
Neste momento, escrevo este texto envolvida numa das cenas mais canalhas no Brasil. Uma TV privada – mas ela é uma concessão pública – omissa, manipuladora e sem-vergonha, mesmo diante dos fatos. Ao contrário do que pergunta a peça institucional de autopromoção do seu “jornalismo profissional”, na voz decantada de Renata Lo Prete: “quer se informar para entender o mundo?”; mesmo assistindo, ouvindo e lendo, não podemos confiar no jornalismo profissional da TV Globo.
Por Rosângela Ribeiro Gil
Com qual moral a TV Globo acha que coloca a “capa” de heroína e nos exige confiar nela? Como assim? O que significa confiar em você, TV Globo?
Em sua nova campanha para 2026, o Jornalismo da Globo defende a confiança no jornalismo profissional, a checagem dos fatos e a separação entre informação e opinião. São princípios importantes. Mas existe uma questão fundamental: nenhuma emissora deve estar acima do escrutínio público, muito menos quando reivindica para si o papel de ponte segura entre os fatos e a sociedade.
A TV Globo não é apolítica, não é apartidária. A TV Globo tem lado, e não é o do Brasil, mas dos seus próprios interesses políticos e econômicos.
Confiança eu tenho com a minha mãe, com o meu pai, com amigos, mas não com o jornalismo da TV Globo.
É necessário olhar criticamente para esse discurso de credibilidade que a TV Globo nos despeja todos os dias. A seleção e o tratamento das notícias tornam determinados aspectos políticos mais ou menos visíveis. São muitos os problemas da TV Globo com notícias manipuladas desde a sua criação no “berço militar de 1964” e com dinheiro de conglomerado midiático dos Estados Unidos, da década de 1960.
Em 1989, o Jornal Nacional manipulou da forma mais abjeta (jornalismo profissional aqui, TV Globo?) a edição do debate entre Lula e Collor. Tentaram repetir o modelo em debate-arapuca que seria feito no primeiro turno, das eleições presidenciais de 2026. Só que o candidato da Globo, Flávio Bolsonaro desistiu de ir ao debate quando seu desafeto Renan Santos conseguiu (de forma correta, aliás), na Justiça, o direito de participar do debate.
Quando a TV Globo tenta nos induzir a achar que o problema de uma notícia é apenas parecer o que não é, ela quer desviar o nosso olhar crítico para o que verdadeiramente interessa. Como se segue.
O problema não se resume à divulgação de uma informação verdadeira ou falsa. A escolha do que vira notícia, o espaço concedido a cada personagem, a repetição de determinadas denúncias, a linguagem utilizada e aquilo que fica fora da cobertura também influenciam a maneira como o público interpreta a realidade.
É justamente aí que a discussão sobre desinformação precisa avançar. Uma notícia pode conter fatos verdadeiros e, ainda assim, produzir uma compreensão parcial dos acontecimentos quando apresenta apenas determinados ângulos, omite contextos relevantes ou concede visibilidade desigual aos diferentes envolvidos.
Quando a Globo afirma que o público deve confiar no jornalismo profissional, cabe perguntar: confiança baseada em quê? Na reputação construída pela própria emissora ou na possibilidade de verificar suas informações, confrontar suas versões e avaliar criticamente suas escolhas editoriais? Eu ou você podemos realmente interferir no que vai ao ar no jornalismo da Globo? Temos poder para isso? Temos uma emissora do tamanho da Globo para falarmos as nossas notícias?
A credibilidade jornalística não deve funcionar como um certificado concedido pela própria empresa. Ela precisa ser conquistada diariamente, com transparência, pluralidade de fontes, correções públicas e disposição para reconhecer erros. Sendo assim, o jornalismo da TV Globo nunca terá esse certificado de jornalismo confiável. Nunca!
Combater notícias falsas é indispensável. Mas combater a desinformação também exige investigar como o poder da mídia pode selecionar, enquadrar e hierarquizar os acontecimentos.
A pergunta que fica é simples: se todo conteúdo precisa ser verificado, por que o discurso de credibilidade de uma grande emissora deveria ser aceito sem questionamento?
Jornalismo sério não pede confiança cega. Oferece elementos para que o público possa conferir, comparar e questionar. Inclusive quando a notícia vem da Globo.
Recentemente o cineasta brasileiro Klever Mendonça Filho, de grandes filmes, como Bacurau, Aquarius e O Agente Secreto, foi cirúrgico na sua revolta estampada numa rede digital: “Para vocês que fazem o Jornal Nacional da TV Globo: vocês são irresponsáveis. O jornalismo de vocês é uma vergonha.”
Credibilidade da Globo também precisa ser questionada
Como a cobertura jornalística pode se articular aos interesses políticos e econômicos em disputa?
Essa perspectiva amplia a discussão para além da oposição entre notícias verdadeiras e falsas.
É necessário examinar também como os acontecimentos são selecionados, quais argumentos recebem maior visibilidade, quais vozes são privilegiadas e quais interesses podem ser favorecidos pela maneira como uma notícia é construída.
Aplicada à campanha institucional da Globo para 2026, essa reflexão conduz a uma pergunta legítima: quem define o enquadramento dos fatos quando a própria emissora reivindica para si a condição de referência confiável para interpretá-los?
A questão não é presumir que toda reportagem seja falsa, mas reconhecer que o jornalismo também precisa ser analisado criticamente em suas relações com o poder político e econômico. A credibilidade não elimina a necessidade de fiscalização; ao contrário, exige transparência e prestação de contas.
