19 de outubro de 2026

8 razões pelas quais Flávio saiu derrotado no debate, e 13 lições para a campanha Lula

18.10.2026 – Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante Debate da Band, realizado nos estúdios do Grupo Bandeirantes de Comunicação, São Paulo – SP. (Foto: Ricardo Stuckert / Lula Oficial)

Se você, como milhares de brasileiros, não conseguiu assistir ao debate da Band neste domingo (18), eu conto o que aconteceu e apresento oito razões para Lula ter saído vencedor e Flávio Bolsonaro, derrotado – apesar do que disseram analistas da grande mídia e parte da esquerda.

Por Vanessa Martina-Silva / Opera Mundi 

Flávio perdeu a medida, se perdeu e pode ter perdido a eleição. Os relatos de grupos focais com indecisos sinalizam que sua estratégia não foi bem recebida por quem ainda não decidiu o voto.

Irônico, arrogante, debochado e violento, Flávio interrompeu Lula repetidas vezes, invadiu seu espaço e se colocou como um espírito obsessor, sempre atrás do presidente, gesticulando enquanto ele tentava responder.

Na plateia, Pablo Marçal orientava Flávio como se estivessem num ringue. Foi macabro vê-lo vibrar ao apontar Deltan Dallagnol e Sergio Moro, protagonistas da farsa que foi a Lava Jato, diante do homem que ajudaram a prender e a afastar da eleição de 2018. O objetivo dessa encenação era evidente: desestabilizar Lula.

Havia um presidente candidato à reeleição e um adversário sedento do ódio coletivo de um Coliseu.

Em casa, pensei no meu pai. Ninguém fala assim com meu pai sem me despertar os piores sentimentos possíveis.

1 – A intimidação pode se voltar contra quem intimida

Nos grupos focais relatados pela jornalista Thais Bilenky, no UOL, indecisos avaliaram que Lula estava destreinado e caiu nas provocações, mas se assustaram com a agressividade de Flávio. Em outro grupo, a percepção foi de que o deboche funcionava entre bolsonaristas, sem conquistar novos votos.

A intimidação serviu para desorganizar Lula, que perdeu o fio ao falar da pandemia depois das interferências. Só que as pessoas também olham para quem provoca. E podem não gostar do que veem.

Como observou Letícia Casado, do UOL, Flávio repetiu uma tática de Donald Trump contra Hillary Clinton em 2016: posicionar-se atrás da adversária enquanto ela falava. Hillary descreveu depois o desconforto e a tentativa de intimidação.

Ali havia uma dimensão misógina: um homem impondo sua presença física sobre uma mulher que disputava a Presidência. Com Lula, o desrespeito passa também pela idade. É possível cobrar um presidente de 80 anos sem tentar humilhá-lo.

2 – Flávio contrariou os valores das famílias que diz representar

Imagino que outras pessoas também tenham pensado no pai ou no avô. Domingo à noite, famílias reunidas, crianças na sala, aquela correria para organizar a semana. E o candidato da “defesa da família” tratando um idoso de um jeito que muita gente não admitiria dentro de casa.

Seu avô pode até estar falando besteira. Você discorda, discute com ele. Mas aceitar que um sujeito arrogante venha constrangê-lo na sua sala? Não conheço muita gente que ficaria confortável com isso.

Aliás, eles não defendem Deus, pátria e família? O respeito pelos mais velhos faz parte de quê?

Esse valor está na educação recebida em casa, nos ensinamentos cristãos, nas tradições africanas e indígenas que constituem o Brasil. O bolsonarismo espera que essas famílias aplaudam um comportamento que repreenderiam à mesa. Ou os valores agora são outros? Gostaria de ouvir os “conservadores cristãos”.

Também imaginei o desconforto de quem precisou explicar às crianças as referências a estupro e abuso lançadas no meio das acusações. Um circo de horrores. Minha hipótese é que essa postura tenha incomodado justamente pessoas que Flávio pretende representar.

3 – O vínculo afetivo com Lula continua tendo força política

Flávio pode produzir o efeito Juliette, vencedora do BBB. No Brasil, o público muitas vezes abraça quem vê sendo humilhado e injustiçado. Ao insistir em constranger Lula, corre o risco de despertar solidariedade até em quem não pretendia votar nele.

