14 de janeiro de 2026

Venezuela em Foco #7: Mais um crime contra a humanidade

Mais de duzentos juristas, parlamentares e organizações de direitos humanos apresentaram ao Tribunal Penal Internacional um pedido formal para que sejam investigadas as responsabilidades de Donald Trump, Presidente dos Estados Unidos, e de outras autoridades norte-americanas por crimes de guerra no ataque contra o território venezuelano, em 3 de janeiro. O grupo sustenta que o atentado, que resultou no sequestro do presidente Maduro, configura violação do direito internacional e crime contra a humanidade, sobretudo pelos impactos sobre a soberania nacional e pela ameaça direta à população civil.

Diante da escalada de desinformação e das provocações de Trump, a presidente interina da Venezuela Delcy Rodríguez reafirmou a existência de um governo em exercício no país, denunciando campanhas que mascaram ou geram confusão sobre isso.

Em discurso na comunidade venezuelana de Catia La Mar, região afetada pela agressão militar dos Estados Unidos, ela destacou que a chave para a resistência venezuelana reside na união cívico-militar e no fortalecimento do Poder Popular.

Em uma videoconferência com o chamado “exército de comunicadores”, Rodríguez expôs os objetivos estratégicos do governo venezuelano neste momento de crise: preservar a paz interna, buscar o resgate de Nicolás Maduro e de Cilia Flores e manter o controle político. A mensagem central é a de continuidade institucional e de enfrentamento prolongado frente às pressões externas, rejeitando qualquer leitura falsa de “colapso do Estado venezuelano”.

A disputa simbólica ganhou novos contornos após Donald Trump compartilhar, em redes sociais, uma montagem que o apresentava como “presidente interino da Venezuela”, notícia veiculada na edição n.6 do boletim Venezuela Em Foco. Rodríguez classificou a publicação como falsa e acusou o presidente norte-americano de disseminar desinformação com o objetivo de confundir a opinião pública internacional. Para o governo venezuelano, esse tipo de ação faz parte de uma ofensiva política mais ampla para fragilizar a legitimidade das autoridades em exercício.

Paralelamente, Caracas sinalizou disposição para abrir uma “nova agenda” de diálogo com países europeus. Reunião com diplomatas da União Europeia, do Reino Unido e da Suíça indicam que, apesar do isolamento imposto por Washington, há canais em discussão em aberto.

Enquanto isso, Maduro, sequestrado nos Estados Unidos, enviou uma mensagem à população venezuelana por meio de seus advogados, transmitida a seu filho, Nicolás Maduro Guerra. No recado, afirmou estar bem e reafirmou se manter na resistência, descrevendo-se como um lutador diante da situação de prisão, sem sinais de rendição política.

Cuba por sua vez se prepara para uma nova fase no asfixiamento político-econômico imposto pelos Estados Unidos há mais de 60 anos, desde a vitória da revolução. Trump prometeu cortar o fornecimento vital de petróleo venezuelano para Cuba, criando um cenário de cerco para uma ilha já abalada por apagões e escassez debilitantes.

A Venezuela, que já foi o principal fornecedor da ilha, não envia petróleo bruto ou combustível para Cuba há cerca de um mês, de acordo com dados de transporte marítimo e documentos internos da estatal PDVSA, com as cargas diminuindo devido ao bloqueio dos EUA, mesmo antes do sequestro do líder venezuelano.

Em resposta à pressão estadunidense, Pequim voltou a exortar os Estados Unidos a cessar imediatamente qualquer forma de sanção, coerção ou bloqueio contra Cuba. No plano internacional, Moscou também contestou publicamente as alegações de Trump sobre controle estadunidense das reservas petrolíferas venezuelanas, afirmando que os ativos russos na Venezuela pertencem legalmente ao Estado russo e continuarão a operar em conformidade com as normas vigentes.

Nas ruas, movimentos de solidariedade e protestos seguem se espalhando: em Pretória, sul-africanos reuniram-se diante da embaixada dos Estados Unidos para denunciar a intervenção e exigir a libertação de Maduro, enquanto milhares marcharam pelas avenidas do México contra o que definem como agressão imperialista dos EUA e em defesa da liberdade do presidente deposto.

A articulação do campo popular no nível do continente americano convoca marcha para o dia 28 de janeiro, data que marca o aniversário da proclamação da América Latina e Caribe, como zona de Paz pela CELAC.

Para saber mais: 

Artigo – Trump usa imagens de ação na Venezuela para recados políticos e controle narrativo

Artigo – A Venezuela e o desespero do império em ruínas: a geopolítica da luta pelo controle das fontes de energia

Artigo – A Geopolítica do Petrodólar: Irã, Venezuela e a Disputa pela Ordem Mundial, por Luís Nassif.

Entrevista – Secuestro de Maduro es ilegal incluso para EEUU.