17 de janeiro de 2026

Venezuela em Foco #9: A humilhação rastejante e a glória eterna

No mesmo dia em que María Corina Machado se reuniu com Donald Trump em um encontro descrito pela imprensa internacional como humilhante, realizado a portas fechadas e sem pronunciamento conjunto, como é de praxe nas visitas públicas à Casa Branca, Cuba prestava homenagem aos 32 combatentes da ilha socialista mortos no atentado dos Estados Unidos contra a Venezuela. Na reunião com Trump, Corina entregou a honraria recebida em nome do Prêmio Nobel da Paz, gesto interpretado como submissão política, sem qualquer sinal público de reciprocidade diplomática. Ao contrário, desde que sequestrou Maduro, Trump, em sua pretensiosa condição de liderança imperialista, sequer cogitou apoiar Corina para o comando da Venezuela. 

Enquanto isso, em Caracas, a presidente interina Delcy Rodríguez convocou um minuto de aplausos em memória dos cubanos assassinados no ataque contra seu país e, no mesmo discurso, afirmou que, se tiver de ir a Washington, o fará de pé, e não rastejando — uma referência direta ao encontro vexatório de Corina com o presidente norte-americano. O contraste entre as duas cenas, quase simultâneas, expôs de forma crua as distintas posturas diante do poder imperial: de um lado, a reverência silenciosa; de outro, a afirmação pública de dignidade e soberania.

Apesar desse cenário de tensões abertas, a relação entre Venezuela e Estados Unidos parece atravessar um momento de relativa distensão no plano formal. Desde a conversa entre Trump e Delcy Rodríguez, sinais de retomada diplomática começaram a emergir. Segundo o New York Times, a presidente interina recebeu o diretor da CIA, gesto interpretado como parte de um processo cauteloso de reaproximação entre os dois governos.

As hostilidades, no entanto, não cessaram. Elas apenas mudaram de forma. Enquanto avançam as negociações diplomáticas, seguem as ações de pressão no terreno. Nesta semana, um novo navio petroleiro venezuelano foi apreendido por forças norte-americanas no Mar do Caribe, o quarto desde o sequestro do presidente Nicolás Maduro, evidenciando que o cerco econômico permanece ativo.

Nesse contexto, a primeira venda de petróleo venezuelano aos Estados Unidos desde os ataques e invasões ocorridos há quase duas semanas foi realizada com uma empresa cujo principal negociador do setor é um financiador direto da campanha de reeleição de Donald Trump. John Addison, comerciante sênior da Vitol, doou cerca de 6 milhões de dólares a comitês de ação política alinhados ao presidente norte-americano e participou, na semana passada, de uma reunião na Casa Branca. Ele esteve diretamente envolvido na negociação de um acordo estimado em 250 milhões de dólares para a compra de petróleo venezuelano.

Entre gestos de submissão e afirmações de soberania, homenagens aos mortos e negociações bilionárias, o tabuleiro se reorganiza. A glória evocada nos aplausos de Caracas contrasta com a humilhação silenciosa dos salões fechados de Washington, revelando que, na disputa em curso, não está em jogo apenas petróleo ou diplomacia, mas a própria noção de dignidade política.

Para saber mais: 

Artigo – Protagonistas de um processo revolucionário