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Qua, Mar

Close errado do jornalismo ao tratar do futebol feminino

Futebol, mídia e democracia
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Em mais um jogo válido pelo Torneio Internacional de Manaus, a seleção brasileira sob a batuta da técnica Emily Lima, venceu a seleção russa com propriedade pelo placar de 4 a 0. A vitória garantiu a seleção na final do torneio e ratificou a mudança de postura da seleção, que coletivamente, construiu o resultado e demonstrou trabalhar com uma gama considerável de jogadas.

Observem meu relato.

É uma notinha básica sobre um jogo de futebol que não exige um vocabulário rodriguiano dos jornalistas. É pá e pum. E a chamada para a nota? Poderia ser algo simples, do tipo “Meninas goleiam russas e avançam à final”, ou ainda, “Seleção feminina aplica chocolate e vai decidir o título do Torneio”.

Contar a história de um jogo de futebol feminino não tem segredo. As meninas que jogam bola não precisam de floreios nas crônicas ou nas manchetes, precisam ter espaço nos veículos, precisam ter a visibilidade que há anos batalhamos para propiciar sempre com o respeito que qualquer profissional merece.

Infelizmente tem sido rotineira a sensação de entrar e sair de uma máquina do tempo em que sou colocada obrigatoriamente de frente com comportamentos inaceitáveis. Hoje foi um dia desses, de entrar na enfadonha máquina do tempo do jornalismo esportivo misógino.

Não basta a má vontade de alguns veículos em dar espaço para o futebol das mulheres. Há ainda os que acreditam que fazer troça ou usar trocadilhos capciosos, é o supra sumo da criatividade. Como são obtusos!

O Jornal Manaus Hoje, na edição desta segunda-feira (12), prestou um grande desserviço para o jornalismo esportivo e tratou com total falta de respeito as meninas da nossa seleção. O título da matéria, em fonte grande, dizia: “Meninas dão de quatro.” e acompanhava a foto onde estão Bia, Debinha, Tamires e Gabi Zanotti comemorando um gol.

Imediatamente nos organizamos para cobrar uma retratação do jornal e escancarar o modo como as atletas do futebol ainda são expostas. Pior do que ler a manchete, foi me deparar com as justificativas a favor do “desavisado” jornal. Na cabeça dessa gente, nós é que vimos maldade onde não há. Nós é que somos “feminazi”, “mimimi”, “frescurenta” e um tanto de outros adjetivos típicos de quem não tem argumento ou cérebro.

Perguntas pertinentes: A manchete seria a mesma caso fosse a seleção masculina a marcar 4 gols no adversário? Sabem o lance de close certo e close errado? Então! Já acompanharam o especial do Museu do Futebol exatamente sobre o tratamento dado ao futebol feminino nas publicações de jornais e revistas? Essas pessoas que “não viram maldade” no tratamento da matéria, ficariam contentes em ver a foto da filha, da irmã, da mãe ou da esposa logo abaixo de uma frase tão sorrateira como esta?

Se ainda precisamos fazer perguntas como esta última na tentativa de trazer à consciência do indivíduo o país machista em que vivemos, sinal de que ainda temos um longo e árduo caminho de aborrecimento até que a mulher dentro de um campo de futebol, signifique apenas uma pessoa praticando esporte.

Mas não se enganem. Posso me aborrecer, posso passar muita raiva, posso perder o apetite – como aconteceu hoje –, posso até pedir arrego por um dia, mas JAMAIS vou esmorecer e tampouco as irmãs que estão comigo na luta pelo respeito e pelo direito de ocupar os espaços que quisermos.

Esperneiem o quanto quiserem, usem seus tão abestalhados bordões, não há a mínima chance de nos ver retroceder. Respeita as minas!


*Jornalista, integrante do Coletivo Futebol Mídia e Democracia, autora do blog Futebol para Meninas e colaboradora do Museu do Futebol para assuntos de futebol feminino