9 de janeiro de 2026

A semiótica das palavras no jornalismo oficial pró-Trump na construção do consentimento

O sequestro que Nicolás Maduro e sua esposa Cilia Flores pelo governo dos EUA chefiado por Donald Trump, confirma mais uma vez a tentativa da grande mídia na construção de um consentimento que justifique os absurdos atos praticados por Trump.

André Lobão | Revista Fórum

É captura e não sequestro

O primeiro ponto a ser abordado é como a mídia faz questão de manipular o sentido das palavras e cria versões com claro intuito de manipular a informação para as massas. Um exemplo é como o termo sequestro foi substituído por “captura”. Captura é um termo alusivo para pessoa que é  considerada foragida da Justiça ou  pessoa sob condenação expedida a ser detida para cumprimento de pena, o que não é o caso de Maduro.

Uma denúncia que comprova tal prática foi feita pelo jornalista Owen Jones que teve acesso a um memorando  que proíbe os jornalistas da BBC de afirmarem que os EUA “sequestraram” o presidente Maduro.

É ditador e não presidente

Outra palavra bem usada para se referir a Maduro é “ditador”, termo usado repetidas vezes, por exemplo, em telejornais brasileiros.  O que se sabe é que o presidente da Venezuela cumpre seu terceiro mandato após eleições gerais com voto direto de eleitores do seu país. Trump em seu primeiro ano de mandato tem ordenado prisão e deportação em massa de imigrantes em processo de legalização e também de ilegais de forma sumária sem direito de defesa, violando direitos humanos. Sob suas ordens os EUA têm bombardeado embarcações e apreendido petroleiros, aplicando uma pirataria institucional em todos os mares, como no caso recente do petroleiro de bandeira russa, Marinera.

Narcoterrorismo e cartel de los soles

O termo “narcoterrorismo” está sendo amplamente aplicado pela grande mídia hegemônica para justificar o ataque à Venezuela, sob acusação de vínculo de Maduro com o tráfico internacional de drogas, tese não mais  considerada  pela promotoria de Nova York, onde o presidente venezuelano está mantido sob cativeiro estatal. O próprio Departamento de Justiça dos EUA já afirmou que não existe a organização “Cartel de Los Soles”, um termo que foi amplamente divulgado nos últimos dois meses no noticiário internacional emitido a partir dos EUA.

Para a extrema direita , o tráfico de drogas e seus cartéis são motivos para  possíveis futuras invasões a outros países que não coadunam com a política imperialista de  Washington. Alguém lembra quando Flávio Bolsonaro sugeriu a presença da armada estadunidense na Baía da Guanabara, uma semana antes da chacina do Complexo da Penha e Alemão, comandada pelo governador Cláudio Castro que matou mais de 120 pessoas?

Desta forma se cria a construção de um consentimento, manipulando palavras, signos, dando sentido a um objetivo claro de destruir reputações,  e criar um contexto que não tem o objetivo de sugerir qualquer reflexão em quem consome a notícia. O objetivo real  é que tudo seja replicado e forme um consenso uníssono de uma verdade pré-estabelecida e irreversível, que não é sempre verdadeira.