
No próximo dia 25 de outubro, o Brasil disputará o segundo turno da eleição presidencial entre duas forças e projetos antagônicos. De um lado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, cuja trajetória expressa as lutas históricas do povo brasileiro e um projeto de desenvolvimento com inclusão social e soberania. De outro, Flávio Bolsonaro, filho do golpista Jair Bolsonaro, que representa a continuidade da barbárie bolsonarista e da extrema direita que inunda a região.
Por Nicolás Malinovsky
Não se trata de mais uma eleição. Seu resultado terá consequências para a América Latina; nela se concentram os olhos do mundo que hoje disputa a hegemonia, cujo eixo central é a confrontação entre Estados Unidos e China. Em um contexto de perda relativa de poder, Washington busca reafirmar seu predomínio sobre uma região que historicamente tem considerado seu quintal. Essa expressão se manifesta na denominada “doutrina Donroe”, plasmada na Estratégia de Segurança Nacional da administração de Donald Trump.
A América Latina reúne recursos fundamentais para essa disputa: terras férteis para a produção de alimentos, biodiversidade, fontes de energia, reservas de água doce, minerais estratégicos e força de trabalho. O controle desses recursos, das capacidades produtivas e das rendas que geram constitui uma dimensão central da luta capitalista contemporânea.
“O Brasil não cabe no quintal de ninguém”, afirmou Lula perante a Assembleia Geral das Nações Unidas em 22 de setembro de 2026. Sua declaração reivindica a autonomia brasileira diante das pretensões hegemônicas de Washington e expressa uma concepção da inserção do Brasil no mundo baseada na soberania e na busca de parceiros para o desenvolvimento, em particular com o bloco BRICS.
Em contraste, durante sua intervenção na Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), realizada nos Estados Unidos em 28 de março de 2026, Flávio Bolsonaro apresentou o Brasil como “a solução para reduzir a dependência dos Estados Unidos em relação à China em minerais críticos, especialmente terras raras”.
Essas declarações condensam duas orientações sobre a inserção do país no mundo. Enquanto Lula reivindica a soberania e a autonomia, Bolsonaro apresenta os recursos brasileiros como uma resposta às necessidades estratégicas dos Estados Unidos. Dessa perspectiva, a eleição contrapõe um projeto de desenvolvimento soberano a uma orientação que pode aprofundar o extrativismo e a subordinação.
O que está em jogo nesta eleição?
Em primeiro lugar, está em jogo a possibilidade de consolidar um bloco de extrema dereita na América Latina, alinhado aos interesses dos Estados Unidos. Esse cenário poderia reativar uma lógica de subordinação econômica e comercial semelhante à que inspirou a Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), impulsionada na década de 1990 e cujo avanço foi bloqueado na Cúpula das Américas de Mar del Plata, em 2005, pela oposição de governos e movimentos populares da região.
A magnitude dos recursos brasileiros permite compreender a dimensão territorial dessa disputa. Em agosto de 2026, o Brasil produziu 4,615 milhões de barris de petróleo por dia, um volume 18,4% superior ao registrado no mesmo mês de 2025, e 220,55 milhões de metros cúbicos de gás natural por dia. Em conjunto, ambas as produções alcançaram 6,002 milhões de barris de óleo equivalente por dia, dos quais 82,6% vieram do pré-sal (ANP, 2026). A isso se soma o potencial exploratório da Margem Equatorial, para a qual o Ministério de Minas e Energia menciona uma estimativa de cerca de 10 bilhões de barris recuperáveis. Esse potencial deve ser distinguido das reservas provadas.
A relevância geopolítica desses recursos adquire outra escala quando se considera que as reservas provadas de petróleo do Brasil, da Venezuela e dos Estados Unidos, somadas, representam aproximadamente 23,2% do total mundial, segundo dados da OPEP ao final de 2024. Sob a hipótese de que Washington obtivesse um controle efetivo sobre os recursos brasileiros e venezuelanos, seu alcance abrangeria quase um quarto das reservas mundiais, o que poderia conferir um enorme poder ao utilizar a energia como arma de guerra.
A disputa também envolve as capacidades tecnológicas acumuladas pela Petrobras e sua rede de pesquisa e fornecedores, especialmente na exploração de hidrocarbonetos em águas profundas e ultraprofundas. O que está em jogo é a possibilidade de preservar e ampliar esse patrimônio tecnológico, assim como sua articulação com o desenvolvimento industrial brasileiro.
