
A segunda oficina do Ciclo do Barão reuniu, na noite de quinta-feira, 7 de maio, dirigentes sindicais, comunicadores, jornalistas e militantes sociais para discutir um dos temas mais decisivos das batalhas políticas e de comunicação deste ano: desinformação, fake news e formas de enfrentamento.
Por Carlos Tibúrcio| Fórum 21
A atividade, organizada pelo Centro de Estudos da Mídia Barão de Itararé, teve abertura e coordenação de Rita Casaro e exposição do pesquisador e ativista Ergon Cugler, que apresentou a oficina “Desinformação: como identificar e como agir”. O encontro deu continuidade ao ciclo iniciado com Altamiro Borges, o Miro, e aprofundou uma dimensão prática da disputa democrática: como reconhecer, enfrentar e responder à mentira organizada que circula nas redes, nos aplicativos de mensagens e nas comunidades digitais.
Na abertura, Rita apresentou Ergon como um jovem pesquisador e ativista que combina produção de conhecimento, pesquisa qualificada e militância pela democratização da comunicação e pela democracia. Ela também reforçou a dinâmica do Ciclo: exposição inicial, perguntas, comentários e construção coletiva a partir das experiências concretas dos participantes.
Ergon iniciou sua fala lembrando sua relação com o Barão de Itararé e destacando o papel da entidade como espaço de acolhimento do movimento sindical, da luta pela democratização da comunicação, de jovens pesquisadores e de diferentes setores dos movimentos sociais. Pesquisador nas áreas de desinformação, fake news e inteligência artificial, ele explicou que sua abordagem combina reflexão crítica sobre o ambiente digital com conhecimento técnico em ciência de dados e políticas públicas.

Logo no início, Ergon chamou atenção para uma mudança de escala no problema da manipulação de conteúdo. Antes, produzir imagens falsas ou montagens convincentes exigia domínio de ferramentas como Photoshop. Hoje, com a popularização da inteligência artificial generativa, qualquer pessoa pode criar imagens, áudios, vídeos e textos manipulados com poucos comandos. O problema, alertou, não está apenas nas mentiras grosseiras, mas também nas pequenas adulterações de conteúdos verdadeiros, capazes de mudar completamente seu sentido.
Um dos pontos centrais da exposição foi a distinção entre boato comum e desinformação com “D maiúsculo”. Segundo Ergon, desinformação não é apenas uma informação falsa. É uma informação falsa ou retirada de contexto, produzida ou disseminada com o objetivo específico de desinformar. Essa diferença é decisiva porque mostra que a fake news não nasce apenas da ignorância ou do erro individual: muitas vezes há estrutura, financiamento, interesse político, ganho econômico e operação organizada por trás da mentira.
A partir daí, Ergon organizou sua exposição em três grandes dimensões: como a desinformação afeta a política, como afeta as políticas públicas e como afeta a vida concreta das pessoas. No campo político, citou casos como a Cambridge Analytica, a manipulação de dados e a comunicação individualizada nas redes sociais. O alerta foi claro: as plataformas digitais permitiram que a propaganda deixasse de ser apenas uma mensagem para muitos e passasse a ser uma mensagem personalizada, dirigida a cada pessoa conforme seus gostos, medos, hábitos e vulnerabilidades.
Com a inteligência artificial, esse cenário se torna ainda mais grave. Ergon explicou que as fake news podem operar por pelo menos quatro caminhos: produção de textos mais persuasivos com IA, manipulação audiovisual por vídeos e áudios falsos, uso de robôs e sistemas automatizados para identificar palavras-chave e atrair pessoas para grupos fechados, e ação dos próprios algoritmos das plataformas, que tendem a impulsionar conteúdos que geram choque, medo, indignação e maior tempo de permanência nas redes.
Ao tratar dos impactos nas políticas públicas, Ergon relembrou a pandemia de Covid-19 e a campanha contra as vacinas. A queda da cobertura vacinal, segundo sua análise, não foi efeito colateral de um debate abstrato, mas consequência concreta de uma ação política e comunicacional. A desinformação sobre vacinas abriu espaço para teorias conspiratórias, venda de produtos falsos, “detox vacinal”, dióxido de cloro, carteiras de vacinação falsas e toda uma economia paralela baseada no medo e na fraude.
A oficina mostrou que a desinformação funciona como uma cadeia: alguém cria uma mentira; essa mentira gera pânico; o pânico cria demanda por uma falsa solução; e a falsa solução vira mercado. Ergon citou exemplos na área da saúde, como falsas curas para autismo, diabetes, parasitas, vacinas e outros temas sensíveis. O objetivo era evidenciar que a mentira organizada não é apenas discurso: ela movimenta dinheiro, produz danos sociais e pode colocar vidas em risco.
