25 de julho de 2024

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Um mar de gente em luta pela água em São Paulo

por Mídia NINJA e Laura Capriglione, da Ponte, para a Conta D’Água

O Shopping Center Iguatemi, na avenida Faria Lima, não suportou a visão. A concessionária da Rolls Royce, na avenida Cidade Jardim também não.

Templos sagrados do consumo de luxo (onde as caixas d’água estão sempre cheias), baixaram suas portas diante do cortejo de 15 mil homens, mulheres e crianças —boa parte vestido com as camisetas vermelhas do MTST (Movimentos dos Trabalhadores Sem Teto) e de outras organizações de esquerda—, protestando na quinta-feira (26/02) contra a crise hídrica em São Paulo.

Foi o primeiro grande ato sobre o assunto e envolveu pessoas como a costureira Maria Francisca da Conceição, de 69 anos, que calçando um chinelo de dedo, percorreu a pé os 6.300 metros que separam o largo da Batata, em Pinheiros, do Palácio dos Bandeirantes, no Morumbi, residência oficial do governador Geraldo Alckmin (PSDB).

Moradora da ocupação Numa Pompílio, no extremo leste da cidade de São Paulo, Francisca está há nove meses no movimento dos sem-teto. De São Paulo ela, diz, tinha medo de se acabar debaixo da água, afogada. Nunca imaginou que passaria aqui pelos rigores de uma seca, como vem sofrendo.

Francisca não tem caixa d´água. Quando a Sabesp desliga o fornecimento, como tem ocorrido todos os dias entre as 13h e as 7h, ela fica totalmente sem água.

Ato unificado destinado a cobrar do governo de São Paulo e da Sabesp providências para reduzir o impacto da crise sobre a população mais pobre (que já vem enfrentando o rodízio de água, apesar das negativas oficiais) e transparência nas informações sobre a real situação dos reservatórios, a manifestação também se colocou contrária ao novo aumento de tarifas (previsto para abril), e pelo fim dos privilégios que os maiores consumidores de água gozam junto à Sabesp.

“Eu pago… Não deveria… Porque a água não é mercadoria” foi um dos gritos de guerra do protesto, que incluiu o desfile de um carro-pipa escoltado por atores representando policiais militares armados com fuzis. “É isso o que acontecerá com o agravamento da crise. A polícia defenderá a água de quem puder pagar por ela, enquanto nós morreremos de sede. Estamos aqui para mostrar que não vamos aceitar isso”, disse o manifestante Reginaldo Silva, da Ocupação Copa do Povo.

“Meeeu, e essas casas aqui todas desses barões… Em apenas uma delas, cabia a ocupação inteira. E parece que está vazia!” Trabalhadores sem-teto vindos dos extremos da cidade e das periferias das cidades da Região Metropolitana desacreditavam da ostentação das mansões do Morumbi, vizinhas ao palácio dos Bandeirantes.

Dezenas de retratos de grupos de manifestantes diante dos casarões, tirados com paus de selfies, foram levados de lembrança para as ocupações pobres. “Olha como vivem esses caras!”

A chegada da marcha ao Palácio dos Bandeirantes, depois de duas horas de caminhada, aconteceu com o desabar dos corpos sobre o asfalto quente, em busca do descanso das pernas.

Enquanto isso, uma comissão de negociação foi recebida pelo chefe da Casa Civil do governo Alckmin, Edson Aparecido.

Ao cabo de 90 minutos de conversa, os oito sem-teto saíram com o compromisso do governo com a distribuição de caixas d’água de 500 litros às famílias necessitadas, listadas em cadastro a ser elaborado pelo MTST.

O movimento pediu —e conseguiu— ser incluído no Comitê de Crise, com outras entidades representativas. Por fim, ficou agendada para a semana que vem uma reunião com Paulo Massato, diretor metropolitano da Sabesp, com o objetivo de discutir e implantar um plano de distribuição de cisternas e de construção de poços artesianos, além de planejar a logística para o envio de caminhões pipas as regiões mais necessitadas.

Os contratos que privilegiam os grandes consumidores da Sabesp também serão analisados na reunião com Massato.

Felizes por terem conseguido concluir em paz a passeata, os manifestantes foram instruídos pelo dirigente do MTST, Guilherme Boulos, a se encaminharem para os ônibus que os levariam de volta. O ato desfez-se ao som da música “Súplica Cearense”, de Luiz Gonzaga.

“Oh! Deus, perdoe este pobre coitado
Que de joelhos rezou um bocado
Pedindo pra chuva cair sem parar (…)
Desculpe eu pedir a toda hora pra chegar o inverno
Desculpe eu pedir para acabar com o inferno
Que sempre queimou o meu Ceará”

Podia chamar “Súplica paulista”, e estaria correto..