O Brasil também ocupa a segunda posição mundial em reservas de terras raras, atrás da China. Segundo o Sumário Mineral Brasileiro 2025 da Agência Nacional de Mineração, as reservas brasileiras alcançavam 11,4 milhões de toneladas de conteúdo em 2024, frente aos 44 milhões de toneladas da China. Alguns desses elementos têm aplicações estratégicas em armamentos militares e nos ímãs permanentes utilizados em turbinas eólicas e motores de veículos elétricos. Sua importância exige discutir quem controla a extração, o processamento e as etapas industriais de maior valor agregado.
A esses recursos somam-se o território, a disponibilidade de água e a capacidade de geração elétrica, fatores estratégicos para a expansão dos centros de dados e da infraestrutura de inteligência artificial. Cabe perguntar sob quais condições o Brasil poderia se incorporar a essa expansão e como evitar que os benefícios se concentrem em grandes corporações enquanto as comunidades suportam as pressões sobre a água, a eletricidade e o território. Nos Estados Unidos, essas instalações já geram manifestações de oposição por seu elevado consumo de recursos: em 2023, representaram 4,4% do consumo nacional de eletricidade. Sua expansão suscita preocupações com a pressão sobre os recursos hídricos e com a possível transferência dos custos da infraestrutura elétrica para as tarifas pagas pelos demais usuários.
A eleição brasileira constitui, portanto, um cenário crucial da disputa hegemônica global, no qual estão em jogo a soberania do país, o controle de seus recursos e capacidades tecnológicas e as possibilidades de uma integração autônoma da América Latina.
A chama está acesa
O resultado do primeiro turno eleitoral no Brasil evidenciou até que ponto a extrema direita criou raízes políticas e sociais no país, no continente e no mundo. Em chave gramsciana, seu avanço pode ser interpretado como uma expressão dos fenômenos mórbidos que emergem em tempos de crise.
Diante desse cenário, os setores populares ativaram seus anticorpos, recorrendo à memória coletiva das lutas históricas e abrindo espaço para uma juventude que assume as bandeiras e a iniciativa, ocupa as ruas e disputa as redes. A lembrança do funesto governo de Jair Bolsonaro, entre 2019 e 2022, alimenta essa reação. Desde a segunda-feira posterior às eleições, as assembleias e mobilizações universitárias se multiplicaram em diferentes pontos do país. A primeira semana culminou com uma manifestação multitudinária com um milhar de pessoas na Avenida Paulista, em apoio ao presidente Lula e com forte presença juvenil. Essas mobilizações expressam que o que está em jogo transcende uma eleição: disputam-se o presente e o futuro do povo brasileiro, sua soberania e a possibilidade de evitar cair na balcanização do país, subordinado aos interesses do império estadunidense.
O povo brasileiro enfrenta, assim, um combate titânico, em um tempo que, retomando uma caracterização de Álvaro García Linera, pode ser pensado como uma sucessão de vitórias curtas e derrotas curtas. A disputa continua aberta. Lula se define como especialista no “mata-mata”, e a mobilização de trabalhadores, estudantes, sindicatos e organizações sociais devolve a iniciativa às forças populares. Ocupar as ruas e disputar as redes permite colocar em discussão os projetos de país que se enfrentam nas urnas. O resultado dependerá, em boa medida, da capacidade de transformar essa energia coletiva em organização, diálogo e votos durante os dias que restam até o segundo turno.
Essa onda de mobilização e esperança abre a possibilidade de uma vitória de Lula, mas não a garante. Para além do resultado eleitoral, será necessário consolidar a força social que hoje se expressa nas ruas e dar-lhe continuidade após as eleições. A extrema direita construiu um enraizamento que uma vitória nas urnas, por si só, não desarticula. O desafio será transformar a chama destes dias em uma organização popular duradoura, capaz de disputar suas bases sociais e construir um horizonte de emancipação com bases na justiça social, na independência econômica e na soberania política, em síntese, um projeto de humanidade.
Nicolás Malinovsky é autor de Crítica de la energía política (2025). Doutorando em Economia Política Mundial (UFABC, Brasil), formado em engenharia elétrica (UNRC), mestre em Gestão da Energia (UNLa), diplomado em Antecipação Estratégica e Gestão de Riscos (UNDEF). Docente na UNPAZ. Redes: @nicomalinovsky