
A frase de Hildegard Angel, ao dizer que não sabia se chorava de emoção ou gritava de felicidade, resumiu o tom da cerimônia que, na terça-feira (7/7), concedeu o diploma póstumo de bacharel em Ciências Econômicas a seu irmão, Stuart Edgar Angel Jones, estudante do Instituto de Economia da UFRJ morto durante a ditadura militar.
Chico Cavalcante | Revista Fórum
Vestindo uma camiseta vermelha com a imagem do irmão sob um discreto terno preto, Hildegard recebeu o diploma no Salão Dourado do Palácio Universitário, em um gesto que mesclava dor e reparação.
Emocionada durante toda a solenidade, ela acompanhou os discursos e celebrou aquele ato como um momento histórico de reconhecimento, lembrando que Stuart é o primeiro de 26 nomes identificados pela Comissão de Memória e Verdade da UFRJ, que deverão receber diplomação póstuma em uma cerimônia coletiva prevista para setembro, quando a universidade completará 106 anos.
No entanto, o choro de emoção e o grito de felicidade da jornalista não podem soar jamais como um gesto de nostalgia. Ao contrário, devem soar como um alarme, um sinal de alerta. O ato de reparação histórica nos obriga a encarar o passado como lição para um presente de incertezas.
O regime instaurado em 31 de março de 1964 não foi um fenômeno isolado ou uma resposta espontânea a uma suposta ameaça interna, mas sim o resultado de uma engrenagem geopolítica cuidadosamente planejada por Washington.
A documentação hoje desclassificada pelos arquivos norte-americanos, incluindo os registros da Operação Brother Sam, comprova que o governo dos Estados Unidos articulou logisticamente a deposição de João Goulart, fornecendo recursos financeiros, armas e um navio de guerra para assegurar a vitória dos militares brasileiros. Esse apoio não derivava de nenhum “idealismo democrático”, mas de uma estratégia econômica brutal, que exigia um tributo de sangue para se impor.
“O fantasma do comunismo” foi a cortina de fumaça perfeita para encobrir a cobiça por commodities e a proteção dos interesses de corporações americanas na América do Sul. Cuba havia se tornado um exemplo temido de nacionalismo econômico, e os Estados Unidos não podiam permitir que o Brasil, com seu território continental e sua influência decisiva sobre os vizinhos, trilhasse o mesmo caminho das Reformas de Base.
Ao derrubar Goulart, os norte-americanos inauguraram um modelo de desestabilização que se espalhou como um vírus pelo continente, culminando na Operação Condor, que coordenou os aparatos repressivos de Chile, Argentina, Uruguai e Paraguai sob a mesma lógica de eliminação de qualquer oposição ao capital estrangeiro. A violência da tortura e os desaparecimentos forçados que vitimaram Stuart e tantos outros jovens universitários foram, portanto, a ponta de lança de um projeto imperial que visava manter a hegemonia política e o controle das riquezas sul-americanas a qualquer custo.
Se naquele período o pretexto era a Guerra Fria, o que vemos hoje, em pleno século XXI, é uma assustadora reprise daquela mentalidade. A ascensão de Donald Trump nos Estados Unidos e o avanço movimento global de extrema direita reavivaram o discurso belicoso e a desconfiança institucional com uma intensidade que não víamos desde os anos 1960.
Trump, ao defender abertamente a guerra tarifária, a desregulamentação ambiental e a exploração predatória dos recursos da Amazônia enquanto flerta com autocracias e ataca impiedosamente o sistema judicial norte-americano, resgata a essência do que motivou o golpe de 1964, o primado dos interesses corporativos sobre a soberania popular.
Aqui no Brasil, essa influência se manifesta em um movimento que ataca o Supremo Tribunal Federal, a imprensa livre e o sistema eleitoral, repetindo a mesma cartilha de desgaste das instituições que precedeu a quebra da ordem constitucional há seis décadas.
Não se trata de um simples radicalismo retórico, mas de uma construção política deliberada que fragiliza a democracia justamente para viabilizar novas intervenções ou mesmo um novo golpe. O discurso de que as urnas são fraudáveis e que o Judiciário atua com viés político é um eco direto da propaganda utilizada para deslegitimar o governo Jango nos anos sessenta.
A diferença é que, hoje, as provas documentais da interferência externa estão disponíveis para qualquer historiador ou cidadão. Sabemos que Washington não precisa enviar navios de guerra como na Operação Brother Sam, pois o controle é exercido via sanções econômicas, pressões midiáticas e financiamento de grupos extremistas internos que minam a coesão social e sabotam o processo democrático. A hipótese golpista, que muitos consideravam um absurdo datado, voltou a ser uma possibilidade tangível em mesas de negociação e em planos de contingência.
O ciclo de intervenções na América do Sul nunca foi interrompido, ele apenas se metamorfoseou. Enquanto as instituições brasileiras se veem encurraladas por uma aliança tácita entre o radicalismo interno e a política externa trumpista, o país revive o espectro de 1964 sob novas roupagens. O risco não está mais no tanque na rua, mas na erosão silenciosa do estado de direito.
Celebrar a memória de Stuart Edgar Angel Jones e dos outros 25 estudantes mortos pela ditadura é, portanto, um alerta gritante de que a história não é um ciclo eterno, mas uma linha do tempo que pode ser rompida pela barbárie.
Proteger a democracia exige que lembremos que o golpe de 1964 não foi um erro trágico e isolado, mas uma operação de domínio estrangeiro que foi reativada no presente, sob o discurso da liberdade, para nos subjugar novamente aos interesses do norte global.
A defesa intransigente da constituição, do voto popular e das urnas eletrônicas é o único antídoto contra a repetição desse passado sombrio que insiste em assombrar o nosso futuro, enquanto a emoção de Hildegard nos recorda que, por trás de cada estatística, há uma vida roubada e uma família que jamais se calou.