29 de agosto de 2025

1º EJUV: Jornalismo investigativo e comunicação militante

Foto: Thompson Griffo

A primeira edição do Encontro Nacional de Comunicadores, Ativistas Digitais e Juventudes (1°EJUV), organizado pelo Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, aconteceu entre os dias 23 e 24 de agosto no Armazém do Campo, na capital paulista.

160 jovens de 11 estados do país participaram do evento que contou com apoio do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br), através do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI), e patrocínio do Sebrae, Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas. 

Por Tatiana Carlotti, para o Barão de Itararé

O evento debateu comunicação, ativismo digital e juventude. Foram sete mesas de debate, oficinas, atos, atividades culturais e a inédita possibilidade de jovens comunicadores de 11 regiões brasileiras se conhecerem. Mais de 160 participantes acompanharam os debates presencialmente. 

Entre os debates, eles discutiram o jornalismo investigativo e a comunicação militante com um time de peso: Marina Dias (Agência Pública) e Michele de Mello (RT), Thiago Tanji, presidente do Sindicato dos Jornalistas; Vinícius Lima, cofundador do SP Invisível e a advogada Sabrina Kurscheidt, Museu da Lava-Jato.

A discussão aconteceu na manhã do sábado, sob condução da jornalista Larissa xis, da diretoria do Barão de Itararé, e de Messias Ferreira do xis.

Acompanhe a discussão:

“É preciso conquistar, não somente publicar”

Marina Dias, diretora de Comunicação e Impacto da Agência Pública, trouxe a experiência da agência no jornalismo independente investigativo do Brasil. Fundada há quase 15 anos por duas repórteres mulheres, a agência possui uma equipe de 40 pessoas comprometidas em fazer “jornalismo investigativo sempre pelo ponto de vista da população, buscando qualificar o debate democrático e fortalecer a democracia”.

“Acreditamos que as pessoas têm direito à informação de qualidade, por isso distribuímos gratuitamente nossas reportagens. Qualquer veículo pode publicar nossas investigações, desde que com os créditos e na íntegra”, complementou. As reportagens da Pública são replicadas por uma rede mais de 600 replicadores nacionais e internacionais. 

Ela também destacou o papel do jornalismo como uma ferramenta de transformação da sociedade. E a necessidade de uma renovação da linguagem jornalística. “Precisamos pensar em como conversar com as pessoas. Com a internet, o jornalismo precisa conquistar o público, não apenas publicar”, disse.

Segundo Marina, “as pessoas são inundadas por conteúdos diversos e precisamos disputar espaço sem perder o foco na missão do jornalismo investigativo”. Além disso, frente à fragmentação das plataformas, “é cada vez mais difícil ‘furar a bolha’”. 

“Precisamos ser estratégicos na criação de comunidades que multipliquem nosso trabalho”, apontou.

Foto: Thompson Griffo

Transformação da sociedade

Em palestra sobre jornalismo e ativismo, a jornalista Michele de Mello da RT espanhol, destacou o papel transformador da comunicação na construção de uma sociedade mais justa. Segundo ela, a informação não pode se limitar aos interesses dos grandes grupos midiáticos, mas deve abrir espaço para realidades invisibilizadas.

“O que consumimos nos veículos hegemônicos de comunicação, o que aprendemos na sala de aula, são todas estruturas postas para reproduzir a relação de poder estabelecida, em que poucas pessoas têm muito e muitas pessoas têm pouco. Através da comunicação e do jornalismo é possível trabalhar nessas contradições”, afirmou.

Ela ressaltou que o jornalismo tem como função social a construção da realidade coletiva e a inserção das pessoas em seus territórios. “Quando a gente pensa que o jornalismo é uma forma de produzir conhecimento, é exatamente nessa perspectiva de que a gente pode criar uma ideia de realidade. Essa é a função social da comunicação e do jornalismo: fazer as pessoas entenderem o que é esse território, quem são as pessoas que estão ali e de que forma os fatos noticiosos nos afetam.”

Ela citou exemplos de sua trajetória profissional para mostrar como veículos independentes podem dar visibilidade a histórias silenciadas. No Brasil de Fato, ela viajou ao deserto do Saara para cobrir a luta do povo saaraui. “É um povo que vive uma relação de dominação parecida com o que acontece entre Palestina e Israel, lutando pela soberania de seu território, mesmo em acampamentos de refugiados, mas organizados politicamente e resistindo.”