Milhões de brasileiros têm uma história com Lula. Votaram nele, melhoraram de vida, se decepcionaram, voltaram a apoiá-lo ou se afastaram. A crítica ao governo não apaga necessariamente o afeto.

Talvez fosse esse o raciocínio da campanha ao resgatar as realizações dos governos Lula: reativar lembranças e criar uma vacina contra o que viria. Fazia sentido, mas não funcionou como se esperava. Precisamos rever o que sabemos sobre eleições quando o adversário usa os próprios instrumentos da democracia para corroê-la por dentro.

Lula é uma figura familiar. Seu jeito de falar, contar um caso e se aproximar das pessoas atravessa décadas. Flávio parece acreditar que pode tratá-lo com desprezo sem mexer com nenhum desses vínculos.

4 – A provocação serviu para escapar das perguntas

E havia muito a responder. Lula fez perguntas que Flávio tentou deixar pelo caminho:

– Por que votou contra a ampliação da licença-maternidade das servidoras estaduais do Rio de Janeiro?

– Para onde foram os R$ 134 milhões que pediu a Daniel Vorcaro?

– Por que atuou em defesa do policial acusado de matar Ana Clara, uma menina de cinco anos?

– Por que apoiou a retirada da marcação das munições, que permite rastreá-las?

– Se eleito, vai adotar o programa de Javier Milei?

– Topa abrir os sigilos bancário e telefônico?

“Mas, Vanessa, Lula também não respondeu sobre Roberta Luchsinger.”

Respondeu. Disse que ela deveria ser investigada pela Polícia Federal e que seu filho prestaria depoimento. Era o que precisava dizer: investigar e apurar responsabilidades, sem proteger ninguém por ser próximo do presidente. Acusação não é prova.

A entrevista de Luchsinger à CNN também não foi uma surpresa completa. Renato Rovai, da Revista Fórum, já havia alertado para o conteúdo e relatado conversas com pessoas ligadas à campanha e jornalistas que acompanhavam o assunto. A entrevista “bomba” circulava nos bastidores.

No meio da cachorrada envolvendo a cúpula do poder, a elite econômica e o “Epstein brasileiro”, a campanha conseguiu ativar a vacina antes que o veneno se espalhasse, para usar um jargão das redes.

Cabe cobrar da CNN: quais documentos sustentam as acusações de Luchsinger? Em 30 de agosto, o Fantástico mostrou processos por dívidas não pagas, relatos de credores e o contraste com a vida de luxo que Luchsinger exibia. Na minha leitura, os indícios apontam para uma vigarista. A pretendida bala de prata da campanha Bolsonaro, por ora, saiu pela culatra.

A noite ainda terminou com uma suspeita de bomba no estacionamento da Band. Segundo o UOL, o carro era da equipe de Flávio. O Gate descartou a ameaça: não havia pacote, e os cães haviam reagido a um componente químico do veículo. Alarme falso. Meu jurídico me orienta a dizer que não há informação comprovada para tratar o episódio como suposta armação para funcionar como a facada de 2018.

5 – No caso Ana Clara, a menina desaparece do argumento

“Pesquei” nas redes um comentário no post em que Rachel Sheherazade convidava as pessoas a pesquisar no Google o vínculo de Flávio com o caso Ana Clara.

Comentário de usuária no Threads. <br> (Foto: Reprodução / Threads)
Comentário de usuária no Threads.
(Foto: Reprodução / Threads)

Anna começa dizendo que a menina foi vítima do lugar onde morava. Depois vêm o tráfico, as “regalias”, as saídas temporárias e o auxílio-reclusão. A pergunta sobre a defesa do policial acusado de matar uma criança desaparece.

A responsabilidade passa para o território, seus moradores, os direitos dos presos, até chegar a Lula. A menina de cinco anos fica pelo caminho. Cobrar justiça por Ana Clara não diminui a importância de nenhuma outra vítima.

Leio aí um desprezo de classe atravessado pela lógica racial que transforma a favela inteira em suspeita. O comentário não menciona a cor da menina, mas trata o lugar onde vivia como explicação suficiente para sua morte. Uma criança não perde o direito à proteção por morar numa favela.

