1 de outubro de 2026

A eleição e a sobrevivência política da esquerda: o alerta de Lalo Leal

O Brasil vive, na avaliação de Lalo Leal Filho, um momento que não pode ser tratado como uma eleição convencional. Jornalista, sociólogo, professor universitário e escritor, Lalo foi entrevistado pelo JTT em uma conversa que teve como eixo a pergunta sobre o que efetivamente estará em disputa nas urnas. Sua resposta foi direta: mais do que uma disputa entre candidatos, o país está diante de uma escolha entre democracia e fascismo — e, em uma formulação ainda mais ampla, entre democracia e civilização.

Por Tali Feld Gleiser / Desacato.info

A preocupação apresentada por Lalo parte da compreensão de que o autoritarismo contemporâneo não necessariamente se reproduz exatamente nos moldes das experiências fascistas históricas. Ao lembrar o fascismo italiano de Mussolini, ele destacou que aquele fenômeno possuía bandeiras e propostas autoritárias claramente estruturadas. No cenário que analisa, porém, identifica algo diferente: uma força  política que, segundo ele, não apresentaria um programa próprio consistente e recorreria à cópia de projetos e referências internacionais.

Da disputa política à anomia

É nesse ponto que Lalo introduz um conceito sociológico para ampliar sua interpretação: anomia. Recuperando uma noção associada à tradição de Émile Durkheim, ele descreve a possibilidade de uma sociedade marcada pela ausência ou pelo enfraquecimento das normas, valores e referências capazes de organizar a vida coletiva.

Para Lalo, portanto, o problema não seria apenas a eventual instalação de um governo autoritário. O risco apontado por ele seria a formação de um ambiente em que regras e instituições perdessem sua capacidade de organizar a sociedade. Por isso, insiste que a questão ultrapassa a oposição entre democracia e fascismo e chega à relação entre democracia e civilização.

A preocupação é associada pelo entrevistado ao comportamento de grupos que identifica como milicianos e apoiadores da oposição. Lalo propõe imaginar a generalização desse tipo de atuação para o conjunto do país: o que aconteceria, pergunta, se uma lógica semelhante passasse a orientar o funcionamento do Estado, das relações internas e da política externa?

Sua resposta é que o resultado poderia ser um “Estado de anomia”, expressão que utiliza para descrever uma estrutura política na qual a ruptura das regras e dos valores democráticos deixaria de ser exceção para se transformar em método. É por isso que considera a eleição uma decisão de alcance histórico para sua geração.

A ameaça de dependência externa

Outro aspecto decisivo da conversa foi a soberania brasileira. Lalo considera que a disputa eleitoral não pode ser separada das transformações nas relações internacionais e da pressão dos Estados Unidos sobre o Brasil e outros países da América Latina.

Ele reconhece que o Brasil possui uma longa história de dependência econômica, política e cultural. Lembra a experiência colonial portuguesa e britânica e menciona também a influência estadunidense construída ao longo do século XX por meio das relações econômicas e culturais. Cita, entre outros exemplos, a força da indústria cinematográfica e da literatura estadunidense na formação do imaginário brasileiro.

A diferença que se identifica no presente está, segundo ele, no caráter mais explícito dessa pressão. Lalo menciona exigências atribuídas aos primeiros contatos entre os governos Lula e Trump, entre elas a possibilidade de que negociações envolvendo produtos estratégicos brasileiros, como terras raras, fossem submetidas a aval dos Estados Unidos. Para o entrevistado, uma condição desse tipo ultrapassaria a esfera comercial e atingiria diretamente a soberania nacional.

A análise de Lalo não se limita ao Brasil. Ele situa o país em uma disputa maior pelo futuro da América Latina e do chamado Sul Global. Em sua leitura, uma das questões estratégicas do período seria a possibilidade de redução da centralidade do dólar no sistema internacional. Ele cita o fortalecimento de alternativas de comércio e de relações financeiras envolvendo países do Sul Global e menciona moedas como o real e o yuan como parte dessa transformação possível.

