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Presidente e vice-presidente eleitos comemoram a ruptura com 214 anos de desgoverno tendo ao fundo a imagem do jovem Dilan Cruz, assassinado durante os protestos contra o presidente Iván Duque. Comemoração popular transbordou as ruas de todo o país

Leonardo Wexell Severo I ComunicaSul

A frente progressista liderada pelo economista Gustavo Petro e a advogada Francia Márquez obteve 11.281.002 votos válidos (50,44%) para a presidência da Colômbia neste domingo (19), ultrapassando em mais de 700 mil votos (3,13%) os 10.580.399 votos (47,31%) do magnata ultradireitista Rodolfo Hernández. Além de derrotar a máquina governamental de Iván Duque e a política de terrorismo de Estado do ex-presidente Álvaro Uribe (2002-2010), com o famigerado “Plano Colômbia” e sua política de assassinatos e desaparecimentos forçados de oposicionistas, a vitória oxigena a luta das forças nacionais e populares, pois reforça os êxitos obtidos na Argentina, Chile, Bolívia, México, Peru e Honduras.

Aclamados por uma multidão na Arena Movistar, em Bogotá, e escoltados pela Guarda Indígena – que os acompanhou ao longo de toda a campanha – Petro e Francia foram recepcionados, ao canto de “Si, se pudo!” (Sim, podemos!), contrariando as projeções dos grandes conglomerados midiáticos e de suas pesquisas de opinião. Como recordaram as mulheres do Cauca, “estamos parindo uma nova Pátria”.

Em um clima de festa, ao lado de seus familiares e de Petro, Francia Márquez agradeceu “a todos os colombianos e colombianas que deram a vida para que este momento acontecesse, assim como as lideranças sociais que tristemente foram assassinadas neste país”.

Sob aplausos, a primeira afrodescendente vice-presidente da história do país homenageou “a juventude que foi executada e desaparecida, as mulheres estupradas e desaparecidas, e a todos os que sei que de alguma parte estão nos acompanhando neste momento histórico para a Colômbia”. “Obrigado por nos abrirem este caminho, agradecemos por terem plantado a semente da resistência e da esperança”, destacou, saudando de forma especial “a frente ampla que liderou todo este processo, acreditando que era possível mudar a história do país”.

Apontando a responsabilidade de impulsionar a construção de um novo tempo, Francia Márquez agradeceu “às mães, aos jovens e às crianças que, com amor e alegria, estiveram presentes nesse sonho”. Da mesma forma, resgatou, “contamos com o companheirismo de pessoas portadores de deficiência, indígenas, camponeses e afrodescendentes que tornaram possível com que, finalmente, após 214 anos, tenhamos eleito um governo do povo, dos de baixo, dos que são tratados como nada”.

Reconciliar a nação e erradicar o patriarcado, o racismo estrutural e garantir o direito à Mãe Terra

Conforme a vice-presidente eleita, “agora é preciso reconciliar a nação, que é capaz, atuando de maneira decidida e sem medo pela dignidade e pela justiça, de erradicar o patriarcado, o racismo estrutural e garantir o direito à Mãe Terra”.

“DIA HISTÓRICO PARA A COLÔMBIA E A AMÉRICA LATINA”

Emocionado, Gustavo Petro frisou que se tratava de “um dia histórico para a Colômbia, para a América Latina e para o mundo, porque o que fizeram esses mais de 11 milhões que nos elegeram é afirmar a necessidade de uma transformação real, e não vamos trair esse eleitorado”.

De acordo com o líder eleito, “o que está escrito é que, a partir de agora, a mudança começa na Colômbia. E essa transformação real nos conduz a algumas verdades, colhida nas praças públicas, que é a afirmação da política do amor”. “Não é uma mudança para construir mais ódio ou para aprofundar o sectarismo. Nossos pais e nossos avós nos ensinaram o que significa o sectarismo. As eleições mudaram duas Colômbias, próximas em termos de votos, e queremos que, em meio à diversidade, seja uma só”, acrescentou.

Petro disse que “a transformação também significa dar as boas-vindas à esperança, dar oportunidade à mudança”, sempre levando em conta que foi proporcionada por gerações militantes, de homens e mulheres “que não estão mais entre nós”. “Somos parte de um acúmulo de resistência que já tem cinco séculos, como diria Francia, que somos a somatória deste passado. Uma rebeldia contra a injustiça, contra um mundo que não deveria ser, contra a discriminação e a desigualdade. Quanta gente não nos acompanha hoje porque desapareceu nos caminhos do país? Dezenas de milhares que morreram. Quanta gente está presa atualmente? Jovens algemados, trancafiados, tratados como bandidos quando simplesmente traziam consigo a esperança de um país melhor”, asseverou. Ao que a multidão entoou “liberdade, liberdade, liberdade!”.

RECORDANDO DILAN CRUZ

Sob uma maré de aplausos Petro levou até o palanque a mãe de Dilan Cruz, o jovem de 18 anos assassinado em Bogotá durante os protestos de novembro de 2019 pelo Esquadrão Móvel da Tropa de Choque (Esmad).

Discursando com um retrato do filho ao fundo, Jenny Alexandra Medina agradeceu a Petro: “Em você está a esperança de todos nós, da justiça, a esperança dos pobres, dos necessitados, dos ricos, dos pobres”. E sublinhou: “levanto a voz pelo meu filho porque exijo justiça”.

Após cumprimentar Jenny, o presidente eleito solicitou ao Fiscal Geral da Nação “que liberte nossos jovens”. Com dezenas de milhares de vozes voltando a pedir “liberdade, liberdade, liberdade!”.

Com o mesmo sentimento de negociação e entendimento, Petro pediu à Procuradoria Geral da Nação que liberte os prefeitos injustamente presos. “É o momento de acabar com os ódios. Este momento que vai iniciar no próximo dia 7 de agosto é da vida. Queremos construir a Colômbia como potência mundial da vida”, apontou, sintetizando que isso consiste em “paz, justiça social e justiça ambiental”.

“A PAZ É O GOVERNO DA VIDA”

De forma didática, Petro disse que “a paz é o governo da vida” e isso significa “que os dez milhões de eleitores de Rodolfo Hernández serão bem-vindos”, bem como o oponente encontrará as portas abertas quando quiser negociar, “porque não vamos utilizar o governo para destruir o oponente”. “A oposição será sempre bem-vinda”, comunicou, com a multidão respondendo:  “Basta de guerra!”.

