
Os jornais começaram a perder sua centralidade com o aparecimento da blogosfera e dos novos modelos de negócio. Mas a crise não foi apenas tecnológica ou financeira. Foi também uma crise de compreensão sobre seu leitor e, mais profundamente, da própria função do jornalismo.
Por Luís Nassif / Jornal GGN
A notícia mudou de ritmo. Os jornais não mudaram de função
No fim dos anos 1990, escrevi sobre a nova lógica da notícia. Até então, o ciclo de atualização dos jornais era predominantemente diário. As revistas semanais selecionavam os acontecimentos mais relevantes — segundo seus próprios critérios — e os reorganizavam, oferecendo contexto e interpretação, sempre embalados em determinada visão de mundo.
Os jornais também funcionavam como comunidades: reuniam interesses na sua organização em editorias, abrigando leitores interessados no tema política, internacional, esportes, cultura. E, em alguns casos, ofereciam até uma variedade de opiniões nas colunas, atraindo público de diversas orientações políticas.
Não bastava repetir, na manhã seguinte, aquilo que o leitor já sabia. Era necessário explicar o que ele ainda não compreendia.
Os veículos, porém, escolheram disputar velocidade com a internet sem ter sua flexibilidade e, inicialmente, sem explorar sequer as possibilidades dos links. A resposta foi encurtar matérias, multiplicar títulos chamativos e reduzir a densidade da informação. Confundiram concisão com superficialidade e foram atrás da atenção momentânea em vez de perseguir o vínculo duradouro.
Credibilidade e construção de reputações
O grande desafio sempre foi entender quem é o leitor e por que ele deveria confiar no jornal.
Um dos maiores negócios da mídia é construir ou destruir reputações. Mas esse poder depende de uma credibilidade acumulada pelo trabalho dos jornalistas. Reside aí um conflito intemporal – o interesse da casa e a credibilidade jornalística – que, quando não resolvido, destrói o veículo.
Ao diretor de redação cabe uma tarefa delicada: responder às demandas da empresa, proteger o trabalho dos jornalistas e preservar a confiança do público. É uma espécie de algodão entre cristais, colocado entre interesses comerciais, pressões políticas e critérios profissionais.
Objetividade jornalística deveria significar método: conferir documentos, ouvir os envolvidos, distinguir fatos de interpretações, corrigir erros e aplicar critérios consistentes a aliados e adversários. Só depois disso, naquilo que interessa à casa, adaptar conclusões aos seus interesses.
Quando a preferência política substitui o critério jornalístico
Com a disseminação de FIDCs e de precatórios, formou-se uma enorme pirâmide financeira no mercado, sustentada pelos recursos do crime organizado, que garantiram a liquidez adicional necessária à manutenção do jogo.
E aí entra o fator Lula. De um lado, recusa-se a fazer o ajuste fiscal via gastos sociais – embora não tenha definido uma estratégia contra a Selic alta -, de outro passou a investir contra o crime organizado na Faria Lima. Ou seja, prejudicando o mercado nas duas pontas.
São esses os interesses claros para atacar Lula. Mas como justificar o apoio a Flávio Bolsonaro e sua extravagante e ampla relação com o crime organizado? Recorreu-se, então, aos estratagemas mais canhestros.
A cobertura das conversas envolvendo Fábio Luís e uma lobista, contraposta ao tratamento dado às denúncias sobre Flávio Bolsonaro, às suas relações com pessoas apontadas como ligadas a milícias e às questões envolvendo o caso Master, mostra o recurso à falsa equivalência levado até o limite de total imprudência jornalística.
Criticar o Supremo não é desmontar a democracia
O ponto mais grave surgiu quando a crítica a ministros do Supremo se converteu em campanha de deslegitimação da instituição.
Mas existe uma diferença entre exigir responsabilidade de um ministro e trabalhar para eliminar a independência do tribunal. O critério é simples: a crítica pretende aperfeiçoar os controles ou tornar seus integrantes submissos a um projeto político?
Essa ofensiva surge em um momento delicado, em que há ameaça concreta à soberania do país. Há um ciclone mundial, um combate sem quartel das big techs e dos grandes fundos financeiros, para desmontar o conceito de Nação.
Ao mesmo tempo, a criação de criptomoedas e a integração digital entre mercados fez com que o dinheiro do crime organizado saísse de paraísos fiscais e se infiltrasse por todos os poros da economia global.
Com a era Trump, a desregulação tornou-se a bandeira principal da geopolítica até chegar ao alvo final da regulamentação: os Estados nacionais. O grande plano em marcha é o desmanche gradual dos Estados nacionais e a subordinação geral do Ocidente ao modelo de negócios do mercado e das big techs, um grande banquete liderado por familiares de Donald Trump.
Num cenário de vitória de Flávio Bolsonaro, acompanhado de maiorias parlamentares alinhadas a um projeto de concentração de poder, essa subordinação seria ampla. Restaria uma área de resistência, o Supremo Tribunal Federal, justamente o alvo maior do tiroteio da mídia.
Consumado esse modelo, a mídia terá exercido papel central na sua consolidação. E – tenham certeza – será a primeira vítima dessa nova forma de ditadura ampliada.
O fim de qual mídia?
É nesse ponto que a crise dos jornais deixa de ser apenas uma discussão sobre circulação, publicidade e modelos de negócio.
O fim da mídia, nesse sentido, não ocorre apenas quando um jornal fecha as portas. Ocorre quando ele continua circulando, mas abandona o compromisso que justificava sua existência: oferecer ao cidadão informação confiável para que ele possa compreender o mundo e decidir livremente sobre seu destino.