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O presidente da Bolívia, Evo Morales, informou que logo depois de ter “enviado agentes da inteligência” para dar orientações à oposição ao seu governo, em julho deste ano, a Embaixada dos Estados Unidos decidiu apelar, financiando obras em troca de votos contra o Movimento Ao Socialismo (MAS) nas eleições do próximo domingo, 20 de outubro.

Por Leonardo Wexell Severo, de La Paz, na Bolívia*

“Na semana passada eu convoquei o Encargado de Negócios da Embaixada dos Estados Unidos, apresentei os documentos, como este carro da Embaixada tem ido às comunidades dos Yungas de La Paz para oferecer pavimentação e asfalto, sempre e quando não apoiarem Evo”, denunciou o presidente.

Na oportunidade, o líder boliviano que postula um novo mandato para o período 2020-2025, apresentou as provas da chantagem ao encarregado de negócios da delegação diplomática norte-americana, Bruce Williamson. Conforme o presidente, Williamson teria se declarado surpreso pela informação e se comprometido a “não se meter em temas eleitorais”. “Espero que não esteja fazendo isso”, alertou Evo.

Apesar das alegações do representante estadunidense, o fato é que desde o princípio do ano, o governo boliviano tem demonstrado como a representação ianque está empenhada em um “complô midiático”, “com mentiras montadas” contra seu governo para que a oposição tire dividendos eleitorais. Não se conformam, assinalou o presidente, que a página do neoliberalismo, do mando das transnacionais e das oligarquias tenha sido virada, e querem voltar atrás. “O que fizemos foi refundar a Bolívia, acabamos com o Estado colonial e criamos um Estado plurinacional”, apontou.

Nesta semana, o presidente alertou que frente a uma possível vitória do MAS, os chamados “Comitês Cívicos” de La Paz, Cochabamba e Santa Cruz, junto a reduzidos setores militares, estão planificando um “golpe de Estado”. Ele disse que apresentará as provas para os observadores eleitorais da Organização dos Estados Americanos (OEA) e da União Europeia (UE) que acompanharão o pleito. “Tenho gravações, querem queimar a Casa Grande do Povo. Se denunciamos, denunciamos com provas”, sublinhou.

“Alguns grupos estão dizendo que se Evo ganha vamos desconhecer [o resultado], se ganha Evo já tem planificado, quero que saibam, querem fazer um golpe de Estado. Depois falam de democracia, depois nos acusam de ditadura, aí estão os grupos golpistas”, condenou o presidente.

Laboratórios em Washington

Passei por Santa Cruz e Cochabamba e desembarquei na manhã desta terça-feira em La Paz. O fato é que faltando poucos dias para as eleições, a oposição oscila entre a farsa e a mentira sobre suas próprias propostas, enquanto usa e abusa da mídia para fazer ecoar problemas imaginários e reais, potencializados por lupas e microscópios trabalhados abertamente desde os laboratórios em Washington.

Desta forma, o decreto presidencial que atendeu uma reivindicação dos pequenos agricultores e permitiu ampliar sua fronteira agrícola a partir da queima de alguns hectares foi transformado em “fósforo para a fogueira” do incêndio que fez arder a região da Chiquitania e do Amazonas.

Para os adeptos dos grandes latifúndios, a culpa foi o “transbordamento de propriedades devido aos assentamentos aprovados pelo Instituto Nacional de Reforma Agrária (INRA)”.

A “oposição verde”, que tudo fez para adiar a construção de uma rodovia que integre o país – possibilitando ir aos lugares mais remotos, onde os bombeiros enfrentaram enormes dificuldades para chegar – foi invisibilizada. Nada sobre a sabotagem ao projeto de lei de Proteção de Desenvolvimento Integral e Sustentável do Território Indígena Parque Nacional Isiboro Sécure (Tipnis), finalmente aprovado pela ampla maioria governamental. O vale tudo era mesmo para “tirar o índio”, sem opção, “sim ou sim”.

A chegada da seca e a multiplicação dos focos de incêndio que, diferentemente do Brasil, do Peru ou do Paraguai, recebeu atendimento imediato, com a mobilização de mais de quatro mil efetivos militares e voluntários, apoiados pelos dois maiores aviões-bombeiros do mundo – um americano e um russo – foi olimpicamente ignorada ou desprezada por jornais, emissoras de rádio e televisão partidarizadas.

Assim, a mídia age da mesma forma que a tupiniquim, quando vomitou veneno contra a Venezuela, culpando o país vizinho por ter poluído e contaminado nossas praias com o vazamento de petróleo. Cinicamente, Bolsonaro chegou a ir além, taxando inclusive de “criminoso” e premeditado pelo povo bolivariano, o ocorrido.

Para a imprensa privada do país de Tupak Katari, Bartolina Sisa, Apiaguaiqy Tumpa e Bruno Raqua, quando há vitórias expressivas contra o fogo, acabam reduzidas a serem “fruto da chuva”. Quando há derrotas, os aviões não estavam onde deveriam estar. Quando um bombeiro morre em combate contra as chamas, a culpa é de Evo. Simples assim.

Em um comício realizado recentemente em Santa Cruz de la Sierra, ao dispararem pelo microfone “Evo ditador, Evo assassino”, várias das lideranças oposicionistas conclamaram a multidão – sim, eram muitas, foram transportadas em caravanas de municípios próximos – a simplesmente desobedecer o resultado das urnas.

Direitistas e oportunistas ligaram o cronômetro do golpe, denunciando de antemão uma hipotética “fraude eleitoral” e defendendo a bandeira da “independência” do Estado.

A mesma toada com que pintaram “Evo vai morrer” nas paredes da capital camba, em 2008, na tentativa de separar, com armação e financiamento norte-americano, Santa Cruz, Beni, Pando, Tarija e Chuquisaca, os estados da “Meia lua”. A mesma pegada com que destruíram a sede da Coordenação de Povos Étnicos de Santa Cruz há dez anos, e a Empresa Nacional de Telefonia, recém-nacionalizada, deixando prejuízos superiores a US$ 110 milhões e colocando o país à beira da guerra civil.