Outro eixo importante foi o papel das comunidades digitais. Ergon apresentou dados sobre grupos de teorias da conspiração no Telegram e apontou que milhões de brasileiros participam de comunidades desse tipo, com dezenas de milhões de postagens. Segundo o resumo da oficina, ele destacou a existência de mais de 2 milhões de brasileiros em comunidades abertas de teorias da conspiração no Telegram e cerca de 33 milhões de posts nesses espaços.
Essas comunidades, explicou, não funcionam apenas como espaços de circulação de conteúdo falso. Elas constroem pertencimento, afeto, identidade e vínculo. Pessoas isoladas ou ressentidas entram em grupos onde recebem atenção, aprovação e reconhecimento. Assim, passam a acreditar não apenas em uma informação falsa, mas em uma comunidade que valida aquela visão de mundo. Esse ponto foi um dos mais fortes da exposição: combater fake news não é apenas corrigir dados, é disputar vínculos.
A partir de sua pesquisa com agentes comunitários de saúde, Ergon apresentou uma reflexão especialmente importante para o movimento sindical. Ele explicou que argumentos racionais, embora necessários, nem sempre funcionam com pessoas já capturadas por narrativas negacionistas ou conspiratórias. A ameaça ou a coerção também podem ter efeito limitado e, às vezes, gerar reação contrária. O que se mostrou mais potente, segundo as entrevistas feitas por ele, foi o vínculo: a confiança construída ao longo do tempo entre quem comunica e quem recebe a mensagem.
Essa conclusão dialoga diretamente com o desafio sindical. Sindicatos não podem enfrentar a desinformação apenas com notas oficiais, cards ou respostas pontuais. Precisam reconstruir relações de confiança com suas bases, estar presentes nos locais de trabalho, nas redes, nos grupos de WhatsApp, nas comunidades digitais e nos espaços cotidianos onde os trabalhadores conversam, se informam e formam opinião.
Ergon também apresentou dicas práticas para identificar e lidar com desinformação: desconfiar do impulso de compartilhar, não ler apenas o título, verificar data, fonte e contexto, procurar confirmação em outras fontes, consultar agências de checagem, denunciar conteúdos falsos nas plataformas e registrar boletim de ocorrência em casos de crime. Ele também disponibilizou materiais gratuitos sobre educação midiática e letramento digital, reforçando que formação é fundamental, embora não seja uma “bala de prata”.
DEBATE
Após a exposição, Rita abriu o debate destacando que, para o movimento sindical, a construção de vínculo com as bases é um aspecto essencial. Segundo ela, esse tema seguirá aparecendo no Ciclo, especialmente na oficina sobre comunidades digitais com propósito.
As intervenções dos participantes trouxeram questões práticas e estratégicas. Tadeu Xavier, do Sindipetro NF, levantou preocupações sobre robôs, algoritmos e educação como antídoto contra a desinformação. Sua intervenção dialogou com a necessidade de compreender os mecanismos técnicos que operam por trás das fake news e de fortalecer processos formativos capazes de preparar trabalhadores e ativistas para lidar com esse ambiente.
Paula Bortolini problematizou o uso do vínculo. Sua preocupação foi importante: se o vínculo é capaz de convencer pessoas em termos mais imediatos, como ele funciona a maior prazo? A pergunta colocou em debate o desafio ético da comunicação: como construir confiança sem substituir a mentira da extrema-direita por formas de persuasão que não conseguem superar a manipulação. A resposta sugerida pelo debate apontou para a necessidade de combinar vínculo, responsabilidade, transparência, checagem e compromisso democrático.
Valdemir Souza, do Sintracomsaj, de Santo Antônio de Jesus, na Bahia, trouxe a realidade de muitas entidades sindicais: a dificuldade de contar com profissionais habilitados para atuar nas redes, desmontar fake news, dialogar com associados e responder com rapidez a ataques que circulam em ambientes digitais. Sua fala reforçou uma questão central: sem estrutura, equipe, formação e planejamento, o enfrentamento à desinformação fica improvisado e insuficiente.
Carlos Tibúrcio, do Fórum 21, FATOflix e da coordenação do Barão, parabenizou Ergon por combinar conteúdo teórico, experiência prática e ferramentas de ação. Sua pergunta apontou para a necessidade de um plano sistemático para as diretorias sindicais: o que fazer nos próximos meses, em curto, médio e longo prazo, para preparar as categorias e enfrentar a desinformação de forma permanente, não apenas durante o período eleitoral.
