22 de setembro de 2026

Entre a ONU e a urna, reta final passa por novas medidas

A eleição continua muito apertada. E chega aos seus últimos 12 dias procurando alguma coisa capaz de romper um equilíbrio que já dura semanas.

A nova Quaest, divulgada nesta segunda-feira, mostra Lula com 37% e Flávio Bolsonaro com 33%. Os dois cresceram dois pontos em relação à rodada anterior. Augusto Cury aparece com 6%, Ronaldo Caiado com 4%, Renan Santos com 3% e Romeu Zema com 1%.

Por Carlos Tibúrcio* / Fórum 21 

Num eventual segundo turno, Flávio tem 42% e Lula, 41%. Empate técnico. As rejeições são quase espelhadas: 56% dizem que não votariam em Flávio Bolsonaro; 55%, que não votariam em Lula. A aprovação do governo está em 44%, contra 50% de desaprovação.

O mais importante talvez não seja procurar um vencedor nesses números. É observar o movimento.Lula e Flávio Bolsonaro cresceram juntos, embora uma pesquisa isolada não permita afirmar de onde vieram individualmente os novos pontos de cada um.

Outros levantamentos divulgados nos últimos dias apresentam percentuais diferentes, consequência também de metodologias distintas, mas repetem a imagem de uma disputa muito apertada. A BTG/Nexus trouxe Lula com 40% e Flávio com 37%, e 46% a 45% num segundo turno. A Palver registrou Flávio com 42% e Lula com 41%, e 47% a 43% no segundo. Datafolha, Atlas, Quaest e Nexus também encontraram confrontos Lula-Flávio muito próximos.

Na coluna anterior, O Fio da Eleição chamou atenção para um empate de vetos. Ele permanece. O que começa a mudar é o cenário em torno dele.

A eleição chegou à ONU

Nesta terça-feira, Lula abriu o Debate Geral da Assembleia das Nações Unidas em Nova York. Seu discurso percorreu guerras, Gaza, Ucrânia, reforma do Conselho de Segurança, mudanças climáticas, inteligência artificial, big techs e crime organizado.

Mas falou também diretamente com a conjuntura brasileira. Lula rejeitou interferências estrangeiras no processo eleitoral, defendeu a soberania brasileira e afirmou que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”.

Falou ainda de Pix, apostas online, democracia, combate ao crime organizado e afirmou a capacidade do Brasil de decidir seus próprios caminhos.

Donald Trump falou logo depois.

O presidente norte-americano dedicou parte importante de seu discurso à política externa dos Estados Unidos, defendeu sua decisão de iniciar a guerra contra o Irã, criticou a atuação da ONU e de outras instituições multilaterais e enfatizou a soberania dos Estados Unidos e suas políticas de segurança e fronteiras.

Lula e Trump não chegaram a se encontrar ou cumprimentar nos bastidores, apesar do pequeno intervalo entre os dois discursos.

Lula colocou a defesa da soberania brasileira dentro de uma argumentação favorável ao multilateralismo, à reforma das instituições internacionais e à não intervenção.

Trump combinou defesa da soberania norte-americana com críticas às limitações impostas por organismos internacionais e com a afirmação de uma política externa mais unilateral.

A questão para O Fio é outra: isso mexe com voto?

A relação com os Estados Unidos já vinha entrando no debate eleitoral brasileiro. Um relatório da Abin sobre risco de interferência externa havia ampliado nas redes a discussão sobre soberania às vésperas da Assembleia Geral.

A ONU fornece agora imagens e argumentos concretos para essa discussão.

Mas faltam apenas 12 dias para votar.

E política internacional só se transforma em voto quando consegue estabelecer alguma conexão com a percepção cotidiana do eleitor.

O STF continua aberto

Enquanto Lula falava de soberania em Nova York, a crise institucional brasileira seguia produzindo capítulos.

Nesta terça-feira, André Mendonça apresentou sua resposta à representação de Alexandre de Moraes. Pediu o arquivamento da iniciativa contra ele e, no movimento inverso, solicitou que fossem apuradas possíveis irregularidades atribuídas a Moraes.

O conflito, portanto, não terminou.

Mudou de forma e continua institucionalmente aberto.

Kassio Nunes Marques, que havia se declarado impedido nos processos ligados ao Banco Master em razão de sua posição como presidente do TSE, afirmou que poderá rever essa decisão depois das eleições.

A sessão que discutia Moraes e Mendonça continua suspensa depois do pedido de vista de Flávio Dino.

Esse prolongamento importa eleitoralmente porque Flávio Bolsonaro continua explorando a crise e associando o desgaste do Supremo ao governo Lula.

Ao mesmo tempo, a narrativa é menos simples do que parecia no início do mês.

Flávio é formalmente investigado no inquérito relacionado ao financiamento de Dark Horse. Documentos da Polícia Federal apontam sua interlocução com Daniel Vorcaro na busca de recursos para o filme sobre Jair Bolsonaro. O candidato afirma que se tratava de um negócio privado e nega irregularidades.