A periferia é atravessada pelas detenções

Sou de Franco da Rocha, na região metropolitana de São Paulo. Conheço o medo de viver numa cidade marcada pelos estabelecimentos penais. O cadastro da administração penitenciária paulista lista ali três penitenciárias, um centro de detenção provisória, um centro de progressão penitenciária e dois hospitais de custódia. Saídas temporárias, rebeliões e precariedade prisional fazem parte dessa realidade há décadas, muito antes de Lula chegar à Presidência.

Esse medo precisa ser ouvido. Presídio, porém, não é aterro de gente. A pena restringe a liberdade, não elimina a condição humana. A integração social está entre os objetivos da própria Lei de Execução Penal.

A Constituição de 1988, escrita na reconstrução democrática depois da ditadura, proíbe penas cruéis e perpétuas e veda a pena de morte, salvo em guerra declarada. Essas garantias não podem virar um inconveniente a cada eleição.

Mas não precisamos aceitar que essa discussão desvie a campanha de suas cobranças. O debate sobre mudanças na legislação penal deve ser feito com a sociedade, com responsabilidade e profundidade.

Sou contra a redução da maioridade penal. Há quem queira colocar crianças de 14 anos atrás das grades. Como isso chega às mães das periferias, sobretudo às mulheres negras, cujos filhos já vivem sob suspeita? Quantos meninos sem vínculo com o crime foram presos por estar na hora errada, no lugar errado, e nunca voltaram para casa com a mesma inocência?

Estamos falando de vidas. Não de um recurso para ganhar discussão eleitoral.

6 – Quem vai pagar pelo ajuste de Flávio?

Também faltou explicar de onde sairia o dinheiro do ajuste. Em 10 de outubro, Reinaldo Azevedo foi direto, no Metrópoles: os pobres pagarão a conta. Como preservar gastos sociais, reduzir impostos e cortar centenas de bilhões em despesas?

Não foi Lula quem inventou essa discussão. Em 7 de outubro, Fernando Canzian, da Folha de S.Paulo, revelou que a equipe econômica de Flávio estudava um ajuste de até 250 bilhões de reais. Entre as medidas estavam desvincular aposentadorias e BPC dos ganhos reais do salário mínimo e alterar os pisos da saúde e da educação.

Segundo a reportagem, interlocutores apresentaram as propostas a empresários, agentes do mercado financeiro e ao jornal. A campanha negou que fosse sua posição oficial.

É preciso traduzir: uma aposentadoria corrigida só pela inflação deixa de acompanhar os aumentos reais do mínimo. A pessoa recebe menos do que receberia pela regra atual. Na saúde e na educação, os recursos poderiam deixar de acompanhar o crescimento da arrecadação. A economia tem endereço.

Se não vão cortar dos pobres nem cobrar do empresariado, de onde virá o dinheiro? Ou mentem sobre o que pretendem fazer, ou não sabem como cumprir o que prometem.

No podcast Flow, Reinaldo lembrou que uma desigualdade como a brasileira não se constrói numa geração. Cortar de quem já tem pouco é continuar uma longa história de decisões sobre quem acumula e quem paga.

7 –  A soberania está no centro da eleição

É nesse sentido que Lula ocupa, nesta eleição, o lugar de verdadeiro antissistema. Parece contraditório dizer isso de um presidente. Mas olhemos o que enfrentamos: o poder econômico à espera de cortes de direitos, as plataformas que controlam a circulação da informação e uma extrema-direita que transforma ressentimento em força política.

Na linguagem nerd, Lula é um Jedi enfrentando o Império e os Sith. A comparação fica bastante concreta quando olhamos para os interesses dos Estados Unidos nas nossas riquezas.

“Pátria Submissa”, episódio do programa Revelando apresentado por Wagner Moura, conecta a aproximação dos Bolsonaro com Trump à disputa pelas terras raras. Recupera a fala de Flávio na Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), oferecendo o Brasil como solução para reduzir a dependência dos Estados Unidos dos minerais chineses, e aborda o documento Prosperity Partnership.

Revelado pelo Amado Mundo, o documento reúne propostas para explorar esses recursos num eventual governo Flávio. André Marinho confirmou a autoria, mas negou vínculo com a campanha.

A ressalva não dispensa explicar o alinhamento a Washington. Oferecer nossas riquezas em função das necessidades estratégicas de outra potência é entreguismo. Está em disputa quem decide o que fazer com esses recursos e quem se beneficia deles.

8 – A comunicação popular está aprendendo a disputar a iniciativa

Nós, das mídias independentes e alternativas, defendemos a guerrilha comunicacional há anos, com poucos recursos e diante de uma enorme concentração de poder. Nas redes, demoramos a entender como chegar além de quem já concordava conosco. Denunciávamos, tentávamos desmentir fake news e continuávamos conversando entre nós, enquanto a extrema direita pautava o debate.

Agora vejo um aprendizado coletivo, quase catártico. Gente que estava paralisada começou a agir. Graças a todos os orixás, a Deus, aos santos e às forças da natureza, tivemos tempo de observar o que aconteceu nos Estados Unidos, na Argentina, na Europa e aqui. Essa experiência começa a virar organização.

O Revelando faz parte disso: pega uma discussão restrita ao noticiário econômico e diplomático e a torna compreensível para mais gente. Todos os episódios estão disponíveis aqui e cada um revela um plano mais obscuro dos aliados de Flávio Bolsonaro em torno desta eleição.

O grande fator desestabilizador dessa campanha, porém, tem sido a militância voluntária organizada em iniciativas como o Exército do Lula, mobilizado por André Janones
(REDE-MG), e a tropa de Erika Hilton (PSOL – SP).

Durante o debate, os intervalos mostravam as buscas em alta no Google. Praticamente todas eram pautas favoráveis à esquerda. Das 30 principais hashtags no Twitter, todas foram pautadas pela esquerda. Como não cumpri todas as missões como soldado do Exército do Lula hoje porque estava em outras trincheiras, não tinha visto o comando do Janones de “hackear” as buscas.

Depois encontrei a explicação. Sabrina Freire, do Poder360, relatou que Janones convocara os integrantes do Canal Exército do Lula a pesquisar expressões negativas sobre Flávio, avisando que a Band exibia as principais buscas. Guerrilha virtual entrando pelas tendências e aparecendo na televisão.

A reportagem registrou a alta dos termos, embora não permita medir quanto veio diretamente da convocação.

Volume de buscas.
Volume de buscas.

Para quem trabalha há tanto tempo na comunicação independente, ver pessoas descobrindo que podem conversar, produzir e fazer informação circular tem um significado enorme. Estamos aprendendo a ocupar um espaço em que estávamos perdendo toda a batalha. Seja quem for que estiver orientando o Janones, agradeço.

É preciso popularizar e traduzir as pautas

Mas fazer uma palavra circular não garante que as pessoas entendam seu significado. Uma conversa no Threads perguntava se quem vive fora do Rio sabia como era morar sob o domínio das milícias. Uma resposta descrevia moradores reféns de cobranças sobre a casa, o comércio e os serviços. Outra recorria a Tropa de Elite 2 para explicar.

Comentário no Threads. (Foto: Reprodução / Threads)
Comentário no Threads.
(Foto: Reprodução / Threads)

São comentários, não uma pesquisa. Mas a questão importa: não basta dizer “miliciano” e esperar que todo mundo entenda. É preciso explicar o controle armado do território, a extorsão, os serviços impostos e a participação de agentes públicos nessas organizações. Investigações e denúncias do Ministério Público do Rio documentam essas práticas.

Estamos numa guerra política, com consequências que podem matar. Aprendemos da pior maneira depois de 2018. Não era preciso prever a Covid para reconhecer o perigo de entregar o país a um homem despreparado e hostil à ciência.

Em junho de 2021, Pedro Hallal apresentou à CPI da Pandemia a estimativa de que 400 mil mortes poderiam ter sido evitadas se o Brasil tivesse alcançado a média mundial de controle da doença. O cálculo considerava o conjunto da resposta, incluindo prevenção e vacinação.

Se tivesse de dar nomes a essas disputas, chamaria 2018 de guerra pelo direito de Lula disputar a eleição, travada com ele preso. Perdemos. Em 2022, a guerra pela vacina. Vencemos a eleição depois de enterrar gente demais. Agora, enfrentamos a guerra contra a submissão do Brasil ao Império.

