24 de julho de 2024

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Miguel do Rosário fala sobre denúncia de sonegação da Globo, mídia e democracia

Desde o dia 27 de junho, quando o blog O Cafezinho publicou em primeira mão documentos revelando sonegação fiscal milionária por parte da Rede Globo, o assunto tem ganhado destaque nos meios de comunicação brasileiros, tanto no campo da mídia alternativa quanto nas páginas de jornalões, como a Folha de S. Paulo. O Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé entrevistou, nesta quinta-feira (4), o autor do blog, Miguel do Rosário, que falou sobre a denúncia, sua repercussão e os avanços do movimento pela democratização da comunicação.

De acordo com os documentos da Receita Federal revelados em O Cafezinho, referentes a processo de 2006, a Rede Globo sonegou R$ 183,14 milhões e, por isso, foi multada em cerca de R$ 273 milhões. Com os valores atualizados, a sanção chega estrondosos R$ 615 milhões. Apesar de ter declarado que pagou a dívida, a Rede Globo não comprovou a quitação do valor. “O documento ao qual tive acesso é de fins penais e incluía a própria defesa da Globo. O fato é que a empresa tentou burlar o Fisco, utilizando um paraíso fiscal nas Ilhas Virges Britânicas”, explica.

“Apesar de a prática de escoar cifras milionárias para esses lugares serem comuns entre grandes empresas”, defende Miguel, “é responsabilidade do Ministério Público (MP) investigar o caso, já que são vários crimes contra o mercado financeiro: lavagem de dinheiro, evasão de divisas e formação de quadrilha”.

Em ato pela democratização da comunicação realizado na noite de quarta-feira (4), em frente à sede da Rede Globo, no Rio de Janeiro, o núcleo local do Centro de Estudos Barão de Itararé – do qual Miguel faz parte – protocolou pedido para que o MP apure o caso. “A Receita Federal não tem poder de polícia, portanto cabe ao MP averiguar a situação da Rede Globo em relação ao caso”, disse.

A respeito do jornal Folha de S. Paulo, que divulgou a informação nesta quinta-feira, Miguel chama a atenção para a falta de ética do veículo e sua tentativa de amenizar a situação da Globo. “Em primeiro lugar, a Folha sequer teve a delicadeza de citar O Cafezinho como fonte da informação, mesmo publicando a notícia apenas uma semana depois. Isso, por si só, já mostra as graves falhas éticas que imperam nos grandes veículos da velha mídia”, afirma. “Além disso, o jornal alega, engenhosamente, que no sistema da Receita o processo aparece como ‘em trânsito’, o que, segundo eles, poderia significar que o pagamento já pode ter ocorrido”.

Globo, mídia e democracia

Foto: Mídia NinjaDe acordo com Miguel do Rosário, a criação de um fato político de grande dimensão por parte de um pequeno blog escancara a necessidade de democratizar o setor no país. “A grande mídia finge que apenas fiscaliza o poder, desprovida de interesses políticos, mas na verdade é, também, um poder, que precisa ser cobrado”, argumenta.

“A Globo sempre se posiciona contra os interesses nacionais, sempre tenta sabotar os avanços sociais, além de ter apoiado a ditadura militar no Brasil. A ligação da emissora com o período mais sombrio de nossa história precisa ser ensinada para as crianças e adolescentes”, diz, defendendo que os grandes grupos de comunicação agem como partidos políticos.

A blogosfera, na visão de Miguel, é um exemplo de terreno fértil para o contraponto informativo e, principalmente, para a pluralidade de ideias: “Uma diferença básica entre a velha mídia e os blogueiros (e comunicadores digitais) é que, ainda que tenhamos nossas diferenças e representemos uma infinidade de opiniões, não nos pretendemos neutros”.

O ato em frente à Globo, em sua avaliação, teve forte caráter simbólico. “Foi um ato com pauta definida, com agenda, com participação de movimentos sociais diversificados e com representatividade”, comenta. No relato publicado em seu blog, Miguel afirma que “o momento alto do evento foi quando centenas de pessoas levaram uma fita listrada e ‘lacraram’ a Rede Globo, numa alusão ao que a Polícia Federal faz com as pequenas rádios comunitárias acusadas de alguma mísera irregularidade burocrática”.

Mais que isso, o blogueiro opina que a revolta generalizada que tomou conta do país, mesmo que confusa, contém alto teor de indignação com a Rede Globo e as arbitrariedades da grande mídia. “A Globo só fala da corrupção porque é um objeto manipulável. E os corruptores, incluindo a própria mídia?”, questiona.

Animado com a efervescência da luta pela democratização da mídia no país, Miguel celebra o crescimento do movimento no Rio de Janeiro e destaca o papel do Barão de Itararé e demais entidades que atuam no setor. “O núcleo do Barão no Rio engrenou de vez com a realização de sua primeira grande atividade, que foi o ato em frente à Globo e animou a todos”, opina.

Ainda que o processo de luta por democracia na mídia seja antiga, Miguel avalia que ela “está esquentando”. A era da informação e a entrada dos comunicadores digitais em cena parecem ser o principal catalisador do debate: “A história está se acelerando e a denúncia feita pelo blog só joga mais pimenta nisso tudo”.

Confira o PDF do primeiro documento divulgado pelo blog

Leia as reportagens publicadas pelo blog O Cafezinho, com cópias dos documentos da denúncia:

Por Felipe Bianchi