
A primeira coisa que precisamos entender é que não estamos disputando com Flávio Bolsonaro. Estamos disputando com Donald Trump, presidente imperial dos Estados Unidos. A ingerência é óbvia, como eu vinha denunciando, e talvez tenhamos errado justamente por não compreender desde o começo a dimensão real dessa disputa.
Por Vanessa Martina-Silva / Diálogos do Sul Global
Mas, se essa é a dimensão da disputa, então precisamos também olhar de outra forma para o resultado que tivemos. Não foi tão ruim quanto poderia ter sido. Flávio Bolsonaro poderia, sim, ter vencido no primeiro turno.
E não venceu.
Não venceu pela força da militância, pela resiliência das brasileiras e dos brasileiros que ainda acreditam que o futuro deve ser melhor, e não pior. Que o futuro deve ser de direitos, e não de destruição. Que este deve ser um país de construção social, e não um país de destruição.
Essas pessoas conseguiram barrar a extrema direita desta vez. E temos 21 dias para tentar barrá-la de novo.
Até agora, nenhum país latino-americano conseguiu derrotar os Estados Unidos. Estamos caminhando lenta, mas continuamente, para sermos todos neocolônias.
Não está perdido. Mas é a batalha mais difícil das nossas vidas. De novo.
Agora a pergunta é outra: como seguir diante de uma sociedade lobotomizada? Será que é assim? Será que essa é mesmo a explicação?
Desta vez, eu não acho que vale a bronca do Mano Brown. Não foi pé no barro que faltou. Foi salto alto de um partido que avaliou tudo errado desde o começo. E talvez essa seja uma das coisas mais difíceis de admitir agora, porque significa reconhecer que não basta fazer mais do mesmo, só que com mais força, durante os próximos 21 dias.
Não sei se dá para ganhar, porque para isso temos que mudar muita coisa. E rápido. Agora é Estado de Terror.
Estamos tragicamente parecidos com a Alemanha dos anos 1930. Hitler também foi eleito. E a pergunta que me ocorre não é sobre todos os detalhes da Alemanha dos anos 1930, nem sobre reproduzir aquela história aqui. É muito mais simples: será que ninguém poderia ter feito nada?
Nós temos 21 dias para fazer esse algo que, em outros momentos, pessoas como nós não conseguiram fazer.
Não está perdido. Mas, para impedir a derrota, primeiro precisamos compreender a dimensão real da gravidade histórica do momento.
E aí precisamos voltar para a América Latina.
O Brasil não é europeu. O Brasil não é um anexo dos Estados Unidos. O Brasil é latino-americano, absolutamente latino-americano.
Precisamos olhar para o que as campanhas erraram na América Latina, quais estratégias falharam e por que falharam.
Precisamos olhar para os países onde a extrema-direita avançou, para a ingerência dos Estados Unidos nesses processos e para aquilo que não fomos capazes de compreender a tempo.
E precisamos olhar para o México, que, em meio a esse avanço continental, conseguiu produzir continuidade política e impedir que a extrema-direita chegasse ao governo.
Precisamos entender o que eles entenderam.
Perdemos, mas ainda não fomos derrotados. Temos 21 dias para entender. E agir.