GARANTIA DE DIÁLOGO

É importante que se recorde que o clima construído no país ao longo das últimas décadas foi de “ódio e confrontação, de morte, perseguição e isolamento, e não podemos seguir assim”. “O governo que se inicia poderá até vir a ter uma oposição tenaz, mas asseguro que ela jamais sofrerá perseguição. O que haverá é diálogo para esse grande acordo nacional que já começou a ser construído entre os 11 milhões de eleitores no Pacto, mas tem que ser entre os 50 milhões de colombianos e colombianas, entre toda a sociedade”, declarou o dirigente.

Para que esse grande acordo seja alcançado, ponderou Petro, “é preciso construir as reformas que a Colômbia necessita para viver em paz”. O líder agradeceu aos jovens e às mulheres, que deram à frente oposicionista a maioria dos votos, se comprometendo a que “os direitos fundamentais deixem de ser letra morta, mas a existência real e a garantia plena de uma Constituição viva”. “Se me perguntam qual a razão de um acordo nacional, eu diria que é para que a vida das famílias seja melhor, que tenham crédito mais barato para construir suas casas, que os idosos tenham sua aposentadoria, que os jovens tenham acesso à universidade, que a mãe possa comprar alimentos para seus filhos”.

Multidão coloriu as ruas de Bogotá e de todo o país para celebrar a vitória inédita. Foto: ComunicaSul

Recém-eleito, Petro ponderou que a paz não será construída sem fazer valer os direitos das pessoas, combatendo as forças paramilitares, “fazendo com que as armas parem de disparar e deixem de existir por fora do Estado colombiano”.

Do ponto de vista do desenvolvimento econômico, tão essencial para romper com o passado de exclusão, reiterou, “é necessário passar da velha economia escravista, de um mundo de servos, para uma democracia, que será construída permitindo um pluralismo de consciência, um pluralismo ideológico”. “Precisamos ter espaço para superar o velho feudalismo, para que as comunidades indígenas desenvolvam sua ecologia e sua cultura; ter uma economia popular que possa se fortalecer por meio da conectividade, da educação e do crédito barato”, informou Petro, para quem é necessário combater o capital especulativo.

“Precisaremos de novas formas de relacionamento da humanidade. Então poderemos transitar da velha economia extrativista, que matava a água e matava a vida, para uma economia forte e produtiva, valorizando o trabalho. A riqueza nacional depende do trabalho”, assegurou o presidente eleito, para quem, por meio de políticas para o incremento da produção, o país terá maiores e melhores condições de distribuição.

“Por isso é importante produzir no campo, na indústria e sobretudo na base do conhecimento. Produzir sem afetar a dignidade humana nem que se comprometa a natureza”, apontou Petro, comemorando que, juntos, povo e governo transformarão a Colômbia na “potência do século 21”.

O líder também ponderou a necessidade de o país incentivar um encontro de países latino-americanos, “sem distinção”, porque não é mais possível conviver com uma política em que tenhamos de um lado o maior emissor de gases poluentes, como os Estados Unidos, e do outro “a nossa floresta amazônica, a maior absorvente do mundo”.

Finalmente, atualizou uma mensagem que marcou sua campanha, em que defendia propostas desenvolvimentistas. “Sou Gustavo Petro e sou seu presidente”, concluiu.

Terminado o comício, as ruas transbordaram de alegria e confiança. Centenas de milhares de pessoas em todo o país reafirmaram sua identidade com o projeto do Pacto Histórico e a vibração com a chegada ao poder do primeiro governo popular da história da Colômbia.

* A Agência ComunicaSul está na Colômbia cobrindo o segundo turno das eleições presidenciais graças ao apoio das seguintes entidades: Associação dos/das Docentes da Universidade Federal de Lavras-MG, Federação Nacional dos Servidores do Poder Judiciário Federal e do MPU (Fenajufe), Confederação Sindical dos Trabalhadores/as das Américas (CSA), jornal Hora do Povo, Diálogos do Sul, Barão de Itararé, Portal Vermelho, Intersindical, Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), Sindicato dos Bancários do Piauí; Associação dos Professores do Ensino Oficial do Ceará (APEOC), Central Única dos Trabalhadores (CUT), Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (ANDES-Sul), Sindicato dos Bancários do Amapá, Sindicato dos Metroviários de São Paulo, Sindicato dos Metalúrgicos de Betim-MG, Sindicato dos Correios de São Paulo, Sindicato dos Trabalhadores em Água, Resíduos e Meio Ambiente do Estado de São Paulo, Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp Sudeste Centro), Associação dos Professores Universitários da Bahia, Sindicato dos Trabalhadores no Poder Judiciário Federal do RS (Sintrajufe-RS), Sindicato dos Bancários de Santos e Região, Sindicato dos Químicos de Campinas, Osasco e Região, Sindicato dos Servidores de São Carlos, Sindicato dos Trabalhadores no Poder Judiciário Federal de Santa Catarina (Sintrajusc); mandato popular do vereador Werner Rempel (Santa Maria-RS), Agência Sindical, Correio da Cidadania, Agência Saiba Mais, Revista Fórum, Viomundo e centenas de contribuições individuais.

A poucos dias do segundo turno das eleições presidenciais na Colômbia, que acontecem neste domingo (19), o país assiste a um ataque massivo dos meios de comunicação comerciais, em evidente conluio com o governo, buscando difamar, com fake news, o candidato progressista Gustavo Petro, à frente das principais pesquisas de intenção de voto.

Por Caio Teixeira I ComunicaSul

Antes de entrarmos no assunto da mídia, se faz necessário um esclarecimento essencial. As grandes manifestações contra o atual governo de Iván Duque em 2019 — quando anunciou de uma só vez imensos retrocessos por meio das reformas trabalhista, previdenciária e tributária — produziram uma organização da juventude que foi às ruas, denominada “Primeira Linha”.

Essa articulação surgiu com o objetivo de autoproteção dos manifestantes frente à violenta repressão policial-militar que, de acordo com levantamento da Universidade dos Andes, provocou 88 mortes.

A ComunicaSul conversou com uma de suas principais lideranças em Medellin, Sebastian Feria, que assim resumiu o papel da organização: “é simplesmente um grupo de jovens que saíram às ruas para defender o povo contra a repressão dos agentes do Estado. Tais como os agentes da SWAT, policiais que agridem com gás lacrimogêneo, bombas atordoantes, todo o tipo de jatos de água e muitas vezes com pistolas de paintball que disparam diretamente nos olhos dos manifestantes”. 