Morgan Dantas, do Sindicato dos Bancários da Bahia, chamou atenção para a complexidade da comunicação atual, especialmente no meio acadêmico e nas redes sociais. Segundo o resumo da oficina, sua intervenção destacou como informações podem ser mal interpretadas, usadas contra o próprio governo Lula e potencializadas pela inteligência artificial no ambiente eleitoral.
Sérgio Vaz defendeu uma abordagem respeitosa no enfrentamento às fake news. Em vez de partir para a demolição da pessoa que acredita em uma mentira, sugeriu perguntar, dialogar, pedir fontes e construir caminhos de contestação. Sua fala reforçou a ideia de que o enfrentamento à desinformação precisa combinar firmeza política com capacidade de escuta e disputa de valores como democracia, justiça e equidade.
Cláudio Mota, jornalista da CTB Bahia, trouxe uma preocupação estratégica: a esquerda e o movimento popular estão em desvantagem na “guerra de guerrilhas” cotidiana contra a extrema-direita. Segundo ele, o campo democrático precisa de estruturas mais organizadas para responder rapidamente às fake news da vez, com vídeos, cards, memes e conteúdos distribuídos por redes nacionais, estaduais e locais de WhatsApp e redes sociais. Para Cláudio, sem foco, coordenação e resposta ágil, a extrema-direita seguirá usando o caos como método.
No fechamento, Ergon sistematizou recomendações especialmente voltadas aos sindicatos. A primeira é construir comunidades digitais próprias, para não depender apenas dos algoritmos das grandes plataformas. A segunda é profissionalizar a comunicação, com especialistas, planejamento e capacidade técnica. A terceira é absorver a inteligência artificial como ferramenta de trabalho, porque a direita já a utiliza e o campo democrático não pode ficar para trás.
A oficina terminou com um chamado à continuidade. Rita informou que a apresentação de Ergon seria enviada aos participantes e convocou todos para a próxima atividade do Ciclo, marcada para terça-feira, 12 de maio, com Vanessa, sobre o uso da inteligência artificial. A ideia é seguir da discussão sobre como não ser enganado pela IA para o debate sobre como usar essa tecnologia de forma crítica, criativa e estratégica.
A segunda oficina deixou uma síntese poderosa: a desinformação não é um acidente, é uma indústria; não é apenas mentira, é método de disputa; não se combate apenas com informação correta, mas com vínculo, organização, formação, presença territorial e inteligência comunicacional.
Para o movimento sindical, o desafio é imediato. Em um ano de batalhas decisivas, será preciso transformar sindicatos em polos de confiança, formação e resposta rápida. Será preciso disputar a base, dialogar com quem está confuso, enfrentar a mentira sem perder o vínculo e construir comunidades capazes de proteger trabalhadores da manipulação política, econômica e digital.
O Ciclo do Barão segue nas próximas oficinas com esse compromisso: oferecer reflexão, ferramentas e caminhos práticos para fortalecer a comunicação democrática, popular e sindical. A participação ativa das entidades, dirigentes, comunicadores e militantes será decisiva para transformar aprendizado em ação.
Programação do Ciclo
05/05 3af 19h: OFICINA 1
O movimento sindical e a disputa eleitoral de 2026
Situar o papel do movimento sindical no atual cenário político e eleitoral, destacando sua responsabilidade na defesa da democracia e dos direitos sociais; como a pauta dos trabalhadores estará presente na disputa.
Condução temática: Altamiro Borges
07/05 5ª f 19h: OFICINA 2
Desinformação: como identificar e como agir
O que é desinformação e por que ela funciona; padrões recorrentes de ataque ao sindicalismo; quando e como responder.
Condução temática: Ergon Cugler
12/05 3af 19h: OFICINA 3
Inteligência artificial: como usar e como não ser enganado
Apresentar ferramentas e utilizações possíveis da inteligência artificial na comunicação sindical e capacitar para a identificação de seu uso indevido.
Condução temática: Vanessa Martina-Silva
14/05 5af 19h: OFICINA 4
O eterno desafio: como atuar nas redes
Qualificar a atuação sindical nas redes sociais: como ter relevância apesar do viés antissindical dos algoritmos.
Condução temática: Larissa Gould
19/05 3af 19h: OFICINA 5
Comunidades digitais com propósito
Como construir e fortalecer vínculos com a base utilizando ferramentas digitais.
Condução temática: Camila Modanez
21/05 5af 19h: OFICINA 6
O papel da Cultura – em especial do audiovisual – na disputa de ideias e valores
Filmes, documentários, podcasts, cursos, plataformas de streaming: conteúdos para a disputa de ideias e valores – como usar linguagem audiovisual para fortalecer vínculos.
Condução temática: Carlos Tibúrcio, com Joanne Mota e Célio Turino