13 de outubro de 2026

Das ruas ao algoritmo: a juventude reinventa a política

Milhares de estudantes participam de manifestação em apoio à reeleição do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, no centro do Rio de Janeiro | Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Uma geração que marcha por educação pública, direitos sociais e democracia também se organiza, debate e conquista projeção nas redes sociais

Fernando Baggio | Sul21

As ruas continuam sendo um lugar de formação política. Mas já não são os únicos. O percurso entre o ato de rua e a câmera frontal do celular ajuda a compreender uma das transformações da política brasileira em 2026: novos comunicadores chegam ao Congresso, enquanto lideranças históricas aprendem a dialogar em formatos que cabem em poucos segundos.

No Rio Grande do Sul, essa história não começa com o TikTok. Fernanda Melchionna e Manuela D’Ávila pertencem a uma geração cuja experiência política se constituiu no movimento estudantil da virada dos anos 1990 para os 2000. Fernanda participou de mobilizações contra privatizações ainda adolescente e, depois, da organização estudantil na UFRGS. Manuela iniciou sua militância estudantil em 1999, passou pelas entidades universitárias e pela União Nacional dos Estudantes. Foram trajetórias construídas em assembleias, panfletagens, marchas e debates coletivos — antes de a lógica do feed organizar a atenção cotidiana.

A internet não substituiu essa formação. Fernanda e Manuela levaram para as plataformas uma prática anterior de mobilização, associada também a pautas de educação, direitos das mulheres, defesa ambiental e solidariedade com lutas populares. Manuela esteve entre as políticas que perceberam cedo o potencial das redes; Fernanda integrou a comunicação digital à atuação parlamentar e à militância de rua. A presença online não nasceu isolada da sociedade: prolongou relações políticas construídas fora dela.

Matheus Gomes e Karen Santos, por sua vez, expressam outra etapa dessa continuidade gaúcha. Suas trajetórias se vinculam aos movimentos negro e popular, às periferias, à defesa dos serviços públicos e à organização coletiva. Também transformaram o celular em ferramenta de denúncia, prestação de contas e diálogo. Não se trata de trocar a rua pela internet. Trata-se de transitar continuamente entre ambas, fazendo com que um problema vivido em um bairro, em uma ocupação ou em uma manifestação alcance públicos antes distantes daquela realidade.

Esse processo não está restrito ao Brasil. Em diferentes países, jovens se mobilizam de maneira orgânica contra cortes na educação, precarização do trabalho, privatizações e restrições de direitos. Cada movimento nasce de sua conjuntura, mas muitas reivindicações se parecem porque enfrentam pressões econômicas que atravessam fronteiras. As redes permitem que protestos distantes se acompanhem em tempo real, compartilhem repertórios e percebam afinidades. Se decisões econômicas e interesses empresariais operam em escala transnacional, a solidariedade entre movimentos sociais também pode ultrapassar os limites nacionais.

A conexão global, contudo, se dá em plataformas comerciais. O que chega a cada usuário depende de algoritmos pouco transparentes, publicidade paga, estratégias de engajamento e decisões privadas sobre visibilidade. A mesma tecnologia que aproxima causas pode fragmentar debates e premiar mensagens simplificadas. A juventude aprende a se comunicar nesse terreno desigual, não necessariamente a aceitá-lo como inevitável.

A direita brasileira desenvolveu, sobretudo no ciclo político que atravessou as manifestações de 2013, o impeachment de Dilma Rousseff em 2016 e os anos seguintes, uma capacidade expressiva de converter visibilidade digital em poder institucional. Na leitura crítica que identifica naquele impeachment um golpe parlamentar, esse período também marcou a apropriação de parte da insatisfação popular por organizações e comunicadores conservadores. Mas as jornadas de 2013 foram diversas e não se reduziram ao destino político que determinados atores lhes deram posteriormente.

Em 2026, aparece com mais nitidez outra trajetória: a de figuras identificadas com a esquerda cuja projeção pública foi construída sobretudo nas redes, antes de um mandato parlamentar. Ana Elisa, eleita deputada federal pelo PT de Minas Gerais aos 21 anos, ganhou audiência falando de racismo, feminismo, educação e direitos sociais. Jones Manoel, eleito pelo PSOL de Pernambuco, transformou aulas, análises históricas e debate político em comunicação de grande alcance. São caminhos diferentes dos percorridos por Fernanda e Manuela. Não começam necessariamente pela mesma rotina de diretórios estudantis e atos presenciais, mas não estão desligados das questões públicas do país.

Isso não significa que novos influenciadores sejam alheios às ruas: Jones também tem trajetória de educação popular e ativismo comunitário, assim como a atuação de Ana Elisa não se esgota na tela. A novidade está em outra ordem de construção da visibilidade. Antes, a militância e o mandato costumavam preceder a audiência digital. Agora, a audiência pode vir primeiro e abrir caminho para a representação institucional. A disputa que nasceu nas redes chega às tribunas do Congresso, onde cada pronunciamento se multiplica em milhares de telas e amplia o debate sobre os rumos do Brasil.

O segundo turno presidencial de outubro de 2026 tornou essa mudança quase palpável. Jovens parlamentares e comunicadores passaram a cobrar da campanha de Lula uma presença digital menos solene, mais direta e voltada também às propostas para o futuro. Ana Elisa foi chamada a colaborar com essa estratégia; Jones Manoel manifestou interesse em contribuir com a comunicação da campanha. Não são os únicos participantes, nem seria correto atribuir a qualquer um deles, isoladamente, a autoria da mudança.

Mas a imagem fala por si: Lula, político formado nas assembleias sindicais e nos comícios de massa, passou a segurar o próprio telefone e gravar vídeos verticais em linguagem coloquial, inclusive ao lado de jovens eleitos. Em 7 de outubro publicou gravações nesse formato; um de seus primeiros vídeos ultrapassou 23 milhões de visualizações em cerca de um dia, segundo a imprensa. Visualização não é voto nem adesão automática, mas revela a escala possível dessa nova forma de circulação.

O dirigente acostumado a discursos longos experimenta condensar uma mensagem em cerca de um minuto. O palanque cabe na palma da mão. O comício não desapareceu, assim como os carros adesivados e os panfletos não desapareceram. Mas o adesivo agora também é post, o cartaz vira story, o pronunciamento torna-se vídeo compartilhado e o ato público continua depois que a multidão se dispersa.

A metáfora talvez seja esta: jovens comunicadores começaram a disputar as rédeas do celular de Lula. Não para apagar sua história, mas para aproximar a experiência de quem aprendeu a fazer política diante de multidões da linguagem de quem passa parte do dia diante de uma tela. A relação entre gerações deixa de ser uma aula em sentido único: as lideranças históricas ensinam sobre organização coletiva, enquanto a juventude mostra outros modos de falar e de escutar.

Há um desafio democrático nessa reinvenção. A velocidade de um vídeo não garante qualidade da informação, e a audiência de uma plataforma não substitui compromisso público. O que importa é fazer a comunicação circular sem empobrecer as ideias, ampliar a participação sem reduzir a política a espetáculo e manter abertas as pontes entre a ação coletiva e a vida digital. Das ruas ao algoritmo — e do algoritmo de volta às ruas — a juventude não abandona a política: transforma suas linguagens.

*Fernando Baggio é indigenista, servidor da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) desde 2010 e mestre em Dinâmicas Regionais e Desenvolvimento pela UFRGS.