
Primeira oficina, coordenada por Rita Casaro e com exposição de Altamiro Borges, o Miro, debateu cenário eleitoral, recuperação do sindicalismo e papel das entidades na disputa democrática deste ano. A segunda, nesta 5ª feira, 07/05, às 19h, tratará do tema Desinformação – como identificar e como agir, com exposição de Ergon Cugler.
Carlos Tibúrcio | Fórum 21
A primeira oficina do Ciclo do Barão reuniu virtualmente, na noite de terça-feira, 5 de maio, dirigentes sindicais, comunicadores, jornalistas e militantes sociais em um debate sobre os desafios políticos e de comunicação de 2026. Organizado pelo Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, o encontro teve coordenação de Rita Casaro e exposição do jornalista Altamiro Borges, o Miro, seguida de comentários e perguntas de participantes.
Na abertura, Rita situou o objetivo principal do ciclo: oferecer uma contribuição concreta para que o movimento sindical e as organizações ligadas às lutas dos trabalhadores se preparem para um ano decisivo. Segundo ela, a ofensiva que combina extrema-direita e ultraneoliberalismo tem como alvos centrais a classe trabalhadora, os serviços públicos, as empresas estatais e os direitos sociais. O desafio colocado foi direto: como os sindicatos e entidades populares devem se posicionar nessa disputa?
Rita também explicou que o ciclo terá seis oficinas, sempre às 3as e 5as feiras, das 19h às 21h, até 21/05. Essa primeira, teve caráter mais político e de contextualização. As próximas entrarão em temas mais práticos, como inteligência artificial, desinformação, redes sociais, comunidades digitais e disputa de ideias e valores no campo cultural. A proposta, reforçou a coordenadora, não é uma sequência de aulas unilaterais, mas uma construção coletiva a partir da experiência de quem vive os desafios da comunicação sindical e popular no cotidiano.
Ao iniciar sua exposição, Miro fez questão de destacar o papel de Rita Casaro na elaboração do projeto. Lembrou que ela faz parte da Coordenação do Barão, é assessora do Sindicato dos Engenheiros de São Paulo e conhece de perto a realidade do movimento sindical. E deixou claro que a iniciativa nasce de uma preocupação estratégica: a eleição de 2026 será uma encruzilhada histórica para o Brasil e para os trabalhadores.
Miro apresentou um diagnóstico duro, mas não derrotista. Para ele, o jogo eleitoral está completamente aberto e tende a ser extremamente disputado. A conjuntura, afirmou, reúne fatores adversos ao campo progressista: a pressão internacional dos Estados Unidos, a atuação da elite econômica brasileira, a correlação de forças no Congresso Nacional, o comportamento da mídia tradicional e as dificuldades de mobilização do campo popular.
Ao tratar do cenário internacional, Miro alertou para a ofensiva da extrema-direita em escala mundial e para a tentativa dos Estados Unidos de interferir em processos políticos no continente. No plano interno, apontou que setores empresariais e financeiros, mesmo beneficiados pelo crescimento econômico promovido pelo governo Lula, fazem oposição radical e seguem hostis a qualquer avanço social mais profundo. O Congresso, por sua vez, foi caracterizado como um espaço de chantagem permanente, no qual a extrema-direita ganhou forte organicidade desde 2022.
Apesar desse quadro, Miro sustentou que o governo Lula chega à disputa com ativos importantes. Citou entregas na economia, no emprego, na renda, nos programas sociais, na retomada de políticas públicas desmontadas e na promessa, que vem sendo cumprida, de colocar os pobres no orçamento e os ricos no imposto de renda. O problema, avaliou, é que essas entregas não chegam automaticamente à percepção da população. Se depender da mídia tradicional, disse, elas são escondidas ou desqualificadas. Se depender das redes digitais dominadas em grande parte pela extrema-direita, são soterradas por desinformação e manipulação.
Foi nesse ponto que a comunicação ganhou destaque como eixo central da oficina. Para Miro, a campanha deste ano exigirá combinar uma intervenção muito mais qualificada nas redes digitais com a presença nas ruas, conversa direta com os trabalhadores, atuação nas portas de empresa, bancos, comércio e locais de trabalho. A inteligência artificial, as fake news e os algoritmos serão elementos decisivos da disputa.
Um dos momentos mais fortes da exposição foi a análise da situação sindical no país. Miro lembrou que o Brasil tem cerca de 11.200 sindicatos de trabalhadores e aproximadamente 300 mil dirigentes sindicais eleitos, uma força social com capilaridade nacional. Mas esse “exército”, como definiu, sofreu baques profundos nos últimos anos.
A reforma trabalhista do governo Temer foi apontada como um divisor de águas. Além de retirar direitos e enfraquecer o movimento, ela buscou asfixiar financeiramente toda a estrutura do movimento sindical. Segundo os dados apresentados por Miro, a arrecadação sindical caiu de cerca de R$ 2,24 bilhões ao ano para pouco mais de R$ 200 milhões. Somaram-se a isso as mudanças tecnológicas no mundo do trabalho, a precarização, a uberização, a pejotização e a queda da taxa de sindicalização.
Mas a avaliação não foi apenas negativa. Miro chamou atenção para sinais recentes de recuperação. Com o crescimento da economia, a melhora do emprego, a retomada do diálogo institucional com os sindicatos e a presença de bandeiras históricas do movimento sindical no debate nacional — como a isenção do imposto de renda pra quem ganha até R$ 5 mil, que beneficia diretamente os trabalhadores e o fim da escala 6×1 —, o sindicalismo voltou a ganhar fôlego. Ele citou aumento da sindicalização e pesquisas que apontam valorização social dos sindicatos, do direito de greve e do papel sindical nas negociações salariais.
