22 de julho de 2024

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50 anos sem Apparício Torelly: Barão de Itararé, o Almirante Negro e a história que se repete

Figura que inspirou o ‘batismo’ da entidade fundada em 2010, o Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, a história de Apparício Torelly (1895-1971), às vezes parece pouco conhecida considerando sua relevâcia. Neste 27 de novembro de 2021, completa-se 50 anos de sua ausência física. Tido como um dos criadores da imprensa alternativa no país e o “pai do humorismo brasileiro”, o Barão aproveita a data para celebrar o legado de ‘Aporelly’!

Fundados dos jornais “A Manha” (em resposta ao jornal ‘A Manhã’) e “Almanhaque”, Apparício Torelly ironizou as elites, criticou a exploração e enfrentou os governos autoritários. Preso várias vezes, nunca perdeu o seu humor. “Itararé”, por exemplo, é o nome da batalha que não houve entre a oligarquia cafeeira e as forças vitoriosas da “Revolução de 1930” – sim, seu título é de um grande evento que nunca existiu!

Torelly, o Barão de Itararé, é famoso por suas pérolas geniais como frasista. Cansado de apanhar da polícia secreta do Estado Novo, colocou na porta do seu escritório uma placa com a hoje famosa frase “entre sem bater”. Político sagaz, Torelly foi militante do Partido Comunista do Brasil (PCB) e eleito vereador pelo Rio de Janeiro em 1946 com o lema “mais leite, mais água e menos água no leite” – denunciando fraudes da indústria leiteira da época.

Seu mandato foi combativo e irreverente, conforme relembra artigo publicado por Altamiro Borges em 2010. Segundo o então senador Luiz Carlos Prestes, “o Barão não só fez a Câmara rir, como as lavadeiras e os trabalhadores. As favelas suspendiam as novelas para ouvir as sessões que eram transmitidas pela rádio”. Teve o seu mandato cassado juntamente com a cassação do registro do PCB, em 1947, e declarou solenemente: “Saio da vida pública para entrar na privada”. Seu jornal, A Manha, foi novamente empastelado e, com dificuldades financeiras, ele escreveu: “Devo tanto que, se eu chamar alguém de ‘meu bem’, o banco toma”. Passou a colaborar com o jornal getulista “A Última Hora” e lançou ainda mais dois Almanhaque.

Diante da crise política que culminou no suicídio de Vargas, em 1954, afirmou: “Há qualquer coisa no ar, além dos aviões de carreira”. Barão de Itararé denunciou as manipulações da imprensa, tendo sido um crítico ácido dos jornais golpistas de Assis Chateaubriand e Carlos Lacerda e um entusiasta do jornalismo alternativo. Após o golpe militar de 1964, ele passou por inúmeras privações. Faleceu em 27 de novembro de 1971. Em sua lápide poderia estar inscrita uma de suas frases prediletas. “Nunca desista de seu sonho. Se acabou numa padaria, procure em outra”.

No marco de cinco décadas sem a presença de Apparício Torelly, o Barão reproduz, a seguir, a coluna publicada pelo jornalista Ayrton Centeno no Brasil de Fato.

Barão de Itararé, o almirante negro e a história que se repete

O jovem estudante de medicina, Apparício Fernando, puxou a “Passeata da Rolha”, uma reação aos mandos e desmandos do governador gaúcho Borges de Medeiros no começo do século passado, censurando jornais e proibindo reuniões públicas. Centenas de manifestantes saíram às ruas de Porto Alegre com rolhas nas bocas. O líder do protesto acabou preso mas não perdeu a petulância. Muito pelo contrário. Largou a medicina, mandou-se para o Rio de Janeiro e virou jornalista.

No Rio dos anos 1920, livrou-se do “Fernando”, deixou na estrada o “Brinkerhoff”, seu primeiro sobrenome, fundiu o “Apparício” com o “Torelly”, última seção da sua graça, e passou a assinar “Apporelly”. Não por muito tempo. Criou seu próprio jornal e concedeu a si próprio um título de nobreza, virando barão. Tornou-se celebridade nacional. Algo para lembrar neste sábado (27), que marca o cinquentenário da morte do “Barão de Itararé”*, pai do jornalismo brasileiro de humor.

Cinco décadas após a partida do protagonista, seu humor continua afiado e válido para coisas que aconteceram bem depois daquele 27 de novembro de 1971, quando morreu em seu apartamento no bairro carioca de Laranjeiras. Ainda corta com a lâmina da irreverência os descaminhos do autoritarismo à brasileira. Querem um exemplo? “Anistia é um ato pelo qual o governo resolve perdoar generosamente as injustiças e crimes que ele mesmo cometeu”. Perfeito, não? Sobretudo se pensarmos no indulto aos torturadores, estupradores e assassinos de 1964.