A experiência de quem viveu ditaduras

A dimensão pessoal também ganhou espaço na entrevista. Aos 71 anos, Lalo lembrou de ter vivido ditaduras no Uruguai e na Argentina. A experiência, segundo seu relato, influencia a forma como interpreta o atual momento brasileiro.

Ele recordou o clima de insegurança daqueles períodos: pessoas que conviviam normalmente com companheiros e, no dia seguinte, não sabiam se eles continuavam vivos, se haviam deixado o país ou se haviam sido perseguidos. A memória da repressão aparece na entrevista como um elemento concreto para avaliar o significado da perda das garantias democráticas.

Ao mesmo tempo, Lalo estabelece uma interpretação própria sobre o cenário internacional. Para ele, a decadência de um império pode produzir uma intensificação do uso da força. O raciocínio apresentado é que, quando uma potência perde capacidade de exercer seu domínio exclusivamente por mecanismos econômicos, políticos ou simbólicos, tende a recorrer mais diretamente à força. É nesse contexto que ele situa o comportamento atual dos Estados Unidos.

Lalo manifestou preocupação particular com a possibilidade de intervenções militares na América Latina. Ele mencionou a classificação de grupos criminosos como terroristas e a possibilidade, decorrente dessa classificação, de justificar intervenções armadas. Ressaltou, contudo, que espera que esse cenário não se concretize, embora considere que os dados que observa apontem para uma direção preocupante.

Também mencionou o discurso de Donald Trump na ONU como parte dos elementos que, em sua interpretação, indicariam a disposição de utilizar a força contra países que não sigam determinadas orientações dos Estados Unidos. A imagem utilizada por Lalo é a de uma “Roma enlouquecida”, para expressar aquilo que considera um processo de intensificação do poder imperial.

A eleição e a divisão da esquerda

A parte mais diretamente eleitoral da entrevista surgiu quando Lalo foi questionado sobre os setores da esquerda que defendem candidaturas próprias no primeiro turno, em vez de concentrar o voto em Lula.

Ele afirmou respeitar essas posições, mas considera que, diante da conjuntura, votar em outras candidaturas ou anular o voto pode produzir consequências que ultrapassem a intenção individual do eleitor. Seu argumento central é o consequencialismo: diante de uma eleição considerada excepcional, seria necessário avaliar não apenas a intenção de determinado voto, mas aquilo que ele pode produzir concretamente.

Lalo defendeu que partidos e grupos da esquerda que apresentam candidaturas próprias deveriam, neste momento, retirar essas candidaturas e concentrar seus votos em Lula. Ele relacionou essa posição à margem estreita observada na eleição anterior e à possibilidade de uma pequena parcela do eleitorado ter impacto relevante sobre o resultado.

Sua crítica, entretanto, não significou abandono das divergências existentes dentro da esquerda. Pelo contrário. Lalo afirmou que pretendia, inicialmente, votar em uma mulher negra e fortalecer outras forças políticas, justamente por considerar importante que a esquerda faça críticas ao governo Lula. Mas diz ter mudado sua avaliação à medida que, segundo ele, a conjuntura se tornou mais grave.

“Elege e critica”

Uma das formulações mais importantes da entrevista apareceu justamente nesse ponto: “elege e critica”.

Para Lalo, não existe contradição necessária entre votar em um governo e manter a oposição  política a ele. A democracia, em sua interpretação, permite justamente essa combinação: eleger um governo para impedir uma alternativa considerada mais ameaçadora e, simultaneamente, preservar a autonomia política para criticá-lo, pressioná-lo e organizar novas alternativas.

É por isso que ele diferencia o momento eleitoral da construção partidária. Lalo manifestou simpatia por forças da esquerda que disputam espaço próprio, mas afirmou que a construção dessas organizações poderia continuar depois da eleição. Para ele, a prioridade imediata é preservar as condições democráticas que permitem essa própria construção política.

A democracia como condição para a esquerda existir

O argumento é levado ainda mais longe quando Lalo falou sobre sindicatos, universidades, movimentos estudantis e partidos políticos. Na sua avaliação, uma eventual vitória da força política que identifica como autoritária poderia restringir justamente os espaços nos quais a esquerda se organiza.

