26 de outubro de 2026

Economia da atenção: como transformar engajamento político em participação duradoura

Reprodução: Flickr / Ricardo Stuckert

Desde 2024, venho discutindo, em diferentes artigos, como a economia da atenção¹ ultrapassou o campo das transformações tecnológicas para se tornar uma dimensão estrutural da política contemporânea.

Por Maurício Alfredo / Diálogos do Sul Global 

O que inicialmente se apresentava como uma transformação nas formas de circulação da informação passou a revelar uma dimensão mais ampla: a consolidação da atenção como recurso estratégico para a formação de identidades, a construção de pertencimentos e a disputa pela hegemonia política.

O que parecia um alerta teórico ganhou expressão simbólica na posse de Donald Trump para seu segundo mandato, quando executivos de grandes empresas de tecnologia ocuparam posições de destaque na cerimônia. A cena tornou visível a aproximação entre o poder político institucional e o controle das infraestruturas digitais por onde circulam informações, afetos e atenção pública.

No Brasil, essa lógica encontrou condições favoráveis de expansão. O clã Bolsonaro e setores da nova extrema-direita passaram a explorar a controvérsia, a exposição permanente e a transformação da punição em espetáculo. Nesse processo, acontecimentos potencialmente desfavoráveis puderam ser incorporados a narrativas de perseguição e vitimização, alimentando o engajamento e contribuindo para a manutenção da centralidade política.

O processo eleitoral brasileiro de 2026 acrescenta uma dimensão decisiva a essa investigação. Com o segundo turno concluído, já não se trata apenas de perguntar como determinados atores capturam a atenção ou permanecem em evidência, mas de compreender como essa presença contínua pode se converter em força eleitoral ao alimentar identidades políticas e produzir vínculos duradouros de pertencimento.

A hipótese que orienta esta análise é que a economia da atenção se tornou uma das infraestruturas centrais da disputa política contemporânea. Ao organizar a visibilidade dos acontecimentos e favorecer determinadas narrativas, ela participa da construção do imaginário social, da formação de identidades e de laços de pertencimento e, consequentemente, da disputa pela hegemonia na sociedade brasileira.

Do espetáculo ao pertencimento: o elo entre atenção e voto

O mecanismo que pode converter a captura da atenção em força eleitoral não depende apenas do convencimento programático, mas também da mobilização de afetos e da construção de identidades. A política continua sendo uma disputa entre projetos de governo e resultados materiais. Contudo, para parcelas expressivas do eleitorado, ela envolve também pertencimento, reconhecimento, comunidade e afirmação do próprio modo de vida.

Essa lógica é favorecida pelos ambientes digitais, nos quais conteúdos curtos e provocativos costumam atrair atenção e circular com rapidez. Estudos indicam que notícias falsas se espalham até 70% mais rápido do que as verdadeiras (TSE, 2022). Na política, a desinformação e a espetacularização exploram sentimentos como raiva, medo e indignação. Enquanto isso, temas essenciais, como saúde, educação, segurança e transporte, disputam espaço com vídeos de agressões, insultos e cenas grotescas, cujo impacto imediato favorece a circulação e o engajamento.

É nesse terreno de conflito contínuo que os atores políticos podem converter a espetacularização em vínculo comunitário. A eleição para a Câmara dos Deputados, realizada no primeiro turno de 2026, oferece um exemplo expressivo dessa dinâmica: Nikolas Ferreira, Lucas Pavanato e Erika Hilton foram os três candidatos a deputado federal mais votados do país, atuando em campos ideológicos distintos.

Suas trajetórias permitem observar como pautas identitárias, conflitos culturais e estratégias de exposição pública podem alimentar o engajamento eleitoral. Independentemente do espectro político, a capacidade de mobilizar atenção e construir identificação pode ampliar o alcance de uma candidatura, transformando a visibilidade em reconhecimento e, potencialmente, em votos.

Essa dinâmica se insere em uma transformação mais ampla: a política institucional e os grandes veículos de imprensa já não detêm o monopólio da mediação pública da realidade. A disputa política não se limita à apresentação de projetos para o país; envolve também a capacidade de atrair atenção, permanecer em evidência e influenciar a interpretação dos acontecimentos. Mais do que defender propostas, muitos atores procuram manter o público ligado a narrativas que oferecem referências para compreender o mundo, identificar adversários e reconhecer seus semelhantes.

Por isso, a disputa pela atenção ultrapassa o período das campanhas eleitorais e se torna parte permanente da atuação política. Governar, fazer oposição e preservar a relevância pública exigem também a capacidade de pautar acontecimentos e disputar seus significados.

A visibilidade, por si só, não garante votos. Mas, quando alimenta o reconhecimento e o sentimento de pertencimento, pode contribuir para transformar a presença contínua nas redes em mobilização política. É nessa passagem que a economia da atenção se conecta à disputa eleitoral e à formação do imaginário social.

A eleição brasileira como expressão da disputa pelo imaginário

A eleição brasileira de 2026 permite examinar como a economia da atenção participa de uma dimensão decisiva da disputa política: a formação de identidades e a construção de visões de mundo que orientam a percepção dos acontecimentos e dos adversários. Nesse processo, a polarização afetiva² ganha importância.

Ao favorecer a circulação de conteúdos que mobilizam medo, indignação e hostilidade, a disputa pela atenção pode reforçar a identificação com o próprio grupo e a rejeição ao adversário. Mais do que divergências ideológicas, estão em jogo vínculos emocionais que influenciam a maneira como os acontecimentos são interpretados e como os diferentes campos políticos são percebidos.

 Assim, a disputa eleitoral não se limita à avaliação de propostas e resultados de governo, mas envolve também a construção de pertencimentos e a definição de quem representa uma ameaça ou encarna os valores do próprio grupo.

Esse processo vai muito além da discordância ideológica tradicional. Vivemos em um contexto no qual a política coloniza o cotidiano: a cor de uma camisa torna-se senha de pertencimento, e os espaços de convivência convertem-se em arenas de disputa (CUGLER, 2025). Pesquisas recentes indicam que petistas e bolsonaristas depositam em seus respectivos grupos políticos níveis de confiança próximos aos que dedicam às próprias famílias (GALF, 2025).

A polarização afetiva altera, assim, a maneira como as pessoas percebem e julgam umas às outras. A discordância deixa de ser apenas uma divergência sobre os rumos do país e pode ser interpretada como ameaça aos valores e ao modo de vida do próprio grupo. Com isso, o adversário passa a ser visto não apenas como alguém que pensa diferente, mas como alguém de quem é preciso desconfiar ou contra quem é preciso se defender.

O diálogo se torna mais difícil quando a divergência política é interpretada como ameaça e os afetos passam a orientar a relação com o adversário. Nesse contexto, a afirmação das identidades e a rejeição do outro ganham espaço, enfraquecendo as condições necessárias à deliberação pública.

É nesse contexto que a disputa política se transforma também em uma disputa sobre quem tem o direito de definir o “povo brasileiro”: suas virtudes, seus medos, seus valores e seus inimigos. Diferentes narrativas procuram estabelecer o que significa pertencer à nação e quais interesses devem orientar seu futuro.

De um lado, discursos que enfatizam a atuação do Estado, a proteção social e a redução das desigualdades; de outro, narrativas que mobilizam a autodefesa moral, referências religiosas, a valorização da ordem e o ressentimento contra as instituições. Essas referências não esgotam a diversidade de cada campo político, mas ajudam a compreender como projetos de sociedade disputam legitimidade e adesão para além de seus programas eleitorais.

O resultado do segundo turno, com a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) diante da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL), delimita o desfecho institucional da disputa presidencial de 2026. Esse resultado, por si só, não permite atribuir os votos a um mecanismo específico, mas oferece um marco concreto para investigar como atenção, identificação política e pertencimento se articulam no ambiente eleitoral brasileiro.

Sem atribuir os resultados das urnas a uma causa única, a eleição de 2026 permite examinar como a economia da atenção participa dessa disputa. Ao favorecer a circulação de narrativas que mobilizam afetos, reforçam identidades e demarcam fronteiras entre grupos, ela pode contribuir para consolidar determinadas interpretações da realidade. A disputa não se restringe, portanto, a quem governará o Estado, mas envolve também quais valores, identidades e visões de país conquistarão maior legitimidade social. É nesse terreno que a competição eleitoral se conecta à disputa pela hegemonia e pelo imaginário nacional.

O desafio democrático: disputar a hegemonia sem reproduzir a lógica do espetáculo

Diante desse cenário, coloca-se um desafio estrutural para o campo democrático e progressista. Suas análises de conjuntura procuram compreender a realidade articulando história, economia, sociologia e geografia, relacionando fenômenos imediatos a processos mais amplos. Trata-se de enxergar a floresta sem perder de vista as árvores.

Na economia da atenção, porém, essa abordagem enfrenta uma dificuldade: a disputa pela visibilidade favorece mensagens capazes de provocar reações imediatas, enquanto análises estruturais exigem tempo, contexto e reflexão.

A extrema-direita tem explorado essa dinâmica ao oferecer explicações simplificadoras e respostas moralizantes para problemas complexos, identificando culpados e mobilizando sentimentos de ameaça e indignação.

Essa assimetria alimenta uma tentação permanente. De um lado, o mimetismo: reproduzir a estética do choque, os bordões e a agressividade verbal para conquistar engajamento. De outro, o refúgio em uma linguagem estritamente tecnocrática ou acadêmica, que pressupõe um interlocutor interessado em argumentos abstratos, mas nem sempre consegue estabelecer conexões com sua experiência cotidiana.

A primeira estratégia corre o risco de reproduzir a lógica de antagonismo que se pretende combater; a segunda, de restringir a circulação de ideias relevantes a públicos já familiarizados com esse repertório. Nenhuma delas, isoladamente, responde ao desafio de disputar a atenção e construir vínculos políticos duradouros.

O desafio, portanto, não consiste em escolher entre a razão analítica e a mobilização dos afetos, mas em aproximar essas dimensões. Propostas de país e análises estruturais precisam adquirir significado concreto na vida da população, relacionando questões como emprego, renda, moradia, segurança e serviços públicos aos processos que as produzem.

Traduzir a complexidade sem vulgarizá-la significa tornar compreensíveis as relações entre os problemas cotidianos e suas causas estruturais, sem reduzir a realidade a explicações fáceis ou a inimigos convenientes. É também mostrar como essas questões afetam a vida das pessoas e o futuro que podem construir coletivamente.

Disputar a hegemonia na economia da atenção exige conquistar mais do que visibilidade: requer construir formas de comunicação e espaços de sociabilidade capazes de transformar identificação momentânea em participação e pertencimento duradouro.

Isso pressupõe associar narrativas mobilizadoras a experiências concretas de solidariedade, proteção social e ação coletiva. A resposta democrática não pode se limitar a denunciar a espetacularização do ressentimento; precisa demonstrar, na prática, que o fortalecimento dos vínculos comunitários e do bem comum oferece caminhos para enfrentar as incertezas do presente. Afinal, a disputa não é apenas por quem consegue capturar a atenção, mas por quais valores, interpretações e projetos de sociedade serão capazes de conquistar legitimidade e orientar a vida coletiva.

Referências

Alfredo, Mauricio – Economia da atenção: um desafio à democracia – Observatório da Imprensa – 10 de outubro de 2024, edição 1309. Disponível em: https://www.observatoriodaimprensa.com.br/politica/economia-da-atencao-um-desafio-a-democracia/
Alfredo, Mauricio – Colapso da democracia: O primeiro mês do governo Trump e a economia da atenção. – Observatório da Imprensa – 20 de fevereiro de 2025, edição 1326. Disponível em: https://www.observatoriodaimprensa.com.br/politica/colapso-da-democracia-o-primeiro-mes-do-governo-trump-e-a-economia-da-atencao/
Alfredo, Mauricio – O clã Bolsonaro e a economia da atenção: quando a punição vira espetáculo – Le Monde Diplomatique Brasil – 06 de fevereiro de 2026. Disponível em: https://diplomatique.org.br/o-cla-bolsonaro-e-a-economia-da-atencao-quando-a-punicao-vira-espetaculo/

Cugler, Ergon. Por que a polarização afetiva precisa estar no centro do debate no Brasil. Le Monde Diplomatique Brasil, 11 nov. 2025. Disponível em: https://diplomatique.org.br/por-que-a-polarizacao-afetiva-precisa-estar-no-centro-do-debate-no-brasil/

Galf, Renata. Petistas e bolsonaristas confiam em seus grupos quase como em suas próprias famílias, aponta pesquisa. Folha de S.Paulo, São Paulo, 18 out. 2025. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2025/10/petistas-e-bolsonaristas-confiam-em-seus-grupos-quase-como-em-suas-proprias-familias-aponta-pesquisa.shtml

TSE. Pílulas contra a desinformação: notícias falsas circulam 70% mais rápido do que as verdadeiras. Tribunal Superior Eleitoral, 2022. Disponível em: https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2022/Junho/pilulas-contra-a-desinformacao-noticias-falsas-circulam-70-mais-rapido-do-que-as-verdadeiras

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Maurício Alfredo é geógrafo formado pela UNESP de Rio Claro e mestre em Educação. É autor de material didático para o ensino médio e professor de Geografia, Geopolítica e Atualidades nos ensinos médio e superior. Dedica-se à análise das relações de poder no espaço mundial, compreendendo seus desdobramentos no território brasileiro como expressão das desigualdades e das formas de inserção do país no sistema internacional. Atualmente, colabora com artigos publicados em veículos como Le Monde Diplomatique Brasil e Observatório da Imprensa, nos quais desenvolve uma leitura crítica das conexões entre geopolítica, economia e transformações sociais contemporâneas.