
O sequestro que Nicolás Maduro e sua esposa Cilia Flores pelo governo dos EUA chefiado por Donald Trump, confirma mais uma vez a tentativa da grande mídia na construção de um consentimento que justifique os absurdos atos praticados por Trump.
André Lobão | Revista Fórum
É captura e não sequestro
O primeiro ponto a ser abordado é como a mídia faz questão de manipular o sentido das palavras e cria versões com claro intuito de manipular a informação para as massas. Um exemplo é como o termo sequestro foi substituído por “captura”. Captura é um termo alusivo para pessoa que é considerada foragida da Justiça ou pessoa sob condenação expedida a ser detida para cumprimento de pena, o que não é o caso de Maduro.
Uma denúncia que comprova tal prática foi feita pelo jornalista Owen Jones que teve acesso a um memorando que proíbe os jornalistas da BBC de afirmarem que os EUA “sequestraram” o presidente Maduro.
É ditador e não presidente
Outra palavra bem usada para se referir a Maduro é “ditador”, termo usado repetidas vezes, por exemplo, em telejornais brasileiros. O que se sabe é que o presidente da Venezuela cumpre seu terceiro mandato após eleições gerais com voto direto de eleitores do seu país. Trump em seu primeiro ano de mandato tem ordenado prisão e deportação em massa de imigrantes em processo de legalização e também de ilegais de forma sumária sem direito de defesa, violando direitos humanos. Sob suas ordens os EUA têm bombardeado embarcações e apreendido petroleiros, aplicando uma pirataria institucional em todos os mares, como no caso recente do petroleiro de bandeira russa, Marinera.
Narcoterrorismo e cartel de los soles
O termo “narcoterrorismo” está sendo amplamente aplicado pela grande mídia hegemônica para justificar o ataque à Venezuela, sob acusação de vínculo de Maduro com o tráfico internacional de drogas, tese não mais considerada pela promotoria de Nova York, onde o presidente venezuelano está mantido sob cativeiro estatal. O próprio Departamento de Justiça dos EUA já afirmou que não existe a organização “Cartel de Los Soles”, um termo que foi amplamente divulgado nos últimos dois meses no noticiário internacional emitido a partir dos EUA.
Para a extrema direita , o tráfico de drogas e seus cartéis são motivos para possíveis futuras invasões a outros países que não coadunam com a política imperialista de Washington. Alguém lembra quando Flávio Bolsonaro sugeriu a presença da armada estadunidense na Baía da Guanabara, uma semana antes da chacina do Complexo da Penha e Alemão, comandada pelo governador Cláudio Castro que matou mais de 120 pessoas?
Desta forma se cria a construção de um consentimento, manipulando palavras, signos, dando sentido a um objetivo claro de destruir reputações, e criar um contexto que não tem o objetivo de sugerir qualquer reflexão em quem consome a notícia. O objetivo real é que tudo seja replicado e forme um consenso uníssono de uma verdade pré-estabelecida e irreversível, que não é sempre verdadeira.