
Mesa reúne Rafael Evangelista, Sérgio Amadeu e Ergon Cugler e destaca soberania digital como eixo estratégico para o Brasil
A regulação das plataformas digitais e o enfrentamento ao poder das Big Techs estiveram em debate no 9º Encontro Nacional de Comunicadores e Ativistas Digitais (BlogProg), neste sábado (25), em São Paulo.

O evento, que conta com apoio do NIC.br, por meio do CGI.br, acontece nos dias 24 e 25 de abril e reúne no Sindicato dos Jornalistas de São Paulo comunicadores, ativistas digitais, estudantes, juventude, pesquisadores e lideranças políticas de todo o país.
Mediada por Ana Paula Pereira de Brito Costa, diretora do Sindicato dos Comerciários do Rio de Janeiro e secretária de imprensa da CTB-RJ, a mesa contou com a participação do professor da Universidade Federal do ABC Sérgio Amadeu, do pesquisador, cientista de dados e autor do livro “IA-cracia: Como enfrentar a ditadura das Big Techs”, Ergon Cugler, e de Rafael Evangelista, representante da academia no Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br).
Logo no início, o sociólogo Sérgio Amadeu colocou as cartas na mesa ao relacionar diretamente a regulação das plataformas ao enfrentamento da ultradireita global.
“Regular plataformas é lutar contra a extrema direita e o tecnofascismo”, sentenciou.
Ao analisar experiências internacionais, o professor destacou que países europeus já avançaram em marcos regulatórios que tratam da proteção de dados, transparência algorítmica e concorrência, apontando caminhos que ainda não foram percorridos pelo Brasil.
Ele também alertou para a centralização da infraestrutura tecnológica e seus impactos geopolíticos: “A inteligência artificial não é um aplicativo no seu celular. Ela depende de megaestruturas concentradas em grandes data centers”, explicou. Como contraponto, Amadeu defende investimentos em infraestrutura nacional como parte de uma estratégia de soberania.
Como enfrentar o nazismo digital
Na sequência, Ergon Cugler aprofundou o diagnóstico ao abordar a relação entre plataformas digitais e a disseminação de ideologias extremistas, com destaque para o crescimento de comunidades neonazistas no Brasil.
Em pesquisa nos anos recentes, foram mapeados cerca de 35 mil usuários em comunidades neonazistas no Telegram. “São como uma Hydra: você corta a cabeça de uma e nascem mais três. Não é um caso isolado. Estamos diante de um fenômeno estruturado”, afirmou.
Ao tratar do avanço de correntes como o chamado “tecnomonarquismo”, propagandeado por Curtis Yarvin, responsável por arrebanhar uma malta de seguidos que incluem as fileiras do Movimento Brasil Livre (MBL), no Brasil. Cugler apontou para a emergência de um projeto político que combina autoritarismo, tecnologia e eliminação de mecanismos democráticos “Em miúdos, é nazismo digital”, resumiu.
Segundo ele, essas ideias têm se disseminado com força, inclusive entre a juventude, e já influenciam atores políticos no Brasil, evidenciando que a disputa ultrapassa o ambiente virtual: “a subversão da democracia hoje se constitui a partir desse tipo de pensamento”, alertou.
Rumo a um ecossistema informacional saudável

Após esse diagnóstico mais amplo, Rafael Evangelista trouxe a dimensão institucional do debate, apresentando o papel do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) e os avanços já construídos no país desde o Marco Civil da Internet, sancionado em 2015.
Ele destacou que o modelo multissetorial brasileiro — que reúne governo, academia, setor privado e sociedade civil — é uma referência internacional, ainda que enfrente limites.
“A regulação é importante, mas não podemos acreditar que as leis vão resolver tudo. Precisamos que o Estado e a sociedade produzam um ecossistema informacional saudável”, argumentou.
Ao resgatar a trajetória da internet, da blogosfera às plataformas, Evangelista apontou para um processo crescente de concentração de poder nas mãos das grandes corporações digitais: “O que se apresentava como uma promessa de democratização se encontra, atualmente, concentrada nessas plataformas”.
“As Big Techs abusam do poder de intermediação das nossas comunicações a fim de lucrar com essa economia de dados” e, por isso, a regulação é um passo necessário. “Ela deve estar articulada a políticas públicas mais amplas, capazes de enfrentar os desequilíbrios estruturais do ambiente digital”, complementou.
Ao longo do debate, os participantes convergiram na avaliação de que a disputa em torno das Big Techs deixou de ser apenas técnica e assumiu um caráter profundamente político e estratégico. Entre a defesa da soberania digital, o enfrentamento ao avanço da extrema direita e a necessidade de construir um ecossistema informacional mais equilibrado, o desafio colocado é estrutural.

9º Encontro Nacional de Comunicadores e Ativistas Digitais
Em sua 9ª edição, o Encontro realizado pelo Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé reuniu, nos dias 24 e 24 de abril, comunicadores, comunicadoras e ativistas digitais de diversas regiões do país para refletir coletivamente sobre os desafios colocados na disputa de ideias e nas batalhas mais importantes da comunicação e da tecnologia.
Assista à íntegra do debate e confira, no canal do Barão de Itararé, os demais debates da programação:
https://www.youtube.com/watch?v=oCMrK68fQIk