Quero acreditar que esta será lembrada como a guerra do Exército do Lula. Nas redes e com o povo organizado nas ruas. Imagino crianças, daqui a 90 anos, estudando como se formou esse levante brasileiro. Vivemos a história sem saber como será contada.

É desse lugar que dialogo com a estratégia da campanha.

Nove sugestões para a campanha de Lula

1 – Levar a reação das pessoas para a televisão. Um react na rua, com indecisos assistindo a trechos do debate e dizendo o que acharam, cairia bem no programa eleitoral. Sem resposta encomendada. O que aquela cena despertou em quem ainda decide o voto? Foco nos idosos.

2 – Mostrar as perguntas que Flávio não respondeu. Recuperar a cobrança de Lula e a reação do adversário: licença-maternidade, os 134 milhões de reais pedidos a Vorcaro, Ana Clara e a marcação das munições. A provocação não pode apagar a pergunta.

3 – Retomar o desafio de abrir os sigilos. Lula propôs que os dois e seus familiares abrissem os sigilos fiscal, bancário e telefônico. Flávio disse que não tinha nada a esconder, mas não assumiu o compromisso. Por quê?

4 – Observar a reação à agressividade. A equipe de Flávio pode ter comemorado as interrupções, mas os grupos focais registraram desconforto entre indecisos. Como conciliar a “defesa da família” com o tratamento dado a um idoso?

5 – Cobrar quem pagará pelo ajuste. De onde sairão os cortes? Traduzir as propostas em consequências para aposentadorias, BPC, SUS e escola pública. A explicação de Reinaldo Azevedo ajuda. Já vi materiais nessa linha.

6 – Dar concretude à soberania. O Revelando fez isso ao tratar das terras raras. Mostrar o que está sendo oferecido, a quem e em troca de quê.

7 – Trabalhar o vínculo com Lula. O resgate das realizações, sozinho, não deu o resultado esperado. A história compartilhada continua existindo, e a agressividade de Flávio pode ter mexido com esse afeto.

8 – Explicar o que são as milícias. A campanha e a militância do Rio precisam traduzir essa realidade para quem a desconhece. A palavra, sozinha, não explica o problema.

Quatro orientações para a militância

Às mobilizações que conheço, o Exército do Lula e a tropa de Erika Hilton, deixo estas sugestões:

1 – Fazer circular as cobranças completas. Compartilhar pergunta e resposta, com contexto suficiente para que as pessoas avaliem se houve explicação.

2 – Dar atenção a Ana Clara. Compartilhar o vídeo com a fonte e explicar a atuação de Flávio na defesa do policial acusado de matar a menina. A cobrança por justiça não pode desaparecer nas provocações.

3 – Ouvir o que as pessoas perguntam. Buscar respostas verificáveis sobre aposentadoria, trabalho, saúde e segurança. A conversa nem sempre começa pelo assunto que gostaríamos de discutir.

4 – Valorizar os materiais que explicam. Informação compreensível, acompanhada da fonte, continua circulando depois que passa a indignação do debate.

O tempo que o segundo turno nos deu

No fim do primeiro turno, ouvi gente dizer que seria melhor encerrar tudo ali. Eu estava no colégio eleitoral, como fiscal, em choque com o quanto o bairro era bolsonarista. A presidente da seção e as mesárias perceberam meu desconforto, riram e disseram que preferiam resolver a eleição de uma vez. Posso imaginar em quem votaram. Imaginar, porque o voto é secreto.

O constituinte de 1988 foi feliz ao garantir o segundo turno quando ninguém alcança a maioria absoluta dos votos válidos. Estamos vivendo o valor desse tempo para reorganizar forças e discutir o que está em jogo.

Talvez os responsáveis pela preparação de Flávio tenham comemorado cada resposta que conseguiram atrapalhar. Na minha casa, o efeito foi outro: vi um homem tratando um idoso de uma maneira que jamais aceitaria que tratassem meu pai.

(*) Vanessa Martina-Silva é jornalista e repórter especializada em América Latina. Mestra em Integração da América Latina pela USP, cobre política, integração regional, colonialidade e disputas geopolíticas no continente. É diretora de redação da Diálogos do Sul Global e analista política do programa Rodamundo.