21 de maio de 2026

Como transformar grupos digitais em comunidades com propósito

A quinta oficina do Ciclo do Barão — O Movimento Sindical na Disputa Eleitoral de 2026 tratou de um tema decisivo para a comunicação sindical neste ano: como transformar grupos digitais em comunidades com propósito, capazes de organizar, mobilizar, escutar e engajar trabalhadores, militantes e apoiadores para além do simples disparo de mensagens.

Por Carlos Tibúrcio/ Fórum 21

A atividade teve abertura e coordenação de Rita Casaro. A exposição, originalmente prevista para ser conduzida por Camila Modanez, ficou a cargo de Victor Melo, que a substituiu em razão de um impedimento de força maior. Rita apresentou Victor como estrategista de presença e mobilização digital, com experiência em mais de 40 campanhas eleitorais, sindicais e de movimentos sociais desde 2018, destacando sua capacidade de articular mobilização, inteligência de dados e organização política.

Logo na abertura, Rita situou o tema no conjunto do Ciclo. Depois das oficinas sobre conjuntura política, desinformação, inteligência artificial e redes sociais, a questão das comunidades digitais apareceu como um passo necessário: não basta emitir mensagens aleatórias pelo WhatsApp sem saber a quem chegam, que efeito produzem ou se geram algum tipo de vínculo. O desafio, especialmente para o movimento sindical, é construir comunidades reais com a base.

Victor iniciou sua fala lembrando a importância de Camila Modanez no campo da mobilização digital e do WhatsApp, e explicou que sua contribuição buscaria oferecer uma visão prática sobre como criar, fortalecer e sustentar grupos digitais. A preocupação central da oficina foi evitar um problema comum: grupos criados para campanhas, pautas ou ações específicas que rapidamente morrem, viram depósitos de links ou deixam de cumprir qualquer função política.

Comunidade não é audiência

Um dos pontos mais importantes da exposição foi a distinção entre audiênciarede e comunidade.

A audiência, explicou Victor, é formada por pessoas que recebem conteúdo de forma passiva. É o caso de seguidores nas redes sociais que podem curtir ou comentar, mas não necessariamente se conectam entre si nem compartilham um objetivo comum. A rede já envolve algum nível de conexão entre pessoas, mas ainda pode ser difusa, sem propósito claro. A comunidade, por sua vez, exige participação ativa, vínculo contínuo, identidade compartilhada e objetivo comum.

Essa diferença é central para o movimento sindical. Um sindicato pode ter milhares de seguidores, listas extensas de contatos e dezenas de grupos. Mas isso, por si só, não significa que tenha uma comunidade organizada. Para que exista comunidade, é preciso que as pessoas saibam por que estão ali, o que podem fazer, como podem participar e qual é o propósito coletivo daquele espaço.

Victor insistiu que grupos digitais não devem ser tratados como “panfletagem digital”. Distribuir cards, links e vídeos sem abordagem, sem escuta e sem organização equivale a jogar material dentro de um espaço sem construir relação. A tarefa, segundo ele, é transferir para o ambiente digital a inteligência que o campo popular já desenvolveu historicamente na organização presencial: abordar, conversar, convencer, acolher, pegar contato, chamar para reunião, dar tarefa e acompanhar.

Propósito, regras e moderação

Para Victor, uma comunidade digital se sustenta sobre três elementos fundamentais: interaçãocoesão e estrutura.

Interação significa criar debates, tirar dúvidas, pedir relatos, formular perguntas e convidar as pessoas a participar. Coesão significa construir sentimento de pertencimento e identidade comum. Estrutura significa ter regras claras, moderação, papéis definidos e uma orientação política explícita.

A crítica aos grupos que viram “chuva de posts e links” apareceu várias vezes. Quando ninguém contextualiza o que envia, quando não há debate, quando os mesmos poucos participantes monopolizam a conversa e quando não há regra sobre o funcionamento do grupo, a tendência é que a maioria das pessoas silencie, arquive ou abandone mentalmente aquele espaço.