Casualmente, naquele momento a delegada presidencial em Santa Cruz era Gabriela Montaño, que enfrentou com invulgar altivez o ódio, o racismo e a violência sintetizada na imagem – que correu o mundo – da bandeira com a suástica levantada por um membro da União Juvenil Cruzenhista. Se Gabriela então condenava os vínculos dos oligopólios de mídia, concentrados nas mãos de poucas famílias da região, grandes proprietárias de terras e com estreitos laços com o capital financeiro e as transnacionais, hoje, como ministra da Saúde, se vê frente a quase dois meses de uma “greve” totalmente inflada, na qual cerca de 20% dos médicos se alinha com o mercenarismo e contra a implantação do Sistema Único de Saúde (SUS).

Para Porfírio Cochi, pesquisador e cientista social de El Alto, cidade vizinha a La Paz, com mais de um milhão de habitantes, e considerada a “mais combativa do país”, é essencial resgatar a memória histórica para isolar os entreguistas. “El Alto foi quem sempre impulsionou o processo de mudanças a partir de uma visão boliviana na que defendeu uma agenda de nacionalização e industrialização dos recursos naturais, de garantir direitos para homens e mulheres, de uma Assembleia Constituinte, de fortalecimento das autonomias. Estes foram pontos chaves que compuseram a nossa agenda de outubro de 2003, quando expulsamos a Gonzalo Sánchez de Losada, que teve de sair fugido para os Estados Unidos. Seu vice, Carlos Mesa, que agora é o principal candidato da oposição, quer que nos esqueçamos desta verdade, mas é prisioneiro de seu passado. Esta é a razão que suas intenções de voto têm um limite, porque sua trajetória o condena”, ressaltou.

*O Coletivo de Comunicação Colaborativa ComunicaSul está cobrindo as eleições na Bolívia, Argentina e Uruguai com o apoio das seguintes entidades: Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, Hora do Povo, Diálogos do Sul, SaibaMais, Fundação Perseu Abramo, Fundação Mauricio Grabois, CTB, CUT, Adurn-Sindicato, Contee, CNTE, Sinasefe-Natal, Sindicato dos Metalúrgicos de Guarulhos e Região, Sindsep e Sinpro MG. A reprodução é livre, desde que citados os apoios e a fonte.

A presidenta do Senado da Bolívia, a jovem Adriana Salvatierra, de 29 anos, afirmou que mais do que uma disputa eleitoral, as eleições do próximo dia 20 de outubro em seu país serão “um marco”, “refletindo as tensões vividas nos processos da América Latina entre o aprofundamento da democracia política e econômica ou as limitações que pode deixar a administração de um novo modelo”. Na avaliação da senadora, há uma intensa disputa política e ideológica em curso, que “não é somente uma batalha que tem que ser dada com os meios de comunicação, mas também desde o sistema educativo”. Em entrevista exclusiva dada à nossa reportagem em Santa Cruz de la Sierra, a líder boliviana lembrou que o “período neoliberal, de 1985 a 2005, largou o Produto Interno Bruto com US$ 9,5 bilhões, enquanto este ano, sob o comando do presidente Evo Morales, será encerrado com um PIB de US$ 43 bilhões. Salvatierra frisou que isso só foi possível pelo “resgate da soberania nacional”, que “passou pela recuperação do controle dos recursos naturais estratégicos, pela recuperação das empresas do Estado que desde 1985 haviam sido privatizadas e capitalizadas”. Logo depois, progressivamente, assinalou, “com os excedentes gerados a partir de três grandes áreas, a grande indústria, a mineração e os hidrocarbonetos, dinamizamos a economia, o processo de substituição de importações e fortalecemos o mercado interno”. São esses números, enfatizou, que tornam possível “que sigamos sendo pelo sexto ano consecutivo o país que mais cresce na América Latina, com uma média de 4,5% do PIB”. Boa leitura!

Por Leonardo Wexell Severo, de Santa Cruz de la Sierra, para o ComunicaSul*

Na sua avaliação, qual a importância da juventude para a continuidade e o aprofundamento deste processo?

A juventude terá uma importância central, na medida em que seja uma geração que possa continuar apostando nos grandes pilares deste processo de transformação, deste processo de mudanças. Eu vejo que existem jovens que têm um pensamento bastante conservador, que naturalizaram as grandes transformações que se vivem no país. São jovens para quem o comum da sua vida é o acesso à educação, o acesso aos serviços públicos básicos, à moradia, que os veem como direitos garantidos, mas que provavelmente não tiveram contato com a luta que houve por detrás destas conquistas e que hoje são desafiados por outras coisas, por demandas mais vinculadas ao urbano, ao meio ambiente e com outras sensibilidades democráticas. Isso só é possível porque têm garantido neste momento elementos chaves que os nossos pais, os nossos avós não tiveram, principalmente o acesso à educação, à democratização da riqueza, às condições que tornam a vida digna. Então, se falamos de uma juventude que tem arraigada em si mesma direitos conquistados, princípios que foram centrais em nossa revolução democrática e cultural, falamos de uma juventude que pode garantir a continuidade e o aprofundamento deste processo. Porém existem correntes internacionais que não vão neste sentido e pelas quais os jovens estão sendo permanentemente influenciados, e das quais não sei se são vítimas ou sujeitos de um cerco ideológico.

Há uma intensa luta política e ideológica por detrás destas diferentes visões de mundo. Em relação a este ponto de vista, crês que o processo poderia ter feito ou possa fazer mais, particularmente no que diz respeito ao papel dos meios de comunicação?

Acredito que cometemos erros, inclusive do Estado, no processo educativo e na interpretação dos nossos próprios resultados. O professor argentino Ricardo Foster diz que temos nos equivocado no momento de interpretar o impacto das políticas públicas e o impacto do processo de transformação. Por exemplo, ele dizia: nós, em nossos governos, seguimos avaliando o ser humano a partir da capacidade de consumo e não a partir dos direitos conquistados. Avaliamos se podes comprar um televisor, quanto tens na tua conta bancária, se tens ou não acesso à educação desde a perspectiva de um serviço e não de um direito. Ao haver dado um enfoque mais administrativo às conquistas sociais temos esvaziado o conteúdo ideológico existente por trás disso.

Um indígena não tinha facilmente acesso à educação porque era uma escola com parede de barro e teto de palha, ou porque ficava a três quilômetros, ou porque seus professores não necessariamente tinham um grau educativo que lhes permitisse melhorar seu nível de instrução.

Todas essas melhoras foram avaliadas desde a capacidade de consumo e não desde os direitos conquistados e isso desmobiliza. Desmobiliza porque naturalizava as grandes transformações. Então ficou normal para o jovem, sempre foi assim.