A agressão era tanta, explica, “que nasceram as Primeiras Linhas em diferentes cidades do país”. Eles se organizaram a partir das três cidades onde ocorreram as principais manifestações em resposta à agressão: Cali, Bogotá e Medellín.

Leia também: Colômbia realiza eleição sob interferência do cartel midiático empresarial

Acusações mentirosas

Pois agora, na semana que antecede o segundo turno, a mídia colombiana resolveu atacar a Primeira Linha, ligando-a à candidatura de Gustavo Petro e acusando a organização de estar preparando protestos violentos, com fechamento de ruas, principalmente em Bogotá, caso o candidato da frente progressista não seja eleito no domingo.

O site de notícias El Expediente, autodenominado “de jornalismo investigativo”, divulgou em tom de denúncia, com base em um suposto “informe reservado da inteligência do governo”, que a Primeira Linha estaria ligada a grupos armados e que o Senador Gustavo Bolívar, da coalizão de Petro, seria o elo de ligação entre a candidatura e a organização acusada de “terrorista”.

Leia também: Alvo de espionagem, Petro acusa governo colombiano de fazer “jogo sujo” para Rodolfo

O El Expediente é um veículo de mídia 100% engajado na candidatura de direita de Rodolfo Hernandez. Basta ver as manchetes das notícias em destaque: “Votar em branco é eleger o comunismo”, “Petro e sua horda de bandidos”, “Uribistas, votar em branco é ferir de morte a democracia” — referindo-se ao ultradireitista ex-presidente Álvaro Uribe (2002-2010), do tristemente célebre Plano Colômbia — e até “Petróleo ou meio ambiente”, que ataca a proposta de Petro para substituir a dependência do petróleo. Todas as matérias publicadas pelo veículo enaltecem Rodolfo Hernandez e difamam Gustavo Petro e seus aliados.

Como se não bastasse, El Expediente chega ao ponto de publicar uma lista de nomes de jovens com as respectivas fotos subtraídas das redes sociais, como se fosse um cartaz de criminosos procurados, acusando-os de serem “agentes” mandados de Cali para Bogotá a fim de promoverem as supostas atividades violentas.

Acusam os militantes da Primeira Linha de promoverem ações dentro dos ônibus para ameaçar a população com violência, caso não votem em Petro. A ComunicaSul acompanhou uma dessas ações chamadas de pedagógicas dentro do Transmilenio (similar ao BRT brasileiro) em Bogotá, antes do primeiro turno e testemunhamos que não é nada disso.

Militante do Pacto Histórico durante campanha pedagógica no Transmilênio | Foto: Caio Teixeira

A atividade é realizada por uma ou duas pessoas voluntárias, com uma caixa de som portátil alimentada por bateria, que entra na composição e conversa pacificamente com os usuários sobre direitos humanos, direitos das mulheres, da juventude, sobre democracia conclamando a votarem em Gustavo Petro.

Comunicado oficial: “não cair em provocação”

A Primeira Linha divulgou um comunicado oficial declarando que “as primeiras linhas que se congregam em Bogotá deixamos claro que não vamos cair em provocações e que nosso compromisso é com e para a democracia. Por isso deixamos claro que em meio à jornada eleitoral que se aproxima estaremos prontos para cuidar e defender a democracia”.

No vídeo que acompanha a nota oficial, suas principais lideranças assinalam: “apresentamos nossa fraterna e cordial saudação à população da Colômbia. Tendo em conta o momento tão transcendental que vive o país, queremos desmentir os rumores infundados de que, caso o candidato Gustavo Petro não chegue à presidência, coisa improvável, sairemos a manifestar ou bloquear ruas violentamente. Isto é totalmente falso. Nós, as Primeiras Linhas nacionais, deixamos claro que o nosso trabalho é pela e para a democracia, procurando defender o que está consignado na Constituição de 1991 da Colômbia. Pela democracia da Colômbia, as Primeiras Linhas dizemos que seremos pacíficos em todos os estados do país, pela liberdade, pela vida e pelo amor. O povo não se rende!”

O uso de supostos “informes reservados da inteligência do governo” jamais desmentidos oficialmente para atacar o candidato progressista é comum por parte de toda a mídia comercial do país, como a revista Semana que os utiliza com frequência, inclusive com a mesma grafia, escancarando a cumplicidade com o governo.

Uma passada de olhos nas manchetes dos principais veículos de comunicação comerciais controlados por grandes e poucos grupos econômicos, encontrará cem por cento delas defendendo o candidato da direita e atacando Gustavo Petro.

A tentativa de intimidar a população pela manipulação descarada da opinião pública, no entanto, parece não estar cumprindo seu objetivo.

O que se observa é o crescimento ininterrupto das intenções de voto no candidato do Pacto Histórico nas últimas pesquisas de opinião.

*Recentemente a Agência ComunicaSul esteve presente na Colômbia graças ao apoio das seguintes entidades: Associação dos/das Docentes da Universidade Federal de Lavras-MG, Federação Nacional dos Servidores do Poder Judiciário Federal e do MPU (Fenajufe), Confederação Sindical dos Trabalhadores/as das Américas (CSA), jornal Hora do Povo, Diálogos do Sul, Barão de Itararé, Portal Vermelho, Intersindical, Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), Sindicato dos Bancários do Piauí; Associação dos Professores do Ensino Oficial do Ceará (APEOC), Central Única dos Trabalhadores (CUT), Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (ANDES-Sul), Sindicato dos Bancários do Amapá, Sindicato dos Metroviários de São Paulo, Sindicato dos Metalúrgicos de Betim-MG, Sindicato dos Correios de São Paulo, Sindicato dos Trabalhadores em Água, Resíduos e Meio Ambiente do Estado de São Paulo, Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp Sudeste Centro), Associação dos Professores Universitários da Bahia, Sindicato dos Trabalhadores no Poder Judiciário Federal do RS (Sintrajufe-RS), Sindicato dos Bancários de Santos e Região, Sindicato dos Químicos de Campinas, Osasco e Região, Sindicato dos Servidores de São Carlos, Sindicato dos Trabalhadores no Poder Judiciário Federal de Santa Catarina (Sintrajusc); mandato popular do vereador Werner Rempel (Santa Maria-RS), Agência Sindical, Correio da Cidadania, Agência Saiba Mais, Revista Fórum e centenas de contribuições individuais.

O anúncio da compra do Twitter pelo bilionário norte-americano Elon Musk trouxe um misto de tristeza e revolta para quem luta contra as fake news e uma alegria incontida para a extrema-direita em todo o mundo. Mas é preciso uma análise que vá além da dicotomia e dos 280 caracteres.