A conclusão foi direta: o movimento sindical deve considerar a batalha eleitoral como prioridade. Não porque deva abandonar campanhas salariais ou lutas econômicas, mas porque o resultado das eleições definirá o futuro das condições de trabalho, da renda, da jornada, da Previdência, dos direitos sociais e da própria democracia. Para Miro, a disputa central será entre democracia e fascismo, soberania nacional e entreguismo, avanços sociais e regressões.
O debate aberto por Rita após a exposição mostrou que as preocupações apresentadas por Miro atravessam diferentes categorias e regiões. Cláudio Mota, da CTB Bahia, Fetracom e SintraSuper, destacou o desafio de transformar os grandes eixos políticos — democracia contra fascismo, soberania contra entreguismo e avanços sociais contra regressão — em narrativas capazes de dialogar com as bases sindicais e também com públicos mais amplos. Para ele, há dificuldade operacional em transformar oportunidades políticas em ações concretas de comunicação.
Tadeu Xavier, do Sindipetro NF, chamou atenção para a necessidade de explicar à sociedade o processo de destruição vivido no governo Bolsonaro e a reconstrução posterior. Também trouxe ao debate temas de geopolítica, petróleo, BRICS, soberania e terras raras, defendendo que o movimento sindical ajude a traduzir essas questões complexas em formação política para os trabalhadores.
Valdemir, dirigente de sindicato dos trabalhadores da construção civil no interior da Bahia, abordou a realidade concreta de muitas entidades depois da reforma trabalhista: dificuldades financeiras, redução de estrutura e falta de profissionais especializados para cuidar de sites, redes, jornais e materiais de comunicação. Também destacou o peso das fake news e a necessidade de apoio às mídias alternativas progressistas.
Marcos Botelho, diretor do Sindipetro NF, relacionou os ataques ao sindicalismo à desindustrialização, à reforma trabalhista e à reforma da Previdência. Chamou atenção para os desafios das novas formas de trabalho — teletrabalho, pejotização, uberização e precarização — e defendeu que a luta pelo fim da escala 6×1 pode dialogar com a defesa do emprego formal, da renda, da Previdência e do SUS. Também reforçou a importância de disputar redes sociais e dialogar com o segmento evangélico.
Edilson Barreto cobrou maior organização das centrais sindicais e dos sindicatos na campanha. Para ele, não basta agir de forma espontânea ou amadora. É preciso definir diretrizes, metas, planos de ação, capacitar dirigentes e militantes para atuar nas redes, ampliar o corpo a corpo e levar mais sindicalizados para dentro da disputa. Seu alerta foi claro: falar apenas para quem já está convencido não muda o resultado eleitoral.
Luiz Carvalho levantou uma questão estratégica: como o movimento sindical pode oferecer sonho, utopia e futuro, especialmente para jovens, trabalhadores precarizados e setores populares atraídos pela narrativa conservadora. Em resposta, Miro retomou a ideia de que a redução da jornada de trabalho pode ser uma ponte entre uma utopia maior de transformação social e uma pauta concreta da vida cotidiana. O fim da escala 6×1, disse, fala de tempo para viver, estudar, conviver com a família, namorar, descansar e participar da vida comunitária.
Sérgio Corrêa Vaz, jornalista independente, vivendo em Portugal, destacou a importância de dialogar com a faixa de eleitores indecisos que pode definir a eleição. Sugeriu que a comunicação progressista organize mensagens específicas para trabalhadores formais e informais, precarizados, mulheres, jovens, idosos, aposentados e até setores da classe média que também perderiam com a volta do bolsonarismo ao governo.
Fernando Palmezan reforçou o debate sobre economia política e questionou como comunicar melhor temas como lucros do sistema bancário, papel do Estado, soberania e relação entre governo, capital financeiro e direitos sociais. Sua intervenção dialogou com uma preocupação presente em toda a oficina: transformar dados complexos em linguagem acessível e politicamente eficaz.
No fechamento, Miro sistematizou três tarefas comunicacionais para os próximos meses. A primeira é mostrar as entregas do governo Lula em comparação com o período Bolsonaro. A segunda é desmascarar o candidato do bolsonarismo, expondo seu projeto, suas contradições e seus vínculos com interesses contrários aos trabalhadores. A terceira é apresentar esperança: não apenas defender o que foi feito, mas oferecer um horizonte de futuro.
A oficina terminou com um chamado à organização. Rita Casaro agradeceu a participação, reforçou que o ciclo seguirá com caráter prático e destacou o tema da próxima oficina: Desinformação — como reconhecer, enfrentar e responder às mentiras que circulam entre as bases e nas redes.
O primeiro encontro deixou uma mensagem central: o movimento sindical sofreu ataques, perdeu estrutura e protagonismo, mas dá sinais de recuperação e segue sendo uma das forças com maior capilaridade nacional. Para que essa força pese nas batalhas de 2026, será preciso combinar rede e rua, formação e ação, comunicação profissional e militância de base, dados e emoção, denúncia e esperança.
As próximas cinco oficinas do Ciclo do Barão serão decisivas para transformar esse diagnóstico em prática. Sindicatos, centrais, federações, movimentos e comunicadores populares devem mobilizar suas equipes, participar ao vivo dos debates, acompanhar as gravações e reportagens e levar para suas bases as ferramentas discutidas. A disputa já começou — e a comunicação será uma das trincheiras centrais para defender a democracia, a soberania nacional e os direitos da classe trabalhadora.