28 de outubro de 2026

Um exército em alerta permanente para as próximas batalhas

O que fizemos no Brasil foi histórico. Passada a euforia da vitória do presidente Lula, com uma virada nunca antes vista, contra o candidato da extrema direita, Flávio Bolsonaro, escrevo essas linhas menos com o objetivo de analisar e mais com o intuito de relatar como operamos essa façanha contra o império, a partir da articulação entre comunicação e mobilização. Também escrevo para animar nosso Exército (sim, o do Lula) a se manter em alerta permanente para as próximas batalhas.

Por Vanessa Gonzaga / Movimento Brasil Popular 

Há muitos anos, se multiplicam as análises de que a esquerda havia perdido a batalha das redes sociais. Apesar das iniciativas de todo o campo democrático nas plataformas digitais, no jornalismo e no marketing político, a extrema direita cultivava, há algum tempo, uma comunidade engajada no WhatsApp e no Telegram, contas com milhões de seguidores e alcance extraordinário. Tudo isso impulsionado com ajuda da Meta, que mudou suas políticas para dar mais visibilidade a este tipo de conteúdo, enquanto nós, da esquerda, persistimos fazendo essa disputa num terreno desigual e favorável ao nosso inimigo.

Diante do desafio de construir a virada em 21 dias, depois de um primeiro turno com sabor de derrota, é impossível não mencionar o papel do canal de WhatsApp “Exército do Lula”, organizado pelo deputado federal André Janones (Rede/MG). A urgência de ganhar a narrativa nas redes e denunciar os riscos da eleição de mais um Bolsonaro fez com que o canal, que no primeiro turno tinha cerca de 50 mil pessoas, chegar a 11 milhões de contas conectadas.

A “terapia do choque” funcionou. Acordar com um “PESSOAL, URGENTE!”, um tema diário e uma tarefa de engajamento deu sentido à atuação de muitas pessoas que queriam ajudar a campanha, mas que não sabiam como fazer isso. O Exército fez com que 11 milhões de pessoas se sentissem parte de algo coletivo e com propósito, ao invés de ter uma atuação dispersa e individualizada. O senso de coletividade foi essencial para que muitos esperançassem e acreditassem que a nossa vitória era possível. Destaco esse elemento aqui porque ele precisa ser cultivado. Estar em coletivo é determinante para ter fé naquilo que construímos, ainda que pareça impossível.

Algumas das ações mais importantes do grupo extrapolaram o espaço digital. Em um dia, a missão era postar na sua própria rede social uma foto com a camisa com as cores do Brasil fazendo o L. Algo supostamente bobo, mas que pautou o Instagram durante um dia inteiro, sinalizou para a sociedade que o verde e amarelo não pertence ao bolsonarismo vira-lata, nos colocando ativamente na disputa dos símbolos nacionais, e também animou muitas pessoas que até então estavam caladas a se posicionarem politicamente com essa iniciativa.

A outra foi o panelaço durante a entrevista de Flávio Bolsonaro à TV Globo. A partir da convocação no canal do WhatsApp, todos os estados do Brasil registraram panelaços e, mais uma vez, o senso de coletividade animou e encheu de esperança aqueles que estavam em casa e que a partir do barulho, perceberam que tinham muitos soldados e soldadas na sua vizinhança. Em tempos tão difíceis, saber que não está sozinho é para muitos um alento no meio dessa batalha intensa que vivemos.

“Que o nosso exemplo de derrota do fascismo inspire outros países a retomar sua democracia”. Foto: Ricardo Stuckert

Não sabemos se de forma intencional ou espontânea e muito menos se o “General” Janones, como foi apelidado pelo Exército, já conhecia o método “Calles, Redes, Medios, Paredes”, uma síntese da estratégia de comunicação política e mobilização militante criada na Venezuela e que inspirou a atuação dos movimentos populares no segundo turno. De forma simultânea, ocupamos as ruas, redes, meios e paredes, com um retroalimentando o outro para disputar a narrativa e foi assim que vencemos.

As ruas já eram nossas, mas organizamos mobilizações históricas em vários lugares do país onde a virada era necessária. A Avenida Paulista, a Praia de Copacabana, a Ponte Presidente Dutra que separa Pernambuco e Bahia no coração do Semiárido, o Largo do Carmo em São Luís e a Praça da Estação em BH viram atos com uma quantidade de pessoas nunca antes registrada. Fizemos os maiores atos da história deste país.

Com a mobilização das ruas, pautamos as redes: viralizaram imagens de crianças com a Constituição na mão, quarteirões completos povoados com um mar vermelho de gente que há anos não saia de casa para um ato político, a juventude que fez o bolsonarismo tremer com atos dentro das universidades… Isso sem falar nas ações de panfletagem, nas esquetes de Teatro Invisível no transporte público e caminhadas dentro das periferias para abrir diálogo com a população. Tudo devidamente mobilizado dentro do WhatsApp e Instagram e que transbordava para as ruas.