A partir das declarações do próprio Elon Musk surgem pelo menos algumas motivações para a compra e uma provável mudança na curadoria de conteúdo dessa plataforma.

Por Renata Mielli* e Gustavo Alves**

Esse pressuposto é fundamental para entender porque um bilionário que não tem nenhuma atuação nas plataformas de tecnologia resolveu investir US$ 43 bilhões numa empresa avaliada em pouco mais de US$ 38 bilhões e que no ano passado registrou um prejuízo líquido de US$ 221 milhões.

A primeira constatação é que ele comprou a empresa para acabar com o pouco de conquistas que a sociedade obteve no processo recente de pressão para que as Big Techs desenvolvessem algum contrapeso para reduzir a disseminação de desinformação e discurso de ódio.

Isso escamoteado pelo argumento da defesa fundamentalista da “liberdade de expressão”, vista como um direito absoluto e que inclusive se sobrepõe a outros direitos. Mas é preciso enfrentar essa retórica oportunista e não ficar na defensiva para afirmar que não existem direitos absolutos, que estabelecer limites para o exercício desta liberdade é tão fundamental quanto a sua própria existência. Não cabe na liberdade de expressão, por exemplo, racismo, homofobia, apologia à morte ou aniquilação de grupos sociais, discursos que atentem contra a vida. Nada disso é opinião que possa ser livremente expressada. Nem em espaços privados como círculos de amigos ou familiares, muito menos em ambientes nos quais se realiza o debate público, como no caso das Plataformas de Redes Sociais.

Por isso, quem defende - como Musk, que o Twitter e outras plataformas sejam "arenas livres", na prática estão colocando em risco as poucas conquistas que a sociedade conseguiu avançar no debate sobre a necessidade de haver mais regras sobre a atividade dessas plataformas, como o reconhecimento tímido do papel deletério da amplificação algorítmica pelas plataformas.

Sob pressão da sociedade, o Twitter patrocinou um estudo para entender qual a possibilidade de seu algoritmo valorizar ou impulsionar uma determinada ideologia política e embora o Twitter tenha divulgado as descobertas da pesquisa em outubro de 2021, só agora o estudo foi publicado na revista PNAS (Proceedings of the National Academy of Sciences, publicação oficial da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos), após ter sido revisado por outros cientistas.

O estudo analisou uma amostra de 4% de todos os usuários do Twitter que foram expostos ao algoritmo (mais de 46 milhões) e também analisou um grupo de controle de 11 milhões de usuários que nunca receberam tweets recomendados automaticamente em sua timeline.

A face visível da ação do algoritmo do Twitter é a exposição entre as postagens das contas que você segue, tweets marcados como “você pode gostar”.  Ou seja, o algoritmo está recomendando conteúdo para você.

Isso é feito usando os dados da sua atividade anterior na plataforma, como os tweets que você curtiu ou retuitou. Uma equação estatística aplicada a estes dados lastreia o “aprendizado de máquina”. Assim o computador, em tese, aprende automaticamente com as preferências do usuário e aplica isso a dados que o sistema não viu antes.

Mas existe um fantasma presente nessas equações: o viés. Que segundo esse estudo reforça preconceitos humanos e amplificou os discursos de “direita”.

O estudo analisou o efeito de “amplificação algorítmica” em tweets de 3.634 políticos eleitos de sete países com grande base de usuários no Twitter: EUA, Japão, Reino Unido, França, Espanha, Canadá e Alemanha.

A pesquisa mostrou que em seis dos sete países (a Alemanha foi a exceção), o algoritmo favoreceu significativamente a amplificação de tweets de fontes politicamente inclinadas à direita.

No Canadá por exemplo, os tweets dos liberais foram amplificados em 43%, contra os dos conservadores em 167% e no Reino Unido os tweets dos trabalhistas foram amplificados em 112%, enquanto os conservadores foram amplificados em 176%.

Outro aspecto revelado pelo estudo foi amplificação algorítmica de notícias políticas. O estudo analisou a amplificação algorítmica de 6,2 milhões de notícias políticas compartilhadas nos EUA. E chegou à conclusão que a amplificação das notícias também segue o mesmo padrão.

Ou seja, há uma exposição maior dos conteúdos de direita, fake news e desinformação. 

Esse estudo só foi realizado graças a intensa cobrança da sociedade e após a tentativa de invasão do Congresso americano pela turba fascista alimentada por Trump.

Pois bem, quando se começa a vislumbrar a chance de se entender como os algoritmos alimentam a disseminação de desinformação e discurso de ódio, eis que surge Elon Musk.

Musk é mais um expoente dos fundamentalistas da liberdade de expressão. Para ele, não deve haver limites, o que significa que não deve haver qualquer tipo de moderação sobre o que se diz nas redes sociais. Outro defensor dessa tese é o presidente Bolsonaro.

Segundo Musk, ele quer transformar o Twitter numa "arena de livre discurso".

Ele afirma que irá democratizar o Twitter apostando na abertura do código fonte (a programação interna do Twitter) para que os mecanismos de operação sejam conhecidos e explorados por programadores.

Uma promessa vazia cheirando a “Ouro de Tolo” feita pela mesma pessoa que usou sua conta para atacar pessoas transgêneros e as políticas de combate à transmissão da Covid-19.

A liberdade de expressão tem sido usada - de forma tão indevida, oportunista e equivocada - por expoentes da extrema direita, bilionários e representantes do grande capital. A economia atual é dinamizada pelo modelo de negócios que usa o discurso como mobilizador da atenção.

E o que chama mais atenção é o discurso de ódio, é o preconceito, é a polarização social baseada em grupos que se comportam como torcedores raivosos e não como cidadãos que discutem temas de interesse público e social.

Somos todos sugados pela força centrípeta dos estímulos incessantes provocados pelas redes de alienação e agimos como autômatos reproduzindo, curtindo, compartilhando conteúdos que reforçam a visão do meu “time”, grupo e dos meus pré-conceitos.

Nesse processo, monetizamos toda a economia assentada nas plataformas. Vendemos nosso olhar, nosso corpo e alma e compramos produtos, serviços e ideias, sem qualquer reflexão. Ajudamos a curto circuitar a esfera pública e a desintegrar qualquer possibilidade democrática.

O princípio da inimputabilidade do intermediário, tão importante para o ecossistema da internet, não pode ser confundido com ausência de compromisso e responsabilidade das plataformas com o debate público.