Por isso, defender a checagem das informações deve significar também defender o direito do público de examinar criticamente a atuação das grandes empresas de comunicação, inclusive a Globo.
Em sua campanha para 2026, o Jornalismo da Globo afirma que, diante da circulação de conteúdos falsos e manipulados, a sociedade precisa confiar no jornalismo profissional, capaz de verificar informações e separar fatos de opiniões.
Combater a desinformação é, sem dúvida, necessário. Mas a campanha levanta uma questão fundamental: quem verifica o jornalismo das grandes emissoras quando elas próprias reivindicam para si o lugar de referência da verdade?
Essa pergunta não é gratuita. Ela encontra fundamento em pesquisas acadêmicas que investigam a atuação política e econômica dos meios de comunicação no Brasil.
Na pesquisa “Jornal Nacional e Reforma Trabalhista de 2017: a notícia articulada aos interesses neoliberais do Governo Temer”, analisa-se a cobertura do Jornal Nacional entre 22 de dezembro de 2016 e 13 de julho de 2017, período que vai do anúncio do projeto governamental à sanção da Lei nº 13.467/2017.
A pesquisa examinou 29 notícias distribuídas em 18 edições do telejornal, totalizando 1 hora, 18 minutos e 33 segundos de cobertura. A análise identificou uma narrativa favorável à proposta do governo Temer, com espaço desproporcional para as posições favoráveis à reforma e restrições à apresentação de argumentos críticos. A autora conclui que a cobertura contribuiu para desqualificar a crítica e limitar o debate democrático sobre mudanças que afetariam milhões de trabalhadores.
O que essa pesquisa revela é que o problema da informação não se resume a distinguir o verdadeiro do falso. Também é preciso examinar como a realidade é apresentada ao público.
Uma reportagem pode utilizar informações verdadeiras e, ainda assim, construir uma visão parcial de determinado acontecimento. Isso pode ocorrer quando algumas fontes recebem mais espaço que outras, quando argumentos de um lado são apresentados como técnicos e inevitáveis, enquanto os do outro são reduzidos a protestos ou interesses particulares, ou quando temas e questionamentos relevantes deixam de receber a atenção necessária.
A seleção das notícias, o enquadramento dos acontecimentos, a linguagem utilizada e o tempo concedido a cada interlocutor influenciam a compreensão pública. O silêncio também pode ter significado político, especialmente quando um assunto está no centro de uma disputa social.
É essa dimensão que a dissertação de Rosângela Ribeiro Gil coloca em evidência: a relação entre poder econômico, produção de consenso e construção da narrativa jornalística. Seu estudo não atribui à televisão, isoladamente, a responsabilidade pela aprovação da Reforma Trabalhista, mas demonstra como a cobertura analisada pode favorecer determinados interesses e restringir a visibilidade de posições divergentes.
Por isso, quando a Globo apresenta sua campanha de defesa da credibilidade jornalística, não basta aceitar a declaração institucional como prova de imparcialidade. É legítimo perguntar quais critérios orientam suas escolhas editoriais, como a emissora distribui a palavra entre os diferentes atores sociais e quais mecanismos permitem ao público avaliar a pluralidade de sua cobertura.
A questão é ainda mais importante diante da concentração dos meios de comunicação. Uma emissora de grande alcance possui enorme capacidade de estabelecer quais temas ganham visibilidade, quais interpretações se tornam predominantes e quais vozes permanecem à margem do debate público.
Credibilidade não é imunidade à crítica. E jornalismo profissional não deve ser confundido automaticamente com jornalismo imparcial.
Se a Globo defende que o público confira as informações antes de acreditar nelas, o mesmo princípio deve valer para a própria emissora. Suas reportagens, seus enquadramentos, suas omissões e suas escolhas de fontes também precisam ser examinados, comparados e debatidos.
A campanha contra a desinformação será tanto mais consistente quanto maior for a disposição para reconhecer que o jornalismo não está fora das relações de poder que atravessam a sociedade.
A pesquisa acadêmica de Rosângela Ribeiro Gil oferece uma contribuição concreta para essa discussão: em vez de confiar cegamente na imagem institucional de uma emissora, é possível investigar sistematicamente o que ela noticia, como notícia, quem tem voz e quais argumentos ficam de fora.
Não basta perguntar se uma notícia é verdadeira. É preciso perguntar se a cobertura permite compreender a realidade em sua complexidade.
Jornalismo de qualidade exige verificação dos fatos, transparência, pluralidade de vozes e responsabilidade editorial. E exige também que nenhuma empresa de comunicação, por maior que seja sua audiência ou sua reputação, esteja acima do escrutínio público.
A confiança não pode ser uma exigência da emissora. Deve ser uma conquista, sustentada pela prática e aberta à fiscalização da sociedade.
Três contribuições merecem destaque:
– A diferença entre informação falsa e informação parcial. Sua pesquisa permite discutir mecanismos de construção de narrativas que não dependem necessariamente da invenção de fatos, mas da seleção, da hierarquização e do tratamento desigual das informações.
– O silenciamento como parte da construção da notícia. O estudo compara a cobertura do Jornal Nacional com a amplitude do debate político e social em torno da Reforma Trabalhista, identificando aspectos e vozes que não receberam representação proporcional à relevância da disputa.
– A necessidade de avaliar a prática, não apenas o discurso institucional. Sua análise contrapõe os princípios declarados de objetividade, neutralidade e imparcialidade aos resultados da cobertura efetivamente examinada.
Se a própria Globo afirma que precisamos verificar as informações, por que não aplicar o mesmo rigor ao jornalismo da Globo?
Rosângela Ribeiro Gil é jornalista