30 de agosto de 2025

Oficina de dados raciais apresenta ferramentas para o enfrentamento das desigualdades

Dados mostram que a desigualdade racial está presente em diferentes fases da vida.
— Marcelo Camargo/Agência Brasil

No domingo (13), uma oficina sobre a utilização de dados raciais marcou o encerramento da 20ª edição do Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, promovido pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), em São Paulo.

Durante a atividade, foi apresentada a plataforma do Centro de Estudos e Dados sobre Desigualdades Raciais (CEDRA), que reúne análises inéditas com base no cruzamento de dados oficiais para traçar um panorama abrangente das desigualdades raciais no Brasil.

Thayná Santana | Alma Preta

A oficina contou com a participação de Cristina Lopes, diretora-executiva do CEDRA, e de Marcelo Tragtenberg, membro do conselho deliberativo da instituição.

Segundo Cristina, a plataforma foi criada para concentrar, em um só local, dados estatísticos com recorte raciais acessíveis de forma gratuita, que possam subsidiar decisões públicas e informar o debate social sobre desigualdades estruturais.

“Nosso objetivo é instrumentalizar ativistas do movimento negro, informar gestores dos setores público e privado, e servir de fonte para pesquisadores, jornalistas, comunicadores e estudantes”, afirmou.

Ela também destacou que o CEDRA utiliza exclusivamente dados estatísticos oficiais, por serem considerados mais confiáveis e fundamentais para a formulação de políticas públicas.

A plataforma apresenta indicadores de áreas como trabalho, saúde, educação e qualidade de vida, evidenciando como a desigualdade racial está presente em diferentes fases da vida, muitas vezes já na gestação.

Um dos dados apresentados revelou que 33,8% das gestantes negras não realizam o número mínimo de sete consultas de pré-natal, conforme recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS). Entre as gestantes brancas, esse número é de 18,8%.

“Isso mostra que essas desigualdades raciais começam antes do nascimento. A diferença no acesso ao pré-natal adequado já impacta o início da vida comparado entre crianças negras e brancas”, explicou Cristina.

Impacto da desigualdade racial na educação

Durante a oficina, Marcelo Tragtenberg explicou a metodologia usada na análise dos dados educacionais e destacou os desafios na classificação racial das escolas brasileiras.

Segundo ele, apenas cerca de 30% das escolas de educação básica no Brasil têm cor predominante definida, em razão da alta taxa de não declaração da cor/raça dos estudantes. Essa lacuna impacta diretamente a análise das condições educacionais.

“Nas escolas com maioria de alunos negros, há menos formação docente adequada e mais professores temporários do que nas escolas predominantemente brancas. Obviamente isso tem um impacto racial na aprendizagem das crianças”, apontou Marcelo.

Os dados apresentados referem-se ao período de 2003 a 2019. A partir de 2020, o INEP passou a divulgar os dados apenas de forma agregada por escola, o que dificultou a continuidade das análises individualizadas

Marcelo explicou ainda o critério adotado para classificar a cor predominante de uma escola. A definição leva em conta apenas os estudantes que declararam sua cor/raça. Se mais de 60% dos alunos declarantes pertencem a uma mesma categoria racial, a escola é classificada por essa cor.

“Não desconsideramos os alunos que não declararam. Se os excluíssemos, estaríamos assumindo que a distribuição deles é igual à dos declarantes, o que poderia distorcer a análise”, explicou.