Para falar do elemento redes, uso aqui uma frase muito conhecida de Lenin: “Há décadas em que nada acontece e há semanas em que décadas acontecem”. Na batalha das redes, avançamos em dias o que não progredimos em anos em relação ao uso das redes como ferramenta de mobilização. Entendemos que um conteúdo bem engajado chega a mais pessoas; que as nossas redes pessoais chegam a pessoas não alcançadas pela rede do nosso candidato e que precisam ser utilizadas para agitar temas e publicar conteúdos; que não se engaja em conteúdo da extrema direita nem que seja pra criticar e, de forma organizada, conseguimos furar o cerco do algoritmo e da imprensa hegemônica para denunciar nas redes o caso Ana Clara, a relação de Flávio com as milícias, etc. Conseguimos pautar o debate público.

Além dos temas duros, soubemos utilizar os vídeos gerados por IA para traduzir questões complexas em situações do cotidiano e explodir (explode!) nas redes com memes do presidente Lula em situações engraçadas, cantando músicas de divas pop, atuando como técnico de futebol. Tudo isso ajudou a criar sentidos e destruir a imagem do “Lula vilão” pintado no imaginário do povo pelo bolsonarismo. Agora, tem o Lula fofinho, o Lula pop, o Lula meme que dialoga muito com a juventude cronicamente online.

O Exército venceu uma batalha duríssima. Não vencemos apenas Flávio Bolsonaro. Vencemos a Meta, que admitiu impulsionar o alcance de conteúdos da extrema direita. Vencemos o algoritmo, em uma campanha onde o alcance dentro das redes estava condicionado a quem tinha mais recursos para pagar por ele. Vencemos a censura, que derrubou inúmeras páginas e grupos de WhatsApp progressistas. Vencemos os bots, que inflam as métricas de conteúdo dos nossos inimigos, com a nossa atuação orgânica, bem direcionada e que surtiu efeito praticamente imediato, sendo decisiva para nossa vitória.

Que a disputa nos meios de comunicação é injusta diante de um monopólio onde poucas famílias escolhem o que é dito ou não pela imprensa, nós também já sabemos. Mas aqui destaco a atuação do jornalismo sério, ético e comprometido com a democracia e a liberdade de expressão. Em diversos locais  a virada de votos exigia uma atuação “de formiguinha”, com o trabalho do corpo a corpo sendo feito não com materiais de campanha, mas com uma leitura que levantasse fatos e estimulasse a reflexão crítica dos projetos em disputa, e o Brasil de Fato  fez uma edição impressa especial com o tema das eleições. O tablóide foi uma ferramenta decisiva no trabalho nos bairros, estações de metrô, pontos de ônibus e onde mais ele foi distribuído de forma gratuita pelos militantes e voluntários que atenderam ao chamado do presidente Lula de ir para a rua e conversar com as pessoas.

Já nas paredes do Brasil afora, a cada dia se multiplicavam os lambes-lambes (papéis com frases simples colados em muros, postes e onde mais for possível) com denúncias da trajetória política altamente questionável do candidato Flávio, do seu vice, que chegou a ser investigado por esturpo de vulnerável, do “tesouraço” anunciado pela sua equipe econômica, que congelaria a aposentadoria e acabaria com o Farmácia Popular. Tudo produzido, impresso e colado de forma sistemática em vias de grande circulação, onde, em muitos deles, um QR code levava o leitor para uma notícia que explicava melhor o que Flávio Bolsonaro e sua turma queriam para o Brasil.

Esse “caos organizado” operado com bravura por milhões de brasileiros e brasileiras que entenderam o que estava em jogo nesse segundo turno foi fundamental para nossa vitória. Que nunca mais o bolsonarismo ou mesmo nós duvidemos da capacidade da classe trabalhadora. Esse país é nosso e dele não podemos abrir mão. Fizemos uma façanha inédita depois de tristes derrotas da esquerda nas eleições presidenciais em países vizinhos, que olhavam para nós com a expectativa de ver o tetra do Lula contra a extrema direita subordinada à Trump.

Agora, o mundo olha pra nós com outros olhos. Que o nosso exemplo de derrota do fascismo inspire outros países a retomar sua democracia e soberania. E que sigamos na batalha das ruas, redes, meios e paredes para derrotar em definitivo a extrema direita que se apoderou do poder legislativo no último pleito. A disputa será dura, mas temos nas trincheiras um exército potente, com capacidade de luta e que já mostrou que está disposto a lutar por esse país. Cabe a nós ajudar a organizá-lo.