8 de junho de 2026

Brasil 70: a saga do tri — a ficção distorceu a realidade?

Às vésperas da Copa do Mundo Fifa 2026, uma nova produção da Netflix nos faz relembrar um dos maiores momentos do esporte nacional. Dividida em cinco episódios, produzida pela O2 Filmes e dirigida por Paulo Morelli, a série “Brasil 70: a saga do tri” tem suscitado debates profundos sobre como uma obra de ficção baseada em fatos reais pode acabar distorcendo a história de eventos que marcaram profundamente a sociedade brasileira.

Por: André Lobão / Revista Fórum

O conceito de verossimilhança define aquilo que parece verdadeiro, sendo uma ferramenta muito aplicada na literatura e no cinema. Mas até que ponto a ficção, quando aplicada a um fato histórico, acaba por estigmatizar e desfigurar a imagem de personagens reais?

É inegável a qualidade técnica da produção. A reconstrução do ambiente da época, a reprodução de jogadas e gols são impressionantes. A caracterização física de Pelé, interpretado pelo ator Lucas Agrícola, resultou em uma semelhança perfeita com o Rei do Futebol. O dinamismo do roteiro e da edição também se destaca nas interpretações de João Saldanha (Rodrigo Santoro) e Zagallo (Bruno Mazzeo). Em suma, é uma obra que impacta tanto quem viveu a época quanto quem não conhecia a história do tri.

Mas qual tem sido a repercussão entre pesquisadores e familiares dos campeões mundiais?

O “dramalhão Mexicano” e as injustiças históricas

Esta reportagem conversou com o jornalista e pesquisador Thiago Uberreich, autor de seis livros sobre a história das Copas do Mundo pela editora Letras do Pensamento (com exceção de “Biografia das Copas”, lançado pela Onze Cultura). Uberreich, que dedicou obras específicas aos títulos de 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002, fez uma análise crítica de como a série aborda os heróis do tricampeonato.

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O jornalista e pesquisador Thiago Uberreich

“Se por um lado é positivo divulgar um trabalho como esse para fazer o grande público conhecer os bastidores e os personagens, por outro, a repercussão entre quem pesquisa futebol e os familiares é preocupante. Infelizmente, a série transforma a maior conquista da história da Seleção em uma espécie de dramalhão mexicano”, aponta o pesquisador, que atualmente é apresentador na Rádio Jovem Pan.

Uberreich — que chegou a ser ouvido brevemente em 2024 por pesquisadores da O2 Filmes, sem saber se suas informações seriam de fato aproveitadas — considera que o audiovisual recorre ao ficcional para atrair o público, mas alerta que isso não justifica deturpações.

“Há partes que desrespeitam a história. A série trata alguns jogadores como se fossem covardes ou não tivessem disposição para enfrentar as batalhas, como representaram o goleiro Felix. O próprio Pelé é retratado como alguém meio fraco, ressabiado. Isso não corresponde à realidade. O roteiro comete muitas injustiças. João Saldanha teve uma importância gigante em resgatar a imagem da Seleção em 1969, mas Zagallo também teve méritos enormes na montagem final daquele time. O documentário é injusto com vários personagens”, critica.

O pesquisador também contesta a forma como a cobertura da imprensa foi retratada. Na série, as transmissões parecem monopolizadas por Saldanha e pelo narrador fictício Eusébio Ferreira (interpretado por Marcelo Adnet). “Aquela foi a primeira Copa transmitida ao vivo via satélite. Havia três consórcios de TV e quatro emissoras envolvidas: Globo, Tupi, Bandeirantes e Record. Era preciso fazer justiça aos outros grandes narradores da época”, pontua.

Uberreich cita ainda pequenos erros factuais, como o uso de luvas pelo goleiro Felix. A série mostra o arqueiro usando o acessório na semifinal contra o Uruguai, mas, historicamente, Felix só utilizou luvas na grande final contra a Itália.
O “Fantasma de Barbosa” e a dor da família de Felix

Ainda sobre o confronto contra o Uruguai, a obra da Netflix retrata Felix bastante atormentado pelo fantasma do “Maracanazo” de 1950, sugerindo que o goleiro via o espectro de Barbosa (crucificado pela opinião pública em 1950) rondando a concentração.
Patrícia Venerando, filha do goleiro titular do tri, lamentou e criticou duramente a abordagem satírica e dramática dada ao pai:

“Em tempos em que versões dramatizadas ganham mais espaço do que a própria história, vale recordar quem realmente foi Felix Mielli Venerando. Ele não foi um personagem e muito menos uma caricatura. Meu pai foi um goleiro que suportou a pressão da camisa 1 do Fluminense e da Seleção Brasileira, e só lembrar a defesa da cabeçada do atacante uruguaio Cubillas, que segundo o narrador, valeu um gol. Cito, ainda, o livro do Thiago Uberreich sobre a Copa de 70 quando ele diz que ‘Felix fez ,ao menos, uma defesa de suma importância em cada partida da Copa’. Ele não precisa de lendas para ser lembrado. A cena em que ele aparece tremendo por causa do ‘fantasma’ do Barbosa eu considero degradante, decepcionante e muito ofensiva à sua memória”, desabafa Patrícia, que administra a página @goleirofelix70_oficial.

O silêncio da plataforma e o amparo legal

Outro ponto cinzento que envolve “Brasil 70” é o pagamento de direitos e royalties aos atletas e seus familiares. Procurada pela reportagem, a Netflix respondeu laconicamente que a série é “uma obra de ficção baseada em fatos reais”, sem detalhar as questões financeiras.

Patrícia Venerando relata que foi procurada em 2024 pela equipe de pesquisa da produtora, que coletou seus depoimentos durante três dias, mas sem especificar o formato final do projeto. “Ao final, apresentaram um documento para assinarmos onde constava que não receberíamos nenhum tipo de cachê. Eu não tinha ideia de que se transformaria em uma série de tamanha repercussão”.

Do ponto de vista legal, as produtoras estão amparadas. O advogado Gustavo Kloh, professor de Direito na FGV-Rio, explica que a legislação brasileira flexibilizou a produção de biografias e obras históricas nos últimos anos.

“O Supremo Tribunal Federal (STF) julgou, em junho de 2015, a ADI 4815, determinando que no Brasil é permitida a livre menção biográfica por obras escritas, filmes ou podcasts. Como há uma reconstituição histórica, a princípio não cabe a obrigatoriedade de pagamento de cachê ou royalty. Porém, qualquer pessoa ou familiar que se sentir lesado ou difamado pode pedir indenização ou até a retirada da obra do ar, desde que comprove que o conteúdo foi ofensivo à sua reputação”, esclarece o jurista.

Lançada em 29 de maio, a série da Netflix consolidou-se como um estrondoso sucesso de audiência. Contudo, deixa no ar um debate ético essencial para o jornalismo e para o audiovisual: o limite entre o entretenimento e o respeito à dignidade de quem ajudou a construir a história real.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum