
O povo brasileiro volta às urnas nos dias 4 e 25 de outubro para uma eleição que definirá os rumos do país. Mais do que eleger Lula e uma maioria parlamentar, a disputa é por um projeto nacional que enfrente o crime organizado, aprofunde a democracia e coloque mais povo no poder. Um quarto governo de Lula não pode ser igual aos anteriores: precisa fazer mais e melhor. Essa é a tarefa e a luta.
Giovani del Prete, dirigente da Escola Nacional Paulo Freire e membro do Conselho Consultivo do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé
As eleições de outubro de 2026 colocam o Brasil diante de uma encruzilhada histórica. Não se trata apenas de mais um pleito regular, mas de um momento decisivo em que 158 milhões de eleitores decidirão nas urnas o destino de milhares de cargos fundamentais para a arquitetura institucional do país — incluindo a Presidência da República, dois terços do Senado Federal (54 das 81 cadeiras), 513 deputados federais, 27 governadores e milhares de cadeiras nas assembleias legislativas dos 27 estados brasileiros. Para o público internacional e para o campo progressista, democrático e de esquerda, a compreensão da gravidade deste cenário exige lucidez.
O avanço da extrema direita não é um acidente conjuntural, mas parte de uma estratégia sistêmica articulada tanto pela subordinação geopolítica aos centros de poder imperialista quanto por redes de conexões espúrias e práticas mafiosas que emergem à luz do dia.
A direita parece fragmentada, mas aposta no clã Bolsonaro. Afinal, é o grupo mais subordinado à Washington
Para o leitor estrangeiro que acompanha a política brasileira à distância, é fundamental compreender a magnitude criminosa que cerca a extrema direita local. A biografia do clã Bolsonaro e de sua rede de apoio é marcada por uma vasta gama de ilícitos, que vão desde as recorrentes “rachadinhas” — esquema de apropriação ilegal de salários de assessores em gabinetes parlamentares — até a consumação de atos de tentativa de golpe de Estado, culminando nos ataques daquele 8 de janeiro, que deram 27 anos de cadeia para Jair Bolsonaro.
A gravidade dessa articulação criminosa ganhou contornos alarmantes com o plano de entregar a eventual equipe de transição de governo aos Estados Unidos e a setores estrangeiros em caso de vitória da extrema direita, revelando um projeto de traição nacional e subordinação colonial sem precedentes. Além de pedir mais tarifas contra seu próprio povo, é de conhecimento público que Flávio Bolsonaro prometeu à Trump e à Rubio que eles poderiam nomear a equipe de transição para o governo do Brasil em caso de que seja eleito em outubro deste ano.
Episódios emblemáticos demonstram que o bolsonarismo opera muito além da divergência ideológica. Trata-se de um projeto de poder associado a verdadeiras máfias econômicas e políticas, que transita entre Estados Unidos, Israel e seus satélites da extrema direita que vem ganhando eleições pela América Latina. As últimas revelações sobre os crimes de Fernando Cerimedo, que vão desde feminicídio à manipulação de resultados eleitorais, explicam muito bem o tipo desta gente.
O cerco inquisitório e as fortes evidências que encurralam figuras centrais da direita em negócios ilegais com operadores financeiros — a exemplo dos questionamentos públicos enfrentados por Flávio Bolsonaro, que foi gravado pedindo mais de 26 milhões de dólares ao maior bandido do Brasil, o banqueiro Daniel Vorcaro.
Vorcaro comandava o Banco Master, instituição que atualmente está no centro de um gigantesco escândalo de fraudes financeiras superiores a 12 bilhões de dólares, sendo apontado como o maior criminoso financeiro do Brasil. Há meses, este esquema vem sendo exposto e duramente combatido graças aos mecanismos de investigação ao crime organizado fortalecidos pelo atual governo do presidente Lula.
Essa direita não hesita em atuar como correia de transmissão de interesses estrangeiros, pavimentando o caminho para a pilhagem do Brasil. Enquanto o imperialismo estadunidense e potências aliadas redesenham sua cartografia de dominação — seja através da pressão intervencionista de figuras como o senador norte-americano Marco Rubio, da militarização de conflitos ou de blocos regionais formados por governos neoliberais na América Latina para exportar minerais críticos em benefício dos interesses de Washington —, a direita brasileira atua como um cavalo de Tróia para liquidar nossa soberania nacional.
O jogo difícil: os desafios do campo popular brasileiro
Esses dias li um bom artigo, escrito por um grande companheiro e analista da política nacional. Tomo dele, de Ronaldo Pagotto, as ideias que me parecem condensar uma síntese que explica nossos desafios.
Pagotto defende que o campo popular e democrático enfrenta um tabuleiro extremamente adverso, marcado não apenas pela força e resiliência de uma direita barulhenta, capilarizada e respaldada pelo apoio declarado de grandes corporações de tecnologia e do extremismo global, mas também pela necessidade de gerir um país imerso em quatro grandes crises simultâneas e profundas:
- A crise do orçamento: com emendas parlamentares impositivas, secretas e o chamado orçamento “Pix” movimentando cerca de 10 bilhões de dólares por ano, impondo ao Supremo Tribunal Federal (STF) — a mais alta corte de justiça do país — a necessidade de bloquear 24 milhões de dólares de Valdemar Costa Neto, presidente do Partido Liberal (PL, a legenda de Bolsonaro), e intimar dirigentes partidários diante de um grave descontrole republicano.
- A crise no sistema financeiro: ilustrada pelo colapso fraudulento do Banco Master, encabeçado por Daniel Vorcaro, que já envolve figuras da mais alta cúpula do judiciário, do parlamento e de lideranças partidárias.
