8 de outubro de 2026

Cartilha orienta cobertura jornalística ética de violência contra mulheres negras

“A mulher negra não é apenas uma vítima de manchete, ela é uma vida inteira, cheia de força e humanidade”. A declaração é de uma das entrevistas para a cartilha “Não fale por mulheres negras, fale com mulheres negras: Uma abordagem jornalística para o enfrentamento ao racismo em pautas sobre violência racial e de gênero”, lançada nesta quinta-feira (8) por CRIOLA, organização de mulheres negras, com redação e edição da agência Alter Conteúdo.

Por Redação / Alma Preta 

O documento traz indicações de como fazer uma cobertura ética e respeitosa de pautas envolvendo mulheres negras que tenham sofrido qualquer tipo de violência.

Disponível gratuitamente, o material é direcionado a jornalistas e nasceu a partir de conversas com mulheres da Rede Empoderando Mulheres Negras, projeto de CRIOLA contra a violência racial e de gênero.

Nessas conversas, identificou-se que a principal dor é o temor de lidar com a imprensa pela forma como costuma tratar mulheres pretas e pardas, principalmente quando o assunto é violência.

“Sempre que se conta a história de uma violência sofrida, se sofre outra vez. A diferença estará no objetivo de contá-la”, conta uma das mulheres negras ouvidas em entrevista realizada pela equipe responsável pela redação da cartilha, todas mulheres negras e jornalistas.

Para Élida de Aquino, coordenadora de comunicação de CRIOLA, a cobertura de imprensa tradicional falha ao não ter empatia, ao tratar as entrevistadas com estereótipos, ao reduzi-las à violência sofrida.

“Além disso, é comum vermosreportagens em que as famílias e os amigos das vítimas não são ouvidas, trazendo sempre um perfil focado na estatística e não na mulher que viveu a violência. Cabe a nós, enquanto sociedade, revertermos esse quadro, em um momento de dor, todastenhamos um tratamento respeitoso” afima.

Além de trazer sugestões para uma cobertura mais ética e empática, a cartilha discute a importância da representatividade na mídia e da presença de mais especialistas diversos nos conteúdos jornalísticos.

O material também alerta para armadilhas narrativas comuns e oferece ferramentas práticas para o dia a dia da redação, como um checklist de perguntas essenciais para quem cobre pautas de violência racial e de gênero.

“Quando começamos a ouvir as lideranças da Rede Empoderando Mulheres Negras, um padrão se repetia: o medo de conceder uma entrevista e sair dela mais machucada do que havia entrado. Essa cartilha é uma ferramenta prática para que jornalistas, inclusive eu mesma, revisem suas próprias rotinas de apuração e edição. Não para apontar culpados, mas para construir, coletivamente, um jornalismo que acolha em vez de revitimizar”, finaliza Carolina Wanderley, coordenadora de contas na Alter Conteúdo e responsável pelo projeto.

Para construir o conteúdo, as autoras entrevistaram mulheres negras e também dialogaram com jornalistas — especializados ou não no tema — para entender suas percepções e dificuldades ao lidar com esse tipo de cobertura.

CRIOLA reforça que a comunicação também é um campo de disputa política e que transformar a forma como mulheres negras são narradas é parte fundamental da luta por dignidade e Bem Viver, cabendo à imprensa decidir, a cada pauta, se vai perpetuar as violências ou ajudar a combatê-las.