
A estratégia que ajudou Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a derrotar Flávio Bolsonaro (PL) nas eleições presidenciais de 2026 está atravessando fronteiras. O deputado federal André Janones (Rede-MG), responsável pela criação do chamado “Exército do Lula”, tornou-se uma referência internacional de mobilização digital para movimentos de esquerda que buscam enfrentar o avanço da direita e da extrema direita. Na França, Espanha e Argentina, grupos inspirados na experiência brasileira já reproduzem métodos utilizados durante a campanha petista.
Por Ivan Longo / Revista Fórum
A repercussão vai além das redes sociais. Janones ganhou destaque na imprensa internacional e, segundo reportagens publicadas nos últimos dias, recebeu convites para colaborar com a campanha do primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez e para visitar o México a convite da presidente Claudia Sheinbaum.
O interesse pelo modelo brasileiro ganhou força após a vitória de Lula no segundo turno, realizado no último domingo (25). A virada eleitoral do petista, que havia terminado a primeira etapa da disputa atrás de Flávio Bolsonaro, despertou a atenção de lideranças progressistas em um cenário internacional marcado pelo crescimento de forças conservadoras e de extrema direita.
O modelo de Janones que mobilizou milhões pelo WhatsApp
A experiência que agora inspira movimentos internacionais ganhou dimensão inédita durante o segundo turno das eleições brasileiras de 2026. Sob o comando de Janones, o canal “Exército do Lula” ultrapassou 10 milhões de seguidores no WhatsApp, aproximando-se de 11 milhões na reta final da campanha.
A estratégia transformou apoiadores em agentes ativos da comunicação eleitoral. Em vez de apenas receber conteúdos, os participantes eram convocados a cumprir “missões” diárias: compartilhar vídeos, impulsionar publicações, promover hashtags, convidar novos integrantes e ampliar a circulação de mensagens favoráveis a Lula.
Outra orientação era evitar interações com publicações bolsonaristas, inclusive comentários críticos, para não alimentar os algoritmos e aumentar a visibilidade dos adversários. A mobilização também incluía ações coordenadas em horários específicos, com o objetivo de levar conteúdos progressistas para além das bolhas tradicionais da esquerda.
O modelo chamou a atenção pela capacidade de organizar milhões de pessoas em torno de tarefas simples, utilizando uma linguagem direta, popular e marcada pelo senso de urgência.
A repercussão foi tamanha que o jornal espanhol El País publicou, nesta terça-feira (27), uma reportagem dedicada ao parlamentar brasileiro, apresentando-o como o “general do WhatsApp” que ajudou a protagonizar a virada eleitoral de Lula. A atuação de Janones também foi tema de reportagens da Al Jazeera e de outros veículos internacionais.
França: esquerda de Mélenchon cria seu próprio exército digital
Na França, a experiência brasileira inspirou o surgimento do “Les Soldats Insoumis” (Soldados Insubmissos), grupo independente formado por simpatizantes do partido A França Insubmissa (LFI), de Jean-Luc Mélenchon.
A iniciativa reunia mais de 15 mil participantes no WhatsApp até terça-feira (27), segundo a Rádio França Internacional (RFI), e também passou a atuar no Telegram e em outras redes sociais. Assim como no Brasil, os integrantes recebem orientações para compartilhar conteúdos, impulsionar hashtags e atrair novos participantes.
A mobilização ganhou força suficiente para levar o próprio LFI a criar um canal oficial, chamado “L’équipe de Mélenchon officielle” (A equipe oficial de Mélenchon).
O deputado francês Antoine Léaument fez referência direta à experiência brasileira ao convocar apoiadores para a nova iniciativa.
“Nós vimos bem o que aconteceu no Brasil e não se preocupem, vamos aplicar um método que funcione”, afirmou, segundo a RFI.
A movimentação ocorre em meio à preparação para as eleições presidenciais francesas de 2027, previstas para abril e maio. Marine Le Pen, uma das principais lideranças da extrema direita europeia, lidera as pesquisas de intenção de voto.
Espanha: apoiadores de Pedro Sánchez adotam regras de Janones
Na Espanha, a influência brasileira também é explícita. Apoiadores do primeiro-ministro Pedro Sánchez, do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), criaram o canal “La fuerza de la gente” (A força das pessoas), dedicado à mobilização digital em favor do líder socialista.
Além de compartilhar discursos, vídeos e publicações de Sánchez, os participantes divulgam imagens do presidente Lula e materiais com as chamadas “6 regras da estratégia digital de Janones”.
A iniciativa surge em um momento decisivo para o governo espanhol. Sánchez, que ocupa o cargo desde 2018, convocou eleições gerais antecipadas para 29 de novembro de 2026 e tenta ampliar o apoio à esquerda diante do crescimento das forças conservadoras e da extrema direita.
A vitória de Lula passou a ser apresentada pelo próprio premiê espanhol como exemplo de que é possível reverter cenários eleitorais desfavoráveis. A estratégia brasileira ganhou relevância especialmente diante da disputa digital com a direita espanhola e o partido de extrema direita Vox.
Argentina: kirchneristas criam o “Exército do Peronismo”
Na Argentina, simpatizantes do kirchnerismo também passaram a reproduzir a experiência brasileira. O grupo “Ejército del Peronismo” (Exército do Peronismo) reúne apoiadores da ala jovem e mais à esquerda do movimento peronista, principal força de oposição ao presidente Javier Milei.
O canal no WhatsApp já contabilizava mais de 32 mil seguidores na terça-feira (27), segundo a RFI. A mobilização argentina segue a dinâmica do “Exército do Lula”, com missões para compartilhar publicações, convidar novos integrantes e ampliar o alcance de mensagens políticas.
As referências ao Brasil aparecem com frequência. Vídeos, imagens e publicações sobre a vitória de Lula são utilizados como inspiração para a organização dos apoiadores em meio à preparação para as eleições presidenciais argentinas de 2027.
A expansão dessas iniciativas ocorre em um contexto de fortalecimento da direita na América do Sul: sete chefes de Estado da região estão alinhados à direita, enquanto cinco são identificados com a esquerda.
Janones recebe convites da Espanha e do México
O reconhecimento internacional da estratégia de Janones também abriu espaço para contatos com lideranças políticas estrangeiras.
O deputado brasileiro foi convidado a colaborar com a campanha eleitoral de Pedro Sánchez na Espanha. A possível participação ganhou repercussão na imprensa espanhola, embora ainda não haja confirmação de um acordo formal ou de que o parlamentar tenha aceitado o convite.
Na terça-feira (27), Janones também recebeu um convite da presidente mexicana Claudia Sheinbaum para visitar o país e discutir iniciativas conjuntas de fortalecimento da esquerda.
O contato foi transmitido por Efraín Guadarrama, que se apresentou como chefe de gabinete do chanceler mexicano. A eventual viagem ainda não tem data definida.
Depois de ajudar a esquerda brasileira a disputar espaço com o bolsonarismo nas redes, Janones vê sua estratégia ser observada e adaptada por movimentos que enfrentam desafios semelhantes em outros países. O fenômeno representa uma mudança de perspectiva: em vez de apenas acompanhar as estratégias digitais da extrema direita, setores da esquerda internacional passaram a buscar inspiração em um modelo desenvolvido no Brasil.