Por isso, a regulação das plataformas de rede sociais, das Big Techs, a partir de amplo debate público é urgente e indispensável. Musk comprou o Twitter, e pode conduzir esta rede a ser um ambiente de afronta a direitos humanos fundamentais e de menosprezo com a democracia.

Mais do que nunca devemos retomar o debate sobre o #PL2630 e reforçar nele todos os elementos que dizem respeito diretamente as obrigações e regras para que as Big Techs atuem no Brasil.

É mais urgente do que nunca que tenhamos uma legislação que regule as atividades desta e de outras plataformas no Brasil, que as obrigue a cumprir os compromissos expressos em nossa Carta Constitucional. O dinheiro pode comprar quase tudo, mas não podemos deixar que ele compre também nossa soberania, a proteção à nossa democracia e esfera pública.

*Renata Mielli – Jornalista, Doutoranda no Programa de Ciências da Comunicação da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (PPGCOM-ECA-USP), integrante da Coalizão Direitos na Rede.

**Gustavo Alves – Jornalista, webdesigner e programador, estudante de Ciência de Dados na USP/Esalq.

Em fase final de debate na Câmara dos Deputados, o PL 2630/2020, que acabou apelidado de PL das Fake News, sofre onda de ataques com conteúdos de desinformação. Facebook, Google e cia temem a aprovação de medidas que vão impor transparência às suas atividades e outras regras para a sua atuação no país.

Desde que o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, reiterou que o tema é prioridade na agenda de deliberações da Casa, as empresas resolveram subir o tom e partir para o vale tudo, na tentativa de alterar ou até impedir a aprovação da proposta. As empresas usam o seu poder de mercado, e espaços privilegiados de suas plataformas para fazer a campanha contra um projeto de lei no país, o que é gravíssimo! 

Mas o que elas temem? O que as desagrada tanto?

Por Renata Mielli*

Medo da regulação

Nos anos 90, início dos anos 2000, prevalecia uma visão ufanista de que a internet representaria um mundo de liberdade, de que ela seria um território livre: livre de regulação do estado, livre de fronteiras, livre de regras, onde todos podem construir seus negócios, suas formas de comunicação e expressão. 

Essa ideia de ausência de regras foi muito conveniente para o poder econômico que se ergueu no Vale do Silício. As grandes empresas de tecnologia (Big Techs) se apropriaram desse discurso para impulsionar seus modelos de negócios e erigir um novo mercado monopolista dominado pelas empresas Gafam, acrônimo para Google, Amazon, Facebook e Apple e Microsoft.

A partir do escândalo Cambridge Analityca, das denúncias da sociedade civil e do alerta de pesquisadores muitos países passaram a discutir legislações para regular essas empresas. Há debates sobre obrigações de transparência, regras para moderação de conteúdos, combate ao discurso de ódio, enfrentamento à desinformação, debates sobre direito autoral e medidas econômicas e tributárias.

Em todos os países que enfrentaram essa agenda, as Big Techs usaram seu poder para tentar impedir que leis fossem aprovadas e aplicadas. Fizeram de tudo: campanhas baseadas em distorção de informações e dados, e até ameaças de deixar de ofertar seus serviços. Isso aconteceu na Austrália, na Espanha, na França e estão acontecendo agora no Brasil.

Em 03 de março, o Facebook veiculou propaganda em jornais de grande circulação nacional com o título: O PL das Fake News deveria combater Fake News. E não a lanchonete do seu bairro. No dia 11, foi a vez do Google soltar uma nota dizendo que se aprovado, o PL vai modificar a internet como você conhece. No dia 14, o Google colocou na sua página inicial, um link para a nota, de forma que todos os usuários que fizeram uma busca neste dia entraram em contato com a visão alarmista da empresa sobre o projeto. Além disso, passou a circular conteúdo publicitário do Google em outras plataformas com o mesmo conteúdo, que utiliza a retórica do medo, mecanismo largamente usado para estruturar conteúdos de desinformação e manipular a opinião pública.

Sobre o que trata o PL 2630

Afinal, será que o PL 2630 vai prejudicar a lanchonete do seu bairro? Será que ele vai mudar a internet que a gente conhece? Para responder essas perguntas, sem adjetivos, temos que conhecer o que de fato diz o projeto, que está sendo discutido desde maio de 2020.

Ele ganhou o apelido de PL de Fake News no início de sua tramitação. Na sua primeira versão, havia um artigo que tentava conceituar desinformação, que sofreu muitas críticas por trazer riscos à liberdade de expressão: definir numa lei que conteúdo seria classificado como fake News ou não é muito perigoso. Por isso, este ponto acabou caindo, e o texto que aguarda votação no plenário da Câmara não traz, em nenhum dos seus 42 artigos, o termo fake news.

Então, qual o escopo do projeto e porque ele continuou sendo chamado de PL de Fake News? O PL 2630 dispõe sobre a criação de uma Lei Brasileira de Liberdade, Responsabilidade e Transparência na Internet. Com base neste tripé, estrutura um elenco de obrigações, regras e mecanismos de governança para enfrentar o abuso do poder econômico nas redes, permitindo aos cidadãos e aos órgãos públicos identificar conteúdos de publicidade e impulsionados, saber o montante e a origem de recursos usados, por exemplo, para impulsionar conteúdos pregando o inexistente tratamento precoce contra a Covid-19 que tantos prejuízos trouxeram e ainda trazem à saúde.

O fenômeno da desinformação e seu impacto atual está relacionado às dinâmicas de circulação da informação no interior das plataformas. Ganham alcance e velocidade graças aos fatores de relevância considerados pelos algoritmos. Essas empresas, praticamente não fornecem dados sobre, por exemplo, quantos conteúdos são excluídos, com quais critérios, e porque contas são suspensas. Quantos dos que estão lendo este artigo já tiveram postagens excluídas ou rotuladas sem maiores explicações? E pior, os canais de contestação disponíveis para que possamos recorrer são praticamente inexistentes. Enquanto isso, muitas autoridades e pessoas com mandatos eletivos usam seus perfis e contas para espalhar a desinformação impunemente.

Ou seja, o que o projeto tenta é obrigar as Big Techs que prestam serviços para centenas de milhões de brasileiros prestem informações para que a sociedade compreenda como as fake news circulam e são patrocinadas, o que é fundamental para adotar medidas para combatê-las.

Outro ponto fundamental é uma seção inteiramente destinada a estabelecer responsabilidade diferenciada a agentes e contas de interesse público no uso das redes sociais. Afinal, quanto maior o poder que uma pessoa tem, maior a responsabilidade que ela carrega.