Na verdade, vemos milhares de jovens serem os primeiros a concluírem o ciclo básico de estudos na sua família, não no seu pequeno núcleo, mãe e pai, mas até atrás, historicamente. Quantos jovens neste governo são os primeiros profissionais, os primeiros a conquistar um diploma universitário, o mais distante que as gerações anteriores avançaram? E, claro, naturalizando, não se mede a responsabilidade por detrás de tornar-se o orgulho familiar.

Não é somente uma batalha que tem que ser dada com os meios de comunicação, mas também desde o sistema educativo. Quando o sistema educativo ocidentaliza os parâmetros a partir dos quais se avalia o acesso à educação, não lê a si mesmo, sua própria história para encontrar as respostas, a interpretação adequada ao contexto atual que estamos vivendo. Creio que há uma mescla de interpretações em relação aos meios de comunicação, em que na realidade o equilíbrio não chegou, como no caso argentino, onde uma lei tentou estabelecer critérios. Na Bolívia, neste momento, a situação está bem para os meios de comunicação, como está bem para os bancos, para o empresariado privado, para a senhora que tem sua tenda na esquina ou para o sindicalista, vai bem para todos. Porém, por trás disso há um processo de naturalização e temos de combater não somente o aspecto comunicacional, como do ponto de vista educativo. Qual é o sistema de ideias que se converte no marco interpretativo dos direitos conquistados até o momento?

Estava lendo um conto do começo do século passado que narra o enorme preconceito em relação à participação feminina dentro das minas, e isso numa economia historicamente mineradora como a boliviana significava condenar as mulheres a ser apêndice, a isolar, a anular metade da população. Como avalias as conquistas obtidas de 2006 até aqui?

As mulheres tiveram participação destacada no processo boliviano: Juana Azurduy, nas guerrilhas pela independência, Ana Bárbara, nos movimentos independentistas aqui em Santa Cruz, desde o movimento indígena também, Bartolina Sisa, lutando para eliminar a exploração que existia no sistema colonial. Acontece que quando é assinada a ata de independência não havia uma única mulher, um só afrodescendente do exército dos pardos livres de Ignacio Warnes ou um só indígena. Então nos damos conta de que quando se consolida a independência e se começa a construir a República da Bolívia, todos esses setores que participaram do processo de libertação ficam excluídos. O mesmo aconteceu com as mulheres. Na imagem que registra o ato de independência não há uma só mulher, indígena, camponês ou afrodescendente. São os mesmos trajes e gravatas, ao lado do poder da igreja, obviamente.

A primeira vez que as mulheres votaram foi em 1949, a primeira vez que fizemos exercício do voto. Foram muitas décadas em que as mulheres ficaram à margem, da mesma forma que os camponeses e indígenas. Eram os tempos do voto qualificado, dos que tinham propriedades, dos que sabiam ler e escrever, dos que tinham certa relevância na sociedade, deixando a grande maioria excluída.

Com a revolução do Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR), em 1952, por decreto supremo se estabelece o voto universal, porém a mulher tinha um século de atraso na participação, mas não só, na construção do poder, na conquista do poder político, na reprodução do poder político. A isso se soma que somente em 1999 se falou de dar uma cota de participação à mulher que tenha minimamente 30%, então se procuravam mulheres simplesmente para cumprir formalmente os espaços de representação.

Então na década de 90 as mulheres bolivianas já tinham garantido 30% de participação no parlamento?

Teoricamente. Houve até um escândalo na época de um candidato travesti. Isso porque quando medes desde a perspectiva histórica vê que a mulher esteve relegada em tudo o que diz respeito à disputa do poder político. Em 2009, com a nova Constituição Política do Estado se estabelece na nossa norma principal e fundamental do país, que a equidade de gênero é um princípio. E a esse princípio constitucional se fizeram ajustes, produto da mobilização das mulheres, mas também da vontade política. Porque Evo Morales, desde que era dirigente sindical tinha esta compreensão e este compromisso.

É reconhecido o compromisso histórico do presidente com a luta das mulheres.

Desde muito cedo Evo estimulava e impulsionava para que a lista do Movimento Ao Socialismo (MAS), especialmente no trópico de Cochabamba, fosse paritária entre homens e mulheres. Ou seja, há uma construção por detrás disso. Foram constitucionalizados os princípios de paridade e equidade de gênero e no período constitucional seguinte, somente em 2014, conseguimos uma paridade efetiva: 51% da Assembleia são mulheres, entre deputadas e senadoras. A partir de então começaram aflorar outros tipos de preocupações.

A mulher disputa metade da representação política e começa a ser vítima do assédio e da violência. Há casos gravíssimos em que se chegou inclusive a assassinar mulheres vereadoras, a incendiar a casa de prefeitas aqui em Santa Cruz. São práticas violentas que buscam amedrontá-las no serviço da representação. Aí se protege a mulher com a lei contra o assédio e a violência política.

Como este avanço na representação política tem se traduzido em melhoras efetivas na situação da mulher em geral?

Em 2015 tínhamos 15,5% dos títulos agrários nas mãos de mulheres, agora são 46% e isso é super importante porque com isso também se modifica a estrutura de propriedade, pelo vínculo que tem a mulher com a terra, com a produção. Se prioriza o subsídio às mulheres que sejam mães, todas ganham. O Estado dá atenção à mulher. Há o Bônus Juana Azurduy, os planos de moradia especial para as mães solteiras.

Como funciona o bônus Juana Azurduy?

Há um montante econômico que é distribuído durante o acompanhamento do pré-natal, possibilitando que as mulheres possam comprar vitaminas e alimentos, melhorando a qualidade da gravidez e permitindo ao Estado um controle periódico. O que antes era um privilégio das mulheres que tinham um trabalho formal ou que eram esposas, hoje é algo que beneficia a todas. Isso também é uma conquista.

Começamos a discutir a partir do movimento feminino como enfrentar o problema da desigualdade salarial entre homens e mulheres, trabalhar a questão da corresponsabilidade da casa, e como o Estado possa contribuir para que realmente a mulher seja independente e possa construir o seu próprio destino.

Esta é uma das principais preocupações que têm o presidente Evo e que temos avançado muito. É algo produto da luta das mulheres, óbvio, mas também produto da vontade política, porque quando olhas para o mundo, apenas dois países têm resultados similares ao nosso: Cuba, a partir das eleições legislativas recentes, e Ruanda. Porém se olhas Paraguai, Brasil, Argentina, Chile, não há representação paritária de mulheres. E pior ainda, os organismos internacionais falam como se tivesse que haver uma espécie de movimento ascendente da história. Assim, em cada apresentação das Nações Unidas dizem: país xis, não vou citar nenhum em especial, antes tinha 45 parlamentares e hoje tem 53. Que orgulho. Expõem como se fosse um processo ascendente, ao que todos transitamos naturalmente, sem avaliar que há uma profunda disputa ideológica. E processos que retornam para o conservadorismo, como o Brasil, demonstram que o que temos conquistado nestes 13 anos de governo não pode ser perdido, que um patrimônio das mulheres bolivianas como a paridade está em jogo, que a luta deve estar acompanhada de um projeto político de transformação. Se Bolívia e Cuba alcançamos a paridade não é somente pela luta feminina, mas por uma revolução que entendeu que as mulheres, que metade de cada povo deve ter direito à metade da sua representação.

Como vês a importância da ampliação do investimento na educação pública – que o governo Evo vem realizando ao longo dos anos – e a relação da injeção de recursos na formação técnico-científica para o processo de industrialização e a libertação nacional?

Veja, a Bolívia, depois de Cuba, é o que mais investe na América Latina em educação: 8% do nosso Produto Interno Bruto. Antes a educação era considerada um serviço ao qual quem pagava tinha acesso e quem não pagava era privado ou adquiria em condições sumamente precárias. Portanto o primeiro que necessitamos fazer foi que num país onde 10% da população era analfabeta todos soubessem ler e escrever. Não podíamos falar de democracia em um país em que 10% da população não tinha acesso a um direito como esse. Para nós o conceito de democracia é algo muito mais profundo, não é somente ir às urnas a cada período de cinco anos. É um pouco o que dizia Samir Amim sobre o processo de democratização da riqueza, consiste em construir condições de igualdade para todos. Porque não podemos falar de democracia se alguns podem pagar o direito à saúde e outros têm que morrer nos corredores esperando serem atendidos. Não podemos falar de um país com centenas de milhares de analfabetos onde as crianças da área rural necessitavam caminhar horas para chegar à escola e provavelmente só tinham acesso à educação primária. Nossa tarefa principal nos primeiros anos de governo foi dar às crianças escolas em que elas e seus cadernos não ficassem ensopados quando chovesse, que ficassem próximas das suas comunidades, que seus professores tivessem um grau real de formação que lhes possibilitasse adquirir o mesmo nível de instrução de outras crianças. Hoje tens escolas no campo muito mais bonitas do que as privadas de quando eu era estudante; unidades educativas públicas muito maiores do que os colégios privados, e isso marca a melhoria na qualidade do acesso à educação. A segunda questão é o estágio da desnutrição infantil, em que tivemos avanços, mas ainda falta.

Em que pé está o combate à fome, especificamente?

Em um país onde 60% da população era pobre e 38% extremamente pobre conseguimos reduzir a pobreza moderada para 35% e a extrema para 15%. E precisamos falar de uma criança que vai à escola e está desnutrida. É necessário garantir aos professores um nível de instrução adequado. Hoje todos os professores têm acesso a um computador, são licenciados em pedagogia, há mais e melhores escolas e condições de ensino. Estas eram as questões objetivas e materiais que tivemos de melhorar.

E daqui para frente, quais são os novos desafios?

Os desafios deste novo período são distintos, porque entra em discussão o processo de industrialização do país, o papel que passará a jogar. E te colocas o desafio de implantar o bachalerado técnico-humanístico para que o jovem assim que conclua o curso tenha acesso a uma fonte de trabalho. Estamos progressivamente implementando este bacharelado com laboratórios, dotando de sete ou oito especialidades, dos equipamentos necessários para que os jovens tenham melhores condições de ensino.

Aonde seguimos tendo conflitos é no sistema educativo, que ainda não responde aos desafios da industrialização do país. Os jovens provavelmente sabem que estamos industrializando o lítio, que estamos industrializando o ferro em Mutún para obter o aço, que estamos industrializando o gás e que hoje temos derivados de gás, produtos da industrialização, com a Bolívia caminhando para converter-se em coração energético da América Latina.

Assim começa a ser um pouco desesperante que o sistema universitário ainda não invista todos os seus esforços para preparar os jovens que vão assumir a nova Bolívia industrializada, e isso preocupa. Mas estamos neste desafio também, é parte dos novos desafios.

Quando estive aqui em Santa Cruz em 2008 documentei a ação de uma elite fascista e seu profundo ódio “contra o índio”, alinhada abertamente com as propostas do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial, e que se mantém na oposição, manifestando sua completa aversão ao processo. Como se sustenta esse setor?

Acredito que todos foram beneficiados pelo crescimento econômico, porém ainda têm latente o medo de que imponhamos situações de privilégio de classe, de identidade regional, não gosto desta palavra racial, não creio que seja a palavra adequada. Acredito que as famílias que estiveram acostumadas a deter o poder têm ainda o medo de que outros possam se igualar a eles e que para isso afetem seus privilégios. No fundo não acredito que em 13 anos consigamos superar essas coisas enquanto sociedade. Sabemos que se avançou, mas são aspectos muito mais lentos. Nesse período, sim, foi como se colocássemos uma mordaça na boca daqueles que adjetivavam de forma muito simples, com o racismo, o regionalismo, o desprezo pelo pobre, porém faltou transformar a cabeça, faltou ainda mudar o sistema educativo e isso faz com que esse reacionarismo sobreviva no mais íntimo das pessoas. Isso subsiste ao ponto de quando se exacerbam posições no seio da sociedade, por estar tão à flor da pele, tão interiorizado, surgem na forma de um conflito regional. Isso demonstra que ainda há um caminho a ser percorrido, que ainda falta muito.

Do ponto de vista cultural o governo do MAS tem investido numa visão de mundo mais humanista, mais coletivista?

Sim, obviamente, o simples fato de que hoje uma criança numa escola pública esteja obrigada a compartilhar com outra de uma condição socioeconômica mais baixa faz parte deste processo educacional.

Qual o papel da industrialização para a consolidação da soberania nacional?

Primeiro é preciso compreender que lutar pela soberania passou por recuperar o controle dos recursos naturais estratégicos, recuperar as empresas do Estado que desde 1985 haviam sido privatizadas e capitalizadas. E também recuperar o papel do Estado na economia porque o período neoliberal implicou a redução da participação estatal nas diferentes áreas, por isso não brindava educação, saúde, serviços. Um período em que os trabalhadores estavam expostos às imposições do mercado, o que incidia na piora das condições de vida.

