
Filósofo político, colaborador de Antonio Negri, vê a recentralização do poder de Washington que, arrogante, luta para manter-se em pé. 26 anos após obra clássica, analisa a capacidade da multidão – hoje, presa como “sujeito de dados” – em recriar espaços de ruptura. Michael Hardt em entrevista a Thiago Gama, para o Outras Palavras.
Por Thiago Gama / Outras Palavras
A soberania contemporânea, um quarto de século após a publicação de Império, exige que abandonemos as ilusões reticulares que marcaram a virada do milênio. O que se apresenta nesta conversa exclusiva, colhida por Thiago Gama, não é um ajuste de contas com a historiografia recente, mas a compreensão de uma mutação brutal: a fusão da abstração algorítmica com a unilateralidade de um imperialismo que muitos julgavam superado.
Nesta entrevista, Michael Hardt (Duke University) disseca o hiato entre a soberania em rede e o ressurgimento de uma arrogância imperial que, inebriada pelo controle de ativos energéticos e territoriais, reinstala o Estado de Exceção como norma de governança hemisférica. Hardt vai ao núcleo da questão: a transição da “rede” para a “força bruta” não dispensa as técnicas do poder pastoral, pelo contrário, a governança atual opera por meio de uma “pastoral algorítmica”, onde a salvação das ovelhas é substituída pela extração exaustiva de dados e pelo controle das condutas. É um diagnóstico terminal sobre a captura das subjetividades e a resistência da multidão diante de um Império que, ao perder sua hegemonia moral, dobra a aposta na violência direta.
Esta transição da rede para a força bruta, contudo, não dispensa as técnicas de governo que Michel Foucault denominou poder pastoral. Se no curso proferido no Collège de France entre 1977 e 1978, Segurança, Território, População, o filósofo detalha o pastorado como uma tecnologia de manipulação de condutas voltada à salvação de cada ovelha e do rebanho em sua totalidade, a governança contemporânea radicaliza essa lógica sob a forma de uma “pastoral algorítmica”. Trata-se de uma mutação sombria: a salvação foi definitivamente substituída pela eficiência preditiva, e a misericórdia, pela extração exaustiva de dados. É neste cenário de colisão terminal entre a herança pastoral e a racionalidade neoliberal que Hardt nos oferece as chaves para decifrar o “Dia Seguinte” de um Império que já não busca converter, mas capturar e processar o que resta da autonomia humana.
Eis a entrevista
Professor Hardt, vinte e cinco anos após a publicação de Império, assistimos ao que parece ser um retorno vingativo à soberania territorial e ao imperialismo unilateral (especialmente nas ações dos EUA em relação a recursos energéticos e ativos soberanos, como o caso da Venezuela). O “Império” ainda é uma rede descentralizada ou estamos testemunhando a recentralização do poder em Washington através de novos mecanismos de força bruta?
É tentador ver as ações recentes dos EUA como um retorno ao imperialismo clássico, mas acredito que a estrutura do Império, como a descrevemos, permanece fundamentalmente em rede, embora essa rede tenha se tornado mais viciosa e fragmentada. O que vemos hoje não é o retorno de uma autoridade central única que dita a ordem global, mas sim o colapso da hegemonia moral do Império, forçando os EUA a recorrer a táticas mais abertas de poder policial e econômico. O confisco de ativos venezuelanos ou o uso do sistema financeiro como arma (weaponization) não são sinais de uma soberania restaurada, mas sinais de um sistema que não consegue mais governar através do consenso ou de protocolos universais. O Império está em um estado de guerra civil interna permanente entre as suas elites financeiras e as suas facções nacionalistas.
Em seu trabalho, você frequentemente discute a “Multidão” como a força subjetiva capaz de desafiar o Império. No entanto, hoje enfrentamos o que chamo de “Governança Algorítmica” — um poder que opera não apenas por exclusão, mas por captura prévia de desejos e condutas. A Multidão ainda é capaz de produzir uma ruptura, ou fomos “pastoreados” por algoritmos em um estado de passividade política permanente?
A governança algorítmica certamente representa um novo nível de poder pastoral, um “pastorado sem pastor”, onde o rebanho é guiado por fluxos de dados. Isso cria uma forma de controle que é muito mais íntima do que as antigas formas disciplinares. No entanto, a multidão não é uma massa passiva; ela é o próprio motor da produção social que os algoritmos tentam capturar. O conflito hoje reside na capacidade da multidão de criar formas de cooperação que não sejam traduzíveis em dados ou lucrativas para as plataformas. A ruptura hoje deve ocorrer no nível da produção da subjetividade — recusando ser o “sujeito de dados” que o Império exige.
O senhor tem acompanhado os desdobramentos na América Latina, especialmente a resistência contra o que muitos chamam de “neocolonialismo digital”. Como você vê o papel do Sul Global na reconfiguração dessa soberania?
O Sul Global, e a América Latina em particular, tem sido historicamente o laboratório tanto para as formas mais brutais de governo imperial quanto para as formas mais criativas de resistência. A resistência ao neocolonialismo digital não é apenas uma questão de soberania tecnológica, mas de soberania social. Quando movimentos sociais no Brasil ou na Argentina se organizam fora das capturas institucionais, eles estão exercendo o que chamamos de poder constituinte. O futuro do Império depende de se ele conseguirá subjugar essas experiências autonômicas ou se elas conseguirão se articular em uma rede global de contra ontologia.
Muitos intelectuais brasileiros estão focados no conceito de “Lawfare” — o uso do sistema legal como arma política. Como isso se encaixa na sua análise da soberania imperial contemporânea? O Direito tornou-se apenas uma extensão da logística militar do Império?
O Lawfare é a manifestação jurídica do Estado de Exceção permanente. Ele demonstra que a distinção entre guerra e política desapareceu. No contexto do Império, o Direito não serve para garantir justiça, mas para gerenciar a circulação de capitais e eliminar obstáculos políticos. É uma forma de violência burocrática. A resposta a isso não pode ser apenas um retorno ao legalismo liberal, que já se provou insuficiente, mas a criação de novas formas de justiça popular que emergem das lutas da multidão.
Para concluir, se pudéssemos projetar a “história do futuro”, qual seria o papel da produção historiográfica em um mundo dominado pela imediatez dos dados?
A história obriga-nos a confrontar estas temporalidades sobrepostas. Se o “pastor algorítmico” nos conduz ao silêncio dos dados, a produção historiográfica deve operar como o ruído necessário, a fricção que impede o fechamento total do sistema. A soberania, afinal, é sempre um campo de batalha, e a realidade exige que a teoria não seja apenas um espelho da derrota, mas uma arma de intervenção.