
Primeiro negro a comandar o New York Times, Dean Baquet esteve pela primeira vez no Brasil e falou à Alma Preta sobre credibilidade no jornalismo, diversidade nas redações e o programa com que treina repórteres investigativos no interior dos Estados Unidos.
Em entrevista à Alma Preta, ele reflete o quanto essa trajetória o moldou enquanto jornalista: “Claro que isso me tornou um jornalista melhor, porque me levou a questionar, de outra maneira, como a sociedade funciona”.
Baquet atuou no cargo entre 2014 e 2022, período em comandou coberturas históricas como as do assassinato de George Floyd e do caso Harvey Weinstein. Também foi durante seu mandato que o jornal publicou a série especial The 1619 Project, lançado pela jornalista investigativa Nikole Hannah-Jones, sobre o os 400 anos da chegada dos primeiros africanos escravizados na colônia da Virgínia.
Antes do NYT, ele foi editor-executivo no Los Angeles Times, onde atuou desde 2000.
Hoje à frente de um programa que forma repórteres investigativos em regiões dos Estados Unidos com pouca ou nenhuma imprensa, Baquet veio ao Brasil pela primeira vez. Ele participou no último sábado (5) do 10º Festival piauí de Jornalismo, que aconteceu na Cinemateca Brasileira, em São Paulo.
Durante a conversa, defendeu a transparência radical como resposta à desconfiança na imprensa e explicou por que aposta no jornalismo local para formar os novos líderes da profissão.
ALMA PRETA: Como um jornal como o The New York Times apoia repórteres locais além de financiá-los? E que inovações esses repórteres trazem de volta para o jornal, tanto em pautas quanto na forma de abordar assuntos tradicionais?
Dean Baquet: Nós os apoiamos com treinamento. Grande parte do meu trabalho é treinar repórteres investigativos locais para que eles próprios consigam apurar, escrever, editar e pensar como repórteres investigativos. Fazemos isso porque a maioria dos nossos principais repórteres e editores, inclusive eu, vem do jornalismo local. Se o jornalismo local entra em colapso, se não existem mais organizações locais, isso é ruim para nós: é de lá que saem nossos futuros líderes.
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As redações locais modernas, como a de vocês, precisam ser muito inovadoras. É preciso trabalhar duro para construir audiências, alcançá-las e se conectar com elas de um jeito que a minha geração não precisou. Antigamente as pessoas tinham que ler o jornal local nem que fosse só para saber se ia chover no dia seguinte. Visitando redações por todo o país, aprendi o quanto é difícil construir audiência — e tentei levar isso de volta para o New York Times.
AP: De qual jornal local você veio?
DB: De Nova Orleans. Fui repórter do The Times-Picayune, que hoje é um jornal pequeno. Meu sucessor, Joe Kahn [atual editor-executivo do NYT], era repórter em Dallas. Muitos de nós viemos de pequenas organizações de notícias.
AP: E esses jornalistas vêm de outros veículos ou trabalham para o New York Times?
DB: Funciona assim: jornalistas de todo o país, de redações pequenas e grandes, se candidatam com um projeto, uma ideia que querem desenvolver. Recebemos centenas e centenas de inscrições. Quem é escolhido passa a ser pago por um ano e se torna repórter do New York Times — não de forma permanente, porque quero que voltem para as suas redações. Pagamos o salário e todas as despesas, editamos as reportagens e ajudamos a encontrar veículos locais para publicá-las. Algumas nós publicamos no New York Times, mas nem todas.
AP: É comum esses profissionais serem jornalistas formados, ou há pessoas que atuam como comunicadores sem diploma de jornalismo?
DB: Não precisam ter diploma. Eu mesmo não tenho diploma universitário — larguei a faculdade, o que não recomendo. Mas precisam ter uma boa ideia e alguns anos de experiência como jornalistas. Nossos melhores candidatos trabalham em redações menores, que não têm expertise para ajudá-los a tirar a ideia do papel. E eles próprios ainda não têm essa expertise, mas já têm alguma experiência. Não pode ser alguém que aparece do nada; é preciso ter alguma base, ao menos nas tradições do jornalismo, para participar do programa.
AP: O New York Times já fez parceria diretamente com veículos independentes de mídia local? Como funciona esse modelo? Pergunto porque aqui no Brasil, por exemplo, a Folha de S.Paulo traz jornalistas de bairros periféricos para escrever num blog.
DB: Há dois anos fizemos uma parceria com o Baltimore Banner, uma organização de notícias novíssima em Baltimore, Maryland. Desenvolvemos um projeto com eles pelo meu programa: eles entraram com os repórteres, nós entramos com o dinheiro e fizemos toda a edição. No fundo, meu programa faz parcerias com organizações de jornalismo local por todo o país o tempo todo.
AP: Quais são os critérios para escolher esses jornalistas? E quem faz essa escolha?
DB: Eu faço as escolhas, junto com a minha equipe de editores. Nos reunimos e analisamos todos os candidatos juntos. O principal é ter uma boa ideia. Não precisa estar totalmente formada nem pronta para publicar, mas precisa ser específica. Não adianta chegar com uma proposta do tipo “quero escrever sobre injustiça na minha comunidade” — isso é uma pergunta, não é uma história.
Um bom exemplo foi o de uma jovem de Baltimore que nos procurou dizendo: “Acredito ter evidências de que Baltimore tem os piores preços de fentanil entre as cidades americanas; aqui estão elas, mas preciso de tempo e de expertise para provar.” Isso é perfeito.
