20 de julho de 2024

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Javier Tolcachier: A luta antiapartheid na Palestina e na América Latina

Não nos deteremos nos amplos argumentos que pedem a suspensão e a superação do regime de apartheid sofrido pelo povo palestino. Essa contribuição visa conectar essa luta justa com o cenário global e regional.

Por Javier Tolcachier*
Foto: Daniel Violal/MST

A causa palestina e o cenário internacional

Como todos sabemos, hoje a hegemonia anglo-saxônica cimentada pelo poder financeiro, pelo complexo militar-industrial, tecnológico-digital e cultural do Ocidente, além da institucionalidade neocolonial imposta em meados do século passado, está sendo desafiada pela emergência de alianças multilaterais cada vez mais fortes.

Neste contexto, a exigência da identidade nacional palestina, o pleno reconhecimento do seu direito a tornar-se Estado, o desmantelamento da agressão cotidiana do Estado de Israel contra a sua população e a reparação simbólica e material dos danos causados – mesmo que o valor das vidas e mutilações não possa ser totalmente reparado – tornaram-se hoje um clamor global e a bandeira de todas as causas justas.

Tal centralidade não é por acaso. A criação do Estado de Israel, que para muitos judeus constituía na época a possibilidade de um porto seguro contra a perseguição czarista e nazista, entre outras, teve como contrapartida, em termos geopolíticos, o estabelecimento de um enclave da potência imperialista do Ocidente em uma área-chave para o abastecimento de petróleo e o trânsito de mercadorias em todo o mundo.

O apoio financeiro, armamentista e tecnológico dos Estados Unidos da América a Israel, sem o qual o novo Estado não poderia ter sido estabelecido, exigiu que servisse como um apêndice militar dos interesses do primeiro, sustentando o desenvolvimento de tecnologias avançadas de guerra, vigilância, inteligência e até armas nucleares. Dessa forma, o Estado israelense, ao despejo progressivo, constante e brutal da população palestina, acrescentou as características de um Estado gendarme, zeloso guardião do regime pós e neocolonial no Oriente Médio.

É por isso que, neste momento em que este velho regime começa a cambalear, as forças sociais que aderem à nova onda de libertação política e cultural em curso, se unem e concentram inequivocamente uma demanda mundial na causa contra o apartheid na Palestina, como um poderoso aríete para derrubar a velha ordem estratégica internacional ainda dominante.

A causa palestina e o cenário regional latino-americano e caribenho

No caso da América Latina e do Caribe, o tema aparentemente distante adquire grande relevância, uma vez que o relativo avanço da ultradireita está atrelado a alianças com o establishment neocolonial.

A direita continental não só está objetiva, cultural e historicamente ligada aos interesses de poder do bloco atlantista, mas também tem ligações diretas com o Estado de Israel, como provedor de sistemas avançados de vigilância e repressão social, desenvolvidos com base em sua própria experiência no terreno contra a resistência palestina.

Também é necessário notar a influência negativa e decisiva do setor financeiro concentrado sobre os povos da América Latina e do Caribe, sobre o qual a comunidade judaica americana – fator preponderante na política externa de apoio a Israel – tem forte influência.

Por outro lado, a sede de paz, desenvolvimento e justiça social dos povos da região contrasta profundamente com as tendências à guerra e ao armamento que emergem da matriz ideológica supremacista que caracteriza os governos dos Estados Unidos e de Israel.

Também sabemos que o apartheid, de forma dissimulada ou explícita, também continua em nossa região com a discriminação contra povos indígenas e afrodescendentes, contra mulheres, grupos de diversidade sexual e afetiva, jovens e pobres, entre outros setores.

Por todas estas razões, entendemos que a solidariedade internacionalista com a causa palestina e o estabelecimento de um Estado palestino coincidem plenamente com a necessidade de se libertar do imperialismo atlantista e das suas matrizes de dominação.

Por último, pensamos que, tal como aconteceu na luta pela libertação da África do Sul do seu regime de segregação, a luta pela libertação palestina deve ser firmemente orientada para uma metodologia não violenta. Uma metodologia que, além de manter seu caráter ético humanista, afasta qualquer possível argumento revanchista às represálias genocidas do fundamentalismo israelense.

Finalmente, entendemos que a ampla condenação internacional, tanto simbólica quanto prática, semelhante àquela que contribuiu na época para o fim do apartheid na África do Sul, a solidariedade dos governos progressistas com a população palestina e a possibilidade de estabelecer justiça transicional diante dos crimes cometidos pelo Estado de Israel, é uma porta intermediária no caminho necessário para o difícil, mas único caminho de convivência futura. paz e reconciliação entre os povos.

(*) Javier Tolcachier é investigador do Centro Mundial de Estudos Humanistas, comunicador na agência Pressenza e militante humanista.