6 de outubro de 2026

A mídia é parte essencial do fascismo que devora o Brasil

Crédito: Agência Senado I Reprodução via BdF

Nenhuma análise do avanço extremista é válida se despreza o efeito da mídia no municiamento da estratégia bolsonarista. E isso engloba do discurso da extrema-direita ao comportamento progressista.

Por Tiago Barbosa / Brasil 247

Digo e repito há tempos: o ecossistema midiático corporativo é quem pauta, nutre e infla a narrativa bolsonarista e inibe, vilaniza ou esteriliza a existência da esquerda.

Na economia, a mídia invisibiliza a melhoria (mesmo a mais tímida) gerada pelo governo Lula e legitima a distorção cognitiva de sobreposição da narrativa de colapso ao real.

Mentiras como “Lula criador de imposto”, “o PT quebra o país”, “o endividamento é culpa da esquerda” são ecos de um noticiário metodicamente construído para tachar como inepta uma gestão eficaz e popular.

A ficção é reciclada pela propaganda bolsonarista e disseminada como legítima – vira fake news com selo de isenção.

A mídia é a fonte para fazer da corrupção tema capital no debate público e imputar à esquerda delitos inerentes e abundantes na (extrema) direita – o que irriga o estigma nuclear do discurso bolsonarista.

Os bordões “Lula ladrão”, “Lulinha bandido” e “PT corrupto” encontram na imprensa alinhada o respaldo “jornalístico” para alienar a massa, mobilizar ódios e blindar quem, de fato, são os verdadeiros corruptos.

Caso Master, roubo de joias, desvio para filme, emendas parlamentares, rachadinha, milícia, todos atos escabrosos do bolsonarismo são atenuados ou escondidos para inventar e manter no foco leviandades imputadas ao filho do presidente.

A lógica se estende à definição do inimigo comum – peça-chave na consolidação de qualquer retórica fascista.

Na campanha, a mídia descredibilizou e meteu um alvo – com timing e seletividade – justamente no tribunal apontado pela extrema-direita como tendencioso e persecutório.

A dobradinha deu azo à narrativa de vitimização nutrida desde antes do 8 de janeiro, monopolizou o noticiário e desobrigou o bolsonarismo a falar do país – melhor impossível.

Não há, aqui, a inocência de esperar de um aparelho ideológico uma conduta alheia aos interesses do capitalismo – esse estado de fascismo hibernado. Mas minimizar o conjunto de ações de uma mídia militante do extremismo quando o Brasil é varrido por uma onda imbecilizante de ódio e fundamentalismo só reforça essa lógica.

Aliás, a mídia também pauta a esquerda quando elege parâmetros limitantes e desgastantes atribuídos ao PT e ao lulismo. A ideia difusa de “renovação” é uma dessas balelas impostas goela abaixo para criar a percepção de envelhecimento e imobilismo do campo progressista.

A família Bolsonaro está, há décadas, inoculada nas tetas do estado, medalhões da direita se reelegem até a velhice e ninguém é questionado para “abrir mão do poder” – ao contrário de Lula.

E pior: a distorção exclui e ignora quadros relevantes eleitos nas bases esquerdistas para manter o falso estigma em evidência.

A desconstrução midiática é tão absurda que, mesmo após a derrota no primeiro turno, a culpa é toda imputada a Lula e à esquerda para sangrar ainda mais quem só apanhou.

A consciência sobre esse papel nefasto da mídia no fortalecimento da extrema-direita é indispensável para analisar a deterioração civilizatória e definir a reação contra a avalanche reacionária e fascista.

Pular a armadilha do autoflagelo proposto pelo campo adversário é o primeiro passo para qualquer redenção.