Victor defendeu que um grupo com propósito precisa ter regras simples e aplicadas com cuidado. Se alguém posta quinze links seguidos, por exemplo, a orientação não deve ser simplesmente expulsar ou constranger publicamente. É possível chamar no privado, explicar o sentido do grupo, pedir que a pessoa contextualize o que compartilha e transformar esse comportamento em aprendizado coletivo.

Esse ponto é importante porque a moderação não deve ser vista apenas como controle. Ela é parte da construção de vínculo. Um grupo bem cuidado comunica seriedade, respeito ao tempo das pessoas e compromisso com um objetivo comum.

Do grupo morto ao grupo vivo

Na parte prática, Victor propôs que sindicatos avaliem seus grupos atuais a partir de algumas perguntas simples: as pessoas interagem entre si ou apenas recebem mensagens? O grupo tem propósito claro? Existem regras? Há moderação? Quem são as lideranças digitais? Há devolutiva das ações feitas? O grupo serve apenas para informar ou também para organizar?

Ele também apresentou um exemplo prático de construção de grupo de WhatsApp a partir de uma mobilização política. Durante a própria oficina, mostrou um grupo chamado “Time do Lula em São Paulo”, organizado em torno de uma pauta de mobilização, com apresentação, regras, objetivo definido e missões iniciais. O grupo reunia dezenas de participantes em poucas horas, e o exemplo serviu para mostrar como uma comunidade pode nascer já com identidade, propósito e ação.

A recomendação de Victor foi clara: grupos muito grandes tendem a ser difíceis de administrar. Embora o WhatsApp permita grupos com grande número de participantes, ele sugeriu, como referência, grupos menores, de até cerca de 100 pessoas, para manter discussões funcionais e mais qualificadas. Grupos menores facilitam o acolhimento, a moderação, a identificação de lideranças e a execução de tarefas.

Também foi proposta uma segmentação por públicos. Para sindicatos, Victor indicou pelo menos três níveis possíveis: grupos de filiados, grupos da categoria mais ampla e grupos voltados à base social ou a campanhas de interesse público. Cada um desses espaços deve ter linguagem, propósito e tipo de conteúdo adequados.

Um grupo de filiados pode aproximar a base da vida sindical. Um grupo da categoria pode ajudar a atrair novos associados e debater problemas concretos do trabalho. Um grupo mais amplo pode servir para campanhas políticas, projetos de lei, abaixo-assinados ou pautas nacionais como o fim da escala 6×1.

WhatsApp para massividade, Telegram para vanguarda

Outro bloco da oficina tratou da escolha das plataformas. Victor ressaltou que o WhatsApp segue sendo o principal ambiente de comunicação cotidiana da maioria da população brasileira. Por isso, é a ferramenta mais adequada para organizar bases amplas, dialogar com trabalhadores e criar comunidades de massa.

Mas o Telegram também pode cumprir papel estratégico, especialmente para organizar grupos mais engajados, lideranças digitais, moderadores e pessoas dispostas a executar tarefas com mais frequência. Segundo Victor, o Telegram permite mais automações e pode ser útil para estruturar uma vanguarda digital, enquanto o WhatsApp funciona melhor para a base ampla.

Essa combinação permite trabalhar com camadas: uma base maior, no WhatsApp, e grupos menores e mais qualificados, no Telegram ou em outros espaços, para coordenação de tarefas, distribuição de conteúdos, acompanhamento de campanhas e organização de ações digitais.

Victor também lembrou que plataformas digitais pertencem a grandes empresas que não têm compromisso com o movimento social. Contas podem ser bloqueadas, algoritmos podem mudar, conteúdos podem deixar de ser entregues. Por isso, construir comunidades próprias, com bases de dados organizadas e canais diretos de relacionamento, é uma forma de reduzir a dependência das redes abertas.

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A lição da extrema-direita

A oficina também analisou a forma como o bolsonarismo construiu redes de mobilização digital. Victor destacou que a extrema-direita não começou necessariamente criando grupos explicitamente eleitorais ou partidários. Muitas vezes, partiu de temas sensíveis — segurança pública, família, direitos dos animais, pautas morais, demandas locais — para atrair pessoas, identificar quem mais interagia e, depois, conduzir os mais engajados para grupos mais ideológicos e operacionais.

Essa lógica de camadas permitiu à extrema-direita mapear engajadores, aproximar lideranças, criar vínculos e distribuir missões. O alerta de Victor foi que o campo democrático não deve copiar o conteúdo, a mentira ou os métodos antiéticos da extrema-direita, mas precisa compreender sua estrutura de organização para construir redes próprias, com valores democráticos e objetivos claros.

A conclusão é direta: grupos digitais não podem ser improvisados. Eles precisam de estratégia, moderação, método, linguagem e continuidade.

Missões, devolutivas e reconhecimento

Para manter uma comunidade viva, Victor propôs algumas práticas simples: acolher novos participantes, pedir que se apresentem, fazer perguntas, promover enquetes, abrir momentos de escuta, propor missões coletivas e reconhecer quem participa.

As “missões” são tarefas objetivas: comentar uma publicação, compartilhar um vídeo, assinar uma petição, convidar pessoas para o grupo, participar de uma reunião virtual, pressionar um parlamentar, divulgar uma atividade ou responder a uma consulta. Mas a missão só fortalece a comunidade se houver devolutiva.

Se o grupo ajudou a pressionar um deputado, é preciso mostrar o resultado. Se ajudou a divulgar uma campanha, é preciso dizer quantas pessoas foram alcançadas. Se uma pessoa trouxe novos participantes, é importante reconhecer sua contribuição. Esses gestos reforçam a sensação de pertencimento e mostram que o grupo não é apenas um canal de recebimento de mensagens, mas um espaço de ação coletiva.

Victor também diferenciou métricas de vaidade de métricas reais. Ter muitos participantes não significa ter comunidade saudável. Mais importante é saber quem participa, quem responde a missões, quais temas mobilizam, quais pessoas assumem liderança, quantas interações qualificadas acontecem e que efeitos concretos o grupo produz.

Debate trouxe soberania digital, campanhas, FATOflix

No debate, Tadeu Xavier levantou a questão da soberania digital e questionou a dependência de plataformas controladas por empresas dos Estados Unidos, sugerindo reflexão sobre alternativas, inclusive ligadas a países dos BRICS. Victor reconheceu a relevância do tema, mas apontou as dificuldades práticas de criar ferramentas próprias com escala, usabilidade e adesão suficientes no curto prazo. Ainda assim, a provocação reforçou a necessidade de discutir autonomia tecnológica no campo popular.

Sérgio Corrêa Vaz trouxe uma preocupação com a dimensão eleitoral regional. Lembrou que, além da disputa presidencial, haverá eleições para governador, senador, deputado federal, deputado estadual e outros cargos, e defendeu a criação de comunidades digitais voltadas também para disputas estaduais. Citou São Paulo e a importância de organizar grupos capazes de enfrentar Tarcísio de Freitas, inclusive relacionando pautas como a escala 6×1 ao debate estadual. No chat, Sérgio reforçou que a pauta da escala 6×1 é estratégica tanto para presidente quanto para governador.

Carlos Tibúrcio destacou que o Ciclo do Barão reuniu uma amostra significativa de sindicatos, dirigentes e lideranças, mas que sua continuidade deve alcançar um número muito maior de entidades até as eleições. A partir disso, pediu sugestões para organizar duas frentes: uma campanha para ampliar o alcance do próprio Ciclo no mundo sindical e outra para desenvolver a comunidade da FATOflix, plataforma gratuita de streaming que busca fortalecer sua base e suas parcerias.

Na resposta, Victor sugeriu que sindicatos e iniciativas como a FATOflix usem campanhas com propósito claro, petições online, formulários, debates virtuais, grupos segmentados e ações que conectem a entidade com comunidades reais. Para ele, a construção de comunidade digital deve partir de uma pergunta concreta: qual pauta mobiliza as pessoas a entrar, permanecer e agir?

Rita, ao final, agradeceu a exposição e sugeriu que o tema merece um segundo momento ainda mais prático, voltado à aplicação direta das estratégias em campanhas reais de sindicatos e entidades, inclusive a possibilidade de uma oficina prática futura sobre montagem e gestão de campanhas digitais para sindicatos.

Comunicação como relacionamento, não apenas envio

A quinta oficina deixou uma mensagem central: WhatsApp, Telegram e grupos digitais devem ser tratados como espaços de relacionamento, e não apenas como canais de transmissão.

Para o movimento sindical, isso implica uma mudança importante. Não basta ter listas, grupos e contatos. É preciso saber quem está ali, qual é o propósito daquele espaço, quem modera, que regras existem, que tarefas são propostas, que resultados são devolvidos e como as pessoas são reconhecidas.

Se a oficina de Larissa Gold mostrou como atuar nas redes sociais em meio a algoritmos e plataformas adversas, a oficina de Victor Melo aprofundou o passo seguinte: como transformar circulação em organização, contato em vínculo e engajamento em força política.

O Ciclo do Barão caminha, assim, para sua 6ª e última oficina  – mas terá continuidade sob outras formas –, reforçando uma ideia que atravessou todos os encontros: a disputa eleitoral de 2026 não será vencida apenas com boas mensagens, mas com estrutura, método, formação, presença digital, vínculo com a base e capacidade de organização.

A 6ª oficina, nesta 5ª feira, 21/05, das 19h às 21h, sobre o papel da cultura — especialmente do audiovisual — na disputa de ideias e valores, com exposições de Carlos Tibúrcio, Joanne Mota e Célio Turino, fechará esse percurso articulando comunicação, política, redes, comunidades e imaginário. Até aqui, a conclusão é clara: a comunicação sindical precisa ir além de falar para a base, passando a construir comunidades capazes de agir com ela.

Programação do Ciclo

05/05 3af 19h: OFICINA 1

O movimento sindical e a disputa eleitoral de 2026
Situar o papel do movimento sindical no atual cenário político e eleitoral, destacando sua responsabilidade na defesa da democracia e dos direitos sociais; como a pauta dos trabalhadores estará presente na disputa.
Condução temática: Altamiro Borges

07/05 5ª f 19h: OFICINA 2

Desinformação: como identificar e como agir
O que é desinformação e por que ela funciona; padrões recorrentes de ataque ao sindicalismo; quando e como responder.
Condução temática: Ergon Cugler

12/05 3af 19h: OFICINA 3

Inteligência artificial: como usar e como não ser enganado
Apresentar ferramentas e utilizações possíveis da inteligência artificial na comunicação sindical e capacitar para a identificação de seu uso indevido.
Condução temática: Vanessa Martina-Silva

14/05 5af 19h: OFICINA 4

O eterno desafio: como atuar nas redes
Qualificar a atuação sindical nas redes sociais: como ter relevância apesar do viés antissindical dos algoritmos.
Condução temática: Larissa Gould

19/05 3af 19h: OFICINA 5

Comunidades digitais com propósito
Como construir e fortalecer vínculos com a base utilizando ferramentas digitais.
Condução temática: Camila Modanez

21/05 5af 19h: OFICINA 6

O papel da Cultura – em especial do audiovisual – na disputa de ideias e valores

Filmes, documentários, podcasts, cursos, plataformas de streaming: conteúdos para a disputa de ideias e valores – como usar linguagem audiovisual para fortalecer vínculos.

Condução temática: Carlos Tibúrcio, com Joanne Mota e Célio Turino