
Enquanto a imprensa estrangeira reconstitui a operação que levou Flávio a Miami, jornais europeus analisam a virada de Lula e a China olha para os negócios. O país volta ao centro dos olhos do mundo
Há duas histórias brasileiras sendo contadas simultaneamente pela imprensa internacional nos últimos dias. A primeira tem todos os ingredientes de um romance policial: um candidato presidencial derrotado, quatro veículos escuros, uma fuga pela fronteira, aviões particulares, passaportes cancelados, aliados estrangeiros e um desembarque em Miami. A outra trata do futuro de um país que acaba de reeleger o presidente, interrompeu uma sequência de vitórias da extrema direita na América Latina e ocupa posição estratégica nas disputas econômicas entre EUA e China.
Por Olímpio Cruz Neto / Substack
As duas histórias se cruzam nas páginas dos principais jornais do mundo nesta quinta-feira, 29 de outubro. De um lado, a fuga de Flávio Bolsonaro mobiliza correspondentes, investigadores e analistas políticos. De outro, a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva abre o debate sobre os rumos da maior economia da América Latina, suas relações diplomáticas e o lugar que o Brasil pretende ocupar numa ordem internacional cada vez mais fragmentada.
O contraste é revelador. Enquanto um dos protagonistas da eleição brasileira procura abrigo político nos EUA, o outro se prepara para iniciar um novo mandato diante de um cenário internacional particularmente complexo.
Uma fuga digna de roteiro
Financial Times, Wall Street Journal, New York Times, The Guardian e The Times dedicam amplo espaço à operação que levou Flávio Bolsonaro do Brasil aos EUA. Na Europa continental, o episódio também ocupa páginas de jornais influentes como os italianos Corriere della Sera e La Stampa; os espanhóis El País e La Vanguardia, os franceses Le Monde, Libération e L’Humanité; e os alemães Die Welt e Süddeutsche Zeitung.
A história começa menos de 24 horas depois da derrota eleitoral. Segundo a reconstituição publicada pelo WSJ, Flávio Bolsonaro desapareceu de Brasília em meio a um comboio de quatro veículos escuros. Enquanto assessores e aliados divulgavam informações contraditórias sobre seu paradeiro, o senador seguia em direção à fronteira com a Argentina.

O planejamento envolveu uma sucessão de deslocamentos destinados a dificultar o acompanhamento pelas autoridades brasileiras. Na Argentina, um avião particular aguardava o candidato derrotado. A aeronave seguiu para Guayaquil, no Equador, antes de completar a viagem até Miami.
A operação terminou na manhã de quarta-feira, quando o líder da ultradireita desembarcou na Flórida acompanhado da mulher e das duas filhas. As fotografias da chegada, reproduzidas em jornais de diferentes países, mostram o senador descendo a escada do avião enquanto integrantes da família aparecem logo atrás.
Há uma circunstância que torna o episódio ainda mais extraordinário. A Polícia Federal havia cancelado os passaportes do senador depois que ele descumpriu o prazo determinado pela Justiça para entregá-los. Flávio continua sob investigação criminal por suspeitas de lavagem de dinheiro, corrupção e irregularidades financeiras. Os inquéritos deverão correr sem a presença do candidato derrotado.

O jornal italiano La Stampa acrescenta um detalhe importante à trama: o derrotado teria utilizado um passaporte italiano para chegar a Miami. O documento europeu tornou-se uma peça central das dúvidas sobre a operação, especialmente sobre a maneira como o senador conseguiu atravessar fronteiras e embarcar em aeronaves particulares apesar das restrições impostas pelas autoridades brasileiras. O NYT destaca justamente essa contradição: um candidato presidencial derrotado desembarca nos EUA depois de ter seus documentos brasileiros cancelados.
A história, porém, não termina no aeroporto. Em Miami, Flávio operou uma narrativa delirante. Declarou-se o ‘verdadeiro’ vencedor das eleições e anunciou que pretende liderar a oposição brasileira a partir da terra do Tio Sam. O filho de Jair alega que as investigações representam perseguição política e tentou apresentar sua saída do país como uma espécie de exílio.
A narrativa encontra espaço entre seus aliados, mas enfrenta um problema evidente: a derrota eleitoral foi reconhecida pelas instituições brasileiras, enquanto as acusações de crimes financeiros continuam submetidas à Justiça.
Pior. A partir de janeiro, Flávio deixa o Senado e perde a proteção parlamentar associada ao mandato, embora a competência para julgar os processos dependa da natureza dos fatos investigados e das regras estabelecidas pelo Supremo Tribunal Federal. A tentativa de transformar uma fuga em plataforma de liderança política é um dos aspectos que mais despertam o interesse da imprensa estrangeira.
A Argentina no meio do caminho
A passagem de Flávio pela Argentina acrescenta uma dimensão diplomática à crise. O diário espanhol El País observa que a operação de fuga do herdeiro da ultradireita agravou as tensões entre os governos de Lula e Javier Milei, que já mantinham uma relação marcada por divergências ideológicas e políticas.
Milei é um dos principais aliados de Donald Trump na América Latina e mantém proximidade tóxica com a família Bolsonaro, inclusive servindo de modelo econômico para a candidatura derrotada do PL na disputa presidencial. A utilização do território argentino como parte da rota de escape do Brasil colocou Buenos Aires no centro de uma controvérsia que ultrapassa a política doméstica brasileira.

