
O encontro “Juventudes Periféricas no Front da Cultura” reuniu jovens, lideranças e agentes culturais de diferentes territórios periféricos de São Paulo para discutir políticas públicas, financiamento, oportunidades e os desafios enfrentados pela produção cultural nas periferias.
Por Hellen Novais/ Alma Preta Jornalismo
A atividade ocorreu no dia 26 de agosto durante um café da manhã com a ministra da Cultura, Margareth Menezes, no Aparelha Luzia, na região central da capital paulista.
Organizado pelo Ministério da Cultura (MinC), pela Uneafro Brasil, pela Ação Educativa e organizações parceiras, o encontro teve como proposta aproximar representantes do governo federal de jovens e produtores que atuam diretamente nos territórios, promovendo um espaço de escuta e diálogo sobre as políticas culturais.
Ao lado da ministra, participaram do encontro a secretária nacional de Cidadania e Diversidade Cultural Márcia Rollemberg, e a artista e ativista Erica Malunguinho, fundadora do quilombo urbano Aparelha Luzia, que completa dez anos de existência em 2026.
Durante a atividade, jovens de diferentes regiões de São Paulo apresentaram demandas relacionadas ao financiamento da cultura nos 27 estados brasileiros, além de reivindicações pela ampliação de políticas de apoio às populações historicamente marginalizadas e pela criação de mecanismos específicos para diferentes territórios e grupos.
Desigualdade no acesso aos recursos
Entre os principais temas debatidos esteve a concentração dos recursos destinados à cultura e a dificuldade de acesso a mecanismos de financiamento por produtores que atuam fora do eixo Rio-São Paulo.
Segundo dados do Ministério da Cultura, a região Norte registrou um dos maiores crescimentos percentuais do país na captação de recursos por meio da Lei Rouanet em 2025, dentro de um cenário nacional que alcançou R$ 3,41 bilhões em incentivos culturais.
A região Nordeste também apresentou crescimento expressivo, com aumento acumulado de 58,4% na captação desde 2023.
Apesar dos avanços, a concentração dos recursos no Sudeste ainda representa uma diferença significativa em relação às demais regiões.
Dados da plataforma Prosas indicam que, entre 2021 e 2025, 72,1% dos valores captados via Lei Rouanet ficaram com proponentes da região Sudeste.
Questionada sobre a dificuldade de acesso aos recursos, Margareth Menezes reconheceu a necessidade de ampliar e aprimorar as políticas de fomento para que os recursos culturais alcancem diferentes estados e municípios brasileiros.
A ministra também relacionou o tema à própria trajetória profissional. Segundo Margareth, no início de sua carreira como cantora, ainda na Bahia, não teve acesso à leis de incentivo à cultura.
Ao assumir o Ministério da Cultura, essa experiência contribuiu para que identificasse a necessidade de descentralizar o acesso aos mecanismos de financiamento.
“Eu acho que essa experiência, a vivência também me ajudou muito, porque eu entendi isso quando, na chegada ao Ministério, a gente precisava conversar com as pessoas e fazer esse desdobramento em relação a fazer com que as políticas chegassem a todo lugar”, compartilhou.
De acordo com a ministra, uma das estratégias adotadas pelo Ministério foi a criação de mecanismos de fomento com recortes territoriais e populacionais específicos.
“E aí começamos a fazer Lei Rouanet Norte, Lei Rouanet Nordeste, Lei Rouanet Centro-Oeste, Lei Rouanet Favelas, Território, Juventude, Pequenas Cidades, etc”, acrescentou.
Diversidade e políticas afirmativas
A discussão sobre acesso aos recursos também esteve relacionada à diversidade e à necessidade de ampliar a participação de grupos historicamente marginalizados na produção cultural.
Margareth Menezes citou os mecanismos de ações afirmativas previstos na Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB). De acordo com as regras da política, os editais de fomento devem reservar, no mínimo, 25% das vagas para pessoas negras, 10% para pessoas indígenas e 5% para pessoas com deficiência.
A PNAB também estabelece que 20% dos recursos recebidos pelos estados, municípios e Distrito Federal sejam destinados a ações de democratização do acesso à cultura em áreas periféricas, urbanas e rurais, além de territórios de povos e comunidades tradicionais.
Os mecanismos de inclusão foram apresentados pela ministra como parte de uma estratégia para ampliar o alcance das políticas culturais e contemplar diferentes identidades e territórios na distribuição dos recursos públicos.
Escuta dos territórios
Para além da discussão sobre financiamento, o encontro colocou em evidência a importância da participação de jovens e agentes culturais periféricos na formulação das políticas públicas.
Ao longo da atividade, representantes de diferentes regiões de São Paulo puderam apresentar demandas e desafios vivenciados em seus territórios, aproximando a discussão institucional das experiências de quem atua diretamente na produção cultural.
Ao final do encontro, Margareth Menezes destacou a importância da continuidade do diálogo com lideranças, jovens e agentes culturais.
A ministra ressaltou que a escuta das diferentes comunidades é fundamental para o aprimoramento das políticas públicas e para ampliar o acesso aos recursos destinados à cultura.