O período neoliberal, de 1985 a 2005, nos deixou com um Produto Interno Bruto de US$ 9,5 bilhões. Este ano estamos encerrando com US$ 43 bilhões, multiplicamos mais de quatro vezes o PIB.

No início foi preciso colocar a casa em ordem, recuperar a soberania, recuperar a participação estratégica do Estado. Depois, progressivamente, com os excedentes gerados a partir de três grandes áreas, a grande indústria, a mineração e os hidrocarbonetos, dinamizamos a economia, o processo de substituição de importações e fortalecemos o mercado interno.

Isso implicou também em fixarmos o tipo de câmbio. A moeda nacional em relação ao dólar está desde 2013 em 6,96 bolivianos. Tudo isso contribuiu para que sigamos sendo pelo sexto ano consecutivo o país que mais cresce na América Latina, com uma média de 4,5%, 4,6% do PIB.

Com a recuperação, começamos a industrialização de áreas estratégicas da economia como o setor de hidrocarbonetos, impulsionar a indústria do lítio, impulsionar a indústria do aço, impulsionar uma relação mais equilibrada com a agroindústria. E hoje em dia isso é possível porque a fábrica de ureia e amoníaco custou US$ 980 milhões. É possível porque tivemos um Produto Interno Bruto superior a US$ 40 bilhões em 2018, mas não teria sido possível em 2005, pois uma indústria desta magnitude teria comido 10% do PIB.

A industrialização é viável porque temos uma economia melhor, que cresce e que pode ampliar investimentos. Estamos agora em um debate a respeito das parcerias público-privadas, sobre o pêndulo que sempre existiu nos investimentos, entre maior participação e concentração do Estado na economia ou a liberação. A ideia são alianças com o setor privado sob a direção estratégica e a planificação do Estado e dessa forma exercer a soberania.

Fale um pouco sobre a redistribuição de riqueza possibilitada com a aplicação do décimo quarto salário, pago aos trabalhadores todas as vezes que a economia do país alcança um crescimento de 4,5% do PIB.

Temos a repartição de riquezas como um princípio e, naturalmente, existem problemas práticos para a sua implementação. Nossa economia ainda tem uma forte base informal, há pequenas empresas que enfrentam problemas para pagar o décimo quarto salário. Então temos como um princípio, mas que tem suas particularidades no momento de materializar-se como um direito efetivo para todos. Por isso, neste ano, tivemos que estabelecer como teto para o pagamento do décimo quarto salário os que recebem até 15 mil bolivianos mensais (US$ 1.915). Isso contribuiu para democratizar a riqueza, crescer e dinamizar o mercado interno, para fortalecer preferencialmente a indústria nacional.

Temos uma eleição no próximo dia 20 de outubro em que candidatos como Carlos Mesa escondem abertamente seu vínculo com um passado reacionário e sangrento e seus atuais compromissos com um projeto de dilapidação e desconstrução do que foi conquistado. O que fazer?

O primeiro é mostrar para o eleitor que o que está em jogo não é a administração do Estado tão somente. Votamos por modelos e se pode avançar ou retroceder. Exemplo disso são as eleições da Argentina e do Brasil. Ou quando não se tem um projeto político suficientemente sólido para dar continuidade, como ocorreu no Equador. Então não é algo tão simples como o rosto de quem vai ser o próximo presidente, mas quantas famílias podem ter que deixar de comer, quantas famílias podem ficar sem casa, como na Argentina, ou quantas famílias podem ficar sem poder pagar a luz, a água, o telefone… Quantas famílias podem cair na pobreza caso se decida por uma mudança de modelo econômico. E é isso que precisamos valorizar. De todas as maneiras esta eleição é como um marco, um momento muito importante porque terminará de enterrar partidos tradicionais que não obtenham o percentual mínimo.

Há uma clara opção entre dois caminhos: avançar ou retroceder.

São as tensões que sempre estão vivendo os processos na América Latina, entre o aprofundamento da democracia ou as limitações que podem surgir com a administração de um novo modelo. Não é algo tão simples. Há uma tensão entre o velho que não termina de morrer e o novo que não termina de nascer. Há candidatos que são reflexo do velho: Mesa foi presidente e foi presidente da Bolívia dos 60% pobres, da Bolívia que tinha de optar pela caridade internacional, da Bolívia dos US$ 9,5 bilhões, da Bolívia que não tinha soberania sobre seus recursos naturais, que havia terminado de entregar as empresas do Estado. Da Bolívia que efetivamente começou a morrer em 1985 e demonstrou o fracasso do modelo neoliberal em nossa região. Nosso problema não são as pessoas, são os modelos. Nós não lutamos individualmente contra os sujeitos, lutamos contra sistemas que reproduziram privilégios em detrimento das grandes maiorias. O problema é que existe uma tensão no que ainda não terminou de se materializar. Estamos em um processo de industrialização, estamos em um processo de redução da pobreza. Hoje não comparam nosso país com o Haiti em termos de pobreza ou de fome, mas há uma tensão enorme. Nesta eleição temos algo de orgulho para afirmar que vamos ganhar, porque governamos bem, porque há pessoas que pensam no crédito dado à moradia, no carro que recém adquiriu. As pessoas sabem que estão melhores do que há 13 anos. Mas há coisas que as pessoas não gostam e precisamos ser autocríticos com os erros que cometemos.

Por exemplo…

Não terminamos de transformar a Justiça, recém começamos a estruturar o Sistema Único de Saúde, pois a saúde esteve sequestrada nas mãos de grupos de poderes. E fortalecer a saúde pública é democracia.

Acredito que precisamos fazer ajustes e ter novas leituras sobre a juventude e suas aspirações. Hoje, por mais humilde, um jovem goza do acesso aos serviços básicos, tem o seu celular e quer ter um computador, está no campo e quer chegar à universidade. E todas essas são aspirações legítimas. Porém temos que fazer com que sejam acessíveis a todos, é assim que garantimos que se efetive a democracia.

Estamos nesta tensão. Oxalá possamos ganhar, Oxalá possamos consolidar o que temos construído, Oxalá possamos continuar acompanhando vários países e consolidando com quase toda nossa América Latina esta rede de fraternidade, solidariedade e de amor. Oxalá possamos seguir gozando dessa simpatia internacional.

