
O Brasil é o próximo alvo da maior operação de manipulação eleitoral já montada na América Latina, e o plano já roda. Em julho, Flávio Bolsonaro atacou as urnas eletrônicas diante de diplomatas estrangeiros, repetindo alegações desmentidas pelo Tribunal Superior Eleitoral. Dias depois, o irmão, o deputado Eduardo Bolsonaro, ampliou as mesmas acusações em live com o próprio Cerimedo.
Por Miguel do Rosário / O Cafezinho
O relatório conecta a campanha ao banqueiro Daniel Vorcaro, figura central da maior fraude bancária do país. Segundo a investigação, US$ 4 milhões foram combinados para financiar Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro com lançamento às vésperas do voto de outubro. Tudo sob proteção explícita da Casa Branca, com tarifas de 50% decretadas em retaliação ao processo contra Bolsonaro. O PCC e o Comando Vermelho entraram na lista americana de organizações terroristas logo depois de Flávio pedir a Trump em pessoa. O presidente Lula respondeu que Trump pode até gostar de Bolsonaro, mas não deve se meter nas eleições do Brasil.
A queda veio em agosto. Cerimedo foi preso num aeroporto da Bolívia com uma mala cheia de dinheiro, acusado de mandar matar Nadia Beller, advogada de 33 anos grávida de quatro semanas do filho dele. Dois falsos entregadores de comida lhe deram três tiros a queima-roupa, depois de atraí-la com a promessa de um dossiê sobre o ex-presidente Evo Morales. Ela sobreviveu e, do leito do hospital, começou a falar.
À Justiça boliviana, Cerimedo declarou ganhar perto de US$ 1 milhão por mês, e uma carteira de bitcoin sua movimentou US$ 44 milhões. Seis meses antes da prisão, ele recebia em Mar-a-Lago o prêmio de consultor político hispânico do ano, entregue por Brad Parscale, o ex-comandante da campanha de Donald Trump. No agradecimento em inglês, disse que agradecia a Parscale por acreditar nele e por ter lhe dado a sua tecnologia.
A investigação é do Reactionary International, consórcio de pesquisa que mapeia a rede global que chama de internacional reacionária, publicada no site reactionary.international e divulgada pela Progressive International, articulação ligada a Bernie Sanders e Yanis Varoufakis. A série Como Roubar um Hemisfério soma dezenas de páginas com 146 fontes, do Intercept Brasil à Folha, do El País ao New York Times. Assinada pelo coletivo, sem nomes individuais, foi lida na íntegra pelo Cafezinho. O texto está em inglês, sem versão em português.
No segundo turno de 2022, em vez de campanhar, Eduardo Bolsonaro voou à Argentina para se encontrar com o então candidato Javier Milei e com Cerimedo. Cinco dias depois da derrota, por 50,9% a 49,1%, a hashtag #BrazilWasStolen estourou no Twitter empurrada por contas recém-criadas, responsáveis por cerca de 5% dos tuítes daquele dia na medição do laboratório digital DFRLab. Horas depois, Cerimedo fez uma live afirmando que as urnas haviam favorecido Lula.
O Tribunal Superior Eleitoral derrubou o vídeo e suspendeu sua conta, mas 400 mil pessoas já tinham assistido. A live virou pedra fundamental da narrativa do voto roubado, repetida no Senado, citada na auditoria encomendada pelo partido de Bolsonaro e por militares do plano golpista que projetava matar Lula. Cerimedo foi o único estrangeiro examinado no inquérito do ataque de 8 de janeiro, que rendeu a Bolsonaro uma condenação de 27 anos de prisão, sujeita a recursos. Sou herói de metade do país, gabou-se ele na época. Me chamam de o argentino mais amado do Brasil.
Agora a família tenta repetir a dose. Flávio lançou a candidatura com endosso público do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, e de Milei, além de um vídeo do pai gerado por inteligência artificial. Brasília negou vistos a funcionários do Departamento de Estado americano que planejavam impugnar o sistema eleitoral. Washington revidou cancelando o visto do embaixador do Brasil.
Na Argentina, a carreira começou com uma mentira, um doutorado e uma passagem paga pela campanha de Barack Obama em 2008. Os registros eleitorais americanos não têm uma parcela sequer em nome de Cerimedo. Em 2019, enquanto ensinava estratégia digital a jovens peronistas de esquerda, ele fundou em segredo o La Derecha Diario, site que se tornaria o principal amplificador de Milei.
Um político que o ouviu nessa época o resumiu como um encantador de serpentes, vigarista que vende meias-verdades impossíveis de verificar. Na campanha vitoriosa de 2023, Cerimedo pôs no tabuleiro o site e as fazendas de bots, com 50 mil contas falsas segundo ele mesmo, e declarou trabalhar para Milei de graça, quando poderia pedir qualquer valor. O governo argentino jura que cortou os laços com ele em 2023. Os registros oficiais o mostram entrando na Casa Rosada até junho de 2024, e a então esposa dele empregada na agência nacional de deficiência, palco dos áudios que apontam propinas de 3% da irmã de Milei em compras de medicamentos. Antes das eleições legislativas, Trump despejou US$ 20 bilhões para blindar o peso argentino, registrou o jornal britânico The Guardian.
A engenharia é o que a reportagem chama de sistema nervoso central da campanha moderna, um banco de dados que cruza filiação partidária, histórico de voto e hábitos de consumo para separar quem persuadir e quem abandonar. A parceria com Parscale, firmada em março de 2025, levou essa pilha à América Latina com influenciadores pagos, bots e inteligência artificial, de textos em massa automatizados a sites desenhados para manipular as respostas do ChatGPT e do Claude.
Israel aparece como sócio silencioso, com US$ 730 milhões por ano em operações de influência e dezenas de milhões pagos ao próprio Parscale nos Estados Unidos. A doutrina que guia o conjunto é de Marco Rubio. O relatório a batiza de Donroe, em trocadilho com a Doutrina de Monroe.
Os resultados empilham-se em margens mínimas. Em Honduras, o conservador Asfura venceu por menos de 1 ponto, com Cerimedo no terreno, Parscale nos dados e textos em massa alertando sobre as remessas dos migrantes. O escândalo de Hondurasgate revelou depois que Trump, Netanyahu e Milei intervieram em favor dele.
No Peru, Keiko Fujimori ganhou por cerca de 0,25 ponto, com bots instruindo eleitores de redutos de esquerda a anular o voto. Ela nega a ligação, mas foi fotografada com Cerimedo na mesma gala de Mar-a-Lago. Na Bolívia, o presidente Rodrigo Paz nega tê-lo assessorado. As fotos publicadas por Beller mostram os dois ao lado de Rubio na Cúpula das Américas. No Chile, o Congresso instalou comissão investigadora. Na Colômbia, o ex-presidente Gustavo Petro pede investigação criminal. O próximo alvo, segundo Beller, seria a presidente do México, Claudia Sheinbaum, a quem Cerimedo planejava, nas palavras dele, explodir.
Preso, Cerimedo é dispensável. Quando alguém celebrou as vitórias da direita no continente como fruto dos cortes na agência americana de cooperação USAID, Parscale corrigiu com um piscar de olhos. Talvez com uma ajudinha também, escreveu ele. A infraestrutura de bots e dados segue de pé, o país já se afoga em desinformação gerada por inteligência artificial e a eleição de outubro é o teste seguinte. A verdadeira ameaça, conclui a investigação, não está em um homem, mas no sistema que o produziu. Ele continuará produzindo outros, mesmo que Cerimedo apodreça na prisão.
Leia a íntegra da investigação, em inglês, no site do Reactionary International.