13 de julho de 2026

Alca: derrotada há 20 anos, proposta defendida por Flávio Bolsonaro deixaria o Brasil de joelhos diante dos EUA

Manifestação contra a Alca em 2002, em São Paulo; Flávio Bolsonaro defende retomar a proposta – Fotos: Jorge Araújo/Folhapress/Divulgação

Senador, um dos pivôs do tarifaço de Trump contra o Brasil, propõe criar uma área de livre comércio nas Américas, remontando à proposta nefasta dos EUA derrotada por Lula e outros governos progressistas da região

Ivan Longo | Revista Fórum

A proposta defendida pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à presidência, de criar uma zona de livre comércio no continente resgata um projeto que já havia sido sepultado há duas décadas: a Área de Livre Comércio das Américas (Alca), iniciativa liderada pelos Estados Unidos nos anos 1990 e que enfrentou forte resistência de governos latino-americanos por seu potencial de ampliar a dependência econômica da região em relação a Washington.

Durante sua passagem pelos Estados Unidos, onde participou de uma audiência no Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR) para tratar do tarifaço de 25% contra produtos brasileiros, Flávio afirmou que pretende defender junto ao governo de Donald Trump a criação de um acordo inspirado no antigo Nafta, hoje chamado de USMCA, mas ampliado para incluir outros países do continente.

O senador sugeriu até uma nova sigla, Afta (Americas Free Trade Agreement), afirmando que seria possível “cortar essa letrinha N” do Nafta e criar um “Acordo de Livre Comércio das Américas”. Segundo ele, Brasil, Estados Unidos e Argentina poderiam formar uma nova zona comercial.

A proposta veio acompanhada de ataques ao governo Lula, a quem Flávio acusou de ser “lambe-botas da China” e de colocar “ideologia acima dos interesses do povo brasileiro”.

O que foi (ou era para ser) a Alca

A Alca começou a ser negociada em 1994, durante a primeira Cúpula das Américas, realizada em Miami, no governo do presidente norte-americano Bill Clinton. A proposta era criar uma grande área de livre comércio que abrangesse praticamente todo o continente americano, do Canadá à Argentina.

Na prática, o projeto pretendia eliminar tarifas e barreiras comerciais, facilitando a circulação de produtos, serviços e investimentos entre os países.

Os defensores da iniciativa argumentavam que a abertura dos mercados aumentaria o comércio, atrairia investimentos estrangeiros e integraria economicamente as Américas.

Mas, para seus críticos, havia um problema central: a enorme desigualdade entre as economias envolvidas.

Enquanto os Estados Unidos possuíam uma das maiores estruturas industriais, tecnológicas e financeiras do mundo, muitos países latino-americanos ainda enfrentavam dificuldades para consolidar suas próprias cadeias produtivas. A preocupação era que uma abertura ampla colocasse empresas brasileiras e latino-americanas em competição direta com gigantes norte-americanas em condições desfavoráveis.

O risco de uma América Latina de joelhos diante dos EUA

A principal crítica à Alca era que o acordo poderia aprofundar uma divisão econômica histórica: países latino-americanos exportando cada vez mais produtos primários e importando bens industriais e tecnológicos de maior valor agregado.

Para seus opositores, a consequência poderia ser uma nova onda de desindustrialização, com setores nacionais incapazes de competir com empresas norte-americanas.

Entre os pontos mais questionados estavam:

  • a assimetria entre as economias: países com níveis muito diferentes de desenvolvimento seriam submetidos às mesmas regras comerciais;
  • a perda de capacidade de política industrial: governos poderiam ter menos espaço para proteger setores estratégicos ou incentivar empresas nacionais;
  • a dependência tecnológica: regras mais rígidas de propriedade intelectual poderiam dificultar o acesso a tecnologias e medicamentos;
  • o fortalecimento da influência dos EUA: Washington passaria a ter ainda mais peso sobre as decisões econômicas do continente.

No caso brasileiro, críticos defendiam que a Alca poderia transformar o país em um grande fornecedor de commodities para os Estados Unidos, reduzindo sua capacidade de disputar mercados em áreas industriais e tecnológicas.

Lula e a articulação que barrou a Alca

A resistência à Alca ganhou força especialmente nos anos 2000, quando governos progressistas chegaram ao poder em vários países latino-americanos.

No Brasil, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, iniciado em 2003, teve papel central na mudança de rumo das negociações. Lula não rejeitou a ideia de integração comercial, mas defendia que qualquer acordo deveria levar em conta as diferenças entre as economias e garantir condições mais equilibradas.

O governo brasileiro passou a exigir, entre outros pontos, a redução dos subsídios agrícolas dos Estados Unidos, que davam vantagem aos produtores norte-americanos, além de regras que preservassem políticas de desenvolvimento nacional.

A estratégia de Lula foi articular uma posição conjunta com outros governos da região, especialmente Argentina e Venezuela, evitando que os países latino-americanos negociassem isoladamente com Washington.

O momento decisivo ocorreu em 2005, durante a Cúpula das Américas de Mar del Plata, na Argentina. Na ocasião, os Estados Unidos tentaram retomar a negociação da Alca, mas encontraram resistência de Brasil, Argentina, Venezuela e outros países.

Sem consenso, o projeto perdeu força e acabou abandonado.

“Alca, al carajo”: o grito que virou símbolo da rejeição

Um dos momentos mais emblemáticos da oposição à Alca ocorreu justamente em Mar del Plata, quando o então presidente venezuelano Hugo Chávez transformou a rejeição ao acordo em um símbolo político.

Diante de milhares de pessoas em uma manifestação paralela à cúpula, Chávez resumiu sua posição na frase que se tornaria histórica: “Alca, al carajo!” (“Alca, para o inferno!”).

A expressão sintetizou a visão de setores da esquerda latino-americana de que o projeto representava menos uma integração entre países soberanos e mais uma expansão da influência econômica dos Estados Unidos sobre a região.

Assista ao discurso:

Vinte anos depois, o fantasma retorna

A tentativa de Flávio Bolsonaro de apresentar uma nova área de livre comércio nas Américas ocorre em um cenário diferente, mas recupera uma ideia que marcou um dos principais debates sobre soberania econômica no continente.

Curiosamente, a sigla Afta sugerida pelo senador também remete ao nome inicialmente pensado pelos negociadores norte-americanos para a própria Alca. A mudança ocorreu porque o termo gerava associações negativas em português e espanhol, tanto por lembrar aftas bucais quanto a febre aftosa — uma questão sensível para países exportadores de carne, como o Brasil.

Ao defender uma nova zona comercial sob liderança dos Estados Unidos justamente enquanto atua em Washington para tentar conter os danos do tarifaço contra o Brasil — medida do governo Trump que o próprio grupo político de Flávio apoiou —, o senador recoloca no centro do debate uma escolha estratégica para o país: uma integração subordinada aos interesses da maior potência econômica do continente ou uma política externa baseada na busca por maior autonomia e equilíbrio nas relações internacionais.

A proposta representa a volta de uma velha fórmula: abrir mão de instrumentos de desenvolvimento nacional em troca da promessa de investimentos e de acesso privilegiado ao mercado norte-americano. Uma fórmula que, há 20 anos, foi rejeitada pela maioria dos governos progressistas da América Latina durante a resistência à Alca.