Somos conscientes de que o exemplo boliviano se reproduz pela América Latina e pelo mundo. Há indígenas que veem a Bolívia e dizem: sim, é possível. E esta possibilidade, tornada exemplo, pode ser o pequeno aporte que daremos desde nossa história e vivência à construção de um mundo mais justo.

*O Coletivo de Comunicação Colaborativa ComunicaSul está cobrindo as eleições na Bolívia, Argentina e Uruguai. A reprodução é livre, desde que citada a fonte.

Na última quarta-feira (20/08), a Coalizão Direitos na Rede (CDR) participou de uma reunião com Júlio Semeghini, secretário executivo do Ministério da Ciência, Tecnologias, Inovações e Comunicações (MCTIC), em Brasília (DF), onde foram debatidas propostas em relação ao cenário de transformações no marco regulatório do setor de telecomunicações.

Por Coalizão Direitos na Rede

A CDR apresentou alternativas à proposta do governo de antecipar o fim das concessões de telefonia pública por meio de alteração na Lei Geral de Telecomunicações (LGT), e indicou quais, em seu entendimento, devem ser os critérios para o investimento do saldo das obrigações das concessões de telefonia fixa. Semeghini recebeu bem as demandas e mostrou disposição e interesse comum em garantir a universalização do acesso à internet, premissa essencial à cidadania como estabelece o Marco Civil da Internet.

A organização, no entanto, reivindica o arquivamento do Projeto de Lei da Câmara (PLC) 79/2016, o chamado “PL das Teles”. “A gente entende que esse projeto de lei não responde aos interesses públicos e responde apenas aos interesses privados de algumas grandes empresas. O secretário Semeghini se mostrou disposto a manter um diálogo frutífero no sentido de acelerar a universalização do acesso à internet, inclusive para as classes D e E”, relatou Marina Pita, associada do coletivo Intervozes, uma das mais de 30 entidades que compõe a Coalizão.

O PLC 79/2016 continua tramitando no Congresso Nacional, mas enfrenta questionamentos tanto da sociedade civil como do Tribunal de Contas da União (TCU). Uma das críticas é sobre a forma de cálculo de bens reversíveis — patrimônio púbico utilizado pelas empresas de telecomunicações pertencentes à União –, que o órgão avalia girar na casa de R$ 100 bilhões.

Para a Coalizão Direitos na Rede, é necessário discutir um novo marco regulatório para o setor, contanto que se leve em consideração a universalização do acesso à Internet. Como está, o PLC 79/2016 é insuficiente e não atende ao interesse público.

A entidade ainda expôs para o secretário do MCTIC a necessidade de que se avance nas iniciativas legislativas para a utilização dos recursos do Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações (FUST), que poderia encampar a demanda da universalização da Internet.

Em época de perseguição a jornalistas, principalmente por meio de haters na internet, conhecer as boas práticas em segurança digital é um diferencial importante para qualquer profissional que use a rede como meio de trabalho.

Consciente dessa necessidade, a Associação Profissão Jornalista decidiu oferecer aos colegas, às colegas jornalistas e a quem mais se interessar a Oficina de Segurança Digital para Jornalistas.

Em 6 horas de aprendizado, com alguma teoria e muita prática, os participantes desenvolverão habilidades e boas práticas em segurança digital, receberão orientações sobre as melhores ferramentas para comunicação com parceiros – considerando riscos, alternativas e opções – e terão, ao final, maior compreensão sobre segurança e capacidade de adotar práticas que reduzam os riscos, táticas de defesa e o uso de ferramentas digitais.

Você entenderá o que é vigilantismo, coleta massiva de dados e terá uma melhor compreensão das comunicações digitais em geral. Conhecerá as ferramentas seguras para fazer o seu trabalho e traçar estratégias adequadas de segurança para sua navegação.

Responsáveis

Gabriela Nardy e Carla Jancz são as responsáveis pela oficina.

Gabriela Nardy é mestranda em antropologia pela Unicamp, pesquisadora sobre feminismos e movimentos sociais e suas relações com as diversas formas de tecnologias. Ela integra o MariaLab, coletivo hacker feminista.

Carla Jancz – voluntária no MariaLab – é formada em Segurança da Informação, trabalha com segurança digital para o terceiro setor e com treinamento em tecnologias livres, cultura maker, redes autônomas, cultura hacker e criptografia.

Quando?

27 de abril (sábado), das 9h às 16h30, com intervalo para almoço.

Onde

Na sede do Centro de Estudos de Mídia Alternativa Barão de Itararé (Rua Rego Freitas, 454, metrô República, em São Paulo).

Quanto?

A inscrição custa R$ 220,00, à vista ou em 3 parcelas, pelo PagSeguro*. Para associados(as) da Associação Profissão Jornalista (APJor), o valor é de R$ 160,00 à vista. Ou em 4 parcelas sem acréscimo.

Por quê?

Segundo Gabriela Nardy e Carla Jancz, “a internet já foi vista como um espaço democrático, em que todas e todos teriam espaço para falar livremente. Hoje em dia as redes sociais são ambientes onde nos conectamos, divulgamos, trabalhamos, aprendemos, mas também onde somos perseguidos, vigiados e ameaçados. Essa falta de segurança se torna ainda mais marcante com a ascensão de governos pouco democráticos, que perseguem e ameaçam principalmente jornalistas e ativistas de pautas progressistas”.

* Pelo PagSeguro é possível parcelar em até 12 vezes, sendo que a partir da 4ª. Parcela, os encargos financeiros ficam por conta do participante. 

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Não deixe de nos contatar, caso tenha interesse. Inscreva-se e o nosso setor de Atendimento fará o contato.

Outras informações em Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. ou (11) 99-916-1297 (Vivo e WhatsApp).

Programação completa https://bit.ly/2Oio4gl

Do evento, que homenageia Paulo Freire e discute as pautas do retrocesso do governo Bolsonaro, ainda participam intelectuais e políticos como Manuela D’Ávila, Flávio Dino, Guilheme Wisnik, Eduardo Fagnani, Sabrina Fernandes, João Sicsú e a reitora da PUC-SP, Maria Amália Andery. Centenas de títulos de 34 editoras terão descontos de até 50%

O educador, pedagogo e filósofo Paulo Freire é o homenageado desta edição, que tem a Educação e o governo Bolsonaro no centro dos debates. “Educação ou barbárie: a volta à Idade Média?”, “Do tráfico à milícia: o estado paralelo que mata Marielles todos os dias” e “Imprensa: a hora da autocrítica?” são algumas das mesas. Serão discutidos ainda opressão da mulher, resistência antifascista, hegemonia cultural e restauração conservadora na América Latina.