A questão não se limita à passagem de um cidadão brasileiro pela fronteira. As reportagens internacionais levantam dúvidas sobre a participação de aliados políticos e sobre eventuais facilidades oferecidas durante a operação. WSJ descreve contatos envolvendo integrantes do governo argentino e autoridades norte-americanas. A reportagem menciona o secretário de Estado Marco Rubio e o apoio de pessoas próximas à Casa Branca.
É nesse ponto que a história deixa de ser apenas uma fuga espetacular e passa a integrar um problema maior para as relações entre Brasília e Washington. Trump apostou politicamente na vitória de Flávio. A derrota do oposicionista representa um revés para sua estratégia de ampliar a influência de governos conservadores na América Latina.

E quem diz isso são o New York Times e o Wall Street Journal. Agora, a presença do senador em Miami, acompanhada de suas declarações contra o resultado eleitoral e contra a Justiça brasileira, cria um novo foco potencial de tensão diplomática.
O Brasil terá de administrar essa situação sem permitir que o episódio comprometa o conjunto das relações econômicas e políticas com seu segundo maior parceiro comercial.
O problema da direita brasileira
A imprensa europeia dedica atenção especial às consequências da fuga para o futuro da direita brasileira. Le Monde observa que Flávio deixou o país apenas dois dias depois de perder a eleição presidencial, transformando uma derrota nas urnas numa crise política e judicial de repercussão internacional. O francês Libération examina a tentativa do senador de apresentar-se como perseguido político e de reconstruir sua liderança a partir do exterior. O jornal também registra as dificuldades dessa estratégia diante das investigações em curso e das divergências internas do campo conservador.

Na Alemanha, os diários Die Welt e Süddeutsche Zeitung tratam o episódio como parte de uma crise mais ampla da família Bolsonaro. Com Jair preso e Flávio instalado nos EUA, ao lado do irmão que se exilou e perdeu o mandato de deputado federal, a direita brasileira enfrenta uma situação inédita. A família que dominou a representação política da extrema direita durante quase uma década já não dispõe das mesmas condições para organizar sua atuação institucional. Mas isso não significa que o bolsonarismo tenha desaparecido.
A votação expressiva de Flávio mostra que ele detém uma base eleitoral conservadora numerosa, capaz de influenciar o Congresso, os governos estaduais e a disputa política nacional. Mas existe uma diferença entre preservar milhões de eleitores e manter uma liderança capaz de transformar essa força em projeto político.

Agora, o flanco parece aberto. A fuga acrescenta o problema de legitimidade à reorganização da oposição. Também abre espaço para que outros dirigentes conservadores procurem ocupar o vazio deixado pela família Bolsonaro. O resultado é uma direita numericamente relevante, mas diante de uma disputa ainda indefinida sobre quem deverá conduzi-la nos próximos anos.
A grande virada de Lula
A revista portuguesa Visão oferece hoje uma perspectiva diferente sobre os acontecimentos brasileiros. Na reportagem de Manuel Barros Moura, intitulada “Lula da Silva — A grande virada”, a semanal apresenta a vitória do presidente como um acontecimento sem precedentes na história democrática do país.
Pela primeira vez, um candidato derrotado no primeiro turno conseguiu reverter o resultado e vencer a eleição presidencial. A revista recupera a trajetória política de Lula, suas sete campanhas presidenciais e a capacidade de reconstruir uma maioria eleitoral num ambiente de forte polarização.
A virada, entretanto, não elimina os problemas que o presidente encontrará pela frente. Existem muitos desafios diante do quarto mandato de Lula: equilíbrio fiscal, inflação, segurança pública, governabilidade, relações com Washington e a necessidade de reconstruir algum grau de diálogo político num país profundamente dividido. A lista é da própria Visão.