Ele mencionou invasões e episódios de violência política em universidades e lembrou que uma sede partidária em Santa Catarina foi invadida (N. da R.: da UP). O raciocínio apresentado foi que a própria capacidade de organização daqueles que hoje defendem candidaturas alternativas depende da existência de instituições democráticas e de liberdade política.

Daí uma das principais conclusões da entrevista: a democracia não é apenas o sistema dentro do qual a esquerda disputa eleições; é também a condição material para que partidos, sindicatos, estudantes, professores e movimentos sociais possam continuar organizados e disputar projetos de sociedade.

Essa compreensão ajuda a explicar a insistência de Lalo na responsabilidade histórica. Ele não apresentou a eleição apenas como uma escolha administrativa ou econômica. Na sua leitura, o resultado definirá também o espaço político disponível para as próximas disputas.

Um momento que, para Lalo, ultrapassa o Brasil

Outro elemento presente na conversa foi a dimensão internacional das consequências da eleição. Lalo afirmou que o Brasil possui importância para a América Latina, para países africanos que mantêm relações comerciais com o país e para nações asiáticas, citando Laos, Vietnã e Camboja.

É nesse contexto que ele mencionou uma percepção expressa por grandes jornais internacionais: a ideia de que parte do futuro político da América Latina está relacionado ao papel desempenhado pelo Brasil sob Lula. A afirmação foi apresentada na entrevista para dimensionar a importância que Lalo atribui à eleição brasileira no contexto internacional.

A discussão, portanto, retornou ao ponto de partida: para Lalo, a escolha eleitoral não pode ser reduzida à simpatia ou antipatia por um candidato. Ela precisa ser pensada a partir das consequências que cada resultado poderá produzir sobre a democracia brasileira, a soberania nacional, a organização dos movimentos sociais e o equilíbrio geopolítico regional.

O papel do  jornalismo diante da eleição

No encerramento, a conversa ganhou outro eixo: o papel dos jornalistas. Lalo afirmou estar preocupado com o momento histórico e defendeu que os profissionais da comunicação assumam responsabilidade diante da conjuntura.

A posição se aproxima da própria concepção editorial apresentada pelo JTT e pelo Portal Desacato durante a conversa: a defesa de um jornalismo que não esconda suas posições e que reconheça a dimensão política da informação.

Debatepolítico

Lalo afirmou que a profissão terá muito a fazer nos dias que antecedem a votação. O encerramento reforça, assim, uma das ideias que atravessaram toda a entrevista: em momentos considerados decisivos, o jornalismo não se limita a registrar os acontecimentos. Ele também disputa interpretações sobre eles.

Uma eleição para além das urnas

A entrevista de Lalo Leal Filho apresenta, portanto, uma interpretação abrangente da eleição brasileira. Sua preocupação não se restringe à eventual vitória de uma candidatura ou à composição de um governo. Ele relaciona o processo eleitoral à preservação das instituições democráticas, à existência de regras comuns para a sociedade, à soberania brasileira e às disputas de poder no cenário internacional.

Sua defesa da concentração de votos em Lula no primeiro turno nasce, segundo o próprio entrevistado, dessa leitura de excepcionalidade. Não se trata, em sua argumentação, de abandonar críticas ao governo ou de suspender a construção de alternativas de esquerda. Trata-se de colocar essas disputas em uma ordem de prioridades determinada pelas consequências que ele atribui ao momento atual.

A expressão que melhor sintetiza sua posição é aquela que atravessa a entrevista: “elege e critica”. Para Lalo, preservar a democracia não significa encerrar a disputa  política. Significa garantir que ela possa continuar existindo.

Debatepolítico

E é justamente aí que a pergunta proposta pelo JTT ganha sua dimensão mais ampla: quando uma eleição é percebida como uma disputa sobre as próprias condições de funcionamento da democracia, a discussão deixa de ser apenas sobre quem governará o país. Passa a ser também sobre que país continuará existindo depois da eleição e quais serão as condições para continuar disputando seus rumos. Assista à entrevista completa no vídeo abaixo: