19 de junho de 2024

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Igreja Universal pede inquérito contra repórter que revelou R$33 bi em doações bancárias

Com base em uma investigação do Ministério Público de São Paulo, o jornalista Gilberto Nascimento revelou, em reportagem publicada no Intercept Brasil em julho do ano passado, que a Igreja Universal do Reino de Deus amealhou 33 bilhões de reais em doações bancárias entre 1º de janeiro de 2011 e 31 de julho de 2015 – em valores corrigidos pela inflação, a bolada ultrapassa os 42 bilhões.

Rodrigo Martins I Carta Capital

A informação consta em um relatório elaborado pelo Laboratório de Tecnologia contra Lavagem de Dinheiro, subordinado ao Centro de Apoio Operacional à Execução da Promotoria paulista. Os dados são oriundos da quebra de sigilo bancário da Universal, no âmbito de um inquérito policial aberto em 2014. 

 

O alvo da investigação era o empresário Michel Pierre de Souza, que cumpre pena, na Penitenciária de Tremembé, no interior paulista, a mais de 70 anos de prisão por estelionato, lavagem de dinheiro, falsidade ideológica, crimes contra as relações de consumo e associação criminosa. Em entrevista exclusiva ao mesmo jornalista e veículo de comunicação, ele confessou ter praticado uma série de crimes financeiros para a igreja. “Eu lavei dinheiro e fui condenado. A Universal, não”, lamentou o ex-fiel.

A despeito do evidente interesse público na história, a igreja entrou na Justiça com o pedido de abertura de inquérito policial contra Nascimento e o Intercept por “divulgação sem justa causa” e “quebra de sigilo dos documentos revelados”. Trata-se de um evidente caso de assédio judicial. Como observou a Associação Brasileira de Jornalistas Investigativos, conhecida pela sigla Abraji, o sigilo de fonte é uma garantia constitucional. Nem o repórter nem veículo são obrigados a revelar quem forneceu os documentos sigilosos. As informações só precisam ser verdadeiras, e não houve qualquer questionamento em relação à veracidade dos fatos noticiados.

“Eles não questionaram uma informação sequer da reportagem. Não tinham como”, afirma Nascimento à revista CartaCapital. “Só querem saber como eu obtive as informações. Cumpri meu papel como repórter ao informar a população a movimentação bilionária da igreja, só com doações bancárias, quando todos sabem que o maior volume de arrecadação deles é em espécie”. 

Autor do livro O Reino (Cia. das Letras, 2019), sobre a meteórica ascensão da igreja criada por Edir Macedo, hoje a controlar uma rede de televisão (Record), um banco (Digimais, ex-Banco Renner) e um partido político (Republicanos), Gilberto Nascimento tem mais de 40 anos de experiência como repórter de política, religião e direitos humanos. Com passagens por veículos como Folha de S.Paulo, O Globo, CartaCapital, IstoÉ e até mesmo a TV Record, coleciona mais de uma dezena de prêmios de jornalismo, entre eles o Vladimir Herzog, o Ayrton Senna e o Simon Bolívar.

Não é a primeira vez que a Universal promove assédio judicial contra jornalistas. Em 2008, para citar o exemplo mais rumoroso, a igreja instigou os seus fiéis a ajuizar ações com pedidos de indenização por dano moral contra Elvira Lobato, após a jornalista publicar uma reportagem na Folha de S.Paulo revelando o império erguido pela organização religiosa ao longo de 30 anos. Com petições de parágrafos idênticos, foram ajuizadas ao menos 47 ações individuais em Juizados Especiais de vários estados do país, manobra sorrateira para dificultar o exercício do direito de defesa. 

Mais recentemente, o escritor e jornalista João Paulo Cuenca foi processado por diversos pastores da Igreja Universal do Reino de Deus em razão de uma publicação em sua conta do Twitter, que disse “O brasileiro só será livre quando o último Bolsonaro for enforcado nas tripas do último pastor da Igreja Universal”, frase em referência a uma citação de Jean Meslier, sacerdote francês do século XVII, que dizia “O homem só será livre quando o último rei for enforcado nas tripas do último padre”. Foram mais de 140 processos contra o jornalista vindos de diversas partes do país. A organização religiosa tem o direito de acionar a Justiça se considerar que sua honra foi atacada. Mas qual o sentido de abrir uma quantidade absurda de processos, se poderia apresentar uma única, sob a alegação de dano moral coletivo?

No caso específico de Nascimento, convém ressaltar, não existe qualquer menção desairosa aos religiosos da Universal, que está presente em 135 países e possui 12,3 mil templos nos cinco continentes. A reportagem limita-se a descrever o conteúdo de uma investigação, que inclusive resultou na condenação de um empresário que admitiu ter usado a igreja para lavagem de dinheiro e outros crimes financeiros. O interesse público é notório.

“Eles querem nos silenciar, nos calar, mas só conseguiram aumentar a repercussão da reportagem. Não paro de receber telefonemas de colegas de outros veículos dispostos denunciar esse assédio”, comenta Nascimento. De fato, é possível que muitos leitores deste artigo sequer soubessem da bilionária movimentação bancária da Universal com doações. Agora, podem se interessar em acessar o site do Intercept para ler os textos na íntegra. Eis a brilhante contribuição do corpo jurídico da Universal em prol do jornalismo.