A revista também chama atenção para o caráter extraordinário da trajetória de Lula. O dirigente sindical que disputou sua primeira eleição presidencial em 1989 chega agora ao quarto mandato, depois de atravessar derrotas eleitorais, crises políticas, prisão, anulação de condenações e sucessivas tentativas de afastamento da vida pública. A história brasileira, vista de Portugal, parece adquirir uma dimensão quase literária.
E a revista encontra uma maneira particularmente interessante de tratar esse aspecto. Nesta mesma edição, Fábio Porchat estreia como colunista da revista com o artigo “O mês mais longo da História”. O humorista transforma outubro de 2026 numa espécie de distorção temporal.
A sucessão de acontecimentos políticos, crises, ameaças institucionais, tentativas de golpe e reviravoltas eleitorais teria produzido um mês que pareceu durar muito mais do que os 31 dias previstos no calendário. Porchat ironiza a dificuldade de acompanhar a velocidade dos acontecimentos e o desgaste provocado pela extrema direita. A fuga de Flávio aparece como mais um episódio de uma realidade política que frequentemente parece superar a ficção.

O texto combina sátira, indignação e alívio. A vitória de Lula surge como uma oportunidade de recuperação democrática, mas também como a possibilidade, ainda incerta, de que o país finalmente atravesse um período menos turbulento. Porchat termina imaginando, numa referência ao humorista Gregório Duvivier, que talvez seja possível viver algum tempo sem que o noticiário brasileiro produza diariamente um novo acontecimento extraordinário. A esperança é compreensível.
Mas a própria fuga de ‘Bolsonaro Jr.’, como o líder da ultradireita é chamado pela imprensa estrangeira, poucos dias depois da eleição, demonstra que a política brasileira ainda não parece disposta a oferecer tranquilidade aos seus observadores.
A revista Visão também publica uma análise de Alexandra Correia sobre a reação dos movimentos de extrema direita à derrota eleitoral. O artigo relaciona os acontecimentos brasileiros à mobilização antifascista e às manifestações em defesa da democracia em diferentes países. A semanal lusitana recorta em sua edição reportagem, memória política, análise e humor, no esforço para construir um retrato do Brasil depois das eleições.
A China olha para o futuro
Enquanto a imprensa europeia e norte-americana acompanha os detalhes da fuga, os jornais chineses dedicam atenção às consequências econômicas da vitória de Lula. O diário South China Morning Post, de Hong Kong, considera que o resultado torna mais previsível o futuro das relações entre Brasília e Pequim. A avaliação parte de um dado fundamental: a China é o maior parceiro comercial do Brasil.
Segundo o jornal, o mercado chinês adquiriu aproximadamente US$ 100 bilhões em produtos brasileiros no ano passado. Trata-se de uma relação que ultrapassa governos, partidos e preferências ideológicas. A reeleição de Lula reforça a expectativa de continuidade dessa parceria, especialmente num momento em que a competição entre Pequim e Washington se intensifica. O interesse chinês não se limita à compra de soja, minério de ferro, petróleo e outros produtos brasileiros. O diário destaca que Lula não excluiu empresas chinesas de projetos de processamento de terras raras e minerais críticos no Brasil.

Essa informação tem significado estratégico. Os minerais críticos estão no centro da disputa internacional por semicondutores, baterias, veículos elétricos, equipamentos de defesa e tecnologias de energia limpa. EUA, China e UE procuram assegurar acesso a esses recursos e ampliar sua capacidade de processamento industrial. O Brasil dispõe de reservas minerais relevantes e pode ocupar uma posição importante nessas cadeias produtivas. Mas a oportunidade não está apenas na exportação de matérias-primas.
O desafio consiste em atrair investimentos para processamento, refino, pesquisa, desenvolvimento tecnológico e fabricação de produtos de maior valor agregado. A continuidade da cooperação com a China pode contribuir para esse objetivo, desde que os investimentos estejam associados à ampliação da capacidade industrial brasileira.
O jornal também identifica perspectivas de avanço em projetos de alta tecnologia. A questão, portanto, não é simplesmente escolher entre Washington e Pequim. O desafio brasileiro é preservar relações comerciais e diplomáticas com EUA e China, aproveitando as oportunidades abertas pela competição entre as duas maiores economias do mundo sem transformar o país em território subordinado aos interesses de qualquer uma delas. É o que, há meses, venho apontando como uma Geopolítica da Reciprocidade.
É hora de mobilizar nossos recursos e nossa posição no mundo para retomar um projeto nacional de desenvolvimento, construído a partir das características do Brasil e de parcerias internacionais capazes de produzir benefícios recíprocos. Essa será uma das tarefas mais delicadas da política externa do novo governo Lula.
Enquanto a família Bolsonaro procura reorganizar sua sobrevivência política a partir de Miami, o Brasil tem diante de si uma oportunidade de redefinir sua presença internacional. A diferença é que o futuro do país não será decidido em Washington ou Pequim, mas pela capacidade de transformar sua importância geopolítica em desenvolvimento, soberania e benefícios concretos para a sociedade brasileira.