É precisamente aí que a crise do STF encontra seu limite como explicação total da eleição.

Veja Também:  Em NY, Lula mira oposição a Trump e encontra Sanders e Mamdani

Ela pode produzir desgaste institucional.

Pode alimentar rejeições.

Pode reforçar discursos já existentes.

E numa eleição apertada, pequenos movimentos importam.

Mas até agora não há evidência de que ela tenha reorganizado sozinha grandes parcelas do eleitorado.

O eleitor que não cabe nos dois campos

Uma pista importante permanece fora dos percentuais de Lula e Flávio Bolsonaro.

Pesquisa BTG/Nexus identificou recentemente cerca de 19% de eleitores classificados como não polarizados.

Entre eles, 40% apontaram saúde entre os principais problemas do país e 31% citaram segurança pública, violência ou criminalidade. Educação apareceu com 20%; corrupção, 19%.

Na rodada mais recente da Nexus, os não polarizados permaneceram em torno de 18%, enquanto aumentou o grupo definido pelo instituto como bolsonarista convicto e diminuiu o lulista convicto. É uma classificação própria da pesquisa, construída a partir da relação dos entrevistados com Lula e Bolsonaro, e não deve ser confundida diretamente com intenção de voto.

Mas o dado é útil.

Ele mostra novamente por que “indeciso” é uma palavra limitada para descrever o eleitorado que ainda pode se movimentar.

Há quem declare voto e possa mudar.

Há quem escolha um candidato na pesquisa estimulada, mas não o mencione espontaneamente.

Há quem rejeite os dois grandes campos.

E há quem esteja menos interessado nas guerras institucionais do que em questões muito concretas de sua vida.

Saúde.

Segurança.

Preço da comida.

Emprego.

Renda.

Jornada de trabalho.

Dívida.

É aí que uma campanha presidencial encontra novamente o cotidiano.

Dois candidatos, dois problemas

Lula e Flávio Bolsonaro chegam a essa fase enfrentando dificuldades diferentes.

Lula tem a Presidência, programas governamentais, a exposição internacional e um eleitorado fortemente consolidado em segmentos de menor renda e no Nordeste.

Carrega também a desaprovação de metade dos entrevistados pela Quaest e rejeição de 55%.

Flávio consolidou rapidamente grande parte do eleitorado bolsonarista e transformou o segundo turno numa disputa extremamente próxima em vários institutos.

Carrega rejeição igualmente elevada —56% na Quaest— e precisa lidar simultaneamente com o desgaste do STF, que explora politicamente, e com sua própria ligação documentada com Vorcaro no caso Dark Horse.

Por isso, talvez a eleição esteja chegando a uma espécie de fronteira.

Os dois grandes campos já mobilizaram boa parte de quem naturalmente se identifica com eles.

O espaço para crescer existe, mas está nas bordas.

E quem vive nas bordas não necessariamente enxerga a eleição com a mesma lente de quem está inteiramente dentro de um dos polos.

Do veto à escolha

Há poucos dias, esta coluna escreveu que a eleição estava sendo organizada pelo veto.

Os dados continuam confirmando isso.

Quaest: 55% rejeitam Lula, 56% rejeitam Flávio.

Datafolha: rejeições iguais, de 47%.

A diferença metodológica entre as pesquisas impede comparar diretamente os percentuais, mas ambas mostram resistências enormes aos dois candidatos.

O problema é que voto não é apenas rejeição.

Em algum momento, o eleitor precisa transformar o que não quer numa escolha sobre o que quer.

A ONU introduziu nesta terça-feira soberania e relações internacionais com força incomum numa eleição brasileira.

O STF mantém abertas as questões sobre instituições, transparência e poder.

As campanhas insistem em segurança, economia, programas sociais, corrupção e valores.

E as pesquisas continuam mostrando praticamente o mesmo país dividido.

Talvez seja exatamente isso que torne estes últimos 12 dias potencialmente mais importantes que as semanas anteriores.

Não porque exista até agora qualquer sinal seguro de uma grande onda eleitoral.

Mas porque, numa eleição tão comprimida, não é necessária uma onda gigantesca para alterar o resultado.

Basta que uma pequena parcela do eleitorado móvel encontre uma razão para atravessar a fronteira entre preferência e decisão.

Por isso, o presidente Lula certamente tomará novas medidas – sobre as Bets, por exemplo – e a campanha investirá cada vez mais em mobilização.

As próximas pesquisas mostrarão se o discurso da ONU, os novos capítulos do STF ou os temas da vida cotidiana conseguirão produzir esse movimento.

Por enquanto, O Fio é outro: a eleição continua apertada, os vetos continuam altos e o voto que ainda pode mudar continua valendo muito.

(*) Carlos Tibúrcio é jornalista, editor do Fórum 21, diretor da Fatoflix, membro da Coordenação do Barão de Itararé e foi coordenador da Equipe de Discursos do presidente Lula e da presidenta Dilma, de 2003 a 2016.