28 de setembro de 2026

Rita Casaro: A Padroeira e o projeto de país

Imagem criada com uso de IA.

Quase um século após se tornar “Padroeira principal do Brasil” e servir como símbolo da unidade nacional, Nossa Senhora Aparecida volta ao centro da política. Desta vez, a santa preta querida pelo povo ajuda a iluminar o que está em disputa nas urnas, inclusive a defesa do Estado laico.

Rita Casaro* \ Barão de Itararé

A Padroeira do Brasil é uma mulher preta. Tem menos de 40 centímetros de altura e foi encontrada, partida em dois pedaços, por três pescadores nas águas do rio Paraíba do Sul. A devoção que começou ali, em 1717, atravessou mais de três séculos de história brasileira até transformar aquela pequena imagem de terracota em um dos mais poderosos símbolos religiosos e culturais do País.

Nossa Senhora Aparecida passou pela Colônia, pelo Império, pela escravidão e sua abolição, pela República, por ditaduras e democracias. Foi reverenciada por governantes, apropriada politicamente e incorporada de tal maneira à cultura nacional que sua presença há muito ultrapassou as fronteiras da Igreja Católica.

Agora, em 2026, ela foi parar no meio da campanha eleitoral. A controvérsia em torno de Aparecida, para além da guerra travada nas redes sociais, toca na questão muito maior sobre que projeto de país sairá das urnas em poucos dias ou semanas.

E, assim, nossa Nossa Senhora volta a protagonizar disputas estratégicas. Declarada Padroeira principal de todo o Brasil em 1930 pelo papa Pio XI, a pedido do episcopado brasileiro, ela teria papel de destaque no período subsequente à Revolução de 1930, que alçou Getúlio Vargas ao poder.

Em 31 de maio de 1931, a imagem foi levada de Aparecida ao Rio de Janeiro, então capital federal. Diante de uma enorme multidão e com a presença de Vargas e de autoridades civis e militares, o cardeal Sebastião Leme realizou a solene proclamação e consagração do Brasil a Nossa Senhora Aparecida. A própria Biblioteca Nacional registra a dimensão política daquela manifestação, que evidenciava o poder de mobilização da Igreja Católica no início do governo Vargas.

Quatro décadas antes, a República havia estabelecido a separação formal entre Igreja e Estado. No início dos anos 1930, no entanto, Vargas encontrou na Igreja Católica uma instituição de enorme capilaridade, autoridade social e capacidade de mobilização. A Igreja, por sua vez, enxergava naquele momento a oportunidade de recuperar influência sobre o Estado e sobre as decisões que organizavam a vida nacional.

Estudo disponível no repositório da Fundação Getulio Vargas define aquele período como marcado pela “reciprocidade de interesses do Estado e da Igreja”. Entre os grandes marcos dessa dinâmica, consta ainda a inauguração do Cristo Redentor.

Nos anos seguintes, essa aproximação teria consequências concretas. A Liga Eleitoral Católica atuou nas eleições para a Constituinte, e a Constituição de 1934 incorporou demandas defendidas pela Igreja, entre elas o ensino religioso facultativo nas escolas públicas.

Uma santa preta

A imagem retirada do Paraíba era uma representação de Nossa Senhora da Conceição feita em terracota. Sua coloração escureceu ao longo do tempo, segundo a tradição e os estudos sobre a peça, pela permanência na água e pela fumaça das velas acesas diante dela. Mas símbolos não são definidos apenas pelas intenções de quem os criou, e a santa que o Brasil passou a reconhecer é preta.

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) relaciona a imagem escura de Aparecida ao povo brasileiro e recorda uma das narrativas mais conhecidas associadas à devoção, a do escravizado cujas correntes teriam se rompido quando ele se ajoelhou diante da imagem.

Não é difícil compreender a força simbólica adquirida por essa representação num país que viveu por mais de três séculos o horror da escravidão. Uma pequena mulher preta, surgida da devoção de pescadores pobres, tornou-se a principal representação religiosa de uma nação profundamente marcada pela desigualdade e pelo racismo.

Não é necessário professar a fé católica para reconhecer a potência dessa imagem. Talvez esteja justamente aí uma das chaves para compreender por que mexer com Aparecida provoca reações que ultrapassam o universo católico e perturba até os ateus, como se viu no embate travado nos últimos dias. O boato que correu pelas redes sociais a respeito de Flávio Bolsonaro, o candidato envolvido nos crimes no Daniel Vorcaro e que tem ligação com milicianos, mas que se apresenta como cristão evangélico, dava conta da intenção de retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil.

Ele negou, e não existe proposta formal conhecida do candidato nesse sentido, mas a hipótese ganhou verossimilhança diante do fundamentalismo intolerante, do racismo e da misoginia ostentada por ele e sua família, especialmente o pai – o ex-presidente condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por cinco crimes, entre eles tentativa de golpe de Estado e organização criminosa armada.

Nesse caso, no entanto, corrigir a desinformação, como corretamente o campo democrático tanto combate, não encerra a discussão. Em agosto, ao explicar por que não participaria de um debate eleitoral, Flávio Bolsonaro declarou que, se eleito, um de seus primeiros atos seria “decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”.

A fala aciona o alerta, já que a extrema direita brasileira, onde se localiza o bolsonarismo, aprendeu a mobilizar a religião não apenas como convicção pessoal, mas como identidade política. Fé, moral, família e nação passaram a compor uma linguagem de mobilização eleitoral na qual adversários políticos podem ser apresentados não simplesmente como pessoas que defendem outro programa de governo, mas como inimigos.

Os evangélicos não são, obviamente, um bloco homogêneo. Milhões de seguidores das inúmeras denominações têm posições políticas distintas. Além disso, diferenças teológicas em relação ao culto a Nossa Senhora não significam intolerância religiosa nem adesão a qualquer projeto autoritário. O problema, como se sabe, não está na fé, mas na pretensão de transformá-la em fundamento do poder do Estado e instrumento de imposição de valores morais a outrem.

E é nesse ponto que a presença de Nossa Senhora Aparecida nesta eleição ganha ironia histórica. Nos anos 1930, uma Igreja Católica então hegemônica mobilizou sua força social para recuperar influência sobre um Estado que a República havia declarado laico. Quase 100 anos depois, a mesma santa preta reaparece numa disputa sobre religião e poder.

Só que o Brasil mudou. O País que tinha no catolicismo uma religião quase hegemônica tornou-se uma sociedade religiosamente muito mais plural. A defesa do Estado laico, que no passado serviu para limitar o poder institucional da Igreja Católica, hoje precisa ser a garantia de que nenhuma outra denominação religiosa poderá simplesmente ocupar o seu lugar. Na presente disputa, a santa acaba por representar a luta em defesa do Estado laico, da democracia, da justiça social, da liberdade, da soberania e do desenvolvimento nacional.

Que Nossa Senhora Aparecida proteja o Brasil e vença esse embate!

*Integrante da Coordenação do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, é jornalista, feminista e ateia agnóstica, mas professa simpatia pelos santos que estão do lado do povo.