Também traz artigos para conter a viralização das fake news nos serviços de mensagem instantânea – aplicações do tipo WhatsApp e Telegram. Estabelece vedações à utilização de disparo automatizado de mensagens em massa, como as que foram largamente utilizadas na campanha de Jair Bolsonaro em 2018 e denunciadas pela jornalista Patrícia Campos Mello.

Ou seja, o projeto não proíbe publicidade nem impulsionamento, apenas cria regras para que a transparência seja possível. Nesse sentido, não há nada no PL que prejudique a lanchonete. Também não haverá uma mudança na internet que você conhece. Inclusive porque o PL não abrange toda a internet, ele se aplica apenas aos provedores de aplicação com mais de 10 milhões de usuários. Mas ele vai obrigar, sim, uma mudança da postura dessas empresas com relação aos usuários brasileiros. Mudanças que trarão mais segurança e empoderamento do usuário e da sociedade. E é isso que elas querem evitar.

As Big Techs se colocam veementemente contra transparência porque a opacidade é um fator intrínseco ao seu modelo de negócios das Big Techs. Dar transparência às suas operações é empoderar a sociedade para reduzir assimetrias provocadas pelo poder dessas empresas. Elas querem continuar ganhando bilhões de reais no país, atuando sem qualquer regra, sem ter que prestar contas e informações de suas atividades e, em alguns casos, nem responder às autoridades nacionais.

Amplo debate

O projeto 2630 está em debate na Câmara desde agosto de 2020. Ao longo desses quase dois anos de debate, foram organizados por iniciativa do atual relator, Dep. Orlando Silva, dois seminários, com a participação de centenas de especialistas. Organizações da sociedade civil, entidades acadêmicas, empresariais realizaram inúmeros eventos sobre o PL. O tema foi tratado ao longo deste período na mídia especializada, mas também em veículos jornalísticos. Ou seja, houve um amplo debate que resultou num aprofundamento de muitos dispositivos e amadurecimento do que é a espinha dorsal do projeto. A ofensiva atual das Big Techs nesta reta final é justamente uma reação a isso.

Há aspectos a serem melhorados e aperfeiçoados no projeto. Claro que sim. Um deles diz respeito ao artigo 38, que cria uma obrigação de remuneração de conteúdo jornalístico por parte das plataformas. Esse é um tema que não alcançou uma convergência maior. Vários setores, inclusive que têm posições diferentes sobre o PL, manifestam reservas com relação a esse dispositivo. Mas os motivos que geram resistência são distintos. As Big Techs têm se colocado contra qualquer iniciativa que surja na perspectiva de remunerar links. Inclusive ameaçaram acabar com sua operação em outros países (Austrália, Espanha por exemplo). Já, entidades do campo jornalístico, da mídia alternativa e dos direitos digitais que questionam esse tópico não o fazem por serem contra o debate em si, mas porque consideram que esta é uma discussão que precisa ser feita em outro contexto. Ela diz respeito a questões delicadas como definir o que é ou não conteúdo jornalístico, quem ao final tomaria essa decisão, como se daria essa remuneração, quem teria direito a ela, etc. Então, esse de fato é um tema sensível, para o qual ainda se busca alternativa melhor.

Mas essas melhorias e outras que ainda possam ser feitas no projeto precisam ser construídas a partir de um debate leal.

O que é importante que a sociedade compreenda é que após dois anos de debate, o projeto amealhou muitos consensos progressivos. Consenso visto não como unanimidade, mas construção de posição comum, principalmente em torno dos dispositivos envolvendo transparência, publicidade, desenho de um procedimento mais transparente sobre medidas de moderação com direito à contestação, para garantir um ambiente mais seguro e menos tóxico nas redes. E, claro, por se tratar de um tema de fronteira, dinâmico, há algumas questões que ainda ensejam dúvidas. O que precisa ser visto com naturalidade.

É fundamental desfazer as confusões que a campanha de desinformação das empresas estão trazendo. É preciso seguirmos atentos às discussões nas próximas semanas. E ter a tranquilidade de que essa lei é um dos passos que a sociedade brasileira dá na perspectiva de regular a atividade das plataformas e coibir a disseminação da desinformação. Outras leis certamente virão. E há também muitas iniciativas que precisam ser tomadas fora do âmbito legislativo. O que não podemos é ficarmos paralisados. Essas empresas não podem fazer terrorismo midiático e espalhar desinformação para continuar atuando numa terra sem lei.

*Renata Mielli é jornalista, doutoranda em Ciências da Comunicação pela ECA/USP, coordenadora do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé e integra a Coalizão Direitos na Rede.

Confira nota do MST sobre a atitude excludente da direção do MASP contra a realização do Núcleo “Retomadas”,  como parte da mostra Histórias Brasileiras:

Viemos, através desta declaração, manifestar nossa indignação com a atitude da  direção do MASP que levou a impossibilidade de realização do Núcleo “Retomadas”,  como parte da mostra Histórias Brasileiras. 

Como informa e-mail recebido das curadoras no dia 03/05/2022, sob alegações de  cunho burocrático e legalista que não se sustentam na efetiva realização do projeto, o  MASP inviabilizou a inserção de imagens do Acervo do MST, do Acervo João Zinclar e  de outros acervos que documentam a trajetória do MST e da luta pela Reforma Agrária  no Brasil. 

Somos testemunhas da forma ética e profissional com que as curadoras e os  acervos parceiros se empenharam na produção do projeto, em todas etapas e em acordo  com as demandas da instituição. 

Afirmamos nosso respeito e apoio às curadoras Sandra Benites e Clarissa Diniz,  responsáveis pelo Núcleo “Retomadas”, que diante da atitude do MASP decidiram não  participar da mostra, pois, como declaram: “Aceitar a exclusão das imagens das  retomadas em nome da permanência do núcleo nos levaria a ser desleais com os sujeitos  e movimentos envolvidos na nossa curadoria – contradição que não estamos dispostas a  negociar por não concordar com tamanha irresponsabilidade.” 

Como afirmam as curadoras: “O Retomadas é sobre a urgência de revermos as  éticas e políticas coloniais de nossos territórios, línguas, corpos, representações e museus.  Do nosso ponto de vista, mantê-lo à revelia da representação das próprias retomadas que  lhe dão título, argumento e sentido social nos levaria a ser anti-éticas em nome da ética,  excludentes em nome da inclusão, não-representativas em nome da representatividade,  expropriadoras em nome da não-apropriação, silenciadoras em nome da voz. Nos levaria,  por fim, a praticar a colonialidade contra a qual o núcleo se insurge”. 

O material selecionado pelas curadoras – imagens fotográficas, cartazes, cartilhas  e jornais impressos – são testemunhos da capacidade da classe trabalhadora de se  apresentar firme e altiva como sujeito de sua história, em todos os sentidos. 

Destacamos que ao inviabilizar a inserção da totalidade desses documentos o que  de fato se efetiva é a exclusão de um dos maiores movimentos sociais da história  contemporânea brasileira e latino-americana. Decisão que aponta para uma construção de  conhecimento histórico distorcido e comprometido com uma cultura deturpadora da real  complexidade da história política brasileira. Atitude que, no mínimo, está em desacordo  com a função social de uma instituição museológica que se apresenta em seu site com a  seguinte missão: “O MASP, Museu diverso, inclusivo e plural, tem a missão de  estabelecer, de maneira crítica e criativa, diálogos entre passado e presente, culturas e  territórios, a partir das artes visuais. Para tanto, deve ampliar, preservar, pesquisar e  difundir seu acervo, bem como promover o encontro entre públicos e arte por meio de  experiências transformadoras e acolhedoras. ” 

Portanto, questionamos a atitude excludente da direção do MASP, apontamos a  gravidade deste tipo de construção de conhecimento que invisibiliza a luta da classe  trabalhadora e chamamos toda a comunidade cultural e entidades que representam as lutas  do povo brasileiro para este debate, que se reveste da urgência de não ceder à censura e  ao apagamento de nosso maior patrimônio: nossa capacidade de luta organizada para  construir um outro modelo de sociedade.  

Pátria Livre, Venceremos! 

Acervo João Zinclar 
Coletivo de Arquivo e Memória do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST)
Direção Nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST)

O ex-ministro da Cultura e atual secretário de Cultura e Economia Criativa de São Paulo, Sérgio Sá Leitão, apontou para o fim, em sua conta do Twitter, nesta quinta-feira (6), dum dos principais mitos do governo do presidente Jair Bolsonaro (PL) da área da Cultura: o de acabar com a Lei Rouanet e, no caminho, reduzir a sua concentração de recursos.

De acordo com Sá Leitão, “os autoritários que comandam a cultura federal são trapalhões e produziram involuntariamente o inverso. A lei continua, a captação foi recorde e a concentração cresceu”.

Por Julinho Bittencourt, na Fórum

O secretário, que foi chefe de gabinete do ex-ministro Gilberto Gil, alerta que “o aumento do valor captado por projetos culturais é uma ótima notícia. Significa que a economia cresceu, as empresas ignoraram as diatribes bolsonaristas e os projetos estão acontecendo. Mas a concentração, não. Ela ocorreu porque Frias & Cia. pararam de aprovar novos projetos”.

Recursos em projetos já aprovados

De acordo com ele, “as empresas patrocinadoras tiveram que colocar os recursos em projetos que já estavam aprovados, com prazo de captação em vigor”. O resultado, alerta, foram “mais recursos para menos projetos. Além de autoritários e trapalhões, são incompetentes. Um pesadelo que tem prazo de validade: 31/12/22!”

Ataques a Ivete Sangalo e Zé de Abreu

Horas após receber alta hospitalar nesta quarta-feira (5), Bolsonaro deu uma entrevista coletiva ao lado do seu médico Antônio Luiz Macedo, em que afirmou que trabalhou durante as férias.

Sem nenhuma ação concreta aprovada no período, Bolsonaro citou a mudança na Lei Rouanet e criticou a cantora Ivete Sangalo e o ator Zé de Abreu. A Secretaria de Cultura anunciou que avalia reduzir em 50% o teto do benefício, o que revoltou diversos artistas.

“Queremos a Lei Rouanet para atender aquele artista que está começando a carreira e não para figurões ou figuronas como a querida Ivete Sangalo. Está chateada? Está. Zé de Abreu está chateado? Está. Porque acabou aquela teta deles gorda de pegar R$ 10 milhões por ano da Lei Rouanet e defender o presidente de plantão. Não quero que me defendam, mas que falem a verdade ao meu respeito”, afirmou.

O futebol das mulheres ganha o planeta como nunca antes em sua história

Grande dia!
Grande dia de verdade e não o externado pelo boçal que ocupa desastradamente o posto mais alto do executivo brasileiro.

Hoje é um grande dia porque tem início a oitava edição da Copa do Mundo de Futebol Feminino! A anfitriã França abre a competição diante da Coréia do Sul a partir das 16h00 – horário de Brasília – e além da ansiedade pelo ponta pé deste jogo temos muito o que comemorar em termos de visibilidade.

Por Lu Castro, especial para o Barão de Itararé

Há pouco mais de dez anos, assumi uma responsabilidade pessoal: utilizar a tecnologia em favor da visibilidade das mulheres que faziam a bola rolar pelos campos da cidade. Minha primeira busca foi no Juventus, formador por excelência, e sua técnica Magali.

O material, publicado no antigo portal OléOlé, já se perdeu, mas, de lá para cá, perda deixou de ser sinônimo de mulher dentro e fora das quatro linhas.

Avançamos. E os contatos com os principais agentes da modalidade se intensificaram. E espaços alternativos começaram a surgir com mais força na busca pelo tratamento igualitário do futebol de mulheres e homens – ao menos no que diz respeito ao que se noticia, inicialmente.

Observando a movimentação da imprensa nacional, noto um grande cuidado ao tratar do assunto, diferente de muitos outros anos. Acredito que esteja diretamente relacionado ao número de mulheres presentes em redações esportivas, algo que apontei como imprescindível para a melhora na comunicação do futebol de mulheres em mídias tradicionais.

Avançamos. E avançamos noutros tantos aspectos do futebol, inclusive na gestão, onde o trabalho realizado pela ex capitã da seleção, Aline Pellegrino, como diretora de futebol feminino da Federação Paulista de Futebol, tem ampliado os espaços para trabalhar as categorias de base.

Avançamos. A seleção brasileira tem uma estrutura que nunca teve. A seleção brasileira conta com uniforme próprio e não sobra do uniforme masculino. A seleção tem seus jogos transmitidos de modo inédito em tevê aberta de alcance nacional. A seleção só não tem uma coisa: técnico.

E isso, car@s, é algo que me preocupa tanto quanto me alegra: o fato de termos a Copa do Mundo mais noticiada de todos os tempos.