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Os melhores candidatos cobrem uma editoria, então já conhecem um pouco a história e enxergam certas coisas, mas precisam de ajuda para elaborar melhor. Também gosto de garantir que estamos escolhendo pessoas em estados com menos jornalismo — por isso trabalhamos muito no Mississippi, em Nebraska, em partes da Califórnia que não são Los Angeles, no Maine.
AP: E qual é o perfil? São jornalistas jovens, experientes, ou é misto?
DB: Não estabelecemos faixa etária. De modo geral, são repórteres mais jovens, de redações menores — não só jornais. Mas eu poderia perfeitamente escolher um repórter veterano com uma ideia muito boa que nunca teve a chance de fazer trabalho investigativo e quer aprender.
AP: Vocês atuam nos chamados desertos de notícias?
DB: Adoro fazer isso, mas nem todos os casos são desertos de notícias. Temos um bolsista em Chicago, que não considero um deserto. O importante é que seja um lugar que realmente precise de ajuda. Por isso, acabamos indo parar em muitos desertos de notícias, mas não só neles.
AP: Mudando de assunto: o Brasil vive hoje uma polarização política parecida com a que você cobriu nos EUA, e os jornalistas enfrentam desconfiança crescente. Que conselho você daria a um veículo brasileiro como o nosso, que atende à população negra, sobre como navegar por esse cenário?
DB: Meu primeiro conselho é ser absurdamente transparente sobre quem você é e o que você faz — algo que a minha geração de jornalistas não fazia.
Explique como escolhe as pautas, como as apura, como as produz. Deixe claro que você é jornalista e parte daquela comunidade. Apresente seus jornalistas ao público, faça eventos em que as pessoas possam conhecê-los e ver como trabalhamos. Acredito que, se as pessoas realmente vissem como fazemos nosso trabalho e percebessem o quanto fazemos parte das comunidades, isso ajudaria a conquistar confiança.
Não vai acontecer da noite para o dia. Levamos anos e anos para chegar a esse ponto de desconfiança. O caminho é abrir bem as portas e dizer: é assim que tomamos decisões, é assim que escolhemos as pautas, este sou eu, este é você.
AP: Essa desconfiança no Brasil parece ligada a um movimento dos EUA, não a algo puramente brasileiro. Quem desconfia dos jornalistas aqui muitas vezes admira Trump.
DB: Alguns, sim. Mas precisamos ter muito cuidado para não presumir que só quem desconfia da imprensa está à direita. Há pessoas à esquerda que também desconfiam de nós, por razões diferentes. Algumas não gostam da nossa cobertura de Gaza, outras acham que não fomos duros o suficiente com Trump.
À direita, há quem ache que fomos duros demais ou que nunca damos crédito a eles. Há mais desconfiança à direita, mas, se tratarmos isso como um problema exclusivo da direita, cometeremos um erro.
Lembro de eventos públicos em que passamos a questionar a idade de Joe Biden e fui muito criticado por pessoas de esquerda. Por isso o caminho é o mesmo para todos: ser aberto, honesto e independente, fazer perguntas difíceis a todo mundo e explicar como trabalhamos.
AP: Você já trabalhava no New York Times antes de se tornar editor-executivo e conhecia o funcionamento editorial da casa. A cobertura do assassinato de George Floyd teria sido a mesma se o editor-executivo fosse branco? Qual foi a sua orientação para dar à história o peso que ela teve? Pergunto porque essa cobertura afetou também a nossa aqui no Brasil.
DB: O fato de eu ser negro certamente influencia como vejo o mundo — como não influenciaria? Mas acredito que o New York Times teria sido bastante contundente no caso George Floyd mesmo sem mim, mesmo sem um editor-executivo negro.
[O NYT] É uma instituição que se importa de verdade com boas coberturas e com injustiças. É quase impossível responder se teria sido completamente diferente sem mim. Gosto de acreditar que fizemos um trabalho melhor porque eu era o editor, mas o Times teria coberto com força de qualquer maneira.
AP: E os muitos outros casos de violência contra pessoas negras que não ganharam a mesma dimensão?
DB: Não há dúvida de que a forma como vejo o mundo é influenciada por eu ser um homem negro criado no sul dos Estados Unidos. Nasci em 1956, fui criado na era Jim Crow, estudei em escolas só de negros e cresci num bairro só de negros. Claro que isso moldou quem sou — e me tornou um jornalista melhor, porque me fez entender que a sociedade nem sempre faz coisas boas e me levou a questionar de outra maneira como ela funciona.
As melhores redações são aquelas com muitas perspectivas diferentes, com pessoas se ouvindo e se atritando.
Fui também o editor da reportagem sobre Harvey Weinstein: a editora era uma mulher e as duas repórteres eram mulheres, empenhadas em garantir que fôssemos contundentes. Tudo isso se junta para formar uma grande redação.
O trabalho dos editores do topo é reunir essas vozes, garantir que a cobertura seja justa e que a gente acerte.
AP: A defesa de redações diversas é também uma questão de justiça?
DB: Posso construir o argumento da justiça, se você quiser, mas não é só isso. Pense numa cidade como Nova Orleans, que é metade negra: como cobri-la de forma justa e honesta sem pessoas negras na equipe? É como era há 40 anos, quando as redações não davam bons cargos às mulheres e elas só escreviam matérias de comportamento, sobre moda ou tricô.
Veja como a cobertura mudou nas questões que interessam às mulheres depois que elas se tornaram editoras e repórteres de política. Se você silencia qualquer voz numa redação, o resultado é uma cobertura muito injusta.