Confira mais informações sobre o Curso "O pensamento de Paulo Freire", oferecido pelo V Salão do Livro Político

Entre os debatedores do campo político estão o ex-ministro Zé Dirceu (preso após julgamento em segunda instância semana passada, ele aguarda recurso no STJ e julgamento de Habeas Corpus no STF), o ex-ministro da Educação e ex-prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, o governador do Maranhão, Flávio Dino, a ex-deputada Manuela D’Ávila, o deputado Carlos Giannazi e as deputadas Talíria Petrone e Erica Malunguinho.

Da academia, participam, entre muitos outros amplamente reconhecidos, Luiz Eduardo Soares (especialista em segurança), Guilherme Wisnik, Leda Paulani, Flávia Birolli, Eduardo Fagnani, João Sicsú, Sabrina Fernandes, Peter Pál Pelbart e a reitora Maria Amália Andery, da PUC-SP.
Jornalistas progressistas também estarão nas mesas: Natália Viana (Agência Pública), Carla Jimenez (El Pais), Eleonora de Lucena (Tutameia) e Laura Capriglione (Jornalistas Livres).

A programação ainda inclui atividades culturais: curso sobre a relevância e atualidade de Paulo Freire (com Sonia Couto), aula-teatro Maria, ainda com a temática freiriana (com Ana Saul), apresentações dos grupos artísticos Slam da Guilhermina, Arlequins (peça O Capital), Quando Quebra e Queima e Cabaré Feminista.

Sobre o Salão 

Iniciativa de um grupo de editoras independentes de grandes grupos empresariais em parceria com a PUC-SP, o Salão do Livro Político tem como objetivo fortalecer as editoras, aumentar a visibilidade de suas obras e incentivar as vendas e a leitura de livros políticos, que representam atualmente em torno de 2,5% do total de obras publicadas por ano no Brasil (sociologia, filosofia e economia). O Salão recebeu cerca de 3,5 mil visitantes nas últimas edições e, entre os convidados, intelectuais e personalidades prestigiadas globalmente, como o escritor cubano Leonardo Padura, o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, o cientista político alemão, biógrafo de Karl Marx, Michael Heinrich, Marilena Chauí, Dilma Rousseff, José Genoíno.

 
V Salão do Livro Político
27 a 30 de maio, das 10h às 22h.
Tuca PUC-SP (Rua Monte Alegre, 1024, São Paulo, SP).
Facebook salaodolivropolitico      Intagram salaodolivropolitico      site salaodolivropolitico

Promoção e realização: Alameda, Anita Garibaldi, Autonomia Literária, Boitempo, EDUC, Geração, Veneta.

 

O cerco fascista imposto pelo governo Bolsonaro ao campo da cultura será tema de debate no dia 7 de maio, em São Paulo. A atividade acontece no Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé (Rua Rego Freitas, 454, 8º andar, próximo ao metrô República), a partir das 19h, com transmissão ao vivo pela página da entidade.

O Barão recebe um timaço para conduzir o bate-papo, que abordará os ataques do governo e o clima de caça às bruxas instaurado no setor:

  • Sérgio Mamberti, ator, dramaturgo, ex-secretário de Políticas Culturais do Ministério da Cultura e integrante do Conselho Consultivo do Barão de Itararé;
  • Eliane Caffé, roteirista e diretora de filmes como Era o Hotel Cambridge (2017);
  • Tadeu di Pietro, ator, diretor e produtor cultural

Inscrições

A participação é gratuita, mas as vagas são limitadas. Garanta o seu lugar preenchendo o formulário abaixo:

 

O futebol das mulheres ganha o planeta como nunca antes em sua história

Grande dia!
Grande dia de verdade e não o externado pelo boçal que ocupa desastradamente o posto mais alto do executivo brasileiro.

Hoje é um grande dia porque tem início a oitava edição da Copa do Mundo de Futebol Feminino! A anfitriã França abre a competição diante da Coréia do Sul a partir das 16h00 – horário de Brasília – e além da ansiedade pelo ponta pé deste jogo temos muito o que comemorar em termos de visibilidade.

Por Lu Castro, especial para o Barão de Itararé

Há pouco mais de dez anos, assumi uma responsabilidade pessoal: utilizar a tecnologia em favor da visibilidade das mulheres que faziam a bola rolar pelos campos da cidade. Minha primeira busca foi no Juventus, formador por excelência, e sua técnica Magali.

O material, publicado no antigo portal OléOlé, já se perdeu, mas, de lá para cá, perda deixou de ser sinônimo de mulher dentro e fora das quatro linhas.

Avançamos. E os contatos com os principais agentes da modalidade se intensificaram. E espaços alternativos começaram a surgir com mais força na busca pelo tratamento igualitário do futebol de mulheres e homens – ao menos no que diz respeito ao que se noticia, inicialmente.

Observando a movimentação da imprensa nacional, noto um grande cuidado ao tratar do assunto, diferente de muitos outros anos. Acredito que esteja diretamente relacionado ao número de mulheres presentes em redações esportivas, algo que apontei como imprescindível para a melhora na comunicação do futebol de mulheres em mídias tradicionais.

Avançamos. E avançamos noutros tantos aspectos do futebol, inclusive na gestão, onde o trabalho realizado pela ex capitã da seleção, Aline Pellegrino, como diretora de futebol feminino da Federação Paulista de Futebol, tem ampliado os espaços para trabalhar as categorias de base.

Avançamos. A seleção brasileira tem uma estrutura que nunca teve. A seleção brasileira conta com uniforme próprio e não sobra do uniforme masculino. A seleção tem seus jogos transmitidos de modo inédito em tevê aberta de alcance nacional. A seleção só não tem uma coisa: técnico.

E isso, car@s, é algo que me preocupa tanto quanto me alegra: o fato de termos a Copa do Mundo mais noticiada de todos os tempos.

Diante de uma seleção nacional que caiu no ranking FIFA nos últimos anos, sob o comando de alguém que não tem perfil para comandar o selecionado nacional em nenhuma circunstância – e já o demonstrou em outras ocasiões - que carrega para a França nove derrotas consecutivas, minha expectativa é de termos que reforçar nosso discurso e argumentar como nunca que o que eles (os espectadores desconhecedores da realidade do futebol feminino) estão vendo não é bem isso.

