28 de agosto de 2026

Socialismo e capitalismo: o duplo padrão do jornalismo contra Cuba

O presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel, durante o G77. (Foto: Mahmoud Khaled / COP28)

O liberalismo de gabinete do jornalismo brasileiro produziu mais uma pérola. Eu nem sabia, ontem dei de testa com a “corajosa” entrevista (sim, eu li isso em comentários) que a badalada Mônica Bergamo fez no último sábado (23/08) com Miguel Díaz-Canel, presidente de Cuba.

Por Opera Mundi

Quando a colunista do diário paulistano pergunta a Díaz-Canel se uma economia de mercado não produziria riqueza com maior facilidade, ela não está simplesmente sendo dura com o presidente cubano. Está retirando Cuba de sua história. Desaparecem mais de seis décadas de embargo, a posição dos Estados Unidos no sistema financeiro mundial, as sanções que atingem empresas de terceiros países, as dificuldades de acesso a crédito, tecnologia, combustível e mercados. Resta uma ilha abstrata, colocada diante de uma escolha igualmente abstrata: socialismo ou mercado. A pergunta parece econômica, mas seu pressuposto é ideológico. Se Cuba sofre, procura-se a causa dentro do socialismo; aquilo que o país sofre de fora transforma-se em pequeno contexto esquecível.

Não é preciso negar os problemas internos cubanos para perceber a desonestidade desse enquadramento. Cuba tem burocracia, baixa produtividade, dificuldades de gestão e contradições que devem ser discutidas. O próprio Díaz-Canel admite problemas internos. A questão é outra: que espécie de análise econômica elimina justamente as condições nas quais uma economia existe? Países não produzem riqueza em laboratórios. Estão inseridos em relações internacionais profundamente desiguais, dependem de crédito, comércio, energia, tecnologia, transporte, sistemas de pagamento e decisões tomadas muito além de suas fronteiras.

Perguntar se “o mercado” resolveria Cuba sem perguntar se esse mercado viria acompanhado do fim do embargo equivale a comparar duas situações que jamais existiram sob as mesmas condições. Não é economia básica. É um contrafactual viciado e desonesto, para não dizer preguiçoso.

Díaz-Canel aparece já no título auxiliar como “líder da ditadura”, e Cuba como país que padeceria sob um “modelo estatizante”. É uma operação conhecida: a admissão da violência externa para imediatamente reduzi-la a agravante de menor escala. O sistema econômico cubano permanece sentado no banco dos réus; a potência que há décadas procura estrangular materialmente essa experiência aparece como uma variável lateral.

Há uma curiosa geografia moral nesse vocabulário. “Ditadura”, “autocracia”, “regime” são palavras distribuídas com uma facilidade extraordinária quando se trata de governos que desafiam os Estados Unidos. Já governos aliados de Washington podem prender opositores, esmagar movimentos sociais, financiar guerras, bombardear populações ou restringir liberdades sem que sua posição no sistema internacional seja reduzida à natureza de seu regime com a mesma constância.

Qual é a cartilha de redação usada, na qual determinadas categorias políticas aparecem como essência de alguns países enquanto, em outros, violações igualmente graves são tratadas como problemas específicos de governos, conjunturas ou políticas públicas? A linguagem também organiza o mundo. E o jornalismo, quando naturaliza essa distribuição desigual das palavras, participa dessa organização.

O ponto mais incômodo continua sendo o embargo. Se o socialismo cubano é economicamente inviável por sua própria natureza, por que foi necessário submetê-lo durante mais de sessenta anos a uma política destinada justamente a limitar seu funcionamento?

Há uma contradição elementar aí. Impõem-se obstáculos ao comércio, ao financiamento, aos investimentos e ao abastecimento; quando aparecem escassez, baixa produtividade e deterioração econômica, esses resultados são apresentados como prova do fracasso intrínseco do sistema que foi submetido às restrições. A intervenção deixa de fazer parte da explicação depois de produzir efeitos sobre o objeto explicado. É como quebrar as pernas de alguém e depois utilizar sua dificuldade para caminhar como demonstração de uma incapacidade natural.

Talvez seja esse o problema mais profundo daquela pergunta de Mônica Bergamo. Ela revela uma forma de imaginar a economia mundial na qual o capitalismo desaparece como sistema histórico e reaparece simplesmente como realidade. O mercado não precisa explicar seus centros de poder, suas periferias, suas guerras, sanções, monopólios tecnológicos ou desigualdades de origem. Ele é apresentado como horizonte neutro, naturalizado.

O socialismo, ao contrário, deve responder sozinho por cada apagão, cada escassez e cada dificuldade produzida dentro de uma pequena ilha submetida à hostilidade da maior potência econômica e militar do continente. É nesse ponto que uma pergunta aparentemente inocente deixa de ser apenas uma pergunta ruim. Torna-se uma forma de desonestidade intelectual: apaga as relações que deveriam ser explicadas e chama o resultado desse apagamento de realidade.

Lacaios são lacaios.

A propósito, Viva Cuba!

(*) Ricardo Queiroz Pinheiro é Diretor de Relações de Trabalho do Sindserv – SBC, bibliotecário, pesquisador e doutorando em Ciências Humanas e Sociais.