
Edinho Silva, Juliano Medeiros e Orlando Silva abrem 9º Encontro Nacional de Comunicadores e Ativistas Digitais; para eles, a disputa de narrativas sobre valores e projeto de país serão centrais nas eleições
O 9º Encontro Nacional de Comunicadores e Ativistas Digitais (BlogProg) teve início nesta sexta-feira (24), em São Paulo, com um debate que colocou no centro da análise política os desafios da comunicação para as eleições de 2026.
Felipe Bianchi
O evento, que conta com apoio do NIC.br, por meio do CGI.br, vai até a noite de sábado (25), reunindo no Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, comunicadores, ativistas digitais, estudantes, juventude, pesquisadores e lideranças políticas de todo o país.
A mesa de abertura, mediada pelos jornalistas Cidoli e Érica Aragão, contou com a participação de Edinho Silva (PT), Juliano Medeiros (PSOL-Rede) e Orlando Silva (PCdoB), e destacou que a disputa eleitoral será, cada vez mais, uma batalha política e comunicacional profundamente entrelaçada.
Abrindo o debate, o presidente nacional do PT, Edinho Silva, situou o momento brasileiro dentro de um cenário internacional marcado por tensões geopolíticas e avanço da extrema direita.
“Não precisamos dessa guerra, de uma guerra que objetiva controle de riquezas e controle de territórios, com aspirações fascistas. É um período de ascensão do fascismo no mundo, cujo maior líder contemporâneo é Trump”, afirmou.
A partir desse contexto, Edinho destacou que é tarefa de todo o campo democrático comunicar com clareza o que está em jogo nas urnas em outubro: “Temos de deixar claro qual é o projeto que enfrentará temas estruturais como a redução da jornada de trabalho, a tarifa zero no transporte público, a defesa das riquezas nacionais e das terras raras, a transição energética com justiça climática”.
Na sua avaliação, a comunicação terá papel decisivo para consolidar essa disputa, especialmente diante da usina de desinformação da extrema direita.
“Precisamos utilizar a comunicação digital para mostrar ao Brasil que quem combate a corrupção é o governo de Lula”, ressaltou, citando ações recentes do governo federal.
Edinho também defendeu a construção de uma ampla rede de comunicadores comprometidos com a disputa de narrativas no ambiente digital.
“Precisamos formar uma corrente de porta-vozes desse governo Lula”, afirmou, dirigindo-se aos participantes do encontro.
Encerrando sua intervenção, fez um chamado direto ao campo da comunicação democrática: “Que vocês estimulem que a verdade vença a mentira, a desinformação. Que a verdade seja materializada na vitória de um projeto nacional, da democracia sobre o fascismo.”
Comunicação e luta política
A centralidade da comunicação também foi reforçada por Juliano Medeiros, presidente da federação PSOL-Rede, que propôs uma inflexão na forma como o campo progressista encara o tema.

“A comunicação não é parte da luta política, ela é a própria luta política”, afirmou.
Para ele, um dos principais equívocos é tratar a disputa comunicacional como um problema técnico, quando, na realidade, ela expressa dificuldades políticas mais profundas.
“Se ganhamos a batalha política, a comunicação traduz essa batalha em vitória. Não é, portanto, um mero problema técnico”, argumentou.
Juliano também chamou atenção para a assimetria da disputa no ambiente digital, marcada pelo poder econômico e pelo domínio dos algoritmos por parte da extrema direita. “É uma guerra totalmente desigual, como se fôssemos combatentes palestinos contra um exército poderoso do algoritmo e do aparato tecnológico”, comparou.
Ao mesmo tempo, defendeu que o campo progressista precisa recuperar capacidade de mobilização e conexão com o povo, inclusive no plano simbólico e moral: “Não é possível que os caras gerem mais tesão no povo brasileiro do que a gente!”, provocou, ao defender uma postura mais combativa.
“Temos um canhão em nossas mãos. Esse canhão se chama Lula”, defende. “Mas precisamos do Lula combativo, não do Lula moderado. Se soltarem essa fera enjaulada, ganhamos a eleição”.
Segundo Medeiro, não devemos nos limitar a dizer o governo já realizou. “As pesquisas mostram que isso não está resolvendo”, alerta. “ O debate não é só econômico, é moral. E a indignação moral tem de estar pelo nosso lado”.
Rebeldia para reencantar o povo

Na mesma linha, o deputado federal Orlando Silva (PCdoB) alertou para a dimensão histórica da disputa de 2026, que, segundo ele, tende a ser a mais difícil já enfrentada pela esquerda brasileira.
“Estamos falando de uma disputa de impacto mundial, até mesmo civilizatória”, asseverou.
Apesar dos indicadores econômicos positivos, Orlando destacou a necessidade de compreender contradições no cenário político, como a rejeição entre jovens, e defendeu uma atuação mais ofensiva na disputa de ideias.
“É preciso mais rebeldia. É preciso fazer a chamada guerra cultural, disputar conceitos e valores”, disse.
Sem abrir mão do compromisso com a ética e a verdade, ele enfatizou que o campo democrático precisa trabalhar com força a disputa de narrativas em torno da figura de Flávio Bolsonaro.
“Na batalha de 2026, temos uma tarefa elementar: sermos ofensivos e assertivos na desconstrução política do nosso adversário”, pontuou. “Ainda estamos muito tímidos na descontrução da extrema-direita e do bolsonarismo. Flávio Bolsonaro é antipatriota, defensor do tarifaço, entreguista que quer dar as terras raras para os Estados Unidos, negacionista da ciência”.

Parte da população brasileira está interditada para escutar argumentos racionais, mas há uma parte que não, alerta o deputado. “Parece haver um certo encantamento com o pensamento de direita no país. Eles vendem uma solução individual, o tal ‘empreendedorismo’. Nosso desafio é reencantar o nosso povo. E assim levar o debate para onde nos interessa”.
Ao final, os três dirigentes convergiram na avaliação de que a disputa eleitoral exigirá não apenas acúmulo político, mas também organização e estratégia no campo da comunicação. Em um cenário marcado pela força das plataformas digitais e pela atuação articulada da extrema direita global, o desafio colocado é ampliar a capacidade de diálogo com a sociedade e construir uma narrativa capaz de mobilizar amplos setores da população.
Mais do que uma dimensão acessória, a comunicação aparece, assim, como terreno central da luta política e decisiva para os rumos do Brasil em 2026.
9º BlogProg
O canal do Barão de Itararé transmite na íntegra os debates da programação. Assista, a seguir, a íntegra do debate inaugural do evento e ative as notificações para assistir as demais atividades.