Num momento, em que os olhos do mundo estão voltados para a amarelinha tão conceituada um dia, mostrar um jogo baseado apenas na garras das nossas habilidosas e talentosas atletas, tem sido o protagonista dos meus pesadelos.

Tudo o que lutamos para construir – atletas, gestores, comissões técnicas sérias, jornalistas interessados no assunto – pode sofrer um revés de opinião pública se o coletivo não estiver bem arrumado. E nós sabemos que não está.

Há poucas horas da abertura do mundial mais importante de todos os tempos, vou da euforia e ansiedade que mal me deixou dormir a testa constantemente franzida de preocupação.

Avancemos pois, nossas atletas se entregarão e é muito provável que nos jogos do Brasil o que avance é o nível da gengibrinha pra dar conta da montanha russa de emoções.

Uma mulher registra um boletim de ocorrência acusando um homem por estupro. Em depoimento, descreve que o parceiro teria ficado subitamente agressivo e usado da violência para praticar relação sexual sem seu consentimento. O laudo médico, anexado ao caso, apresenta sinais físicos de agressão e estresse pós-traumático. Em resposta, o homem acusado desmente a história publicamente, argumentando que o episódio não passou de “uma relação comum entre um homem e uma mulher”.

Por Mariana Pitasse, no Brasil de Fato

Esse poderia ser apenas mais um entre os cerca de 135 casos de estupro registrados por dia – que equivalem a cerca de 10% a 15% dos abusos que acontecem diariamente no Brasil, segundo levantamento do Atlas da Violência de 2018. Mas não é um episódio qualquer. O homem acusado é Neymar, um dos jogadores de futebol mais bem pagos do mundo. Por isso, o caso tomou as páginas dos jornais dentro e fora do Brasil nos últimos dias, com ampla repercussão nas redes sociais.

Após a denúncia registrada contra o jogador do Paris Saint-Germain na última sexta-feira (31), a acusadora foi exposta de diferentes formas – pela mídia comercial e pelo próprio Neymar. Para "sensibilizar" a opinião pública, o jogador postou um vídeo em suas contas do Instagram e do Facebook em que diz ser inocente. Ao tentar “comprovar” sua versão dos fatos, divulgou conversas que manteve com a mulher pelo Whatsapp, assim como fotos e vídeos íntimos da acusadora. A ação fez com que o jogador passasse a ser investigado também pelo vazamento de fotos íntimas.

A divulgação do conteúdo não foi um equívoco e, sim, uma escolha. Neymar preferiu cometer um crime virtual para tentar dialogar com pessoas que concordam com a ideia de que uma mulher que envia fotos íntimas pela internet é necessariamente "aproveitadora" e "interesseira".

O que está sendo ignorado nessa leitura rasa proposta pela defesa de Neymar é que a intimidade exposta para milhões de pessoas não diz nada sobre a acusação de estupro. Como lembra a antropóloga Débora Diniz, o que circula é a versão de um homem poderoso que se ancora em elementos do fascínio pelo sexo e na desqualificação fácil das mulheres vítimas de violência sexual. E essa é também a narrativa em que tem se amparado a cobertura da mídia comercial sobre o caso. Mesmo sem afirmar que estão assumindo uma posição, jornalistas passaram o recibo de que a acusadora está tentando se aproveitar do “menino” Neymar.

Entre as reportagens que tomaram conta do noticiário brasileiro nos últimos dias, a matéria Jornal Nacional – no dia seguinte à divulgação das conversas – foi a que mais repercutiu. Ela traz um panorama sobre o caso e ressalta o depoimento de um ex-advogado da mulher afirmando que o estupro não aconteceu. A reportagem também divulga o nome da nova advogada de defesa da mulher, ainda que ela não tenha dado autorização para isso, desrespeitando um princípio básico do jornalismo: a garantia de sigilo das fontes. Na mesma reportagem, sem mostrar as fotografias e vídeos do corpo da mulher, divulgados por Neymar, são expostas frases soltas da conversa em que o jogador aparece enredado em um jogo de sedução.

Em outra reportagem, desta vez publicada no Jornal de Brasília, a mulher tem a vida financeira e judicial revirada. O texto aponta que ela tem uma ação de despejo em seu nome, após três meses de aluguel atrasado, e que acumula dívidas. A reportagem também disponibiliza o nome completo da mulher e detalha suas contas a pagar.

A invasão de privacidade promovida por jornalistas com a justificativa de mostrar a “real versão dos fatos” não terminou por aí. Em reportagem publicada pelo jornal O Globo, a família da mulher é procurada e sua mãe é informada sobre o caso a partir da abordagem da repórter. Dias depois, uma matéria veiculada pelo portal UOL evidencia que o filho da mulher, de cinco anos, está sofrendo com chacotas na internet e na escola por conta da repercussão do caso.

Mais do que a intimidade revirada e exposta em fotos e vídeos íntimos e informações detalhadas sobre sua situação financeira, a mulher teve sua versão dos acontecimentos contestada a todo tempo, de forma pública, inclusive por seu ex-advogado. Mas isso não é levado em consideração, porque tudo parece legítimo quando a motivação é “dar o furo” de reportagem. Na lógica do jornalismo, é necessário apresentar respostas antes mesmo das investigações. Tudo isso com base na “isenção e na imparcialidade”, ainda que à serviço da versão do jogador milionário…

Neymar, por outro lado, segue a rotina de treinos, jogos e compromissos publicitários, blindado por seu estafe. A presença dele está confirmada no jogo amistoso do Brasil contra o Qatar nesta quarta-feira (5).

Paris Saint-Germain e Seleção Brasileira se esquivam de comentar o caso. Familiares e amigos se pronunciam publicamente garantindo que ele é inocente e vítima de uma armadilha. A preocupação maior parece vir dos patrocinadores: ao menos quatro das 10 marcas manifestaram incômodo com o caso, segundo levantamento da Folha.

Comprovada ou não a acusação, a sentença já está dada: a mulher é sempre a ponta vulnerável. Não à toa, segundo o Atlas da Violência, são cerca de 1300 estupros por dia no país – dos quais apenas 135 são notificados.

*Jornalista, editora do Brasil de Fato no Rio de Janeiro e doutoranda em Antropologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF).

Edição: Daniel Giovanaz