Diante de uma seleção nacional que caiu no ranking FIFA nos últimos anos, sob o comando de alguém que não tem perfil para comandar o selecionado nacional em nenhuma circunstância – e já o demonstrou em outras ocasiões - que carrega para a França nove derrotas consecutivas, minha expectativa é de termos que reforçar nosso discurso e argumentar como nunca que o que eles (os espectadores desconhecedores da realidade do futebol feminino) estão vendo não é bem isso.

Num momento, em que os olhos do mundo estão voltados para a amarelinha tão conceituada um dia, mostrar um jogo baseado apenas na garras das nossas habilidosas e talentosas atletas, tem sido o protagonista dos meus pesadelos.

Tudo o que lutamos para construir – atletas, gestores, comissões técnicas sérias, jornalistas interessados no assunto – pode sofrer um revés de opinião pública se o coletivo não estiver bem arrumado. E nós sabemos que não está.

Há poucas horas da abertura do mundial mais importante de todos os tempos, vou da euforia e ansiedade que mal me deixou dormir a testa constantemente franzida de preocupação.

Avancemos pois, nossas atletas se entregarão e é muito provável que nos jogos do Brasil o que avance é o nível da gengibrinha pra dar conta da montanha russa de emoções.

Uma mulher registra um boletim de ocorrência acusando um homem por estupro. Em depoimento, descreve que o parceiro teria ficado subitamente agressivo e usado da violência para praticar relação sexual sem seu consentimento. O laudo médico, anexado ao caso, apresenta sinais físicos de agressão e estresse pós-traumático. Em resposta, o homem acusado desmente a história publicamente, argumentando que o episódio não passou de “uma relação comum entre um homem e uma mulher”.

Por Mariana Pitasse, no Brasil de Fato

Esse poderia ser apenas mais um entre os cerca de 135 casos de estupro registrados por dia – que equivalem a cerca de 10% a 15% dos abusos que acontecem diariamente no Brasil, segundo levantamento do Atlas da Violência de 2018. Mas não é um episódio qualquer. O homem acusado é Neymar, um dos jogadores de futebol mais bem pagos do mundo. Por isso, o caso tomou as páginas dos jornais dentro e fora do Brasil nos últimos dias, com ampla repercussão nas redes sociais.

Após a denúncia registrada contra o jogador do Paris Saint-Germain na última sexta-feira (31), a acusadora foi exposta de diferentes formas – pela mídia comercial e pelo próprio Neymar. Para "sensibilizar" a opinião pública, o jogador postou um vídeo em suas contas do Instagram e do Facebook em que diz ser inocente. Ao tentar “comprovar” sua versão dos fatos, divulgou conversas que manteve com a mulher pelo Whatsapp, assim como fotos e vídeos íntimos da acusadora. A ação fez com que o jogador passasse a ser investigado também pelo vazamento de fotos íntimas.

A divulgação do conteúdo não foi um equívoco e, sim, uma escolha. Neymar preferiu cometer um crime virtual para tentar dialogar com pessoas que concordam com a ideia de que uma mulher que envia fotos íntimas pela internet é necessariamente "aproveitadora" e "interesseira".

O que está sendo ignorado nessa leitura rasa proposta pela defesa de Neymar é que a intimidade exposta para milhões de pessoas não diz nada sobre a acusação de estupro. Como lembra a antropóloga Débora Diniz, o que circula é a versão de um homem poderoso que se ancora em elementos do fascínio pelo sexo e na desqualificação fácil das mulheres vítimas de violência sexual. E essa é também a narrativa em que tem se amparado a cobertura da mídia comercial sobre o caso. Mesmo sem afirmar que estão assumindo uma posição, jornalistas passaram o recibo de que a acusadora está tentando se aproveitar do “menino” Neymar.

Entre as reportagens que tomaram conta do noticiário brasileiro nos últimos dias, a matéria Jornal Nacional – no dia seguinte à divulgação das conversas – foi a que mais repercutiu. Ela traz um panorama sobre o caso e ressalta o depoimento de um ex-advogado da mulher afirmando que o estupro não aconteceu. A reportagem também divulga o nome da nova advogada de defesa da mulher, ainda que ela não tenha dado autorização para isso, desrespeitando um princípio básico do jornalismo: a garantia de sigilo das fontes. Na mesma reportagem, sem mostrar as fotografias e vídeos do corpo da mulher, divulgados por Neymar, são expostas frases soltas da conversa em que o jogador aparece enredado em um jogo de sedução.

Em outra reportagem, desta vez publicada no Jornal de Brasília, a mulher tem a vida financeira e judicial revirada. O texto aponta que ela tem uma ação de despejo em seu nome, após três meses de aluguel atrasado, e que acumula dívidas. A reportagem também disponibiliza o nome completo da mulher e detalha suas contas a pagar.

A invasão de privacidade promovida por jornalistas com a justificativa de mostrar a “real versão dos fatos” não terminou por aí. Em reportagem publicada pelo jornal O Globo, a família da mulher é procurada e sua mãe é informada sobre o caso a partir da abordagem da repórter. Dias depois, uma matéria veiculada pelo portal UOL evidencia que o filho da mulher, de cinco anos, está sofrendo com chacotas na internet e na escola por conta da repercussão do caso.

Mais do que a intimidade revirada e exposta em fotos e vídeos íntimos e informações detalhadas sobre sua situação financeira, a mulher teve sua versão dos acontecimentos contestada a todo tempo, de forma pública, inclusive por seu ex-advogado. Mas isso não é levado em consideração, porque tudo parece legítimo quando a motivação é “dar o furo” de reportagem. Na lógica do jornalismo, é necessário apresentar respostas antes mesmo das investigações. Tudo isso com base na “isenção e na imparcialidade”, ainda que à serviço da versão do jogador milionário…

Neymar, por outro lado, segue a rotina de treinos, jogos e compromissos publicitários, blindado por seu estafe. A presença dele está confirmada no jogo amistoso do Brasil contra o Qatar nesta quarta-feira (5).

Paris Saint-Germain e Seleção Brasileira se esquivam de comentar o caso. Familiares e amigos se pronunciam publicamente garantindo que ele é inocente e vítima de uma armadilha. A preocupação maior parece vir dos patrocinadores: ao menos quatro das 10 marcas manifestaram incômodo com o caso, segundo levantamento da Folha.

Comprovada ou não a acusação, a sentença já está dada: a mulher é sempre a ponta vulnerável. Não à toa, segundo o Atlas da Violência, são cerca de 1300 estupros por dia no país – dos quais apenas 135 são notificados.

*Jornalista, editora do Brasil de Fato no Rio de Janeiro e doutoranda em Antropologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF).

Edição: Daniel Giovanaz