- O golpe na aposentadoria do INSS: um esquema criminoso que lesou cerca de 9 milhões de aposentados e pensionistas administrados pelo Instituto Nacional do Seguro Social (o INSS, que é o órgão previdenciário brasileiro), resultando na queda da direção do órgão e do ministro, e exigindo o maior ressarcimento da história (mais de 600 milhões de dólares pagos a 4,8 milhões de vítimas).
- A crise Institucional na Suprema Corte: A mais grave desde a fundação da Corte, marcada pelo fato sem precedentes de que três dos onze ministros do Supremo Tribunal Federal já se encontram direta ou indiretamente implicados em vazamentos e pressões, além de dezenas de parlamentares, grandes empresários e operadores do sistema financeiro enredados em investigações de chantagem golpista e ingerência estrangeira.
Nesse cenário de ceticismo e mal-estar social, a descrença abre espaço para falsos salvadores da pátria. A isso soma-se a timidez e a falta de ousadia de setores da frente ampla governista para realizar reformas estruturais profundas, confrontar privilégios rentistas, defender a soberania nacional e promover uma efetiva inclusão social, correndo o risco de pagar o preço político pela gestão de uma ordem injusta e violenta contra nosso povo.
As cinco tarefas imediatas do campo popular brasileiro
Para derrotar a ofensiva reacionária em outubro de 2026 e fortalecer o caminho para o desenvolvimento nacional, o campo popular precisa assumir um conjunto rigoroso de tarefas estratégicas:
- Fazer do 1º turno uma demonstração de força: superar a desvantagem histórica na disputa de votos do segundo turno exigindo engajamento total desde a primeira etapa, sem confiar cegamente em margens estreitas ou apostar na apatia do eleitorado.
- Eleger uma boa bancada de parlamentares e governos estaduais: vincular explicitamente a candidatura presidencial de Lula aos governos estaduais, ao Senado Federal e às bancadas de deputados, garantindo capilaridade nos grandes centros e nas cidades do interior.
- Disputar os 10% finais do eleitorado: realizar busca ativa e diálogo direto com o público oscilante por meio de uma linha mestra nacional clara e materiais didáticos intensos, combatendo a desinformação estruturada em redes de cabos fechados e sites em cadeia. Afinal, a disputa está sendo voto a voto, com muitas pesquisas indicando empate técnico, no segundo turno, entre Lula e Flávio Bolsonaro.
- Transformar a crise em disputa política: em vez de apenas administrar os escândalos (como o financiamento do Banco Master ao clã bolsonarista ou o resgate bilionário aos lesados do INSS), o campo popular deve politizar as quatro crises, mostrando que o governo protege o povo enquanto a oposição articula a chantagem golpista e a ingerência externa.
- Vencer nas ruas, nas urnas e levar adiante um projeto nacional de desenvolvimento: a vitória eleitoral é apenas o primeiro passo. É preciso articular a defesa imediata da democracia com a construção de um Projeto Nacional de Desenvolvimento soberano, capaz de superar a economia dependente e financeirizada, garantir trabalho, renda, direitos sociais e aprofundar a soberania popular no Brasil.
É nestas circunstâncias que o povo brasileiro vai às urnas no dia 4 de outubro e 25 de outubro, para o primeiro e segundo turno, respectivamente. Mais do que eleger Lula e uma boa bancada de parlamentares e governadores, nossa luta política revela nosso desejo e crença de que um quarto governo Lula tem que fazer mais e melhor pelo nosso povo. Para combater o crime organizado e fortalecer nossa democracia, temos que eleger e governar com Lula. E isso significa mais povo no poder. Essa é a nossa tarefa e nossa luta por aqui.
Referências
- Dados gerais sobre o contexto e a dimensão das eleições de 2026 (Tribunal Superior Eleitoral / Análise de conjuntura político-eleitoral). Disponível em: https://www.tse.jus.br
- PAGOTTO, Ronaldo T. Desafios e cenários para as eleições de 2026. Análise de conjuntura, set. 2026. Disponível em: https://docs.google.com/document/d/1S8xMHGOa7mVSbM7QeCm0E9pSdjNrDn2XXtwj1mqfoms/edit?usp=sharing
- BRASIL DE FATO. Flávio Bolsonaro é questionado por 12 minutos seguidos e não explica pedido de dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2026/08/28/flavio-bolsonaro-e-questionado-por-12-minutos-seguidos-e-no-explica-pedido-de-dinheiro-ao-banqueiro-daniel-vorcaro/
- REVISTA PIAUÍ. Flávio Bolsonaro, dinheiro e o “dark horse” Vorcaro. Disponível em: https://piaui.uol.com.br/web/flavio-bolsonaro-dinheiro-dark-horse-vorcaro/
- OUTRAS PALAVRAS. Eleições: Lula não pode mais jogar parado. Disponível em: https://outraspalavras.net/mercadovsdemocracia/eleicoes-lula-no-pode-mais-jogar-parado/
- OUTRAS PALAVRAS. O Terceiro Reich de Marco Rubio. Disponível em: https://outraspalavras.net/crise-civilizatoria/o-terceiro-reich-de-marco-rubio/
- BRASIL DE FATO. Alinhados aos EUA, Chile, Argentina, Bolívia e Peru criam bloco para exportar minerais críticos. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2026/09/07/alinhados-aos-eua-chile-argentina-bolivia-e-peru-criam-bloco-para-exportar-minerais-criticos/
- OUTRAS PALAVRAS. Diálogo com os que hesitam em votar em Lula. посад. Disponível em: https://outraspalavras.net/estadoemdisputa/dialogo-com-os-que-hesitam-em-votar-em-lula/.