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Como acontece com aquelas figuras maiores do que a vida, a jornada do Barão mistura a realidade com a lenda. Teria nascido a bordo de uma diligência que vinha do Uruguai para o Brasil. Mas consta como registrado na cidade de Rio Grande, no Sul gaúcho.

Desde cedo, podia levar a pior mas não perdia a piada. Na faculdade de medicina, o professor empunhou um fêmur e perguntou-lhe:

— Conhece este osso?

Curvando-se cerimoniosamente, o aluno Torelly estendeu a mão, apertando o fêmur:

— Muito prazer em conhecê-lo!

Antes de autoconsagrado barão, Torelly trabalhou em O Globo e A Manhã, jornal de Mário Rodrigues, pai do futuro dramaturgo Nelson Rodrigues. Saiu de “A Manhã” e fundou o satírico “A Manha”, sem o til porém com muito mais malícia. “Um órgão de ataques… de riso” era seu bordão. Ali, inventou de tudo: um duplo do presidente Washington Luis que “assinava” uma coluna como “Vaz Antão Luis”, apelidos para os ministros Gustavo Capanema (Capa Anêmica) e Góes Monteiro (Gás Morteiro), e foi se autoconcedendo títulos de nobreza, acabando como Sua Majestade Itararé I, o Brando – onde enfiou um cacófato na junção do artigo com o adjetivo.

Fazendo jus à galhofa, o nome “Itararé” veio de uma batalha que não houve na Revolução de 30. Seguindo o deboche, implantou a União das Repúblicas Socialistas da América do Sul, as URSAS, dirigidas pelo monarca Itararé I.

Comunista, Torelly acabou preso depois da fracassada revolta vermelha de 1935. Durou um ano e seria a mais longa das suas prisões. Em 1947, quando o PC gozou de breve período de legalidade, elegeu-se vereador com o lema “Mais água. Mais leite. Mas menos água no leite!” Porém, em 1948, o partido foi posto na clandestinidade e todos seus 18 vereadores cassados. Torelly lamentou: “Um dia é da caça…os outros da cassação”.

Um episódio do barão nos anos 1930 estabelece um arco com o presente. Por algumas semanas, ele deixou o “A Manhã” e foi pilotar o Jornal do Povo. Lá, começou a publicar em capítulos uma história da Revolta da Chibata, ocorrida duas décadas antes, quando os marujos negros se rebelaram contra a prática dos oficiais de chicoteá-los. Nela, pontificava João Cândido, outro gaúcho, o “Almirante Negro”, que João Bosco e Aldyr Blanc cantariam em “O mestre-sala dos mares”.

 

Após liderar revolta no Rio, João Cândido foi expulso da Marinha e preso por dois anos na Ilha das Cobras / Reprodução

A resposta veio rápida. Oficiais da marinha sequestraram Torelly em Copacabana. Disseram que iam matá-lo mas se contentaram em dar-lhe uma surra, raspar-lhe a cabeça e tirar-lhe a roupa. Foi abandonado nu em um matagal. Ao voltar à redação, pendurou na sua porta seu famoso aviso “Entre sem bater”.

Expulso e atirado no fundo de uma masmorra cavada na rocha, João Cândido só começou a ser reconhecido em 2008 durante o governo Lula. Mas a Marinha não o aceita mesmo distante um século daquela rebelião contra a violência e o racismo.

É uma história que se repete. Em 2021, o comando da força rejeitou a iniciativa do Senado de incluir João Cândido no “Livro dos Heróis e das Heroínas da Pátria”, argumentando que ele “quebrou a hierarquia” – quebram-se ossos mas jamais a hierarquia.

Mas a inserção foi aprovada e agora vai para o exame da Câmara dos Deputados. Noventa anos atrás, o barão tocara em uma ferida aberta ainda hoje.

*Para saber mais sobre a figura vale recorrer a livros como “Barão de Itararé- herói de três séculos, de Mouzar Benedito (Expressão Popular); “As duas vidas de Apparício Torelly”, de Cláudio Figueiredo (Record); “Barão de Itararé”, de Leandro Konder (Brasiliense); e “Barão de Itararé”, de Ernani Ssó (Tchê).

**Ayrton Centeno é jornalista, trabalhou, entre outros, em veículos como Estadão, Veja, Jornal da Tarde e Agência Estado. Documentarista da questão da terra, autor de livros, entre os quais “Os Vencedores” (Geração Editorial, 2014) e “O Pais da Suruba” (Libretos, 2017).