Ela também atuou na Telesur, projeto de comunicação criado como uma proposta do presidente Hugo Chávez e do Fidel Castro, “um canal internacional latino-americano que está há 20 anos fazendo comunicação contra-hegemônica, com pessoas espalhadas em toda a região, que buscam falar de conflitos não ditos na grande imprensa e de conflitos que estão ditos, sob outra perspectiva.” 

Ela também destacou na RT em espanhol, onde atua, uma reportagem sobre trabalho análogo à escravidão em fazendas brasileiras fornecedoras do Starbucks, que ganhou repercussão internacional, mas quase não teve cobertura no Brasil. “É quase um status você ter um copinho da Starbucks. Mas o que sustenta essa cadeia? Trabalhadores e trabalhadoras em condições análogas à escravidão aqui no Brasil. Como é que a gente não encontra esse tipo de notícia na imprensa nacional?”, questionou.

Para Michele de Melli, iniciativas de comunicação contra-hegemônicas são fundamentais para gerar transformações estruturais. “A comunicação e o jornalismo, mais do que uma ferramenta, são um caminho estratégico para a transformação social. A partir de uma informação de qualidade, verificada e com uma perspectiva nossa, seremos capazes de gerar uma nova maioria, uma nova hegemonia e uma mudança estrutural na nossa sociedade”, apontou.

Lembrar para não repetir

Na sequência, a advogada Sabrina Kurscheidt, integrante do Museu da Lava-Jato, afirmou que a operação comandada pelo então juiz Sérgio Moro representou “um dos maiores atentados jurídicos à democracia brasileira”. Ela destacou a necessidade de preservar a memória crítica do episódio: “o Museu da Lava-Jato tem esse nome na mesma perspectiva do Museu do Holocausto: lembrar para não repetir”.

Kurscheidt destacou que os dez anos de Lava Jato “foram os anos em que a democracia no Brasil esteve mais abalada. Foi o que culminou no golpe contra a presidenta Dilma, e tudo isso só foi possível pela atuação dos jornais na época”. Ela apontou que a operação se sustentou em três esferas interligadas: o Judiciário em si; o Judiciário enquanto fraude como a Vaza Jato mostrou; e a atuação dos jornais, das mídias.” 

A advogada também ressaltou que a imprensa teve papel decisivo na construção da narrativa que fortaleceu o antipetismo e abriu caminho para a ascensão de Jair Bolsonaro.

Ela recordou a espetacularização do Judiciário. “Lá no mensalão, o Joaquim Barbosa foi retratado como herói. Isso inaugurou a espetacularização do Judiciário pela mídia. Mais tarde, Sérgio Moro assumiria esse papel de ‘novo herói do povo brasileiro’.” Uma lógica, destacou, que se refletiu nas capas de revistas semanais e em manchetes que associavam políticos do PT a escândalos de forma seletiva.

 “Quando era o Dirceu, as fotos eram sempre duras, transfiguradas, com títulos acusatórios. Já os juízes eram mostrados como salvadores. Não era fake news literal, mas um jogo sujo de manipulação”, afirmou.

Kurscheidt destacou como decisivo o papel da Vaza Jato para expor o conluio entre procuradores e juízes. “Foi uma sorte — e aqui eu digo sorte mesmo — que aquele hacker de Araraquara existiu, porque senão ainda hoje seríamos chamados de loucos, já que a Lava Jato tinha virado a maior bandeira do Brasil.”

“Eu, sendo de Curitiba, vi isso de perto: Moro era tratado como herói, aplaudido em restaurantes, idolatrado. Hoje, com os vazamentos, temos certeza do que aconteceu”.

Encerrando sua fala, a advogada convidou o público a conhecer o trabalho do Museu da Lava-Jato. “O nome tem um pouco de ‘clickbait’, porque muitos bolsonaristas chegam achando que é um fã-clube do Moro. Mas o objetivo é lembrar para não repetir”, concluiu. 

Salvar e prejudicar vidas

Em sua participação, o presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo e secretário de Mobilização da FENAJ, Thiago Tanji, citou as mudanças no setor. Ele lembrou a trajetória da editora Abril que dez anos atrás, “tinha um prédio imenso, parecia o New York Times, empregava milhares de jornalistas”, mas ao adotar uma posição editorial sofreu as consequências.

“Dez anos depois, a Abril chegou a estar em coworking e reduziu sua força de trabalho drasticamente. São 300 jornalistas trabalhando, dez vezes menos do que havia antes”, destacou.

