episódio não passou de “uma relação comum entre um homem e uma mulher”.

Por Mariana Pitasse, no Brasil de Fato

Esse poderia ser apenas mais um entre os cerca de 135 casos de estupro registrados por dia – que equivalem a cerca de 10% a 15% dos abusos que acontecem diariamente no Brasil, segundo levantamento do Atlas da Violência de 2018. Mas não é um episódio qualquer. O homem acusado é Neymar, um dos jogadores de futebol mais bem pagos do mundo. Por isso, o caso tomou as páginas dos jornais dentro e fora do Brasil nos últimos dias, com ampla repercussão nas redes sociais.

Após a denúncia registrada contra o jogador do Paris Saint-Germain na última sexta-feira (31), a acusadora foi exposta de diferentes formas – pela mídia comercial e pelo próprio Neymar. Para "sensibilizar" a opinião pública, o jogador postou um vídeo em suas contas do Instagram e do Facebook em que diz ser inocente. Ao tentar “comprovar” sua versão dos fatos, divulgou conversas que manteve com a mulher pelo Whatsapp, assim como fotos e vídeos íntimos da acusadora. A ação fez com que o jogador passasse a ser investigado também pelo vazamento de fotos íntimas.

A divulgação do conteúdo não foi um equívoco e, sim, uma escolha. Neymar preferiu cometer um crime virtual para tentar dialogar com pessoas que concordam com a ideia de que uma mulher que envia fotos íntimas pela internet é necessariamente "aproveitadora" e "interesseira".

O que está sendo ignorado nessa leitura rasa proposta pela defesa de Neymar é que a intimidade exposta para milhões de pessoas não diz nada sobre a acusação de estupro. Como lembra a antropóloga Débora Diniz, o que circula é a versão de um homem poderoso que se ancora em elementos do fascínio pelo sexo e na desqualificação fácil das mulheres vítimas de violência sexual. E essa é também a narrativa em que tem se amparado a cobertura da mídia comercial sobre o caso. Mesmo sem afirmar que estão assumindo uma posição, jornalistas passaram o recibo de que a acusadora está tentando se aproveitar do “menino” Neymar.

Entre as reportagens que tomaram conta do noticiário brasileiro nos últimos dias, a matéria Jornal Nacional – no dia seguinte à divulgação das conversas – foi a que mais repercutiu. Ela traz um panorama sobre o caso e ressalta o depoimento de um ex-advogado da mulher afirmando que o estupro não aconteceu. A reportagem também divulga o nome da nova advogada de defesa da mulher, ainda que ela não tenha dado autorização para isso, desrespeitando um princípio básico do jornalismo: a garantia de sigilo das fontes. Na mesma reportagem, sem mostrar as fotografias e vídeos do corpo da mulher, divulgados por Neymar, são expostas frases soltas da conversa em que o jogador aparece enredado em um jogo de sedução.

Em outra reportagem, desta vez publicada no Jornal de Brasília, a mulher tem a vida financeira e judicial revirada. O texto aponta que ela tem uma ação de despejo em seu nome, após três meses de aluguel atrasado, e que acumula dívidas. A reportagem também disponibiliza o nome completo da mulher e detalha suas contas a pagar.

A invasão de privacidade promovida por jornalistas com a justificativa de mostrar a “real versão dos fatos” não terminou por aí. Em reportagem publicada pelo jornal O Globo, a família da mulher é procurada e sua mãe é informada sobre o caso a partir da abordagem da repórter. Dias depois, uma matéria veiculada pelo portal UOL evidencia que o filho da mulher, de cinco anos, está sofrendo com chacotas na internet e na escola por conta da repercussão do caso.

Mais do que a intimidade revirada e exposta em fotos e vídeos íntimos e informações detalhadas sobre sua situação financeira, a mulher teve sua versão dos acontecimentos contestada a todo tempo, de forma pública, inclusive por seu ex-advogado. Mas isso não é levado em consideração, porque tudo parece legítimo quando a motivação é “dar o furo” de reportagem. Na lógica do jornalismo, é necessário apresentar respostas antes mesmo das investigações. Tudo isso com base na “isenção e na imparcialidade”, ainda que à serviço da versão do jogador milionário…

Neymar, por outro lado, segue a rotina de treinos, jogos e compromissos publicitários, blindado por seu estafe. A presença dele está confirmada no jogo amistoso do Brasil contra o Qatar nesta quarta-feira (5).

Paris Saint-Germain e Seleção Brasileira se esquivam de comentar o caso. Familiares e amigos se pronunciam publicamente garantindo que ele é inocente e vítima de uma armadilha. A preocupação maior parece vir dos patrocinadores: ao menos quatro das 10 marcas manifestaram incômodo com o caso, segundo levantamento da Folha.

Comprovada ou não a acusação, a sentença já está dada: a mulher é sempre a ponta vulnerável. Não à toa, segundo o Atlas da Violência, são cerca de 1300 estupros por dia no país – dos quais apenas 135 são notificados.

*Jornalista, editora do Brasil de Fato no Rio de Janeiro e doutoranda em Antropologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF).

Edição: Daniel Giovanaz