Tanji também destacou a capacidade do jornalismo de salvar e de derrubar vidas. “O jornalismo tem essa capacidade: contar histórias, trazer informações, salvar vidas. Isso aconteceu na pandemia. Se não fosse o trabalho dos jornalistas, a tragédia no Brasil poderia ter sido ainda maior. Mas, ao mesmo tempo, o jornalismo também pode prejudicar vidas, como aconteceu na Lava Jato”. 

Em sua avaliação, a operação “matou o jornalismo investigativo como a gente conhecia”. O modelo baseado em vazamentos “minou a capacidade de produzir reportagens de fôlego”, embora veículos independentes como a Agência Pública, o Brasil de Fato e o Intercept tenham assumido esse espaço, apontou.

Ao abordar o futuro da profissão, o dirigente ressaltou o desafio do financiamento em meio ao domínio das big techs. “Durante décadas, as empresas viviam de anúncios. Agora, quem concentra os anúncios são o Facebook e o Google. Sem isso, empresas como a Abril tiveram que se encolher”. 

A questão agora, apontou é “como manter o jornalismo como ferramenta fundamental para fortalecer a democracia?” Ele defendeu que o jornalismo profissional siga cumprindo sua função específica, “baseado em técnicas e na ética jornalística”, e reforçou a necessidade de luta sindical.

Tanji lembrou que o cenário afeta igualmente quem atua em diferentes frentes. “É fundamental lembrar que produtores de conteúdo em veículos independentes também precisam de direitos, de CLT, de condições dignas. E, ao mesmo tempo, jornalistas que trabalham em grandes empresas — mesmo com linhas editoriais questionáveis — são trabalhadores explorados.”

Ele concluiu ressaltando a importância da mobilização coletiva. “A voz do jornalista tem papel fundamental para confrontar as Big Techs, para disputar narrativas e para defender a democracia. E essa luta não é simples, mas é essencial.”

Visibilidade, novos formatos e comunicação de valores

Vinícius Lima, cofundador do SP Invisível destacou a importância de dar voz às pessoas em situação de rua e de renovar as formas de fazer jornalismo. Ele lembrou que sua trajetória começou em 2014, com o projeto SP Invisível, criado para contar histórias de quem vive nas calçadas de São Paulo.

“Começou muito nesse lance da comunicação, do contar histórias, por mais que depois foi se apegando cada vez mais à causa da população de rua”, afirmou. O projeto nasceu de uma provocação dentro da Igreja Batista da Água Branca, quando o pastor de adolescentes sugeriu que os jovens mostrassem o que era “invisível” nas redes sociais. “O invisível não é o corpo dessa pessoa, é a história dela. Vamos contar essas histórias”, recordou.

Atualmente, no mestrado em comunicação, ele pesquisa como a imprensa tradicional contribui para a construção do imaginário social sobre a população de rua. Muitas matérias ainda reforçam estereótipos e não dão espaço à própria fala dos moradores de rua. “Mesmo matérias falando bem da população de rua entrevistam parlamentares, ONGs, especialistas, mas dificilmente escutam alguém que está em situação de rua. Isso subalterniza essas pessoas”, criticou.

Na palestra, ele destacou três pontos centrais para um jornalismo mais justo e democrático: visibilidade, novos formatos e comunicação de valores. “A visibilidade é o primeiro passo para a garantia dos direitos humanos”, afirmou. Em seguida, defendeu que o jornalismo aprenda a dialogar com diferentes plataformas sem perder seus princípios: “hoje o meio é a mensagem. Precisamos comunicar sem perder ética, verdade, mas também sem ser chato. Temos que falar a língua das pessoas”.

Por fim, ressaltou que a comunicação deve se basear em valores e empatia, e não apenas em siglas ou pautas. Para ilustrar, contou como conseguiu dialogar com sua avó, evangélica e conservadora, durante o debate sobre a descriminalização do aborto: “Eu não falei mal do deputado que ela gosta, mas trouxe para perto: ‘se a Giovana, sua neta, engravidasse sem querer, você ia querer que fosse presa?’. Ela respondeu que não. Então, a gente queria a mesma coisa, a não criminalização”.

Encerrando a fala, reforçou a necessidade de estratégia, criatividade e humildade na comunicação política e social. “Ano que vem vamos ver muita coisa que vai exigir empatia e criatividade na hora de contar histórias e comunicar valores”, convocou.